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Argumento suicida

Uma das coisas que mais me irrita é quando vejo uma pessoa que está do meu lado em uma causa (antirracismo, anti-machismo, anarco socialismo, abolicionismo penal, doulas, homeopatia, luta antimanicomial, parteria, palestina livre, direitos gays, direitos humanos, anticonsumismo, infância sem violência, desadultização de crianças, etc…) apresentando um argumento absolutamente suicida. Chamo de “argumento suicida” aquele que é capaz de produzir uma “lacração” momentânea, uma ilusão de vitória contra um oponente, o qual parece nos levar à derrota de uma perversidade social, mas que por sua incongruência profunda abre um flanco gigantesco em sua retaguarda que – em médio e longo prazos – oferecerá munição inesgotável para nossos oponentes.

Exemplos? Dizer que a fascista gay tem mais é que apanhar. Soltar rojão quando fascistas são mortos. Apoiar pena de morte (ou pena de prisão abusiva) contra nossos oponentes. Acreditar cegamente em qualquer relato apenas porque a vítima está do nosso lado. Apoiar qualquer atitude de vingança que literalmente nos nivela aos criminosos que tanto criticamos. Em suma: agir da mesma maneira que nossos adversários, o que retira toda a legitimidade do nosso discurso. Alias, como diria o genial energúmeno, “Sem uma educação libertadora o sonho do oprimido é virar opressor“.

Quando vejo isso acontecer fico realmente furioso…

Não se passaram 24h e acabei encontrando um belo exemplo: descobriu-se através dos vídeos que a menina Karol não foi vítima de homofobia como muita gente acreditou, mas foi, em verdade, a agressora de um rapaz em um quiosque na praia. Ao que tudo indica estava sob efeito de drogas. Usou a arma da namorada (que é policial) para fazer ameaças, tentou se passar por policial federal e ainda agrediu a namorada.

Nenhuma violência pode ser justificada, seja contra negros, brancos, mulheres e homens. É o que diz a lei. O fato dessa moça ter chutado, cuspido, atacado a socos e humilhado com palavras a este rapaz não pode ser perdoado apenas porque ela faz parte de uma minoria que sofre agressões e humilhações constantes. Não dá para passar pano para agressor….

Pois hoje eu li alguém argumentando que o homem era o “verdadeiro” agressor porque, sendo maior do que a Karol, deveria “se conter”. Em outras palavras, a culpa é dele, a vítima da agressão física, porque errou ao não se controlar e revidou aos ataques.

Sabe o que significaria aceitar esse como um argumento válido? Que os argumentos dos machistas passariam a ter valor quando culpam a vítima por suas agressões. “Se estivesse na Igreja não seria ofendida“, “Se controlasse melhor sua forma de vestir não receberia cantadas sujas“, “Se não tivesse esse decote não seria abusada“, ou ainda “Se tivesse medido as palavras o marido não perderia o controle“. Quem ainda consegue admitir como válida essa argumentação machista e oportunista?

Esse é o maior exemplo de argumento suicida. Nesse caso se tenta colocar a culpa na vítima – que por acaso foi um homem – ao invés de reconhecer que sua agressão é que iniciou toda a confusão. E lembrem: o fato de ela ter se machucado não a torna vítima, assim como um homem que quebra a mão ao agredir alguém também não se torna. Os ferimentos da Youtuber foram consequência direta de suas agressões e do seu destempero. Não há porque culpar ninguém mais.

Nesse caso o melhor é fazer o que as mulheres tanto aconselham os homens – e com justiça: “Não fique dando desculpas ou jogando a responsabilidade para a vítima. Aceite o erro e mantenha um silêncio respeitoso“.

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Sexismo

E Obama não parou por aí: segundo o político, as mulheres não são perfeitas, mas são “indiscutivelmente melhores” que os homens. Obama, que foi presidente dos EUA de 2009 a 2017, afirmou que ele começou a refletir a respeito disso enquanto estava no cargo. Tenho certeza absoluta de que, por dois anos, se todas as nações do mundo fossem governadas por mulheres, vocês veriam uma melhoria significativa em todos os aspectos, em quase tudo… Padrões de vida e resultados”, completou Obama.

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Imagine o que aconteceria se Bolsonaro dissesse a mesma frase colocando os homens como “indiscutivelmente” superiores às mulheres, sem QUALQUER embasamento científico – ou mesmo empírico – para fazer tal afirmação. Seria chamado de sexista, certo?

Então eu ouço muita gente dizendo: “Mas acho sim que o mundo se beneficiária se houvesse mais igualdade entre homens e mulheres, precisamos do olhar da voz , força e garra das mulheres”.

Não há como discordar dessa proposta – ou mesmo este pedido. Entretanto, não foi isso que o Obama disse. Ele deixou claro que o mundo seria melhor se estivesse nas mãos das mulheres, se elas governassem todos os países, o que é uma frase claramente sexista e preconceituosa. Aliás, nossa experiência prova EXATAMENTE o contrário disso. Mostre onde Margareth Thatcher melhorou a vida dos ingleses com o garrote do neoliberalismo. Não esqueça que a última guerra que tivemos no continente sul-americano foi determinada por esta mulher – e foi um massacre tipicamente britânico. Mostre o que o sionismo fanático de Golda Meyr produziu para a paz na Palestina. Mostre onde Bachelet, Cristina ou Dilma produziram RUPTURAS na ordem vigente a ponto de se destacarem como exemplos de uma administração diferente e inovadora (e veja, sou fã das três).

A frase de Obama é BISCOITEIRA. É para mendigar likes apostando no sexismo. É para parecer um defensor das mulheres quando em verdade está sendo sexista ao apontar uma vantagem (ou superioridade) administrativa ou (pior ainda) MORAL das mulheres sobre os homens.

Não há dúvidas no fato de que estes cargos políticos deveriam ser divididos de forma mais equânime. Não é sequer necessário debater que o mundo se beneficiaria se houvesse mais igualdade entre homens e mulheres na condução dos seus países. Eu mesmo, há muitos anos, só voto em mulheres para que haja um equilíbrio maior nos governos, mas JAMAIS por achar que elas são melhores do que os homens, e sim por considerá-las IGUAIS e, apesar disso, pouco representadas. O equilíbrio nos órgãos de comando político – assim como na justiça, na medicina e nas artes – deve acontecer porque homens e mulheres são EQUIVALENTES em suas capacidades intelectivas e morais e não porque as mulheres são “superiores”. Afirmar isso é tão preconceituoso quanto dizer que elas são inferiores.

Eu pergunto: onde está a superioridade de Joice, Bia Kicis, Carla Zambelli, Ana Amélia e tantas outras mulheres na política que apoiam um fascista como Bolsonaro? Ora… eu lhe respondo: no mesmo lugar onde estão os homens, pois que são iguais em suas virtudes e seus defeitos.

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