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Solidão

Vamos deixar bem claro: solidão NUNCA é algo bom pois, por definição, a solidão é o sofrimento por estar só. Estar SOZINHO pode ser bom, desde que o sujeito assim o deseje, mas solidão é a descrição da dor de quem não tem companhia.

Pessoas não são necessariamente mais felizes sozinhas, mas podem sê-lo, sem dúvida. Colocar a felicidade atrelada à ausência dos outros é tão errado quando estabelecer que ela só pode ocorrer com a presença de alguém.

Se a pessoa é verdadeiramente mais feliz sozinha, então que assim seja. Buscarmos companhia pela ilusão que isso nos tornará felizes é um erro, e também uma enorme crueldade para quem nos acompanha.

Entretanto, a própria sexualidade humana já nos deixa explícito que a vida se faz na comunhão. Não fosse assim, a cissiparidade ainda seria a grande moda do verão. O que se vê nas artes e em qualquer manifestação humana é que essa necessidade de comunhão é da natureza mais íntima de todo ser humano.

É, portanto, natural que a vida seja uma eterna busca pela presença de alguém ao nosso lado, pelo conforto que nos traz, por sua companhia, seu prazer e seu carinho. Não acho justo desmerecer a necessária busca humana por parceria apenas em função dos traumas e feridas que possam ter ocorrido. Afinal, amar é sempre um risco, mas como em todo o bom jogo, esse risco torna a conquista ainda mais gratificante.

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Próteses

Acho que só eu olho para essas peças alienígenas com profundo horror. Sei que as pessoas vão dizer que isso é para o prazer, que a masturbação é um ato puro, que não há pecado em gozar etc. Não há como questionar isso. Vão também elogiar tais substitutos protéticos para o gozo a dois, dizendo que isso oferece uma sensação de pura liberdade.

Para mim não passam de modelos monstruosos, objetos que simbolizam o horror individualista neoliberal. São sintomas de uma era em que o encontro a dois é considerado um risco, não apenas físico, mas emocional. Amar alguém é um contrato de dor, acima de qualquer coisa. “Amar é sofrer”. Por esta razão, criamos uma humanidade cujo valor ético mais profundo passa a ser o “cada um por si”, e criamos substitutos cibernéticos do outro, robôs, imagens virtuais e pornografia para mitigar a solidão.

Os novos produtos femininos em nada diferem das bonecas infláveis, “mulheres” objetualizadas (literalmente) pelas quais incels chegam a se apaixonar – e até casar. Próteses de variados tamanhos para oferecer o prazer que o outro sonega. Um objeto de desejo pelo qual não há o sofrimento por um provável abandono. No máximo lamentamos a espera da entrega pela FedEx.

Não vejo nada de errado em vender esses produtos. Afinal, há mercado para eles – em especial na pandemia. Mais ainda, não se trata de criticar as pessoas que usam esses aparelhos, mas analisar tais práticas, pois elas possuem significados importantes e profundos na cultura. Entretanto, confesso que fico muito triste ao ver alguém os comprando. Mais do que um sucesso de mercado, são sintomas de uma degenerescência da humanidade, um passo adiante para o seu extermínio.

Escrevi um outro texto sobre o tema, que pode ser lido aqui.

PS: O texto não é uma crítica a quem usa estes “brinquedos”, mas uma pergunta à sociedade: o que estamos querendo dizer quando achamos natural que próteses substituam pessoas para atingir o prazer? Fico imaginando a gente mostrar para uma mulher indígena e explicar a ela o funcionamento. Talvez ela sinta o mesmo horror que eu sinto…

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Boa noite, John Boy

– ….mas então eu penso naqueles que sofrem das muitas formas de “privação do amor”, e não me refiro tão somente ao amor romântico, mas de todas as formas com as quais ele se materializa. Um amor de filho, de pai, de mãe, de irmão, de avô, de neto e de amigo. Sei de muitos cuja vida lhes roubou estes laços, deixando-os sem norte, à deriva em um vasto oceano de medos e angústias, sem um farol sequer a lhes guiar o roteiro de volta. A estes meu abraço e meu desejo de que a manhã, que sempre chega, os acorde com o som das gaivotas, anunciado a terra que se aproxima. Mas esta história é um pouco triste para vocês, meus anjos.

– Eu gostei. Amanhã pode contar outra?

– Conto sim…

– Boa noite John Boy

– Boa noite, Mary Hellen…

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Onde você está?

O isolamento me impede de visitar o meu pai. Com 90 anos, lúcido, sobrevivente de um AVC (que não deixou sequelas físicas) e confinado em casa, recebe apenas a visita da minha irmã. Desde que enviuvou há algumas semanas não saiu mais de casa. Nossas conversas são agora por telefone e, quase sempre, acabam na política. Eu “comuna”, ele um “coxinha”. Por vezes a conversa fica áspera, mas eu entendo o porquê. Ele deve pensar: “Daqui a pouco vou morrer e vou deixar esse comunista desamparado”.

Ontem foi a mesma coisa. Risadas, histórias, críticas e a espiral concêntricas sobre crise-capitalismo-Lula-comunismo. Ele se irrita com o meu idealismo, que lhe parece estéril. Eu me incomodo com sua cabeça dura para aceitar as mudanças necessárias – e inevitáveis. Por outro lado, esse confronto de ideias sempre foi uma marca da família; somos uma família de conversadores e debatedores. Ninguém fica bravo com os exageros retóricos alheios. Como ele sempre diz, “os debates se concentram apenas no terreno das ideias”.

Ontem, depois de quase duas horas de conversa animada a ligação caiu…

– Alô? Pai, está aí?
Silêncio…

Resolvo ligar de novo. Ele atende.

– Puxa, tua irmã ligou e caiu nossa ligação. Ela está chegando aqui com as compras.
– Não tem problema pai, eu tenho mesmo que almoçar, disse. Até outra hora. Assim que passar tudo eu e o Lucas vamos te visitar.

Ele ficou uns segundos em silêncio e perguntou:
– Onde tu estás?
– Ora, na Comuna. Não saio daqui há quase um mês. Estamos completamente confinados.
– Na comuna? Não pode…
– Por quê?
– Tu foi no banheiro? Está ligando daí? Há 5 minutos atrás estavas aqui comigo, conversando na sala!!

Não consegui conter a risada…
– Pai, a gente estava conversando o tempo todo pelo telefone!!
– Sério? (escuto ele levantar para ver se tem alguém no banheiro). Bahhh, a conversa estava tão animada que achei que estavas aqui comigo. Diz isso e cai na gargalhada. Eu também…

Acho que envelhecer bem é conseguir rir até das suas próprias limitações….

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A Cartola e a Bengala de Karpov

Olhou para seus interlocutores com um ar de enfado e regurgitou seu clichê sem nenhum pudor:

Sou um homem muito dedicado à família”.

Na realidade Karpov é um solitário, incapaz de cultivar amigos, reservado e tímido. Taciturno, indignado e misantropo. Um fóbico social, desajeitado e desinteressante. Não lhe sobram muitas alternativas além dos filhos e da mulher, que por força das pressões sociais continuam a manter com ele um contato protocolar. Fosse ele um mero desconhecido, sua mulher e filhos não veriam nele nenhuma das inúmeras qualidades morais que enumera para si mesmo. Deveras, se o encontrassem, murmurariam entre cochichos: “que velho chato e inoportuno!!“.

Mais do que entreveros consuetudinários, os laços de sangue lhe servem de boias salva-vidas. Não fosse pelo sangue que compartilha com os seus sua alma seria nada mais do que uma diminuta semente presa à casca corpórea, que solitariamente rolaria pelo jardim de uma casa há muito abandonada.

Sua proteção contra o completo abandono as produziu metodicamente com as ferramentas mais primitivas: manter a dependência de sua família à relativa segurança dos bens que adquiriu. Karpov antevia que seu destino era a solidão.

Alexei Ustinov, “Цилиндр и трость Карпова” (A Cartola e a Bengala de Karpov), Coletânea de contos, Ed. Vostok, pág. 135

Alexei Ustinov nasceu em Astrakhan, no Império Russo, em 1820. Sua infância passou às margens do Volga e envolvido nos estudos e na literatura. Com 11 anos de idade leu Noites na Fazenda de Dikanka (1831), do seu compatriota Nikolai Gogol, o que lhe produziu profundo impacto. No início de sua adolescência leu Arabescos (1835) e Mirgorod do mesmo autor, e quando da leitura dessas obras decidiu-se pela carreira de escritor. Como Gogol, especializou-se em contos, cheios de ensinamentos e crítica social. Alexei jamais escondeu que “A Cartola e a Bengala de Karpov” foi baseado em “O Capote” de Gogol, assim como “O Regente Ivan Aleksándrovitch” é uma referência óbvia ao falso inspetor enviado para fiscalizar a cidade em o “Inspetor Geral”. Escreveu várias coletâneas sobre a vida no campo, o Volga, os passeios de barco no Cáspio e também sobre as interações das crianças com seus cuidadores diante da educação severa – e por vezes brutal – na Rússia imperial. Escreveu em 1852 um conto chamado “Adeus ao Mestre” em que faz referência a Nikolai Gogol, falecido naquele ano, e sua obra, através do personagem Misha, que sai de sua cidade do interior da Rússia e vai viver em São Petersburgo, a idêntica trajetória feita por Gogol em sua infância. Alexei Ustinov morreu em Moscou em 1895, vítima de pneumonia.

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