Lamaze

O que sobra nos dias de hoje dos ensinamentos do obstetra francês Fernand Lamaze? O controle consciente do processo de nascimento por parte da gestante ainda possui espaço na atenção ao parto de hoje? E seu pendor autoritário, ainda encontra defensores entre os pensadores do nascimento humano?

Eu creio que alguns modelos aplicados ao nascimento são – na perspectiva atual – completamente anacrônicos no que diz respeito às suas propostas.

Este é o caso dos modelos baseados na visão de Fernand Lamaze e seus sucessores, como Pierre Vellay, Achiles Economides, Robert Merger e outros, os quais estão conectados aos criadores da psicoprofilaxia do parto, originária da Rússia por Velvovsky que por sua vez se apoiava nos estudos de reflexos condicionados de Pavlov. O modelo de Lamaze se baseia na sugestão e no princípio do “awaken and alert” do “parto sem dor”, da respiração alotrópica e de tantos outros conceitos hoje completamente superados. Vale como documento histórico, mas é bom ressaltar que os “Grupos Lamaze” de educação perinatal de hoje em dia não tem mais conexão com as ideias do seu criador.

Aliás, a visão contemporânea do parto humanizado é exatamente OPOSTA à visão de Lamaze. A visão de atenção ao nascimento de hoje prescreve o apagamento neocortical, e não sua ativação.

De qualquer modo estas perspectivas de meados do século passado tem um grande valor histórico. Nos anos 60 o “parto sem dor” era a grande moda. Todos as cenas de parto do cinema, em especial americano, das décadas 60 e 70 mostravam a mulher “soprando” enquanto conversava com seu marido. A função deste era estimular a ela um contato visual, pedindo-lhe que se mantivesse alerta e desperta. Aos maridos era solicitado que servissem como “ajudantes de ordens” do obstetra.

Nesse modelo o médico seria o “capitão”, o marido seu imediato e a mulher a força da natureza contra a qual ambos agiriam. Isto é: um poder masculino reforçado (médico + marido) enfrentando a mulher e sua fisiologia caótica e indômita. Um choque entre razão e natureza, numa perspectiva patriarcal. Para isso ser efetivado, Lamaze inclusive admitia que “pacientes infantilizadas fossem tratadas de forma autoritária”.

Segundo a Wikipedia, “Lamaze foi criticado por ser excessivamente disciplinador e antifeminista A natureza disciplinar da abordagem de Lamaze para o parto é evidente na descrição de Sheila Kitzinger dos métodos que ele empregou enquanto trabalhava em uma clínica de Paris durante os anos 1950. De acordo com Sheila Kitzinger, Lamaze consistentemente classificou o desempenho das mulheres no parto como ‘excelente’ ao ‘fracasso total’ com base em sua ‘inquietação e gritos’. Aquelas que ‘falhavam’ eram, de acordo com Lamaze, ‘elas próprias responsáveis, porque nutriam dúvidas ou não haviam praticado o suficiente’ e, previsivelmente, mulheres ‘intelectuais’ que ‘faziam muitas perguntas’ eram consideradas por Lamaze como as mais propensas a falhar.

Mas é bem interessante que a mudança da compreensão do parto tenha ocorrido em perfeita sintonia com a troca de percepção da própria mulher na sociedade, numa dança dialética onde um fator reforça o outro e é por ele intensificado.

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