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O Hiper Macho

Sempre achei que os puros homossexuais seriam estes, ao estilo Donovan, porque neles existe a masculinidade exclusiva, hiper masculina, certeira, indubitável, positiva, com a veneração do falo e a total supressão do feminino.

Nessa perspectiva masculinista o gay efeminado, delicado, suave, frágil seria “apenas” um sujeito que adora mulheres a ponto de imitá-las em seu gestual e na preferência por homens; ele não seria o “gay genuíno”. O guerreiro, o gladiador, o super atleta seriam os reais paradigmas masculinos máximos, onde as mulheres representariam a falta de tudo quanto valorizam e admiram.

Donovan é o melhor exemplo de um mundo sem diversidade, pobre em tudo o que a mulher é capaz de oferecer enquanto pensamento e sentimento feminino. Suspeito que por trás de tanta masculinidade está um sujeito com um medo terrível do que significa a pergunta que cada mulher nos apresenta.

Pensamento engraçado: imaginar o Donovan atendendo um parto ou cuidando de um bebê. No meu ponto de vista o mundo de Donovan seria tão miserável quanto uma sociedade de Amazonas.

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No meu tempo é que era bom…

Frequento grupos onde pessoas da minha idade celebram fatos da nossa infância e adolescência, que coincidiu com a ditadura militar, o surgimento da TV e a transformação social que o mundo experimentou pela guerra fria.

Vez por outra aparece um texto saudosista, falando de um tempo sem “frescuras” e sem “mimimi“, dizendo que na época atual damos valor demais aos direitos e menos aos deveres, que somos uma geração “floco de neve” e que criamos discussões sem propósito sobre temas irrelevantes.

Não há dúvidas que há exageros. Afinal, “como impedir que o vento bata portas mal fechadas”, como dizia Pablo Milanez, fazendo estrondo com os gritos represados? Como evitar a volúpia que se segue à contenção?

Exaltar acriticamente um passado idílico com nossas lentes seletivas só pode resultar em uma salada de frutas de racismo, misoginia, lgbtfobia misturados com o culto do “tempo perdido”, do passado perfeito e da destruição da cultura atual pelo “excesso de direitos”.

Minha adolescência foi maravilhosa, e não há porque negar isso, mas exatamente porque eu era branco, heterossexual e de classe média. Seria absurdo – ou má fé – julgar a sociedade onde eu vivia apenas pela minha estreita perspectiva. Não é justo avaliar nenhuma cultura pelos relatos dos cronistas sociais que observam o mundo ao seu redor dentro de sua bolha de privilégios.

Sim, era permitido chamar de “viado” e de “negão”, e talvez seja verdade que muitos negros e homossexuais sequer se sentissem ofendidos. É possível que muitas meninas não se importassem em ser tratadas e consideradas apenas pela sua aparência. Todavia, é impossível saber quantos realmente levavam as brincadeiras com humor e quais eram os que apenas engoliam a humilhação para não serem excluídos do grupo. Escutar hoje como eles se sentiam naquela época talvez possa nos surpreender.

Minha geração era muito cruel com os diferentes, e não há nada a lamentar que esse tempo tenha passado. Também nossos hábitos eram terríveis, no aspecto da saúde. Sim, sobrevivemos ao “Fleet”, à bala Soft, carros sem cinto de segurança e às tintas com chumbo mas muitos dos amigos que hoje morrem de câncer começaram sua contaminação cumulativa naqueles tempos. Muitos dos que morreram cedo pelos acidentes de trânsito também não estão aqui para deixar seu depoimento. Não há o que celebrar.

Abandonar paulatinamente o machismo, a violência contra a mulher, o racismo estrutural, os agrotóxicos, a educação pela violência e a segregação racial é algo a ser comemorado, mesmo que seja necessário reconhecer que muito ainda precisamos trilhar. Acreditar que o seu tempo era “o melhor” apenas denuncia falta de perspectiva e incapacidade de se adaptar ao mundo de transformações.

Acredite… o mundo hoje é melhor do que já foi, apesar dos nossos erros

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Modas

ISSO SIM QUE ERAM MULHERES DE VERDADE

Basta aparecer uma mulher – ou um homem – vestido com as roupas dos anos 50 ou 60 para a gente dizer que no tempo atual perdemos nosso senso estético. “Naquele tempo as mulheres eram muito mais femininas”, é uma frase bem cliché para estes momentos.

Cada época tem sua beleza, e não há beleza superior pois que estas são construções sociais. Via de regra achamos mais bonitos os homens e as mulheres da nossa época, de quando descobrimos nossa sexualidade, ou até antes. Fixar-se na beleza e seus significados de uma época passada é natural, mas é apenas uma percepção subjetiva. Afirmar “no meu tempo é que…” só revela nossa dificuldade de adaptação a novas estéticas e novos valores, e não uma real qualidade das coisas do passado.

A moda, a música, os valores morais, são construções sociais, mutantes, dinâmicas e que refletem os valores sobre os quais nos assentamos. Não faria sentido que as mudanças sociais e tecnológicas não viessem a imprimir transformações na estética e nos comportamentos, mas isso não significa que as coisas de hoje são “melhores” ou “piores” do que as do passado, apenas que se adaptam às transformações e os entornos sociais.

A sociedade – o outro – dita as regras através dos costumes. Somos prisioneiros disso em certo nível. Por isso mesmo existem as “modas”, as “tendências”, no vestir, no falar, no pensar, na ciência, no próprio enxergar. Imaginar a absoluta independência do sujeito ao olhar da sociedade seria absurdo e irreal.

Em verdade é até possível arriscar um enfrentamento em alguns assuntos mais superficiais, como o tamanho do biquíni, a sunga de crochê ou o ritmo do momento, mas os valores mais profundos ligados ao patriarcado e ao capitalismo – vigas mestras da sociedade – são guardados de forma muito cuidadosa, pois que asseguram a estrutura da sociedade como a conhecemos.

Em tese um homem ou uma mulher se veste “como quiser”. Na prática são tantos os condicionamentos e barreiras que acabamos vestindo e usando os padrões ditados pela cultura.

As mulheres do meu tempo eram charmosas, elegantes e tinham sua sensualidade, mas é tolice dizer que hoje as meninas e meninos, envoltos em outros valores e contextos, também não a tenham. O melhor é aceitar que esta perspectiva é apenas minha forma particular de ver o mundo, e não “o padrão”, que lamentavelmente se perdeu no tempo.

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Privacidade

Parece muito claro que o pessoal ainda não entendeu como funciona a Internet e a abrangência das mídias sociais. Quando você coloca uma foto aqui (em especial Facebook e Instagram) não pode impedir que os milhões de potenciais visualizadores interpretem como quiserem o que estão vendo, e que façam memes ou que critiquem as imagens. Quem não quiser ser criticado que não se exponha.

Há alguns anos uma ex-amiga minha colocou fotos suas, em uma cachoeira, parcialmente nua. Sim, no Facebook e publicamente. Abaixo ela escreveu um texto sobre a beleza dos corpos naturais, não convencionais, a naturalidade da nudez e a importância do empoderamento feminino.

Muito bem, nada a criticar em sua proposta. Admirei sua coragem, seu desprendimento e seu desejo de levar adiante sua mensagem. Cheguei a cumprimentá-la pelo desejo de marcar um ponto importante em sua luta. Todavia, imediatamente depois – porque a postagem era pública – houve uma chuva de críticas, zoações, deboches e brincadeiras por parte de homens que encontraram a foto nas páginas do Facebook.

Pois, ao invés de deixar a cachorrada latir e fazer a caravana passar ela resolveu se indignar e responder agressivamente às piadas machistas e de mau gosto. Quanto mais ela respondia, mais os sujeitos insistiam na zoação, mais baixavam o nível e mais furiosa ela ficava.

Até que ela veio me perguntar o que eu achava, e “como podiam esses idiotas agir dessa forma“. Minha resposta foi seca e direta:

“Mas o que você esperava acontecer colocando uma foto dessas publicamente na Internet, povoada por todo tipo de gente? Eu não aceito as atitude machista desses caras, mas é muita ingenuidade imaginar que todo mundo vai achar lindo e maravilhoso. O mundo não é assim, e você devia saber. Isto é: se vai se expor dessa forma entenda que vai receber pauladas, e é melhor que esteja preparada para elas. A única coisa proibida é surpreender-se com os contragolpes. Eles virão, inexoravelmente, enquanto essa sociedade for regulada pelo patriarcado.”

Ela entendeu essa minha fala como uma crítica às fotos, quando na verdade era uma crítica à sua ingenuidade. Preferiu me associar à malta de lobos que uivavam e grunhiam, mas tudo o que fiz foi sugerir que, quando resolver agredir o machismo vigente, esteja preparada para os inevitáveis ataques em resposta.

Brigou comigo e passou a me atacar desde então. Uma lástima, pois gostava dela. Eu sinto muito, mas continuo com o mesmo posicionamento. As lutas por equidade e justiça não podem permitir inocência e ingenuidade. O mundo lá fora é duro e preparar-se para os combates é mandatório.

Nada a dizer contra a natural indignação que surge da inconformidade. Minha crítica é contra a INGENUIDADE e a sedutora postura vitimista, que oferece graciosamente a narrativa aos cães do machismo e passa a se defender. Quem vai se expor precisa se preparar e não ficar dando explicações ou “criticando a crítica“. Isso é um erro gigantesco que, inclusive, as esquerdas fazem cotidianamente.

Não sejamos tolos; nenhum dos acusadores de internet que debocham e humilham mulheres, negros, trans, gays, etc se modifica com as nossas “lacrações”. Pelo contrário: eles se sentem vitoriosos por conduzirem a narrativa, pois quando o fazem provocaram a reação dos ofendidos, que se obrigaram a obedecer a pauta por eles criada.

Acho que muitos se beneficiariam muito ao escutar Madonna. Ela fez exatamente o oposto da postura vitimista. Chocou, bateu de frente, foi à luta e DITOU A NOVA NARRATIVA. Não ficou respondendo ou indignada quando a chamavam de p*ta. Estava preparada para “matar no peito” o ataque que viria ao propor uma nova estética e um novo padrão. Leila Diniz é outro exemplo da postura altiva: alguém acha que ela ficou se explicando depois de expor a barriga grávida na praia ou apenas sorriu ao ver os cães ladrando?

É sobre ser protagonista. Não tem nada a ver com peitos. É sobre não se diminuir e não aceitar andar a reboque da narrativa alheia. É pegar no timão e determinar o curso.

Indignação reativa é o que toda a esquerda faz, sempre na defensiva. Quando vamos acordar para isso?

Mas… talvez as pessoas ainda não consigam compreender a abrangência dessa ideia. “A vítima é o OPOSTO do militante”. Vítima sempre é objeto, jamais sujeito. Para atuar e ascender à esta nova posição é fundamental abandonar a antiga.

Os grupos de enfrentamento podem – e devem – construir seus caminhos de luta, mas existem trajetórias que a experiência mostra que estão errados. Colocar-se na defensiva oferecendo a primeira voz aos machistas, aos direitistas, aos “pró-vida“, aos fundamentalistas tem se mostrado um equívoco que nos trouxe até aqui.

A atitude da minha ex amiga não lhe garantiu nenhuma vantagem, pois preferiu a posição que lhe parecia mais segura. Infelizmente, esta posição jamais impõe mudança de paradigma.

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Jogados à direita

O grande número de homens brancos e cis que foram jogados para os braços da direita por serem tratados diariamente como inimigos, “machistas“, “esquerdomachos“, “mascus” e todo tipo de agressão (bastando para isso discordar do catecismo fechado das lideres) mostra porque a esquerda identitária se tornou um ambiente tóxico para os homens que gostariam de uma sociedade com justiça e equidade de gênero.

Por mais que a mídia transforme o homem contemporâneo como um predador – muitas vezes com justiça – alguns homens querem equidade de gênero e justiça social e desejam uma sociedade mais igual para todos. Ou deveríamos achar que só os negros queriam o fim da escravidão? Ou podemos presumir que apenas as mulheres querem o fim do patriarcado, um modelo social em que 90% dos assassinados são homens e 80% dos suicídios são também entre os eles?

Eu pergunto: Que tipo de homem NÃO quer mudar uma sociedade onde mulheres são vítimas de feminicídio cada duas horas, onde uma dessas vítimas pode ser a sua mãe, sua filha ou a sua irmã?

Que tipo de sexismo absurdo é esse que imagina que só mulheres querem uma sociedade mais equilibrada? As mulheres com quem convivo não lutam por uma sociedade boa para si mesmas; pelo que elas falam, essa luta só faz sentido se for bom para todos (ou todxs).

Claro que existe um problema sério de machismo e racismo estrutural na sociedade, mas quando o “branco“, o “cis” e o “homem” são vistos e tratados como inimigos – e não os machistas, os racistas e os homofóbicos – a decisão óbvia, natural e JUSTA que muitos deles tomam é procurar um lado na disputa de ideias que não os trate como inimigos e não os veja com desprezo.

Sério que alguém acha que essa sociedade é boa para os homens? Por que então se matam uns aos outros? Por que arrancam a própria vida às pencas? Por são os mais afetados pela depressão? Por que são os que mais se destroem pelo álcool, pela cocaína, pela maconha, pelo cigarro? Se é tão bom ser homem porque tantos querem acabar com a dor que sentem, e que está obviamente ligada à sua condição masculina?

Sério que alguém enxerga o mundo como um lugar de prazer desmedido para os homens e um martírio sem fim para as mulheres? Exercitemos a empatia, se é que queremos mais homens entendendo o sofrimento e as dificuldades de ser mulher.

Por isso mesmo que estes homens – que geralmente são bons pais e excelentes amigos, apesar de ainda reproduzirem algo da herança preconceituosa que receberam – desistem de somar nesta luta quando percebem que serão vistos como eternos adversários.

O presidente do Brasil e seus filhos foram eleitos POR SEREM machistas e racistas (e não apesar disso), mas ninguém teve coragem (ou muito poucos) de perguntar quais os erros cometidos pelos movimentos identitários nesse processo. Por que tanta gente de centro foi jogada para a direita mais abjeta?

Palestinos perceberam muito cedo esse dilema ao não desprezarem o auxílio valioso de judeus que se somaram à sua luta por uma Palestina livre. Entre os meus amigos não se permite nenhum ataque aos judeus ou ao judaísmo, mas apenas ao sionismo e sua ideologia de colonização, limpeza étnica e supremacia racial. Por isso os autores judeus por uma Palestina livre são tão celebrados entre os árabes – para não serem jogados no colo dos supremacistas.

Existem, por certo, mulheres machistas, e eu arrisco dizer que são a maioria nesse país – mas não na minha bolha de classe média. Entretanto, não acho justo dizer que “as mulheres cis e brancas no Brasil são machistas“. Algumas realmente são, mas não quero jogar toda as mulheres com boas ideias no colo dos liberais.

Até porque, como estamos vendo, o nome disso é suicídio.

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