Imperialismo na TV

Faço parte de um grupo no Facebook que se reuniu para conversar sobre séries antigas de TV. As informações, fotos de bastidores, imagens originais, história dos atores, cenários são sempre muito interessantes e nos fazem viajar um pouco para nossa época de infância e entrada na adolescência. É sempre bom reviver o passado compartilhando com as pessoas da nossa geração as emoções que tivemos com a nascente TV no Brasil

É evidente que um resultado natural seria o “saudosismo” que, ao contrário da saudade – que nos lembra de momentos felizes do passado – produz uma exaltação acrítica e fantasiosa dos acontecimentos, como uma fábula onde escondemos os aspectos ruins e colocamos um holofote irreal sobre aqueles fatos e contextos que gostamos. Em verdade, as lembranças da infância trazem sempre essa marca de irrealidade: somos programados para esquecer as coisas ruins e ressaltar as boas, e só por isso continuamos a crer que a “infância é a fase mais linda da vida”. Nada poderia estar mais longe da verdade.

A ideia que mais aparece nos debates é de que nos anos 60 e 70 a TV não tinha a crueldade, a malícia e a “pornografia” de hoje. Tudo era muito mais puro, e as famílias podiam assistir os programas sem temor de constrangimentos. Não havia drogas, adultérios, sexo desvairado, promiscuidade e muito menos a atual “campanha contra a família e os costumes”.

Família Robinson e Dr. Zachary Smith

Por certo que a TV era mais comedida nesses temas (vivemos boa parte da infância sob uma ditadura militar), mas a verdadeira pornografia se fazia presente de forma insidiosa e dissimulada: ela vinha através da padronização da mentalidade ocidental. Era a época de consolidação da hegemonia do Império Americano. Para alcançar essa hegemonia estética Hollywood foi uma das mais importantes ferramentas. As séries que eu mais gostava na infância eram do genial produtor Irwin Allen. Foi dele a ideia desses três grandes sucessos: “Perdidos no Espaço“, “Viagem ao Fundo do Mar” e “Terra de Gigantes“. A primeira versava sobre a conquista do espaço, que estava no seu auge com a disputa entre americanos e soviéticos. A segunda tratava dos mistérios do mar e o último sobre o encontro de navegantes perdidos com uma civilização de alienígenas gigantes.

Almirante Nelson e Capitão Crane

Minha perspectiva é que o fio de conexão entre elas é o imperialismo americano que, se não nasceu no pós guerra, teve ali seu grande impulso por ser a América o único parque industrial intocado – toda a Europa e a Ásia se encontravam destruídas – e ainda aquecido pelo esforço de guerra. Todas estas séries descrevem o encontro da civilização cristã, branca e ocidental com o estranho, o diferente, o alienígena. Assim como o expansionismo americano através do Império, esse encontro sempre gerava conflito e disputa, mas sempre terminava com a vitória moral do Ocidente, seja pela família Robinson e a Júpiter II num planeta inóspito e desértico, com o submarino SeaView e sua tripulação corajosa ou com o grupo de americanos perdidos em um planeta distante cercados por gigantes ameaçadores.

Equipe completa de Terra de Gigantes

A mensagem onipresente era sempre a da conversão. Como jesuítas modernos, eles levavam a palavra do capitalismo e do Império para outros planetas e civilizações, assim como também para as profundezas do mar, com suas criaturas exóticas e indômitas. A moral que emergia dessas histórias era a da resistência aos ataques de fora na tarefa de entregar a “boa nova”, o evangelho capitalista e, a superioridade moral do ocidente aos “selvagens”.

Todas essas séries podem ser ligadas ao grande filme de ficção científica dos anos 50: “O dia em que a Terra parou” (1951). Nesse filme os alienígenas é que assumem a postura imperialista, ameaçando os homens do nosso planeta. Em sua palavras afirmam que, caso não se comportem, serão destruídos. Por esta razão, o alienígena Klaatu é mostrado como um homem branco, ocidental, justo, sábio e nobre, enquanto os terráqueos são mostrados como indiferentes, egoístas e brutos. Nada descreveria melhor o imperialismo americano e sua busca de hegemonia através da aceitação pacífica por parte dos conquistados dos valores cristãos ocidentais, em lugares tão díspares quanto Japão, a Alemanha derrotada, Brasil, Oriente Médio e Coreia.

O discurso final de Klaatu, para uma plateia de terráqueos impassíveis, é uma pérola do discurso Imperialista, a “Pax Americana”. Lá estão o viajante interplanetário prateado, a plateia de boca aberta escutando sua sabedoria e até o cientista que imita descaradamente a figura de Albert Einstein. Sua palavras foram:

“O resultado é que nós vivemos em paz, sem armas ou exércitos,
seguros por saber que nós somos livres de agressão e guerra,
livres para buscar mais negócios lucrativos.
Não pensamos ter atingido a perfeição,

mas nós temos um sistema, e ele funciona.

Eu vim aqui para lhe dar esses fatos.
Não é de nossa conta como vocês dirigem seu planeta,
entretanto, caso vocês ameacem estender sua violência,
essa sua Terra será reduzida a cinzas.

Sua escolha é simples. Junte-se a nós e vivam em paz,
ou persistam no seu caminho atual e irão encontrar sua total aniquilação.
Estamos esperando sua resposta. A decisão está em suas mãos.”
(os grifos são meus)

Nada poderia ser mais ameaçador e mais terrível do que um alienígena com poder inimaginável dizendo o que podemos ou não fazer, e isso com a nobre desculpa de estarmos “protegendo o universo da ameaça que vocês representam”. E nada descreve melhor o imperialismo americano em todo o planeta do que a ameaça do belo, magro e branco alien, cheio de belas palavras e propósitos.

Não faço críticas anacrônicas destas obras. Elas eram espetaculares e divertidas para a época em que nós as assistimos. Creio apenas que é possível lembrar com saudade dos Shows de TV de outrora sem desconsiderar os seus sentidos mais profundos e sua impregnação cultural, usada como veículo de uma mensagem mais profunda. É absolutamente compatível uma leitura mais superficial que exalta a aventura, a tensão, o suspense e a “vitória do bem” e ao mesmo tempo reconhecer o ideário imperialista que pode ser visto como um subtexto que permeia todas estas produções dos anos 60 em diante.

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