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Carros

Eu ando cada vez menos de carro. O confinamento causado pela pandemia e o meu temperamento recluso acabaram agindo sinergicamente para que eu não saia mais de casa. Ahh, e a gasolina também, que horror. Mas não contabilizo como uma real perda, porque nunca tive grande prazer em dirigir ou mesmo algum interesse em automóveis.

Meu pai foi da geração de ouro do automóvel como expressão de status e de liberdade. Gostava de carros e sempre teve carros muito bons. Desde o primeiro no final dos anos 50, um Austin importado, passando pelos DKVs e os carros da Ford, terminou a vida com um Audi, simples mas chique. Os carros sempre foram ícones do capitalismo ocidental, e meu pai era um apaixonado pelos seus múltiplos aspectos e significados.

De minha parte, jamais me interessei pelo assunto. Comprei um fusca com 25 anos, e antes disso só havia dirigido ambulâncias. Sou incapaz de dizer marcas ou nomes de carros. Quando vejo no Uber a marca de carro que o sujeito vem me buscar isso não tem significado e sequer produz alguma ajuda. Sou um ignorante confesso sobre este tema.

Há alguns anos meu irmão resolveu vender seu carro e avisou meu pai. Quando soube da venda meu pai decidiu comprá-lo e me dar de presente, porque sabia da precariedade do carro que eu usava. Pela primeira vez tive um carro com ar condicionado, o que me deixou emocionado. Isso já faz quase 15 anos.

Ainda tenho esse carro, que agora completa 21 anos de idade. Adoro andar com ele pelo bairro, mas não me arrisco a sair com ele mais do que uns 2 km de raio. Ele me lembra da generosidade do meu pai e do amor que ele sempre teve pelos automóveis. Existe muito mais do que o valor operacional de ter este veículo a me transportar; há nele um simbolismo e um valor subjetivo que me faz querer tê-lo por perto.

Na verdade, quase todos os nossos objetos são assim. Que seria do capitalismo se não houvesse nas coisas muito mais do que a sua utilidade? Que seria do consumo se por trás de cada compra não existisse uma promessa de felicidade e alegria? Que seria da publicidade se as pessoas deixassem de colocar em suas compras a responsabilidade pela sua realização pessoal? Como será o mundo quando o desejo de possuir deixar de dirigir nossas vidas?

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Dinheiro e Felicidade

Discordo com veemência da visão que associa dinheiro à felicidade, mas aviso que isso nada tem a ver com uma “elegia à simplicidade” ou uma objeção simplória ao consumo. Não bastassem os exemplos de ricos com vidas miseráveis e de populações inteiras que são felizes com o pouco que têm, também há que entender a diferença brutal entre “necessidades” e “desejos”. Os primeiros nos garantem a vida e são simples e finitos; já os segundos são eternos e imortais incapazes de oferecer a completude que ilusoriamente neles buscamos.

Associar “falta de dinheiro” com infelicidade é pura tolice; confundir a escassez do dinheiro com “pobreza”, também. Privar pessoas de suas necessidades produz sofrimento e miséria humana, entretanto, tentar encher o poço sem fundo dos desejos imaginando atingir felicidade e plenitude não passa de uma ingenuidade catastrófica.

É um erro “romantizar a pobreza”, por certo, até porque não há nada de moralmente elevado em ser a ponta oprimida e explorada do capitalismo. Por outro lado, imaginar que o dinheiro é capaz de produzir mais felicidade quando se ultrapassam os limites das necessidades humanas é oferecer a ele uma tarefa que é incapaz de cumprir. Para quem acumula dinheiro com o objetivo de ser feliz apenas digo que “são tão pobres que tudo o que possuem não passa de dinheiro”.

Prefiro citar o pensador romano Sêneca, quando diz que “a pobreza não se produz pela escassez de recursos, mas pela multiplicidade dos desejos”. Quanto mais se tem, mais o desejamos, e assim indefinidamente, produzindo uma reversão cruel: ultrapassado um certo volume é o dinheiro quem nos possui, e não nós a ele.

Albert Mahooney, “Ten tips for a life in the jungle”. Ed. New Frontier, pág. 135

Albert Mahooney é âncora de televisão Denver 7, no Castle Rock News nos Estados Unidos. Escreve também em jornais locais em sua cidade Natal, Castle Rock, Colorado-USA. Escreve para jornais da região, em especial sobre política e cultura. Suas colunas foram transformadas em livro com o nome de “Ten tips for a life in the jungle” (Dez dicas para a vida na Selva).

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Xavecos

A ideia de “cantadas ruins” serve para transas ruins também. Está menos no outro e mais na receptividade do sujeito. Criamos teorias e regras, rotinas e protocolos tentando colocar validade na arte, mas o segredo reside na fantasia subjetiva, na sintonia que a palavra produz com nossas imagens internas, com o eco dos nossos desejos e fantasmas.

Lembrei da história de uma secretária do Pronto Socorro onde eu trabalhava no início da faculdade. Não tinha mais que vinte e poucos anos, era uma moça muito simples e bonitinha. Chegou na segunda feira no Pronto Socorro muito acabrunhada. Enquanto tomávamos nosso café no refeitório eu lhe questionei como foi o fim de semana.

– Um desastre.

Perguntei o que havia ocorrido e ela me descreveu o drama. Havia brigado com seu namorado cabeludo roqueiro porque ele era bruto, grosseiro, machista, violento e envolvido com drogas. Também mulherengo. Havia dado um basta nessa relação havia duas semanas.

Passados alguns dias aceitou o convite de um rapaz para irem a um barzinho conversar. Era um vizinho, trabalhador, conhecido de infância, estoquista num supermercado e que estudava administração à noite. Havia finalmente se declarado a ela ao saber do rompimento do seu namoro.

Assim fizeram. Todavia, a Deusa Álea – a Deusa dos fatos fortuitos – fez mais uma das suas travessuras. Durante o encontro, no barzinho lotado, apareceu o ex namorado. Furioso e indignado chega junto à mesa e, com o dedo em riste, iniciou uma rajada de acusações injuriosas. Logo se formou o bolo. As ironias iniciais deram lugar às ofensas mútuas entre os ex namorados. A tudo o amigo escutava tentando não se envolver, imaginando se tratar de uma questão que envolvia apenas os dois. No entanto o sarcasmo deu lugar às ofensas e essas deram espaço às ameaças explícitas. Foi quando o pretendente se levantou e disse ao cabeludo para que fosse embora, ou ele tomaria uma atitude.

Foi a deixa que faltava para a pancadaria começar. Rolaram sopapos, cadeiras na cabeça, socos, gritos estridentes, sangue no nariz e camisas rasgadas. A barbárie só terminou quando a polícia levou todo mundo para a delegacia onde passaram a noite.

– Lamento por você, disse eu. Você não merecia isso.

Ela fez uma expressão de desânimo e completou.

– Vou pedir demissão do Pronto Socorro. Não tenho mais clima para ficar nessa cidade. Conversei com ele e vamos morar na casa da sua madrinha no interior. Ela está vaga e vamos para lá ainda essa semana.

– Uma pena você ir embora. Vamos sentir sua falta.

Dei um abraço nela e me levantei da mesa do café para começar a trabalhar. Dei três passos em direção à porta e voltei a olhar para ela.

– Com quem você vai se mudar para o interior?

Ela deu um sorriso envergonhado e falou:

– Com o meu cabeludo querido, é claro…

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Cacarecos

Que tal um Natal com poucos cacarecos?

Pensem bem antes de dar presentes em festas comerciais!! No fim das contas pode sair muito caro. O stress, a exposição ao vírus, o custo inflacionado dos brinquedos a (in)utilidade do presente, etc. Será mesmo que vale a pena tanto esforço em troca de um carinho que pode ser recebido com a simples presença e a comunhão?

Não esqueça que o presente verdadeiro nessa negociação capitalista é o impacto no sujeito causado pela fugaz gratidão infantil. Ela dura poucos minutos e depois o apetite de afeto das crianças exigirá mais presentes, e assim indefinidamente. O desejo é infinito, os recursos não…

Meu conselho é que sejam fortes e resistam à pressão. Crianças que recebem presentes demais tornam-se insensíveis às coisas, aos objetos. É uma adição como qualquer outra; depois de um certo tempo só doses mais fortes conseguem produzir a endorfina necessária para o disparo da onda de prazer.

Não usem as crianças como lenitivos para seus traumas infantis. Graças às inúmeras faltas da infância é que desenvolvemos o desejo de conquistar algo mais na vida. “Toda conquista se faz a partir dos escombros de um fracasso”. Não permita que seus traumas prejudiquem seus filhos e netos. Acreditem no potencial deles em desenvolver criatividade, alegria e sucesso sem a necessidade de acumular coisas.

O Natal é o melhor momento para ensinar as crianças como suportar a frustração consumista.

Tenham todos um Feliz Natal com pouca coisa…

Veja outro post meu aqui

… e leia mais sobre o tema aqui

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Fantasias

Ela contou algumas histórias sobre seu cotidiano, suas insônias, as dores nas costas e o antigo refluxo que a incomodava. Depois falamos de seus sonhos, do casamento recente e do desejo de ter um filho. Eu escutava e só desviava ocasionalmente o olhar para anotar uma passagem que fosse significativa. Após algum tempo ela olhou direto em meus olhos e, depois de uma pausa, me disse:

– Isso é um pouco pessoal, mas preciso falar de uma coisa sobre o meu casamento.

Larguei a caneta sobre o papel, ajustei o óculos sobre o nariz e cruzei os dedos sobre a folha rabiscada. Entendi que a consulta dava um giro importante, talvez chegando ao ponto que a tinha originado.

– Claro, disse eu, pode falar.

Ela baixou o olhar por alguns instante e depois começou a falar sem erguer os olhos.

– É o meu marido. Acontece que ele é muito possessivo. Eu diria que ele é até grosso. Não deixa eu sair com minhas amigas e controla meus vestidos. Não gosta que eu me comporte de forma muito alegre em público. Ciumento, muito. Não suporta que alguém se reporte a um ex namorado meu. Controla meus horários e cobra qualquer mínimo atraso…

– Alguma violência?

– Não!! Jamais!! Nunca me bateu ou qualquer coisa parecida com isso. Ele é – e sempre foi – um perfeito cavalheiro. Nem levantar a voz ele faz comigo. Eu também não aceitaria qualquer tipo de violência comigo. É só esse comportamento controlador dele, constante…

– Bem, mas você já pensou em dizer a ele que poderia pedir ajuda? Existem diversas formas de abordar esse comportamento, e muitos homens apenas repetem em sua vida madura o….

– Não Ric, você não entendeu. Não acho que ele precisa procurar ajuda. Não é esse o problema…

– E qual é?

Ela esperou um pouco antes de responder, e soltou as palavras como se estivesse a fazer uma confissão.

– O problema… é que eu gosto. Eu adoro um homem me tratando assim. É algo que me excita.

Bem, se há algo que aprendi foi não me intrometer na fantasia sexual de ninguém. Se há consentimento e respeito tudo é válido entre adultos. Apenas sorri e lhe disse que a mim não cabia julgar os laços eróticos que unem as pessoas. Ela sorriu satisfeita, como que aliviada por sentir-se livre para amar seu marido do seu próprio jeito.

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