Xavecos

A ideia de “cantadas ruins” serve para transas ruins também. Está menos no outro e mais na receptividade do sujeito. Criamos teorias e regras, rotinas e protocolos tentando colocar validade na arte, mas o segredo reside na fantasia subjetiva, na sintonia que a palavra produz com nossas imagens internas, com o eco dos nossos desejos e fantasmas.

Lembrei da história de uma secretária do Pronto Socorro onde eu trabalhava no início da faculdade. Não tinha mais que vinte e poucos anos, era uma moça muito simples e bonitinha. Chegou na segunda feira no Pronto Socorro muito acabrunhada. Enquanto tomávamos nosso café no refeitório eu lhe questionei como foi o fim de semana.

– Um desastre.

Perguntei o que havia ocorrido e ela me descreveu o drama. Havia brigado com seu namorado cabeludo roqueiro porque ele era bruto, grosseiro, machista, violento e envolvido com drogas. Também mulherengo. Havia dado um basta nessa relação havia duas semanas.

Passados alguns dias aceitou o convite de um rapaz para irem a um barzinho conversar. Era um vizinho, trabalhador, conhecido de infância, estoquista num supermercado e que estudava administração à noite. Havia finalmente se declarado a ela ao saber do rompimento do seu namoro.

Assim fizeram. Todavia, a Deusa Álea – a Deusa dos fatos fortuitos – fez mais uma das suas travessuras. Durante o encontro, no barzinho lotado, apareceu o ex namorado. Furioso e indignado chega junto à mesa e, com o dedo em riste, iniciou uma rajada de acusações injuriosas. Logo se formou o bolo. As ironias iniciais deram lugar às ofensas mútuas entre os ex namorados. A tudo o amigo escutava tentando não se envolver, imaginando se tratar de uma questão que envolvia apenas os dois. No entanto o sarcasmo deu lugar às ofensas e essas deram espaço às ameaças explícitas. Foi quando o pretendente se levantou e disse ao cabeludo para que fosse embora, ou ele tomaria uma atitude.

Foi a deixa que faltava para a pancadaria começar. Rolaram sopapos, cadeiras na cabeça, socos, gritos estridentes, sangue no nariz e camisas rasgadas. A barbárie só terminou quando a polícia levou todo mundo para a delegacia onde passaram a noite.

– Lamento por você, disse eu. Você não merecia isso.

Ela fez uma expressão de desânimo e completou.

– Vou pedir demissão do Pronto Socorro. Não tenho mais clima para ficar nessa cidade. Conversei com ele e vamos morar na casa da sua madrinha no interior. Ela está vaga e vamos para lá ainda essa semana.

– Uma pena você ir embora. Vamos sentir sua falta.

Dei um abraço nela e me levantei da mesa do café para começar a trabalhar. Dei três passos em direção à porta e voltei a olhar para ela.

– Com quem você vai se mudar para o interior?

Ela deu um sorriso envergonhado e falou:

– Com o meu cabeludo querido, é claro…

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