Quinn’s Caffee

Garrett resgatou o cigarro perdido no bolso do casaco amassado e olhou-o como quem tenta descobrir se ainda presta. Pediu ao barman uma caixa de fósforos e acendeu seu último, anunciando que não se demoraria. Deu duas baforadas e o deixou repousando entre os dedos, enquanto tamborilava no balcão uma música que ele cantava solitariamente em sua própria cabeça, produzindo pequenas ondas no scotch à sua frente. Depois de uma pequena pausa, voltou seu olhar para Elsie e falou com a voz rasgada pelas duas carteiras diárias de cigarro.

– Não seja tola, garota. Não é a justiça que lhe move, Elsie, é o ódio. Você adora se enganar com sua caridade, sua postura superior e sua defesa dos oprimidos. Mas sua bondade não passa de uma grosseira encenação. Sua justiça é uma farsa, tão bem montada que engana a todos, menos o seu velho Garrett.

Elsie deixou que uns poucos segundos passassem em branco, o suficiente para escutar a máquina de café girar seu motor na mesinha à frente do barista. Repousou suas mãos no guardanapo à frente e olhou Garrett por cima dos óculos de aros redondos.

– Nada do que eu lhe diga o fará mudar de ideia, não é? Você me julga por si mesmo e acredita nessa mentira porque é a matéria que lhe constitui. Não consegue enxergar para além dos limites de si mesmo. Você é um velho patético, Garrett. Não passa de um bêbado, uma fraude.

Garrett não segurou uma risada, misturada com uma tosse carregada.

– Sua arrogância nada mais é do que uma metástase do seu ressentimento, darling. Infelizmente não há sinceridade no amor que você pensa dedicar aos desvalidos, sequer um real desejo de que eles abandonem o mundo de privação que os sufoca. Ele é puro teatro, mas você finge tão bem que engana a si mesma. Sua caridade é a fantasia traiçoeira do desprezo que nutre pelo mundo. Quando confrontada sua essência se reduz a isso.

Apontou o dedo indicador para o cinzeiro à frente onde as cinzas do cigarro repousavam indiferentes e amorfas. Garret se levantou e acenou para o barman, deixando o local sem dizer mais nada.

Austin MacKay, “Into the Depths of Nothing”, ed. Parliament, pag 135

Austin Phillip MacKay é um escritor escocês, nascido em Iverness em 1965. Estudou artes dramáticas e literatura na University of Aberdeen, onde passou a viver depois de concluir seus estudos secundários. Filho de um ator de teatro e uma enfermeira, dedicou-se muito cedo à escrever sobre ficção científica, uma de suas maiores paixões (além do Celtics). Seu primeiro livro foi lançado em 1990 e se chamava “When there is Only Dust” (Quando houver apenas pó), uma distopia que combina ficção científica, catastrofismo, futuros caóticos e pessimismo escocês. Foi bem recebido pela crítica de seu país, recebendo um prêmio pela obra, o “Booker Prize”, premio escocês de literatura na categoria jovem escritor. Também colaborou com inúmeras revistas especializadas em contos de ficção, como “UFO Scott”, “Outer Paradise” e uma que ele mesmo criou com o novelista Noel Burr “SOS to Earth”. Em “Into the Depths of Nothing” (Nas Profundezas do Nada) Austin conta a história da relação tempestuosa entre dois cientistas responsáveis pelo “Projeto Nova Vida”, uma força tarefa internacional de colonização de outros planetas. Garrett é um cínico, alcoolista, depressivo e gênio projetista da NOAH, nave que carregará milhares de pessoas para a colonização de um planeta que ainda mantém condições de habitabilidade. Elsie é a executiva que está responsável pela gigantesca seleção de passageiros que terão o direito de embarcar nessa missão. Os embates entre ambos se dão na contraposição do idealismo romântico de uma e o pragmatismo depressivo do outro. Na tensão desses encontros se forma a conexão magnética entre ambos, que os coloca em contraponto diante da tragédia que se avizinha. Austin é casado com Leslie Thorpe e tem 3 filhos: James, Cameron e Alba. Mora em Edimburgo – Escócia.

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