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Benemerência

Cara… não posso aceitar gente cobrando caridade dos ricos deste país, como se os milionários tivessem que fazer aparições públicas de distribuição de presentinhos ou cestas básicas…

Silvio Santos sequer deveria ajudar. Não é função dos ricos fazer isso. Não é obrigação de nenhum rico fazer a caridade que ELES querem para quem ELES querem. Isso é caridade e caridade é HUMILHANTE. O Brasil não precisa da bondade do Silvio Santos, do Neymar, do Huck, do dono da Ambev ou do Gerdau. Não é certo esperar que eles sejam bonzinhos ou caridosos. Ponto.

O que a gente precisa é de uma LEI para cobrar IMPOSTOS DURÍSSIMOS dos ricos, para que NÓS utilizemos esse dinheiro onde NÓS acreditamos ser o melhor para o país, e não mais admitir estas propagandas onde os capitalistas abonados usam as migalhas que dão como publicidade.

O Sílvio Santos NÃO DEVE DAR NADA como benemerência, mas tem que ter sua fortuna TRIBUTADA DURAMENTE. Não quero favor dessas pessoas, quero que o seu dinheiro (que em última análise foi retirado de nós) reverta para o bem do povo, e não para falcatruas ou para essa publicidade barata que os ricos fazem.

Desconstruam essa ideia de que ricos devem distribuir dinheiro do jeito que desejam. Eles devem PAGAR IMPOSTO PESADO!!

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Caridade

“Quero vê qual profissional da saúde que vai atender domiciliar nas favelas de suas cidades, de forma gratuita e sem infra estrutura! Mandem fotos.”

Por quê profissionais deveriam atender de graça em favelas??? Por acaso professores entram de graça em favelas para dar aula? Bombeiros apagam incêndios sem salário? Policiais garantem segurança sem pagamento? Por que tratar profissionais da saúde como vestais, infensos às necessidades humanas?

Vamos deixar bem claro: Não existe nenhuma contradição entre humanização do nascimento e qualquer recorte de classe e/ou raça. Humanização é direito humano reprodutivo e sexual para todos, e não apenas para uma parcela da população que pode pagar por estes serviços. Entretanto, também é dever do Estado, e cabe a NÓS cobrarmos que tais deveres sejam cumpridos e nossos direitos respeitados.

Médicos, parteiras ou doulas não são monges; são profissionais que devotam tempo e dinheiro nas suas formações. A falta de profissionais humanizados em áreas pobres e carentes NÃO É culpa dos raros profissionais que enfrentam suas corporações e a ignorância provinciana da nossa mídia financiada pela elite, mas do Estado frágil e dominado pelas corporações financeiras, que relega essa parcela majoritária da população carente à própria sorte.

Transferir a responsabilidade da atenção à saúde dos negros, pobres, favelados e destituídos para os profissionais não é justo ou honesto. “Saúde é um direito do povo e um dever do Estado”, como diz nossa carta, tão jovem e tão depauperada. Assim, é importante reconhecer que os bravos profissionais que enfrentam um sistema injusto e cruel deveriam ser aplaudidos, e não tratados com desdém ou desconfiança. A eles devemos o exemplo para a mudança necessária. Sua coragem e resiliência devem ser exaltadas e celebradas.

A entrada da saúde, educação, policiamento e saneamento nos bolsões de pobreza desse país jamais poderá depender de caridade, mas da ação conjunta e POLÍTICA da sociedade organizada, através da escolha de pessoas DESTAS COMUNIDADES – como Marielle!! – e destes estratos sociais para serem as dignas e legítimas representantes de suas reivindicações comuns.

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A Perversidade da Riqueza Obscena

Conheço você há muitos anos, desde que fiquei grávida. Sempre admirei suas palavras, mas agora estou decepcionada. Nunca fui ao seu Facebook para criticar sua defesa ao Lula, então não vejo razão para você vir aqui esculhambar os posts que escrevo sobre o que acredito.

As palavras foram duras e a decepção parecia muito verdadeira. Apaguei o que havia escrito e pedi perdão pela intromissão. O post em questão tratava de uma exaltação do trabalho do Sr. Luciano Hang – o Véio da Havan – e sua distribuição de brinquedos para crianças pobres vestido como um Papai Noel azul – embutindo até nesse gesto uma crítica ao “comunismo”. A manifestação dessa minha amiga de Facebook sobre a notícia era ao estilo: “É desse tipo de pessoas que precisamos. Parabéns pela sua visão social“.

Minha frase de crítica havia sido simples e curta: “A tradicional hipocrisia do capitalismo“, mas foi suficiente para gerar ressentimento. Retirei imediatamente minha manifestação, mas fiquei absolutamente tomado pela curiosidade. A questão que não me deixava em paz era: “Por que continuamos a venerar a filantropia dos ricos? Por que acreditamos que um punhado de milionários como Bezos, Gates, Buffet, Musk, Lemann – e até o véio da Havan – tem algum compromisso em fazer um mundo melhor distribuindo uma fração microscópica de seus lucros com programas sociais?”

Somos herdeiros de uma tradição de castas, sejam elas explícitas, como na Índia, ou dissimuladas, imbricadas nas estruturas de poder de quaisquer sociedades. No topo da sociedade ocidental encontramos os europeus brancos; na base os negros, pardos, pobres. Pior ainda é quando naturalizamos essas diferenças e as colocamos como parte do destino, ou do “plano divino”. Ao lado disso, vemos que a distribuição de riquezas desse planeta – e nosso país em especial – é absolutamente perversa, onde a renda do 1% mais rico da população brasileira foi equivalente a 24% da renda total do país no período de 1926 a 2015, o que representa o dobro da concentração observada na maioria dos países do mundo. Apesar de todas as evidências de que a concentração de riqueza está piorando, continuamos a acreditar que a solução dos problemas do mundo pode recair sobre os ombros de milionários que CAUSARAM a maioria desses transtornos, e que consertariam um planeta disfuncional pela própria iniciativa, através da… caridade.

A injustiça estará sempre presente onde a caridade tomar o lugar da equidade.

Como diria Anand Giridharadas, jornalista e escritor americano, é como dar o emprego de bombeiro para o piromaníaco porque “ele sabe como manejar o fogo“. No Brasil, nossa economia é tradicionalmente entregue a banqueiros, mas agora nosso meio ambiente, a saúde da mulher, a agricultura e a educação foram entregues aos representantes da elite perversa que nos controla.

Para ser justo, neste caso não se tratava de uma “fascista” odiosa e inconsequente, apenas uma moça muito amável que acredita no fogo fátuo da benemerência dos bilionários. Alguém que acredita na fantasia de que a solução dos problemas ecológicos do planeta partirá da iniciativa de bilionários que vivem em bolhas de poder e abundância e que desconhecem a realidade da miséria no planeta.

Passados mais de dois séculos ainda confiamos em Marias Antonietas para dizer do que temos fome. Continuamos a aceitar passivamente o sistema de castas que nos oprime, até o dia em que não seremos mais tão facilmente manipulados. Espero que esse dia chegue através da democracia, pois que qualquer outra possibilidade será cara demais.

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Fragmento de Debate

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Hummm..quanta braveza. Chamar o ex-presidente de bêbado… para isso é preciso muita coragem. Pelos seus cálculos o Eduardo Cunha e o Malafaia são santos, já que frequentemente doam algumas migalhas para pretos e pobres nas suas igrejas. Sua noção de “caridade” é muito parecida com a dos escravagistas. “Eu ajudo negros, dou-lhes comida, abrigo e remédios“, mas sem jamais os considerar como iguais.

Criticar os governos que permitiram aos pobres ascender …e vislumbrar seu lugar ao sol, por uma perspectiva pequeno burguesa, é fácil. Preferem que falte comida e roupa aos pobres, mas reclamam a alta no preço do Peru da Ceia de Natal. Precisamos um pouco mais de visão sistêmica para criticar qualquer governo.

Ora… o Brasil se cansou disso e mesmo com crises jamais voltaremos à ignorância servil de outrora. Somos cada vez mais preparados para entender as diatribes de uma imprensa umbiguista e falaciosa.

E se você tomou essa crítica como pessoal… Talvez tenha débitos que eu desconhecia. Eu falei genericamente e assino em baixo de tudo que disse. Mas se preferes acreditar que isso é pessoal ou – pior ainda – que fazendo “caridade” vamos melhorar o Brasil…. bem, você está absurdamente enganada.

Os pobres e desvalidos não querem caridade, assim como os escravos não queriam bons tratos.

Eles desejam justiça e liberdade.”

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Madre Teresa

Mother-Teresa

Há alguns minutos Madre Teresa de Calcutá apareceu na minha frente para conversar comigo. Era um pedido que há muito tempo eu fazia: “uma aparição, uma visão”, para que eu pudesse comunicar a ela meus dissabores. Pois eu fui finalmente agraciado com a materialização que ocorreu aqui, na minha frente.

Anjezë Gonxhe Bojaxhiu, a beata de Calcutá, vestia seu hábito de freira e tinha o corpo encarquilhado que costumamos reconhecer. Sua face enrugada e sua compleição pequena a tornavam inconfundível. Não podia ser um engano, e disso eu estava certo. Se você acha que isso não é verdade, pode parar de ler por aqui mesmo.

Quando a vi resolvi que era o momento de dizer a ela algumas verdades que estavam entaladas em a minha garganta e que eu pretendia dizer há muito tempo, mas nunca tinha tido a oportunidade. Esta chance chegou, finalmente, agora…

– Sra. Teresa, muito me impressiona o fato de ser tão reverenciada pelas suas ações “ditas humanizadas”. Não que sejam vazias ou inúteis, pois posso reconhecer virtude em tais atitudes. Entretanto acredito que elas, na verdade, escondem preconceito e desconsideração. Sim, se puder me escutar falarei o que tenho guardado em meu coração, mesmo que isso possa lhe ferir.

A velhinha apenas levantou a sobrancelha esquerda e continuou a me fitar de longe.

– Continuando, a senhora ajudou centenas de crianças na Índia, o que a fez merecedora do Prêmio Nobel, o que é algo que reconheço ter valor. Porém eu lhe pergunto: porque este elitismo? O que a senhora fez pelas crianças negras da Nigéria? E as crianças vítimas de Napalm no Vietnã? Qual foi sua ação para interromper a guerra que lá ocorria? Qual sua atitude para acabar com o Apartheid? Por que a senhora dedicou-se a uma determinada etnia e desprezou as outras? Por acaso as crianças indianas são melhores do que as demais? Mais limpas, mais dóceis? Ou existem questões financeiras envolvidas? Veja, não estou lhe acusando de nada, mas eu percebo um mercantilismo em suas ações, uma falta de verdadeira fraternidade, e um desejo de ajudar apenas as pessoas que a idolatram. Isso não é exatamente cristão, não lhe parece?

Madre Teresa continuava olhando para mim fixamente e não moveu um músculo sequer além do leve golpe de sobrancelha anteriormente citado. Seu rosto era calmo e sereno, como a tentar entender as razões da minha inconformidade.

Continuei.

– Tudo o que vejo na sua obra é para aqueles que a senhora considera os escolhidos. Pão, afagos, roupas quentes e abrigo. Mas e os que moram longe? E os que estão em outros países? Como a senhora aceita que apenas alguns sejam beneficiários de seu amor e compaixão, enquanto tantos outros sucumbem à dor e à miséria? Como pode manter essa face inexpressiva diante de tanta desconsideração com o que deixou de fazer por tanta gente?

Mantive meu olhar censurador e firme, não me deixando fraquejar pela doçura e calma de sua expressão.

– Olhe bem…. não sou dessa área. A caridade não é uma coisa que me mobiliza ou comove. Prefiro trabalhar aqui, atendendo partos e ajudando algumas poucas gestantes. Mas a senhora poderia ter feito muito mais, mas preferiu ser a “Madre de Calcutá” quando o mundo inteiro estava sequioso de ajuda, de afeto, de uma mão amiga, pessoas estas que a senhora se negou a ajudar por querer se manter apenas nesta cidade. De nada adianta me dizer os lugares que a senhora visitou e nos quais abriu filiais de sua Congregação “Missionárias da Caridade”, pois muito maior será a quantidade de cidades e vilarejos que a senhora NÃO visitou, deixando tais pessoas à própria sorte, à mercê da vilania do mundo.

Meu final foi apoteótico:

– Muito triste ver o que a senhora fez com os seus ideais…

A humilde senhora finalmente se levantou. Deus dois passos tímidos em minha direção. Colocou as mãos sobre o colo e de forma suave e lenta… sorriu. Pegou em minhas mãos e juntou-as com as suas. Olhou firmemente em meus olhos e disse uma única frase:

Faça diferença para aqueles que te procuram, ofereça o afago para todos ao teu redor e o perdão para quem não te entender, e para o resto procure exercitar a paciência“.

Largou minhas mãos, sorriu e caminhou em direção à porta.

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