Silenciamentos

Como – e porque – funcionam os silenciamentos na Internet?

Vou apresentar um roteiro que conheço há mais de 20 anos debatendo em redes sociais, desde os “List Servers” até o Facebook. Não precisa muita elaboração para entender o funcionamento e você pode fazer o teste na sua própria rede social.

Procure um tema complexo e dramático e faça uma análise simples, pois não precisa sequer expressar uma posição contra-hegemônica, como em breve vão perceber. Depois disso termine com uma espécie de “chamado à ação”. Por exemplo:

*A mortalidade materna é alta no Brasil, em especial de mulheres negras e periféricas, o que denuncia nosso apartheid social. Seria importante que todos se dedicassem a encontrar a solução dessa tragédia, liderados por aquelas que são as mais interessadas nessa questão: as próprias mulheres das comunidades pobres desse país; unidas, fortalecidas e com o suporte do Estado.*

Pronto. Essa postagem de um simples parágrafo apresenta um problema (a mortalidade materna e seu viés de raça), acusa a iniquidade social pela tragédia (e não um grupo em especial), aponta um caminho (a ação social), chama o Estado à responsabilidade (pois ele é o grande motor de transformação) e coloca um grupo na liderança dessa proposta, por serem as vítimas e as principais interessadas na solução (as próprias mulheres, garantindo a elas o protagonismo).

Entretanto, qual a resposta?

Primeiro, antes de analisarem o conteúdo as pessoas olham QUEM o disse, pois um enunciado como esse só terá valor se quem o apresentar tiver uma espécie de “passe”, uma “autorização” social. Se você for do grupo dos “degredados” (homem, branco, cis, classe média) será imediatamente rechaçado, inobstante o que tenha dito. Sim… mesmo que concordem com você a primeira luta será para negar-lhe o direito de dizer. A partir daí se inicia uma saraivada de desqualificações.

– Lá vem o senhor de novo dizer o que as mulheres têm que fazer. Seu machista!!
– Sim, agora o burguesinho no seu apartamento com vista pro mar está preocupado com a pobre de periferia? Me poupe!!
– Mais um homem branco cagando regra para que os negros obedeçam. Chega de escravidão!!
– E os homens trans que também podem parir? Não tem vergonha dessa homofobia?
– 400 mil mortos por Covid e você vem falar de parto? Não tem vergonha?
– Mito2022 – “Chola mais” mortadela…

– Cala boca esquerdomacho, privilegiado, filho de papai, branquinho, heterochato

O que acabou se tornando muito claro para mim nesses anos todos é que as pessoas, diante de um post simples – e até banal – como este, jogam na internet os SEUS dramas pessoais, suas mágoas e seus ressentimentos a partir de algo que a condição do interlocutor (branco, hétero, flamenguista, gay, comunista, liberal, lésbica, etc) representa para si, fazendo com que a mensagem se torne absolutamente irrelevante. Não importa que estejam plenamente de acordo com o enunciado e a proposta; o conteúdo desaparece e só o que se vê é o inimigo à sua frente. E tudo isso, é óbvio, potencializado pelo manto de invisibilidade que as redes sociais oferecem.

– Eu odeio o que você representa na minha vida e vou discordar de qualquer coisa que você escreva. Vou ler “literalmente” cada palavra quando me interessar e “simbolicamente” quando precisar, de forma que qualquer frase escrita será torturada nos limites até que ela pareça ser a fiel tradução de sua imagem aos meus olhos: um monstro – e, claro, sem o direito de falar.

Diante desse dilema, o que fazer?

Quando lemos ou escutamos este bombardeio devemos aceitar o silenciamento – que parte muitas vezes de gente que jamais colocou-se na luta e não se empenhou para fazer qualquer coisa? É justo que os silenciadores se comportem como se sua condição de oprimido seja suficiente para lhes garantir autoridade e poder de veto? Por outro lado, devemos continuar lutando e apresentando propostas apesar dos ataques? É válido insistir em debater com pessoas que não aceitam outros participantes no enfrentamento de ideias? Ou devemos mesmo aceitar a mordaça do “lugar de fala” e silenciar? É preferível abandonar as lutas?

Ou será mais justo continuar apertando o botão do F*DA-SE?

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Arquivado em Ativismo, Pensamentos

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