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Consumismo

“Mas os pobres nada possuem e por isso já são treinados para evitar o consumismo”.

Infelizmente eles não são educados contra o consumismo!!! Em verdade, pobres consomem também, muitas vezes para além do que precisam, mesmo dentro das suas estreitas possibilidades. O consumismo não diferencia ricos e pobres, o CONSUMO sim!!!

O fato de alguém não consumir não significa que não seja consumista, da mesma forma que um sujeito não beber não significa que deixou de ser alcoolista. O desejo de consumir é uma marca de personalidade estimulada pela “sociedade de consumo”, que vincula felicidade, alegria, poder e sucesso pessoal com a capacidade de adquirir coisas. Na realidade, existem muitos pobres que são muito mais consumistas que alguns milionários.

Sempre é bom repetir a frase de Platão: “A pobreza não vem da diminuição das riquezas, mas da multiplicação dos desejos“. O desejo permeia o humano, inobstante serem ricos ou pobres. Quem é mais rico, eu ou Bill Gates? Não procure os valores da conta bancária, mas encontre para onde aponta o desejo, este motor do comportamento humano que faz qualquer valor significar muito ou todos os valores serem insuficientes.

A dor que sentimos vem dessa falta subjetiva, desse vazio, desse buraco que enchemos com coisas – como carros, casas, comida ou até gente coisificada.

Certamente que ricos e pobres se beneficiariam de uma cultura em que os objetos que nos cercam tivessem menos influência na nossa felicidade. Contentar-se com poucas coisas é um dos melhores caminhos para a harmonia e o equilíbrio.

Nossa esperança é que essa crise nos ensine os prazeres das maravilhosas coisas gratuitas, um café fumegante, uma tarde de sol, o encontro com amigos e até o sorriso desdentado de uma criança.

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Dois papas

A caracterização dos dois papas foi soberba. A interpretação de Bento XVI por Anthony Hopkins foi genial. Os diálogos foram bem construídos e a trajetória de Francisco elegantemente traçada. Depois de ver o filme a gente sente saudade da Igreja engajada, da Teologia da Libertação e das Comunidades Eclesiásticas de Base. É muito triste ver o cristianismo e sua potência renovadora serem dominados por canalhas pentecostais, aproveitadores, vendilhões do templo e mercadores da fé.

Apesar de não ter religião sinto que o catolicismo pode ser um ponto de inflexão para a volta a uma religiosidade a favor dos pobres, famintos, miseráveis e desvalidos que são produzidos pelo capitalismo. Para isso o Papa Francisco pode desempenhar um papel fundamental.

É evidente que eu acredito existirem inúmeros elementos ficcionais no roteiro, incluindo as conversas – que seguramente foram construídas a partir de relatos unilaterais ou mesmo especulações sobre diálogos privados. A própria causa da renúncia de Bento XVI apontada no filme – o descontrole sobre os escândalos sexuais que manchavam como nunca a reputação da Igreja – é controversa. Alguns dizem que as razões pela renúncia recaem sobre questões mais mundanas, como os escândalos do Banco do Vaticano e a prisão do seu auxiliar direto. Entretanto, é evidente que a trajetória de Francisco está centrada no retorno da Igreja para as reivindicações do povo. Foi a escolha clara de uma Igreja que testemunha o grave enxugamento de quadros e a perda de fiéis para o pentecostalismo.

O retorno para os “braços do povo” seria o movimento óbvio de uma Igreja que perdeu sua conexão com os pobres, assim como se preconiza a mesma volta às origens para a esquerda brasileira. A própria escolha do “nome fantasia” do novo papa nos aponta nessa direção, além da origem jesuíta e terceiromundista do Bispo Bertoglio. Também não duvido que haja um claro “passar de pano” para a possível condescendência do padre Bertoglio com a repressão brutal na Argentina, mas sobre isso pouco mais se pode especular.

Ainda prefiro acreditar no papa quando diz “Eu mudei“.

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Pobreza

Não é pobre quem pouco tem, mas quem muito deseja“. Durante toda a minha vida fui atropelado por essa verdade escrita por Lucius Annaeus Sêneca, há 2000 mil anos. Muitas vezes testemunhei que a pobreza estava diretamente ligada ao querer, muito mais do que ao possuir. “Quem se dá bem na pobreza é sem dúvida o verdadeiro rico“, já nos ensinava o nobre escritor

Nosso sofrimento pelo escassez de recursos se dá pela multiplicidade dos nossos desejos que são, por definição, infinitos. Não há limite para o quanto desejamos, e o quanto de sofrimento esta falta irá nos atormentar. Por saber da qualidade relativa da escassez, eu brincava com meus filhos pequenos perguntando a eles “quem é mais rico, eu o o Silvio Santos?”. Eles achavam engraçada a pergunta mas eu explicava que a pergunta fazia sentido se a gente soubesse os desejos de um e de outro.

Por certo que falava dos desejos, e não das necessidades. Estas são aquelas não nos propiciam condições de viver: comida, abrigo, afeto, roupa. O resto é desejo.

Para evitar tanta força de não ter a regra seria desapegar-se e se afastar do aprisionamento inexorável dos desejos, como Gandhi e sua caneta, seus óculos, sua túnica e sua roca de fiar. Para o mestre, nada mais o encantava e prendia e acreditava que somente assim despossuído poderia ser livre.

Lembrei disso no dia que consertei meu carro velho com quase 20 anos de uso que se encontrava guardado na garagem há mais de ano, acometido por vários defeitos. Bateria, rodas, radiador e ar condicionado tiveram de ser trocados ou ajustados. Na primeira vez que saí de casa para a Comuna com meu carrinho velho “recauchutado no limite” percebi que meu orgulho era exclusivo de minha condição. Silvio Santos e Bill Gates estavam proibidos dessa emoção específica. Seu orgulho e satisfação eram reservados a outras coisas, mais caras e abrangentes, mas não a esta. Todavia, quem há de dizer que existem felicidades superiores e mais nobres? Essas só podem ser medidas pela régua do sujeito.

Meu neto Oliver me disse “Quero sair com o carro ‘novo’ do vovô.” Se o velho carro assim lhe parece, porque haveria eu de discordar?

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