Simpatia

Eu sempre disse que na próxima encarnação vou escolher a simpatia como a minha mais expressiva virtude. Mas não bonito, porque um cara simpático e bonito está a um passo de se tornar um canalha, ou um chato insuportável. Muita tentação…

Digo isso porque, ora, chega de ser antipático. Essa é uma sina horrível. Ninguém jamais se lembra de você pensando “Ah, que legal ele, que simpatia!!”. No máximo dizem “Um cara gente boa, apesar daquela antipatia colossal, mas láááááá no fundo se descobre uma boa pessoa”.

Para todas as pessoas da área médica que se aproximavam de mim – entre emocionadas ou apenas interessadas – depois de uma palestra sobre o tema da humanização eu apresentava a mesma cara sem entusiasmo, e até com certa reserva. Antipático, diriam… mas era de propósito uma apatia forçada, apenas porque eu sabia muito bem o preço de ser o que se é.

Eu tinha plena consciência de que falar de parto mobilizava emoções e que as pessoas poderiam ficar prisioneiras destes sentimentos. Não queria ouvir declarações de amor como as que acontecem a bordo de Cruzeiros no Caribe, mas que se dissolvem mal encontram a crueza do chão firme ao atracar no cais.

Sim, eu afastava de caso pensado os curiosos e os emocionados, esperando reter apenas aqueles que entendiam o projeto da parteria com a razão, e a seara da humanização como uma terra árida e inóspita. Muitos foram os casos em que vi colegas desistindo diante do primeiro nariz torcido ou diante de uma “egípcia” recebida dos colegas. “É muito bacana isso tudo, mas tenho uma carreira e uma família. Não tenho sua coragem“, diziam eles.

Como discordar dessa sinceridade? Como condenar o desejo de ter uma vida tranquila onde bastaria levantar os braços e aguardar que a própria corrente de águas cálidas o levasse adiante? Por que deveria eu insistir para que dedicassem sua vida a uma proposta que os deixaria desprotegidos, sem dinheiro, sem horas de folga, sem respeito dos colegas e sujeito a todo tipo de acusações? Seria injusto…

Como um psicanalista velho eu avisava: “Você está muito bem adaptado. Volte quando estiver em pedaços”.

Meu olhar seco carregava uma mensagem: “Se a vida dentro do paradigma hegemônico lhe permite uma vida boa, sem culpas e sem angústias, não o abandone por minhas palavras cheias de paixão reformista. Siga seu caminho em paz e seja feliz. Entretanto, se a sua atitude profissional lhe causa dor, se a cada cesariana realizada você sofre a oportunidade perdida, se a expropriação do momento máximo da feminilidade é sentido com vergonha, então nenhuma cara feia vai fazer você parar. Minha carranca e minhas palavras insossas não impedirão que busque seu caminho.”

Assim foi por 20 anos de trajetória, fugindo da simpatia sedutora e dos caminhos mais fáceis, exatamente porque nunca duvidei da potência renovadora da humanização e do protagonismo garantido às mulheres, mas sempre soube que jamais seria perdoado por pensar assim.

Para Caroline Chiarelli

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