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Divisões

Em termos políticos e sociológicos, dividir para conquistar (ou dividir para reinar) consiste em ganhar e manter o controle de uma determinada região por meio da fragmentação das maiores concentrações de poder, impedindo sua unidade e força. Esse conceito foi utilizado pelo governante romano César (divide et impera), Filipe II da Macedônia e o imperador francês Napoleão (divide ut regnes). Maquiavel cita uma estratégia semelhante em “A Arte da Guerra” (Dell’arte della guerra), dizendo da importância imperiosa em fragmentar as forças inimigas. Divisões sempre foram o maior interesse do Imperialismo. O sonho do Império Atlantista – ou Otanistão – liderado pelos Estados Unidos, era uma Iugoslávia dividida, e para isso fomentou a guerra fratricida do Kosovo, destruindo o sonho de Tito de uma nação eslava forte e unida. O desejo americano sempre foi uma Alemanha dividida, o que conseguiu por um certo tempo. O interesse do Império sempre foi dividir o Vietnã, a Coreia e a Rússia, assim como tentou com a China durante todo o século XIX. Para a América Latina – como bem cantou Pablo Milanés – ocorreu uma divisão artificial produzida pelo Império Britânico, contrária aos sonhos de Simón Bolivar. Mais modernamente, o Sudão foi dividido arbitrariamente com esta mesma lógica, claramente estimulado pelas nações colonialistas.

Até hoje se estimulam rivalidades e até guerras regionais na América Latina, como os ataques a Cuba, Nicarágua e Venezuela, não por acaso os três países que se impuseram orgulhosamente contra as determinações do Império Americano e, por isto, sofrem boicotes, ataques, sanções, atentados e golpes frequentes, todos eles financiados pelo grande capital internacional.

O próprio identitarismo parte da mesma percepção de mundo, e a través da estratégia de estímulo ao divisionismo como forma de enfraquecer a reação ao domínio. Uma sociedade pulverizada por identidades regradas por identidade sexual, raça, orientação sexual, etnias – onde um negro miserável se sente inimigo do branco explorado e pobre, a quem chama de “opressor” – também foi uma estratégia de sucesso do capitalismo americano, através do “leftismo” do partido democrata que, ao invés de abraçar as pautas socialistas e progressistas (eliminação da miséria, fim dos sem teto, sistema único de saúde, estímulo à reindustrialização), se entregou à defesa das minorias oprimidas, fragmentadas e divididas, assim como da “diversidade”, colocando operários e trabalhadores uns contra os outros como se a cor de sua pele ou sua sexualidade fossem reais barreiras para a integração, mais importantes do que a sua condição de classe.

É curioso que agora tantos falem no Brasil que “eles querem impor a divisão”. A frase é verdadeira, desde que se defina quem são eles. Falta a estes, que agora atacam os nordestinos pelo seu maciço apoio à candidatura de Lula, a percepção geopolítica de que “eles” se refere ao IMPERIALISMO, força que aqui no Brasil está ligada à extrema direita – Bolsonaro e seus seguidores. Quem realmente aposta na união nacional são os partidos da esquerda revolucionária e internacionalista, os quais reconhecem a importância da união dos povos em torno das pautas de apoio e de fortalecimento do operariado. É importante também, em meio a tantos ataques xenofóbicos contra o nordeste, entender o significado desta região para a construção do que hoje entendemos como Brasil. Nossa mensagem deve ir direto ao coração do eleitorado do sul e sudeste, este que deram seus votos a um racista declarado – Bolsonaro – e que agora depreciam o nordeste tratando esta parte do Brasil como subdesenvolvida e atrasada.

Os nordestinos salvaram o Brasil do fascismo que está presente em toda a história e as ações de Bolsonaro e – também por isso – seremos desta região eternamente devedores.

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Um assento reservado no Inferno

Cada vez que eu vejo a lavagem cerebral de gente que chama o Putin de “carniceiro”, “louco”, “assassino” por sua invasão à Ucrânia eu fico pensando o quanto estas percepções são criadas e disseminadas pela gigantesca máquina de propaganda que controla nossas mentes. Longe de ser apoiador de um direitista autoritário como Putin, tudo o que eu gostaria é que o presidente eleito da Federação Russa fosse julgado com a mesma régua com a qual os presidentes americanos são avaliados.

Até 6 de maio de 2022 o número oficial de mortes de civis da Guerra na Ucrânia era de of 4.253 (1.617 homens, 1,064 mulheres, 100 meninas, and 105 meninos, assim como 67 crianças e 1.300 adultos cujo sexo é desconhecido) – e um número quase igual de feridos. Sim, nos primeiros 100 dias de guerra houve um número de mortes igual àquelas produzidas pelo trânsito brasileiro no mesmo período – que mata em média 32 pessoas por dia em nossas ruas e estradas. Podemos dizer que os soldados russos – treinados para matar e defender – são mais cuidadosos com a vida alheia que os nossos motoristas.

Algumas agências clamam que os números são bem maiores, mas não oferecem dados alternativos confiáveis e comprovados. Mesmo que fosse o dobro dos números oficiais, ainda assim seria uma guerra em que existe uma óbvia preocupação em não matar, não destruir e uma tentativa obsessiva em preservar vidas.

Agora analisem as invasões americanas na Síria e Iraque, apenas para citar guerras recentes provocadas pelo Império onde é evidente um sentimento xenófobo e islamofóbico. A maioria dos americanos – mas também nós, as colônias – não tem noção do massacre ocorrido lá e acham que morreram “dezenas de milhares”. Isso está muito longe da verdade, pois como disse o general Tommy Frank – general responsável pela operação inicial de invasão – “não contamos corpos”, exatamente porque os inimigos do Império são sempre desumanizados, deixam de ser gente, não passam de baratas. Um bom filme sobre isso é “Hearts and Minds”, um espetacular documentário de 1974 sobre a brutalidade da guerra e a “necessária” desumanização dos inimigos, no caso os vietnamitas.

Na primeira semana da invasão do Iraque, com o claro objetivo de buscar uma posição geopolítica favorável e roubar petróleo, algumas estimativas apontam que foram mortos 80.000 iraquianos, usando uma mentira disseminada pelas redes de TV sobre “armas de destruição em massa!!” contada ao vivo pelo Secretário da defesa americano Collin Powell. O total de mortes desse massacre imperialista – que destruiu o país de onde surgiu a civilização humana – chega a 2.4 milhões de pessoas. Alguém acha que Putin poderia estar na mesma turma de seres humanos perversos onde estão Bush (pai e filho), Obama, Trump e Biden? “They’re not in the same league“. Na Síria a destruição foi a mais violenta possível por parte das forças aliadas à OTAN. Mercados centenários, mesquitas e templos religiosos reduzidos a pó; imagens obtidas por satélite mostraram uma violenta destruição em 290 locais históricos de todo o país. A ONU alertou que a guerra na Síria já destruiu 24 áreas consideradas Patrimônio Cultural da Humanidade e 104 sofreram danos profundos desde que o conflito teve início em 2011.

É preciso um mínimo de senso de proporção quando colocamos de um lado um autocrata de direita protegendo suas fronteiras de ameaças da OTAN e do outro assassinos perversos no comando de um Império decadente.

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Paradoxo da Paz

“Desculpe, sou contra o Putin, um diabo medonho, e porque tenho horror a qualquer guerra. Não existe justificativa para elas. Ah, e dizem que o Putin é homofóbico”

É impressionante a dificuldade dessa esquerda liberal de entender que essa guerra não pode ser avaliada por critérios morais aplicados a seus personagens principais. Também parece difícil entenderem que a guerra já estava acontecendo há 8 anos mas, curiosamente, só quando a Rússia reagiu é que os “pacifistas” se escandalizaram. Lembra muito o horror que surge quando uma bombinha Palestina atinge Israel alertando os “pacifistas” – que saem as ruas vestindo branco e pedindo paz – mas são os mesmos que respondem com absoluta apatia quando ocorrem os repetidos massacres em Gaza (que os sionistas tratam como “mowing the lawn” – aparar a grama).

Pois agora aparecem oportunistas que são contra a Guerra da Ucrânia, mas sequer ficam com a cara vermelha ao apoiar nazistas “old school” – que sequer podem ser chamados de neonazis, porque de novo nada têm. Querem a paz, mas só a paz do domínio, da submissão e do silêncio.

Em nome de uma russofobia e um ódio infantil à “pessoa do Putin” (e não sua política nacionalista e seu governo de direita) aceitam de bom grado passar pano para fascistas e assassinos, que queimaram mais de 50 pessoas vivas em um sindicato em Odessa, construíram laboratórios para guerra química, amarram cidadãos em postes, espancam ciganos e aniquilaram – através de suas brigadas de ultradireita – mais de 14 mil cidadãos em Donetsk e Lugansk desde o golpe de 2014

Por que apenas agora a guerra se tornou inaceitável? Por que admitiram até então que um país dominado por nazistas se juntasse à OTAN e se armasse com bombas atômicas ao mesmo tempo em que rasgavam o acordo de Minsk? Por que se negaram a perceber que uma ogiva nuclear em Kiev leva 4 minutos para atingir Moscou e estaria sendo colocado em uma cabeça de ponte da OTAN na Europa Oriental? Qual país no mundo inteiro aceitaria essa ameaça no seu vizinho? Por certo que o Império americano não, visto que a crise dos mísseis de Cuba em 1963 teve a mesma motivação.

É impossível não se indignar quando vemos xenofobia e desrespeito à todas as pessoas que defendem a Rússia e que cometem o “crime” de refletir com conhecimento de causa e sensatez, fugindo da propaganda imperialista massacrante, entreguista e oportunista que nos invade. A mesma imprensa corporativa que, em nome dos interesses do sistema financeiro internacional, emporcalha redações e redes de TV com mentiras que transformam nazistas declarados em “nacionalistas” e “forças da resistência”.

Estar contra o Putin (que é um direitista, autoritário, anticomunista e, talvez, homofóbico – who cares??) significa cerrar fileiras com a OTAN e a barbárie maligna e genocida do Império americano. Putin, por mais defeitos que tenha, está do nosso lado, lutando por um mundo multipolar, contra o Imperialismo corrupto e racista. Muitos ainda confundem a paz com a falta de reação e a apatia diante da violência imposta. Muitos mais acreditam numa “pax americana”, onde o imperialismo reinaria sem reação. Esta é uma visão ingênua e paradoxalmente violenta, pois condena muito mais pessoas à opressão e à morte.

Ninguém que se diga de esquerda pode estar ao lado dos golpistas ucranianos e do Império Americano. Uma improvável vitória dos nazistas da Ucrânia poderia determinar as bases irreversíveis para uma terceira guerra mundial. Aí reside o maior paradoxo: os pacifistas pró imperialismo e defensores da OTAN esperam como resultado desse conflito algo que inevitavelmente levaria a uma guerra de proporções catastróficas.

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De novo o imperialismo…

An American cartoonist in 1888 depicted John Bull (England) as the octopus of imperialism, grabbing land on every continent.

Sem querer ser ofensivo….

De onde a esquerda liberal tirou a ideia de “Imperialismo russo”? As repúblicas TODAS da URSS se desmembraram sem disparar um tiro sequer quando ocorreu a queda da União Soviética. Que imperialismo é tão mansinho assim? Pergunta se o Havaí ou Porto Rico poderiam fazer o mesmo, caso seus movimentos separatistas tomassem corpo.

Que imperialismo é esse que nunca invade ninguém desde os anos 50 na guerra fria, e por razões meramente de política local? Que expansionismo russo é esse? Pois parece o dinheiro “roubado pelo Lula” que não aparece em lugar nenhum…

Que imperialismo é esse sem domínio econômico, político, cultural e militar e que não tem NENHUMA influência econômica fora do raio de ação dos seus vizinhos (como o Brasil ou Argentina).

Está no DNA dos russos a ideia de que o Ocidente vai invadir, e eles sabem que precisam eternamente se defender. Foi assim com Napoleão, depois na guerra civil e por fim com o Führer. Em todas o povo russo unido se defendeu. Eles sabem que qualquer desatenção pode ser a última.

Não consigo entender como esse mito proliferou, em especial na esquerda liberal…

Como disse bem Mário Berlese:

“Não se pode usar aleatoriamente a definição de “imperialismo” através de um arsenal de senso comum sem ter a mínima noção do conceito.

Em primeiro lugar, a “anexação territorial” não é um elemento definidor do conceito de imperialismo, mas um fator de conjuntura específica, quando países de economias monopolistas altamente desenvolvidas entram em choque por áreas de influência. O que nem de longe pode ser considerado o caso da Rússia.

A ideia central que Lênin expõe em “Imperialismo, fase superior do capitalismo” é que um país só pode ser considerado imperialista se sua economia for desenvolvida a tal ponto que sua espinha dorsal será sustentada pela exportação monopolista de capital financeiro, tendo em vista que o alto desenvolvimento de seu capital interno concentrado não mais o permite crescer dentro dos seus limites territoriais, o que força tais países a se lançarem desenfreadamente à imposição predatória e parasitária contra países de economias atrasadas. O que, definitivamente, está MUITO LONGE de ser o caso da Rússia.

A guerra da Rússia contra a Ucrânia não tem rigorosamente nada a ver com o expansionismo do capital financeiro, pois economia do russa é subdesenvolvida, seu sistema especulativo é atrasado e sua base de sustentação é o extrativismo – o que é uma característica típica de países retardatários, explorados pelo imperialismo.

Ao contrário dos Estados Unidos, Inglaterra e França, a Rússia não possui nenhum tipo de relação colonial contra nenhum país do mundo. “Rússia imperialista” é a terra plana do marxismo. Ninguém leva a sério.”

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Nicarágua

Minha perspectiva sobre o apoio das esquerdas ao povo da Nicarágua…

Creio que o equívoco está em confundir o apoio à Nicarágua com “camaradagem internacionalista”, quando na verdade o que temos é uma luta sem tréguas contra o imperialismo. TODAS as alternativas oferecidas aos polos de luta contra o poder imperial – Cuba, Venezuela, Nicarágua, Coreia do Norte – têm oferecido como solução aos possíveis desmandos das administrações locais a volta da submissão ao poder colonial, a abertura unidirecional de fronteiras, a adoção da democracia burguesa e o abraço ao neoliberalismo moribundo e infecto.

Tão importante é essa luta anti-imperialista que as esquerdas radicais de várias partes do mundo comemoraram a vitória de anticomunistas fascistas no Afeganistão porque a derrota do imperialismo naquele país seria a única maneira de fazer no futuro o socialismo prosperar na Ásia Central. Enquanto estivesse ocupado o Afeganistão jamais conseguiria organizar uma revolução socialista. Portanto, para a derrota do poder imperial – destruidor e asfixiante – até a vitória da direita contra os imperialistas pode ser contada como positiva.

A Nicarágua que resolva seus problemas internos, assim como o Brasil, sem a interferência do Império. Até porque, citar Nicarágua e não falar das matanças sistemáticas na Colômbia ou a falta de direitos humanos na península arábica nada mais é do que a hipocrisia escancarada da nossa sociedade.

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