Valão

Há exatos 13 anos eu trabalhava em uma creche popular da capital fazendo trabalho voluntário. Essa instituição estava em uma vila extremamente pobre da cidade, uma zona de proliferação de doenças endêmicas, subnutrição e violência doméstica, cortada por um valão imundo e malcheiroso e controlada por uma facção poderosa do mundo das drogas. Uma vez uma equipe do Canadá veio me visitar para uma entrevista sobre humanização do nascimento no Brasil, e foi lá – no meio da miséria exposta de uma cidade grande – que resolveram gravar a matéria. Mas este é outro assunto…

Esta creche era controlada por uma freira extremamente carismática e poderosa. Próxima dos 70 anos, era extremamente respeitada na comunidade, inclusive pelos chefões das “bocas de fumo”, a quem recebia em sua salinha acanhada como uma verdadeira líder. Era também respeitada nos círculos da prefeitura e da Assistência Social do município, por ter uma personalidade forte, altiva e trabalhadora.

Um belo dia ela abre a minha sala de consultas com ar extremamente preocupado. Veio me dar uma notícia que considerava extremamente grave.

– Ele vai entrar com caminhões e retroescavadeiras, Ric. Vão invadir tudo aqui. Ele não tem respeito algum por nós, vai botar tudo abaixo!!”

Pedi que ela respirasse fundo e me contasse vagarosamente. “Ele”, era o prefeito, a ameaça atual. Prometera em uma reunião na qual ela esteve presente que um dos próximos projetos da prefeitura seria fechar o córrego imundo, o esgoto a céu aberto que dividia a comunidade, saneando a vila, acabando assim com as doenças surgidas da sujeira. Para isso precisaria derrubar e realocar os casebres que teimavam cair para dentro do valão.

– Mas irmã, ponderei, não é uma boa notícia? Não deveríamos estar felizes que a municipalidade resolveu finalmente olhar para essa parte esquecida da cidade? Não lhe parece uma bênção que um prefeito tenha finalmente prestado atenção em nossa existência?

Minhas palavras pareciam não fazer sentido para ela. Ela continuava ansiosa e agitada, e me descrevia a promessa como uma invasão, a destruição do seu lugar, da sua vila, da sua comunidade.

– Não confio nesse prefeito. Ele não tem boas intenções. Tudo o que ele quer é desmanchar nossa comunidade, botar tudo abaixo, fazer uma avenida cheia de carros cruzando aqui pelo meio, disse ela apontando para a margem do córrego.

Tentei mais uma vez argumentar, mas sem sucesso.

– Não me parece nada disso, irmã. Prefiro acreditar que essas coisas inevitavelmente aconteceriam. Um dia alguém daria um basta a esta vergonha, esta pobreza, esse descaso. Talvez, no futuro sequer será necessária a existência desta…

Parei. Foi nesse momento que olhei nos seus pequenos olhos azuis e percebi onde residia a sua angústia. Envergonhado, parei de falar sem terminar a frase. Ela, por caridade, fingiu não perceber que eu havia encontrado o âmago do seu desespero.

Uma vida toda ligada a curar feridas, oferecer comida aos famintos, ensinar meninos na arte da confeitaria, aulas de dança, creche e berçário para mulheres imersas na pobreza, acolhendo os viciados que a ela recorriam e se tornando a grande referência na comunidade, mais conhecida até que o próprio Papa, a quem devotava suas preces diárias. E agora, um prefeito janotinha pretendia acabar com a sua clientela. Os outrora famintos, desnutridos e ávidos de caridade poderiam receber pelas mãos do governo o que ela sempre ofereceu por caridade e amor. O progresso poderia acabar com sua importância, seu trabalho, sua missão de vida e até com sua identidade.

Pela primeira vez tive contato com esse sentimento paradoxal: a aceitação da dor alheia pelo gozo de ser o remédio. A irmã tratava os moradores da vila como seus próprios filhos e agora sofria as dores do abandono que se anunciava. Como toda mulher que vê os filhos saindo de casa, ela também sofria pela perda de sua família e sua função.

Em seus olhos pude ler, escrito com as tintas de suas lágrimas: “e se todos forem, o que será de mim?”, e pude entender sua dor e sua angústia.

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