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Academias

Nunca me interessei pela vida acadêmica apesar do profundo respeito que tenho por esta forma de produção de conhecimento e pela disputa de ideias que se estimula no ambiente universitário. Entretanto, sempre considerei curiosa a maneira como algumas pessoas deste mundo defendem a forma como “deveriam” ser chamadas. Hoje em dia quando chamam um médico (ou um advogado) de “doutor” (pela tradição) isso passa a ser visto como uma contravenção. “Como ousam usar este nome que só a nós pertence?”

Parece justo, mas funciona muito mais como sintoma do que como um reconhecimento honorífico. Os títulos falam de um processo de formação, mas não garantem a qualidade de uma assertiva. Galilei Galilei abandonou os estudos de medicina para dar aulas. Descartes formou-se em Direito e nunca exerceu a advocacia – seus trabalhos mais brilhantes os fez enquanto milico. Nietzsche publicou suas principais obras após abandonar a universidade. Charles Darwin também desistiu da medicina e, como Nietzsche, desejava seguir a carreira eclesiástica. Assim como Freud e os demais, nunca se interessou pela vida Acadêmica.

Digo isso apenas para afirmar que a exaltação exagerada dessas conquistas acadêmicas – apesar de valorosas e significativas – por vezes escondem uma autoestima frágil. Quando os valores de uma proposta se estabelecem mais na forma e menos no conteúdo isso significa que há falhas evidentes neste, o que explica a inflação daquela.

“Ninguém é rico pelas vestes que usa nem pobre pelos farrapos que põe sobre o corpo. A riqueza e a pobreza estão na honestidade com a qual se cobrem e no egoísmo do qual se despem”. (Isófanes de Pérgamo)

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“So I’m going to go on record of having both not liked the title “dr” and not having used it for years.

Its a degree. No one calls anyone Bachelor Sandy or Masters Emma. Or plumbers of 25 years of experience Plumber John. So why does graduation with any other degree entitle you other than an inappropriate power model? It is not a sign of respect or those other people would also have titles of respect for their calling. Midwives of 35+ yrs of study and practice are not less deserving of respect than ones who graduated this year. And on and on.

Its outdated, archaic, and a holdover from a bygone era.

I didn’t read the OpEd but I’m tired of seeing the “sign of respect” nonsense online.”

Written by Shannon Mitchel

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Gênios

“Essa é a genialidade da Direita: fazer o preto e pobre acreditar que o inimigo é outro preto, outro pobre, para que a gente não perceba que 1% dos brasileiros concentra 28% de toda a riqueza que o país produz. Atacamos nossos iguais, artificialmente colocados como distintos, para que os mesmos continuem lucrando com nossa miséria. Matamos uns aos outros para que a verdade permaneça escondida.”

Andrade Moraes, “Correio de Itapirubá”, coluna de política, pag. 135

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Valão

Há exatos 13 anos eu trabalhava em uma creche popular da capital fazendo trabalho voluntário. Essa instituição estava em uma vila extremamente pobre da cidade, uma zona de proliferação de doenças endêmicas, subnutrição e violência doméstica, cortada por um valão imundo e malcheiroso e controlada por uma facção poderosa do mundo das drogas. Uma vez uma equipe do Canadá veio me visitar para uma entrevista sobre humanização do nascimento no Brasil, e foi lá – no meio da miséria exposta de uma cidade grande – que resolveram gravar a matéria. Mas este é outro assunto…

Esta creche era controlada por uma freira extremamente carismática e poderosa. Próxima dos 70 anos, era extremamente respeitada na comunidade, inclusive pelos chefões das “bocas de fumo”, a quem recebia em sua salinha acanhada como uma verdadeira líder. Era também respeitada nos círculos da prefeitura e da Assistência Social do município, por ter uma personalidade forte, altiva e trabalhadora.

Um belo dia ela abre a minha sala de consultas com ar extremamente preocupado. Veio me dar uma notícia que considerava extremamente grave.

– Ele vai entrar com caminhões e retroescavadeiras, Ric. Vão invadir tudo aqui. Ele não tem respeito algum por nós, vai botar tudo abaixo!!”

Pedi que ela respirasse fundo e me contasse vagarosamente. “Ele”, era o prefeito, a ameaça atual. Prometera em uma reunião na qual ela esteve presente que um dos próximos projetos da prefeitura seria fechar o córrego imundo, o esgoto a céu aberto que dividia a comunidade, saneando a vila, acabando assim com as doenças surgidas da sujeira. Para isso precisaria derrubar e realocar os casebres que teimavam cair para dentro do valão.

– Mas irmã, ponderei, não é uma boa notícia? Não deveríamos estar felizes que a municipalidade resolveu finalmente olhar para essa parte esquecida da cidade? Não lhe parece uma bênção que um prefeito tenha finalmente prestado atenção em nossa existência?

Minhas palavras pareciam não fazer sentido para ela. Ela continuava ansiosa e agitada, e me descrevia a promessa como uma invasão, a destruição do seu lugar, da sua vila, da sua comunidade.

– Não confio nesse prefeito. Ele não tem boas intenções. Tudo o que ele quer é desmanchar nossa comunidade, botar tudo abaixo, fazer uma avenida cheia de carros cruzando aqui pelo meio, disse ela apontando para a margem do córrego.

Tentei mais uma vez argumentar, mas sem sucesso.

– Não me parece nada disso, irmã. Prefiro acreditar que essas coisas inevitavelmente aconteceriam. Um dia alguém daria um basta a esta vergonha, esta pobreza, esse descaso. Talvez, no futuro sequer será necessária a existência desta…

Parei. Foi nesse momento que olhei nos seus pequenos olhos azuis e percebi onde residia a sua angústia. Envergonhado, parei de falar sem terminar a frase. Ela, por caridade, fingiu não perceber que eu havia encontrado o âmago do seu desespero.

Uma vida toda ligada a curar feridas, oferecer comida aos famintos, ensinar meninos na arte da confeitaria, aulas de dança, creche e berçário para mulheres imersas na pobreza, acolhendo os viciados que a ela recorriam e se tornando a grande referência na comunidade, mais conhecida até que o próprio Papa, a quem devotava suas preces diárias. E agora, um prefeito janotinha pretendia acabar com a sua clientela. Os outrora famintos, desnutridos e ávidos de caridade poderiam receber pelas mãos do governo o que ela sempre ofereceu por caridade e amor. O progresso poderia acabar com sua importância, seu trabalho, sua missão de vida e até com sua identidade.

Pela primeira vez tive contato com esse sentimento paradoxal: a aceitação da dor alheia pelo gozo de ser o remédio. A irmã tratava os moradores da vila como seus próprios filhos e agora sofria as dores do abandono que se anunciava. Como toda mulher que vê os filhos saindo de casa, ela também sofria pela perda de sua família e sua função.

Em seus olhos pude ler, escrito com as tintas de suas lágrimas: “e se todos forem, o que será de mim?”, e pude entender sua dor e sua angústia.

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Consumismo

“Mas os pobres nada possuem e por isso já são treinados para evitar o consumismo”.

Infelizmente eles não são educados contra o consumismo!!! Em verdade, pobres consomem também, muitas vezes para além do que precisam, mesmo dentro das suas estreitas possibilidades. O consumismo não diferencia ricos e pobres, o CONSUMO sim!!!

O fato de alguém não consumir não significa que não seja consumista, da mesma forma que um sujeito não beber não significa que deixou de ser alcoolista. O desejo de consumir é uma marca de personalidade estimulada pela “sociedade de consumo”, que vincula felicidade, alegria, poder e sucesso pessoal com a capacidade de adquirir coisas. Na realidade, existem muitos pobres que são muito mais consumistas que alguns milionários.

Sempre é bom repetir a frase de Platão: “A pobreza não vem da diminuição das riquezas, mas da multiplicação dos desejos“. O desejo permeia o humano, inobstante serem ricos ou pobres. Quem é mais rico, eu ou Bill Gates? Não procure os valores da conta bancária, mas encontre para onde aponta o desejo, este motor do comportamento humano que faz qualquer valor significar muito ou todos os valores serem insuficientes.

A dor que sentimos vem dessa falta subjetiva, desse vazio, desse buraco que enchemos com coisas – como carros, casas, comida ou até gente coisificada.

Certamente que ricos e pobres se beneficiariam de uma cultura em que os objetos que nos cercam tivessem menos influência na nossa felicidade. Contentar-se com poucas coisas é um dos melhores caminhos para a harmonia e o equilíbrio.

Nossa esperança é que essa crise nos ensine os prazeres das maravilhosas coisas gratuitas, um café fumegante, uma tarde de sol, o encontro com amigos e até o sorriso desdentado de uma criança.

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Dois papas

A caracterização dos dois papas foi soberba. A interpretação de Bento XVI por Anthony Hopkins foi genial. Os diálogos foram bem construídos e a trajetória de Francisco elegantemente traçada. Depois de ver o filme a gente sente saudade da Igreja engajada, da Teologia da Libertação e das Comunidades Eclesiásticas de Base. É muito triste ver o cristianismo e sua potência renovadora serem dominados por canalhas pentecostais, aproveitadores, vendilhões do templo e mercadores da fé.

Apesar de não ter religião sinto que o catolicismo pode ser um ponto de inflexão para a volta a uma religiosidade a favor dos pobres, famintos, miseráveis e desvalidos que são produzidos pelo capitalismo. Para isso o Papa Francisco pode desempenhar um papel fundamental.

É evidente que eu acredito existirem inúmeros elementos ficcionais no roteiro, incluindo as conversas – que seguramente foram construídas a partir de relatos unilaterais ou mesmo especulações sobre diálogos privados. A própria causa da renúncia de Bento XVI apontada no filme – o descontrole sobre os escândalos sexuais que manchavam como nunca a reputação da Igreja – é controversa. Alguns dizem que as razões pela renúncia recaem sobre questões mais mundanas, como os escândalos do Banco do Vaticano e a prisão do seu auxiliar direto. Entretanto, é evidente que a trajetória de Francisco está centrada no retorno da Igreja para as reivindicações do povo. Foi a escolha clara de uma Igreja que testemunha o grave enxugamento de quadros e a perda de fiéis para o pentecostalismo.

O retorno para os “braços do povo” seria o movimento óbvio de uma Igreja que perdeu sua conexão com os pobres, assim como se preconiza a mesma volta às origens para a esquerda brasileira. A própria escolha do “nome fantasia” do novo papa nos aponta nessa direção, além da origem jesuíta e terceiromundista do Bispo Bertoglio. Também não duvido que haja um claro “passar de pano” para a possível condescendência do padre Bertoglio com a repressão brutal na Argentina, mas sobre isso pouco mais se pode especular.

Ainda prefiro acreditar no papa quando diz “Eu mudei“.

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