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Ame-se

“Ame a si mesmo acima de tudo”

“A melhor companhia é você mesmo”

“Seu melhor amigo você encontra olhando no espelho”

“Seja a melhor companhia para você mesma”

“Aperte o foda-se”

“Ame-se”

Estes são os mantras da sociedades contemporâneas, repetidos indefinidamente pelo capitalismo individualista, o mesmo que lhe transforma em um ser superior e soberano por possuir um cartão de crédito na carteira. Nesse mundo as relações sociais tornam-se muletas, penduricalhos afetivos; o ser social superior pós-moderno é solitário, independente, consumidor e frio.

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Solidão

Vamos deixar bem claro: solidão NUNCA é algo bom pois, por definição, a solidão é o sofrimento por estar só. Estar SOZINHO pode ser bom, desde que o sujeito assim o deseje, mas solidão é a descrição da dor de quem não tem companhia.

Pessoas não são necessariamente mais felizes sozinhas, mas podem sê-lo, sem dúvida. Colocar a felicidade atrelada à ausência dos outros é tão errado quando estabelecer que ela só pode ocorrer com a presença de alguém.

Se a pessoa é verdadeiramente mais feliz sozinha, então que assim seja. Buscarmos companhia pela ilusão que isso nos tornará felizes é um erro, e também uma enorme crueldade para quem nos acompanha.

Entretanto, a própria sexualidade humana já nos deixa explícito que a vida se faz na comunhão. Não fosse assim, a cissiparidade ainda seria a grande moda do verão. O que se vê nas artes e em qualquer manifestação humana é que essa necessidade de comunhão é da natureza mais íntima de todo ser humano.

É, portanto, natural que a vida seja uma eterna busca pela presença de alguém ao nosso lado, pelo conforto que nos traz, por sua companhia, seu prazer e seu carinho. Não acho justo desmerecer a necessária busca humana por parceria apenas em função dos traumas e feridas que possam ter ocorrido. Afinal, amar é sempre um risco, mas como em todo o bom jogo, esse risco torna a conquista ainda mais gratificante.

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Próteses

Acho que só eu olho para essas peças alienígenas com profundo horror. Sei que as pessoas vão dizer que isso é para o prazer, que a masturbação é um ato puro, que não há pecado em gozar etc. Não há como questionar isso. Vão também elogiar tais substitutos protéticos para o gozo a dois, dizendo que isso oferece uma sensação de pura liberdade.

Para mim não passam de modelos monstruosos, objetos que simbolizam o horror individualista neoliberal. São sintomas de uma era em que o encontro a dois é considerado um risco, não apenas físico, mas emocional. Amar alguém é um contrato de dor, acima de qualquer coisa. “Amar é sofrer”. Por esta razão, criamos uma humanidade cujo valor ético mais profundo passa a ser o “cada um por si”, e criamos substitutos cibernéticos do outro, robôs, imagens virtuais e pornografia para mitigar a solidão.

Os novos produtos femininos em nada diferem das bonecas infláveis, “mulheres” objetualizadas (literalmente) pelas quais incels chegam a se apaixonar – e até casar. Próteses de variados tamanhos para oferecer o prazer que o outro sonega. Um objeto de desejo pelo qual não há o sofrimento por um provável abandono. No máximo lamentamos a espera da entrega pela FedEx.

Não vejo nada de errado em vender esses produtos. Afinal, há mercado para eles – em especial na pandemia. Mais ainda, não se trata de criticar as pessoas que usam esses aparelhos, mas analisar tais práticas, pois elas possuem significados importantes e profundos na cultura. Entretanto, confesso que fico muito triste ao ver alguém os comprando. Mais do que um sucesso de mercado, são sintomas de uma degenerescência da humanidade, um passo adiante para o seu extermínio.

Escrevi um outro texto sobre o tema, que pode ser lido aqui.

PS: O texto não é uma crítica a quem usa estes “brinquedos”, mas uma pergunta à sociedade: o que estamos querendo dizer quando achamos natural que próteses substituam pessoas para atingir o prazer? Fico imaginando a gente mostrar para uma mulher indígena e explicar a ela o funcionamento. Talvez ela sinta o mesmo horror que eu sinto…

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Boa noite, John Boy

– ….mas então eu penso naqueles que sofrem das muitas formas de “privação do amor”, e não me refiro tão somente ao amor romântico, mas de todas as formas com as quais ele se materializa. Um amor de filho, de pai, de mãe, de irmão, de avô, de neto e de amigo. Sei de muitos cuja vida lhes roubou estes laços, deixando-os sem norte, à deriva em um vasto oceano de medos e angústias, sem um farol sequer a lhes guiar o roteiro de volta. A estes meu abraço e meu desejo de que a manhã, que sempre chega, os acorde com o som das gaivotas, anunciado a terra que se aproxima. Mas esta história é um pouco triste para vocês, meus anjos.

– Eu gostei. Amanhã pode contar outra?

– Conto sim…

– Boa noite John Boy

– Boa noite, Mary Hellen…

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Onde você está?

O isolamento me impede de visitar o meu pai. Com 90 anos, lúcido, sobrevivente de um AVC (que não deixou sequelas físicas) e confinado em casa, recebe apenas a visita da minha irmã. Desde que enviuvou há algumas semanas não saiu mais de casa. Nossas conversas são agora por telefone e, quase sempre, acabam na política. Eu “comuna”, ele um “coxinha”. Por vezes a conversa fica áspera, mas eu entendo o porquê. Ele deve pensar: “Daqui a pouco vou morrer e vou deixar esse comunista desamparado”.

Ontem foi a mesma coisa. Risadas, histórias, críticas e a espiral concêntricas sobre crise-capitalismo-Lula-comunismo. Ele se irrita com o meu idealismo, que lhe parece estéril. Eu me incomodo com sua cabeça dura para aceitar as mudanças necessárias – e inevitáveis. Por outro lado, esse confronto de ideias sempre foi uma marca da família; somos uma família de conversadores e debatedores. Ninguém fica bravo com os exageros retóricos alheios. Como ele sempre diz, “os debates se concentram apenas no terreno das ideias”.

Ontem, depois de quase duas horas de conversa animada a ligação caiu…

– Alô? Pai, está aí?
Silêncio…

Resolvo ligar de novo. Ele atende.

– Puxa, tua irmã ligou e caiu nossa ligação. Ela está chegando aqui com as compras.
– Não tem problema pai, eu tenho mesmo que almoçar, disse. Até outra hora. Assim que passar tudo eu e o Lucas vamos te visitar.

Ele ficou uns segundos em silêncio e perguntou:
– Onde tu estás?
– Ora, na Comuna. Não saio daqui há quase um mês. Estamos completamente confinados.
– Na comuna? Não pode…
– Por quê?
– Tu foi no banheiro? Está ligando daí? Há 5 minutos atrás estavas aqui comigo, conversando na sala!!

Não consegui conter a risada…
– Pai, a gente estava conversando o tempo todo pelo telefone!!
– Sério? (escuto ele levantar para ver se tem alguém no banheiro). Bahhh, a conversa estava tão animada que achei que estavas aqui comigo. Diz isso e cai na gargalhada. Eu também…

Acho que envelhecer bem é conseguir rir até das suas próprias limitações….

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A Cartola e a Bengala de Karpov

Olhou para seus interlocutores com um ar de enfado e regurgitou seu clichê sem nenhum pudor:

Sou um homem muito dedicado à família”.

Na realidade Karpov é um solitário, incapaz de cultivar amigos, reservado e tímido. Taciturno, indignado e misantropo. Um fóbico social, desajeitado e desinteressante. Não lhe sobram muitas alternativas além dos filhos e da mulher, que por força das pressões sociais continuam a manter com ele um contato protocolar. Fosse ele um mero desconhecido, sua mulher e filhos não veriam nele nenhuma das inúmeras qualidades morais que enumera para si mesmo. Deveras, se o encontrassem, murmurariam entre cochichos: “que velho chato e inoportuno!!“.

Mais do que entreveros consuetudinários, os laços de sangue lhe servem de boias salva-vidas. Não fosse pelo sangue que compartilha com os seus sua alma seria nada mais do que uma diminuta semente presa à casca corpórea, que solitariamente rolaria pelo jardim de uma casa há muito abandonada.

Sua proteção contra o completo abandono as produziu metodicamente com as ferramentas mais primitivas: manter a dependência de sua família à relativa segurança dos bens que adquiriu. Karpov antevia que seu destino era a solidão.

Alexei Ustinov, “Цилиндр и трость Карпова” (A Cartola e a Bengala de Karpov), Coletânea de contos, Ed. Vostok, pág. 135

Alexei Ustinov nasceu em Astrakhan, no Império Russo, em 1820. Sua infância passou às margens do Volga e envolvido nos estudos e na literatura. Com 11 anos de idade leu Noites na Fazenda de Dikanka (1831), do seu compatriota Nikolai Gogol, o que lhe produziu profundo impacto. No início de sua adolescência leu Arabescos (1835) e Mirgorod do mesmo autor, e quando da leitura dessas obras decidiu-se pela carreira de escritor. Como Gogol, especializou-se em contos, cheios de ensinamentos e crítica social. Alexei jamais escondeu que “A Cartola e a Bengala de Karpov” foi baseado em “O Capote” de Gogol, assim como “O Regente Ivan Aleksándrovitch” é uma referência óbvia ao falso inspetor enviado para fiscalizar a cidade em o “Inspetor Geral”. Escreveu várias coletâneas sobre a vida no campo, o Volga, os passeios de barco no Cáspio e também sobre as interações das crianças com seus cuidadores diante da educação severa – e por vezes brutal – na Rússia imperial. Escreveu em 1852 um conto chamado “Adeus ao Mestre” em que faz referência a Nikolai Gogol, falecido naquele ano, e sua obra, através do personagem Misha, que sai de sua cidade do interior da Rússia e vai viver em São Petersburgo, a idêntica trajetória feita por Gogol em sua infância. Alexei Ustinov morreu em Moscou em 1895, vítima de pneumonia.

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Amor aos Animais

Muitos relacionaram a morte de um cão no supermercado com a morte de um garoto por asfixia, igualmente em um supermercado carioca. Para mim não cabe aquilatar mortes inúteis e violentas, mas tentar entender porque ocorreu o sofrimento e a indignacao com uma e a aparente desconsideração com a outra nas redes sociais. Aqui vai minha opinião sobre os fatos:

“O “amor aos animais” é um sentimento contemporâneo cuja amplitude se relaciona a três fatores sociais: a diminuição do número de filhos, a solidão das famílias mononucleares em cidades e o desamparo da velhice – a qual perde função no capitalismo. Os animais entram como muletas afetivas para dar conta da ausência de iguais a nos suprir do afeto que sempre nos acompanhou durante a história da humanidade. Como eu costumo dizer, entendo perfeitamente o benefício que os “pets” produzem em casais sem filhos, crianças privadas de irmãos e velhos afastados de filhos e família, mas tenho sérias dúvidas dos benefícios que tais animais, enjaulados em apartamentos, têm da convivência com os seres humanos.

Outra curiosidade já citada é a seletividade com os animais. Existem campanhas altamente emocionais para a proteção de cães, gatos, baleias, pandas e golfinhos, mas não para um atum (que é do tamanho de um golfinho), minhoca, mosca, lesma, carrapato, etc. Por que alguns animais são dignos do nosso amor e outros não? Qual a diferença entre um cachorro e uma hiena, e porque ninguém se preocupa com estas últimas?

Ora, a resposta é simples e não está nos animais, mas em nós. Os cães, gatos, golfinhos e baleias são animais onde é possível se produzir uma antropomorfização, humanizá-los a ponto de encontrar atitudes e sentimentos tipicamente humanos, mesmo que imaginários. É possível fazer essa transmutação em um golfinho, mas não em um tubarão ou atum. O que nos atrai nesses animais é sua aparente humanidade, o que para eles só faz sentido como estratégia de sobrevivência: adaptar-se e agradar o opressor. Assim, gostamos dos bichos por eles se assemelharem a nós, inclusive fugindo o mais possível de sua natureza animal. Admitimos desconfigurar completamente a instintualidade dos animais, desde que nos ofereçam o afeto que carecemos.

Certamente que o amor aos pets é um sintoma neurótico, mas o que não é? Meu apreço por futebol cabe por completo nesse conceito: pura neurose compartilhada. Não há nada de errado ou pecaminoso nisso, e eu mesmo tenho apreço pelos que lutam pela dignidade animal. Todavia, creio que a negação da origem desse amor é que o torna problemático.

O que torna mais dramática a morte do menino negro do supermercado é a capacidade de nos identificarmos mais facilmente com a ilusória humanidade de um cão e não com a de um jovem negro de periferia.”

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Mensageiros Solitários

Fui lavar as mãos no lavabo de casa e percebi a pequena estatueta de vidro por sobre o balcão fazendo companhia à saboneteira e aos livros empilhados. O brilho imponente do objeto me jogou imediatamente para um espaço da memória distante e para uma cidade do interior do Brasil onde ela foi feita. A estatueta foi um presente que ganhei após fazer uma palestra em um hospital, algo que se repetiu mais de uma centena de vezes nos últimos 10 anos.

No último dia de estada na cidade a simpática esposa de um colega me ofereceu o objeto como presente pela minha exposição do dia anterior para um grupo de médicos, enfermeiras, e doulas da cidade. O tema foi “Amamentação e o continuum da Humanização“.

Este colega havia passado recentemente por uma espécie de “epifania humanizadora”, a exemplo de tantas outras que eu testemunhei em minha vida. A partir de experiências traumáticas pessoais ele conseguiu desfazer a capa de insensibilidade que construiu por sobre a atenção ao parto e percebeu o quanto dos seus insucessos eram devidos à inadequação e ao anacronismo de sua prática profissional. Acreditem, esta é a autocrítica mais penosa e dolorida. Também ele havia descoberto esta e tantas outras verdades ao se aproximar da prática das enfermeiras obstetras, as quais lhe ensinaram o valor superior do cuidado e da delicadeza. Marsden, Michel e eu mesmo passamos pela mesma experiência.

Suas ideias eram grandiloquentes e entusiásticas. Com vívida alegria me levou por um “tour” no novo centro obstétrico do pequeno hospital onde, por iniciativa sua, uma banheira de parto estava sendo instalada, assim como vários aparelhos simples e funcionais para o auxílio ao parto humanizado. Ele era puro entusiasmo. Na condição de diretor havia conquistado poder para fazer as mudanças. Falava dos partos ocorridos após sua “conversão” e as lágrimas lhe escapavam dos olhos. Disse que aquela pequena cidade em breve seria um polo de boas práticas para toda a região, a começar pela abolição das episiotomias de rotina, o parto na água, o trabalho das parteiras profissionais, as doulas, os acompanhantes, etc. Seu entusiasmo e sua energia eram contagiantes.

Despedi-me de sua família com a sensação do dever cumprido e com a esperança de que aquela cidade simpática do interior do Brasil pudesse realmente se tornar um exemplo para todo o estado – quiçá o país – irrigando com humanização a aridez tecnocrática daquelas maternidades.

Passam alguns poucos anos e encontrei a doula que estabeleceu o contato inicial entre o colega entusiasmado e eu. Perguntei-lhe como estava meu amigo e como iam os planos de renovação da maternidade e do centro obstétrico.

Sua resposta não poderia ser mais esclarecedora. Disse em apenas algumas palavras, mas que foram um grande ensinamento e uma importante aula de humildade.

– Não sobrou pedra sobre pedra, Ric. Mudou a direção do hospital e ele foi retirado da chefia da maternidade. O novo diretor mandou destruir tudo o que havia sido feito. Desfez a banheira de parto, impediu o trabalho livre das doulas e acabou com a relação de cooperação com as enfermeiras obstetras. Ao ser indagado o novo diretor disse que havia sido pressionado pelos médicos, os quais há tempos estavam insatisfeitos com as mudanças. Sinto muito.

“Mudanças de cima para baixo”, pensei. Meu colega, em seu surto humanizante, estava à frente do seu tempo. Estava inclusive adiante das próprias gestantes a quem desejava ajudar. Bastou ele ser afastado e tudo se perdeu. “Atire no mensageiro”, deviam ter dito seus colegas obstetras ao diretor. Sem ele a liderar as mudanças não haveria massa crítica e muito menos lideranças femininas para dar continuidade às suas mudanças. O tiro foi certeiro; com o mensageiro derrubado a mensagem se apagou junto com a última chama de entusiasmo que carregava.

Ficou doente, teve um AVC e se aposentou,  completou ela com resignação. Agora teremos que começar do zero.

Suspirei fundo e respondi que não seria do “zero”, pois agora já sabiam que nenhuma revolução pode florescer confinada em uma única cabeça. Agora já é possível entender que a luta precisa surgir do coração de cada mulher oprimida por um sistema violento e arbitrário. Se lutadores como o meu colega são importantes e bem-vindos muito mais essencial é cultivar um movimento que não dependa de uma única alma liberta e esclarecida. É preciso formar uma consciência tal que a troca de um líder não afete a progressão das mudanças.

A verdadeira revolução do parto virá das mulheres, ou não virá.

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Solidão

Vejo o sexo como a ação humana mais solitária que existe. O sexo funciona como uma partida de tênis em que os jogadores não tem uma rede entre si, mas uma parede. Jogam sozinhos usando as forças que imprimem nos braços e na bola, orientados pelo que escutam do parceiro que joga no outro lado do muro. Eles parecem estar jogando uma partida entre si, mas em verdade estão solitários, com sua própria bolinha e raquete, dependendo exclusivamente dos ruídos que escutam e da forma, força e direção que imprimem ao seu próprio jogo.

Entretanto, se é verdade que o jogo pode ser jogado sozinho e ainda assim ser prazeroso, mesmo sem se escutar as jogadas do companheiro atrás do muro, também é certo que ouvir a miraculosa sincronia das nossas raquetadas sendo respondidas pelo outro nos oportuniza uma sensação única de comunhão, e não é por outra razão que “até o padre eterno, que nunca foi lá, olhando aquele inferno vai abençoar”.

“Sexo é algo que fazemos sozinhos na companhia de outra pessoa”. É de Freud a frase “A relação sexual é impossível”, pois é impossível compartilhar o mesmo fantasma. Assim, devemos nos satisfazer com a ideia de que a companhia e o amor podem nos ajudar a tornar a nossa vida sexual mais prazerosa, mesmo reconhecendo que ela é feita da mais pura solidão.

O gozo solitário pode, sem dúvida, nos satisfazer. A ausência do outro, a falta da maravilhosa sinfonia de bolinhas batendo no muro, ainda assim pode nos dar prazer, em especial pelo fato de que o outro sempre nos desafia e questiona. Lidar com a dor e o prazer alheios é um passo em direção à maturidade emocional, e isso nunca é feito sem que um preço seja pago. Este preço, para alguns, é alto demais.

A diferença está na singularidade dos sujeitos e suas respostas infinitas. Uma boneca inflável ou um vibrador apenas materializam a fantasia que carregamos e da qual somos inteiramente responsáveis. Já o outro, o resto que acompanha os genitais, este tem sua própria dinâmica fantasmática, que nos obriga a entender e respeitar. Porém, isso demanda um esforço que nem sempre desejamos despender.

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Solidão

homem_so1

As vezes eu penso que a maioria das teses que defendo são simples e fáceis de entender. Parto humanizado, protagonismo da mulher no nascimento, uso judicioso e consciente da tecnologia, visão integrativa do parto, uso de medicina baseada em evidências, soberania dos povos, fim do apartheid na Palestina, etc. são teses que se aproximam dos ideais libertários iluministas de liberdade, fraternidade e igualdade. Um conjuntos de conceitos com quase dois séculos e meio de existência não poderia ser algo difícil de defender.

Todavia, basta um passeio rápido pelo Facebook para perceber a emergência de “heróis” que defendem o oposto de tais princípios. Ditadura, darwinismo social, prepotência, sectarismo, obscurantismo belicoso, exaltação mística religiosa interesseira, solução de problemas centenários com medidas de exceção e um culto aos “salvadores da pátria” podem ser achados em todos os cantos virtuais da Internet.

Isso para mim é quase um alívio. Saber-se minoria é reconfortante para quem acredita que as unanimidades são tolas e frequentemente erradas. Lutar por mudanças de base – como uma nova visão sobre o parto e o feminino – é seara de decênios, e neste tempo é fundamental acostumar-se com a margem. O centro e seu conforto é reservado para os de índole calma; aos angustiados sobrará sempre a marginalidade e suas agruras.

E muitas vezes a solidão…

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