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Divisionismos

Filho nunca vai ser o atraso pra quem gosta de trabalhar… mulheres guerreiras tem meu respeito.”

A legenda dessa foto na internet, escrita por um homem, foi: “Filho nunca vai ser o atraso pra quem gosta de trabalhar… mulheres guerreiras tem meu respeito”.

A resposta de uma internauta indignada foi: “Sempre tem um macho que…”

A manifestação desse sujeito é obviamente idiota, e realmente está romantizando o trabalho escravo e desumano ao qual as mulheres se submetem. Não há nada de romântico ou nobre em trazer um filho pequeno para seu trabalho por absoluta falta de suporte, seja de creches ou de licenças especiais para a maternagem. Não há dúvida que esta mulher merece todo o nosso respeito, mas não apenas isso; ela merece justiça e valorização do seu trabalho. Não é sobre o respeito que devemos debater…

Entretanto, me incomoda muito quando alguém diz que isso foi dito por um “macho”, como se a motivação para escrever esta tolice foi pelo fato de pertencer ao gênero masculino. Aliás, por acaso causaria surpresa se essa frase fosse escrita por uma mulher? Por certo que não… E por que usar a palavra “macho”? Seria “macho” uma “acusação”, um humano com uma maneira equivocada e violenta de ser no mundo? Pois na minha perspectiva essa legenda não foi escrita porque seu autor é homem, mas porque foi a expressão de alguém que se deixa seduzir pela ideia da “meritocracia subserviente”, e foi escrita pelos mesmos que aplaudem quando meninos de 10 ou 12 anos saem para trabalhar na rua para sustentar suas famílias. Chamam a estes personagens de “trabalhadores”, “heróis”, “bravos guerreiros”, e deixam de enxergar o quanto de exploração e abuso criminoso existe nestas atitudes.

Acreditam mesmo que são os homens os inimigos, aqueles que estão na origem da iniquidade? Seriam eles a causa primeira desse problema? Quando vamos entender que no momento em que essa foto foi tirada havia um homem morrendo ao cair de um andaime, sendo baleado pela polícia, morrendo no trânsito, sofrendo um acidente de trabalho, mergulhando a 100 metros de profundidade para consertar um cano ou subindo a 200 metros de altura para ajustar um cabo de alta tensão? Alguns mergulham no esgoto, outros carregam o seu lixo nas ruas, sem falar nas guerras onde 99% dos mortos são homens ou nos suicídios em que 80% são cometidos por homens jovens. Esse tipo de ideia – de que o sofrimento das mulheres é causado pelos homens – é tolo, sem base, sem sentido e divisionista. Da mesma forma o sofrimento desses homens não pode recair sobre as mulheres, tão vitimadas quanto eles por um modelo cruel.

Esse desequilíbrio, essa dor, essa injustiça são causados por um sistema injusto que atinge a todos e se chama capitalismo, um modelo social perverso que divide as sociedades em classes, onde quem determina é o capital e não o sexo, o talento, a competência, a orientação sexual ou a capacidade. Culpar os homens – como se o fato de ser homem fosse crime – é indecente e errado, tão equivocado quanto ver um miserável negro apontando o dedo para o seu vizinho branco – e tão f*dido quanto ele – chamando-o de “opressor”. Esse tipo de acusação faz os ricos, os rentistas e a elite financeira darem gargalhadas. “Enquanto eles se acusam entre si não percebem que ferramos a todos”.

O identitarismo é um movimento de direita, importado dos imperialistas do partido democrata americano, cujo grande objetivo é dividir as sociedades em grupos de identidade, fazendo-os cegos à realidade das classes. Apostar nessa perspectiva de mundo é aceitar a dominação e a divisão e permitir que a subserviência ao imperialismo e ao capital sejam determinantes imutáveis.

A imagem mostra uma vitima das sociedade de classes, e não dos homens. Os homens são igualmente vítimas desse modelo e ficar debatendo quem é “mais vítima” é inútil quando temos uma tarefa muito mais nobre e importante pela frente: o fim do capitalismo e de toda a ideia de castas na sociedade.

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Sobre Sombras e Nódoas

Num dia um assassinato estúpido na frente da família numa festa de aniversário. No outro, um caso de abuso sexual por parte de um médico. Ambos, inquestionavelmente, produzidos por cidadãos de bem. Em comum nos dois casos a simpatia pelo presidente que se dizia a favor da tortura e que tinha como livro de cabeceira a biografia de um monstruoso torturador.

No caso da morte em Foz do Iguaçu é difícil dizer algo sobre a estupidez em forma bruta, que ceifou a vida de um pai de família cujo crime foi homenagear seu candidato na festa de aniversário. Muito ainda vai se falar sobre esse assassinato brutal, motivado por intolerância criminosa, e incentivado pelo próprio mandatário principal da nação. Entretanto, eu gostaria de me debruçar sobre o caso de abuso sexual ocorrido em uma maternidade do Rio de Janeiro. Por ter trabalhado em maternidades por mais de três décadas da minha vida eu lamento profundamente pelas pacientes atingidas por estes crimes, mas também penso mais além, nas repercussões que essa ação produzirá sobre toda a profissão médica – que depende de forma muito intensa da confiança que os pacientes depositam nos profissionais.

Como confiar nos médicos agora, se por trás de um sorriso ou um simples exame físico pairar o espectro da desconfiança? Como deixar as pacientes seguras de que por trás de pedidos e avaliações simples não se escondem intenções malévolas? Toda a ação médica se baseia no processo transferencial, a confiança em um suposto saber do profissional sobre o nosso corpo, nossa doença, nosso organismo e as razões pelas quais adoecemos e como podemos nos curar. Nesse processo ocorre uma entrega: oferecemos ao médico nossa intimidade mais profunda: nossas histórias, sentimentos, emoções, medos fragilidades e o nosso corpo.

O respeito por parte dos profissionais a esta oferta que vem dos pacientes é a pedra angular sobre a qual se constrói o vínculo, sem o qual nenhuma cura profunda é possível. Como diria o psicanalista húngaro Michael Balint, “o melhor remédio que um médico pode oferecer ao seu paciente é ele mesmo”. pois curador é o mais significativo remédio que se pode oferecer. Quando essa confiança se quebra, as conquistas para a saúde são apenas superficiais, incapazes de atingir o processo profundo de cura – que depende de uma modificação das rotas patológicas do sujeito.

Demonstrações públicas de desrespeito a esses limites, maculando a sacralidade desse encontro, tem efeitos devastadores. Garotos recém formados, com as calças arriadas e fazendo gestos que imitam vaginas, demonstram a falta de seriedade com que estes jovens profissionais encaram o compromisso com a profissão que têm pela frente. É preciso encarar esse problema com a gravidade que demanda. O ensino excessivamente técnico da medicina, a falta de embasamento humanístico, a objetualização dos corpos, o afastamento afetivo dos clientes e o distanciamento emocional com sua dor são subprodutos de uma medicina desvinculada da alma, a porção do sujeito que nos transforma de amontoados de células, nervos, ossos e matéria… em seres humanos.

Portanto, é essencial que o ensino médico seja, desde o princípio, carregado de conteúdo das ciências humanas, como psicologia, sociologia, antropologia, psicanálise e filosofia. Sem essa base sobre os sentidos fundamentais da “arte de curar”, e o constante reforço destes pontos durante toda a carreira médica, não formaremos nada mais do torneiros mecânicos de luxo, que tudo sabem sobre as partes danificadas e nada sobre o conjunto curioso de elementos que nos torna gente.

Os fatos que se somam nos mostram uma lenta e insidiosa degenerescência da arte de tratar os sujeitos nas sociedades contemporâneas. As ações da corporação médica, que aderiu em massa ao discurso bolsonarista e ao ideário da extrema direita, produzem um divórcio desta parcela da sociedade com seus propósitos mais profundos. É impossível pensar na saúde de um povo sem questionar as razões estruturais que nos fazem adoecer. É inconcebível que os médicos da atualidade virem as costas às necessidades essenciais da população e se coloquem ao lado da classe burguesa, tratando a grande massa da população como estorvo. Fatos escandalosos como estes são muito tristes, e afetam a todos nós.

Todavia, há que se entender que esses fatos não se expressam num vácuo conceitual. Existe uma sombra gigantesca que paira sobre o país, e que nos mostra a necessidade de depurar essa doença que nos consome. Para buscar esta cura faz-se necessário extirpar a nódoa que corrói o coração do Brasil.

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Ainda Fogueiras

Apesar de não gostar de fogueiras creio que o debate nacional sobre violência obstétrica é oportuno e essencial, em especial através de um programa de tamanha audiência como este, o Fantástico na Globo. Espero que, mais do que uma ação punitivista, este seja um passo importante para a consolidação de propostas para a erradicação da violência de gênero, em especial no parto e nascimento.

Creio que precisamos de mais participação da família, escolhas informadas, pré natal de qualidade, confiança nos profissionais (e nos pacientes), uma mídia consciente, um judiciário atento às evidências científicas e mais parteiras e doulas na atenção ao parto de risco habitual. Precisamos também de uma mídia menos sensacionalista e mais responsável, assim como uma maior proteção aos profissionais humanistas, que são as pontas de lança das transformações no cenário do parto.

Acho que um passo – a exposição crua da realidade triste da violência obstétrica – foi dado hoje. Espero que tenha sido um momento decisivo em direção a uma interação mais respeitosa entre cuidadores e gestantes.

Que assim seja.

PS: Agora fica difícil conter a pressão dos ressentimentos represados. Espero apenas que a mobilização (que infelizmente vem pelo escândalo) não se contente com o mero punitivismo, mas ofereça uma perspectiva de sairmos desse processo histórico de violência de gênero. Assim estes fatos tristes não mais ocorrerão com tanta frequência.

Porém, é importante tomar cuidado; muitas vezes as punições são uma forma de não-mudar, de conter a transformação, colocando as falhas estruturais nas costas de um único sujeito, para que as pessoas não percebam a arquitetura corroída que sustenta todo o sistema. O que precisamos mudar é o modelo autoritário de atenção ao parto que não ocorre de forma isolada; pelo contrário, é uma das marcas da assistência ao parto no Brasil.

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As Armadilhas da Identidade

Há muitos anos me debato com a questão do identitarismo, até porque sempre fui um homem imerso em um universo absolutamente feminino, e seria normal e compreensível que sempre fosse visto com uma certa estranheza. Por esta razão, não foram poucas as vezes que me defrontei com silenciamentos, exclusões e com o indefectível argumento do “lugar de fala”.

Por certo que muita besteira eu disse nessas três décadas de debates sobre partos, amamentação, puerpério e os próprios aspectos da sexualidade ligada ao parto, mas eu via nas inúmeras interdições – veladas e explícitas – um cancelamento indevido de vozes cuja aparente dissonância em verdade oferecia a possibilidade de se criar uma melodia muito mais rica e complexa. Sempre acreditei que estes múltiplos pontos de vista poderiam compor uma paralaxe benéfica para fortalecimento das ideias. Todavia, muitas vezes preguei no deserto.

Assim, o livro “Armadilhas da Identidade” de Asad Haider, caiu como uma luva sobre minhas inquietações, em especial porque trazia a resposta para uma antiga indagação. Em uma parte do livro – onde comenta sobre a realidade do racismo que atinge os negros americanos – ele observa que em muitos lugares (como em Milwakee, por exemplo) a maioria dos policiais é negro. Surge então a questão: como poderia a polícia se manter violenta e racista se os indivíduos que a compõem são do mesmo grupo vitimado por esta instituição?

Quando li isso me veio à mente outra violência que acompanhei diuturnamente durante mais de três décadas: a violência de gênero que se expressa na assistência ao parto, onde a imensa maioria das atendentes – inclusive as obstetras, que se situam no ápice do sistema de poderes – é composta por mulheres. Aqui sempre esteve presente a mesma pergunta: por que mantemos uma assistência violenta e misógina mesmo depois da obstetrícia se tornar majoritariamente feminina?

Não seria de se esperar que a violência diminuísse a partir do momento em que negros vigiassem negros e mulheres acolhessem mulheres? Não haveria uma obrigatória identificação com o outro, objeto de nossa ação?

O resultado dessa maior representação – conforme testemunhei durante décadas – foi ausente ou pífio. Não há até hoje nenhuma diferença mensurável entre as ações de policiais negros ou de obstetras mulheres no que diz respeito à violência de sua prática. A explicação para esse fenômeno é porque, muito mais importante do que os sujeitos que estão presentes nestes atos, são as instituições e os valores que elas representam. A polícia existe para impor à sociedade pela força uma divisão brutal de classes, enquanto a obstetrícia vai marcar as mulheres com o signo da submissão feminina dentro da sociedade patriarcal, inobstante os atores que emprestam seus corpos e mentes para essa função.

Colocar indivíduos negros na polícia e mulheres na obstetrícia – garantindo a esses grupos uma maior representatividade – em nada auxilia na transformação radical do sistema que os sustenta. Em verdade, as políticas identitárias que se resumem a colocar mulheres e negros em posição de destaque são parte do sistema de dominação – e não sua real oposição.

O grande equívoco é mantermos nossa visão obscurecida pelo gênero e raça e não percebermos a estrutura capitalista que subjaz, a mesma que fabrica a misoginia, o racismo e outros preconceitos como ferramentas para manter a sociedade de classes. Esse erro se espalha e se reproduz quando colocamos a culpa no branco e no homem, como se estes personagens fossem os culpados pelo sistema de opressão do qual eles também são vítimas.

Por esta razão creio que um movimento unificado que suplante os identitarismos seria a grande saída para o fortalecimento das lutas. Aliás, a proposta de colocar homens, cis, brancos e heterossexuais como “os inimigos a serem destruídos” é um roteiro que só pode levar ao fracasso, como visto até agora.

O fim do racismo e do machismo vai ocorrer quando houver a superação da sociedade de classes através da luta de todos, acima das identidades, em direção a uma sociedade sem divisões artificiais.

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Cartinhas

Sem nenhuma surpresa a resposta de Alexandria Ocasio-Cortez às críticas que recebeu sobre sua performance na festa de milionários da qual participou (usando o vestido “Tax the Rich”) cumpriu o padrão identitário conhecido. Referiu-se aos críticos como “machistas e racistas que não suportam ver mulheres negras em posição de destaque”.

Ora, não há dúvida que o racismo e o machismo são problemas reais e urgentes em países que adotaram a escravidão como sistema durante séculos e que ainda mantém suas sociedades conectadas ao modelo patriarcal. Da mesma forma, é fácil perceber que o antissemitismo permanece na cultura ocidental como discurso segregacionista, tanto quanto a homofobia multiplica vítimas no mundo todo.

Entretanto, usar essas feridas sociais para blindar qualquer crítica aos membros desses grupos traz como consequência o desgaste da retórica, prejudicando aquelas pessoas que realmente sofrem discriminação e até morrem por estas práticas. Durante 70 anos as práticas genocidas de Israel foram respondidas pelos apoiadores dessa colônia com o “holocaust card” (vejam o discurso de Norman Finkelstein sobre essa prática). Hoje em dia, questionar as ações de representantes do mundo gay – como dizer que uma cantora trans desafina – é tratado como crime. Criticar um político negro, como Holiday, passa a ser racismo. Reclamar da ação de algumas mulheres, mesmo de esquerda, torna-se um ato “machista”, e assim por diante.

O resultado dessa prática é que hoje ninguém mais presta atenção numa acusação de antissemitismo porque esse termo foi usado durante tantos anos para acobertar os massacres palestinos que os verdadeiros antissemitas se sentem protegidos. O mau uso do termo – abusivo e oportunista – o transformou em palavra vazia. Gasto, inútil, sem poder algum. Quando você chama um garoto de 18 anos que fez duas partidas de futebol de qualidade de “craque” que palavra precisaria usar para se referir a Pelé, Zico, Sócrates ou Messi?

O mesmo acontece com a “defesa” encontrada por AOC para rechaçar seus críticos: partir para o contra-ataque puxando as cartinhas fáceis que rotulam os adversários de “racistas” e “machistas”. Só faltou o “You shall not pass!!!”, ou “Não passarão!!”.

A resposta de Glenn Greenwald a esta réplica de AOC foi brilhante. Ele, um judeu gay e de centro-esquerda, não deixou barato e afirmou que o uso dessas expressões e acusações aos críticos da sua atuação de forma oportunista prejudica as milhares de mulheres e negras do mundo inteiro que sofrem reais e inequívocos ataques por seu gênero e cor. Gastar estas acusações para se livrar de críticas justas à sua atuação política é uma ação criminosa, e as vítimas são as próprias mulheres negras que ela deveria defender.

PS: Já fui chamado de “machista” várias vezes por críticas que eu fiz a algumas mulheres. Não discuto a validade destas acusações, mas se você chama a mim e a um espancador de mulheres com a mesma palavra, algo está errado. E esse erro, que produz o desgaste da palavra, só beneficia os brutos e agressores.

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