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Vitrines

Profissionais que mostram uma versão muito bonitinha e cor de rosa de si mesmos(as) atraem uma “energia” muito difícil de lidar: inveja, desdém, fofocas e competição por espaço. Ainda vivemos em uma sociedade de hiper exposição, mas no futuro haverá uma necessária retração, pois a ausência de limites claros entre vida profissional e privada cobrará um preço cada vez maior.

Colocar-se na vitrine, expondo apenas o glamour de seus momentos de sucesso é sempre arriscado; desinstituir-se é o caminho mais seguro. E, acima de tudo, a vida é curta demais para levar a si mesmo tão a sério.

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Quinn’s Caffee

Garrett resgatou o cigarro perdido no bolso do casaco amassado e olhou-o como quem tenta descobrir se ainda presta. Pediu ao barman uma caixa de fósforos e acendeu seu último, anunciando que não se demoraria. Deu duas baforadas e o deixou repousando entre os dedos, enquanto tamborilava no balcão uma música que ele cantava solitariamente em sua própria cabeça, produzindo pequenas ondas no scotch à sua frente. Depois de uma pequena pausa, voltou seu olhar para Elsie e falou com a voz rasgada pelas duas carteiras diárias de cigarro.

– Não seja tola, garota. Não é a justiça que lhe move, Elsie, é o ódio. Você adora se enganar com sua caridade, sua postura superior e sua defesa dos oprimidos. Mas sua bondade não passa de uma grosseira encenação. Sua justiça é uma farsa, tão bem montada que engana a todos, menos o seu velho Garrett.

Elsie deixou que uns poucos segundos passassem em branco, o suficiente para escutar a máquina de café girar seu motor na mesinha à frente do barista. Repousou suas mãos no guardanapo à frente e olhou Garrett por cima dos óculos de aros redondos.

– Nada do que eu lhe diga o fará mudar de ideia, não é? Você me julga por si mesmo e acredita nessa mentira porque é a matéria que lhe constitui. Não consegue enxergar para além dos limites de si mesmo. Você é um velho patético, Garrett. Não passa de um bêbado, uma fraude.

Garrett não segurou uma risada, misturada com uma tosse carregada.

– Sua arrogância nada mais é do que uma metástase do seu ressentimento, darling. Infelizmente não há sinceridade no amor que você pensa dedicar aos desvalidos, sequer um real desejo de que eles abandonem o mundo de privação que os sufoca. Ele é puro teatro, mas você finge tão bem que engana a si mesma. Sua caridade é a fantasia traiçoeira do desprezo que nutre pelo mundo. Quando confrontada sua essência se reduz a isso.

Apontou o dedo indicador para o cinzeiro à frente onde as cinzas do cigarro repousavam indiferentes e amorfas. Garret se levantou e acenou para o barman, deixando o local sem dizer mais nada.

Austin MacKay, “Into the Depths of Nothing”, ed. Parliament, pag 135

Austin Phillip MacKay é um escritor escocês, nascido em Iverness em 1965. Estudou artes dramáticas e literatura na University of Aberdeen, onde passou a viver depois de concluir seus estudos secundários. Filho de um ator de teatro e uma enfermeira, dedicou-se muito cedo à escrever sobre ficção científica, uma de suas maiores paixões (além do Celtics). Seu primeiro livro foi lançado em 1990 e se chamava “When there is Only Dust” (Quando houver apenas pó), uma distopia que combina ficção científica, catastrofismo, futuros caóticos e pessimismo escocês. Foi bem recebido pela crítica de seu país, recebendo um prêmio pela obra, o “Booker Prize”, premio escocês de literatura na categoria jovem escritor. Também colaborou com inúmeras revistas especializadas em contos de ficção, como “UFO Scott”, “Outer Paradise” e uma que ele mesmo criou com o novelista Noel Burr “SOS to Earth”. Em “Into the Depths of Nothing” (Nas Profundezas do Nada) Austin conta a história da relação tempestuosa entre dois cientistas responsáveis pelo “Projeto Nova Vida”, uma força tarefa internacional de colonização de outros planetas. Garrett é um cínico, alcoolista, depressivo e gênio projetista da NOAH, nave que carregará milhares de pessoas para a colonização de um planeta que ainda mantém condições de habitabilidade. Elsie é a executiva que está responsável pela gigantesca seleção de passageiros que terão o direito de embarcar nessa missão. Os embates entre ambos se dão na contraposição do idealismo romântico de uma e o pragmatismo depressivo do outro. Na tensão desses encontros se forma a conexão magnética entre ambos, que os coloca em contraponto diante da tragédia que se avizinha. Austin é casado com Leslie Thorpe e tem 3 filhos: James, Cameron e Alba. Mora em Edimburgo – Escócia.

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Desatenção

Mais uma vez eu estava saindo do Bazaar sem comprar o que tinha em mente. “Não temos seu número”, disse a simpática vendedora. Ok, pensei eu. Afinal, para ser bem franco, eu não tinha mesmo nenhuma necessidade de comprar nada, muito menos um “tênis para longas caminhadas” em promoção. Bastou a menina da loja me dizer que não poderia satisfazer meu impulso consumista e um alívio tomou conta de mim. Melhor assim. Volto para casa de mãos vazias, mas com a consciência limpa.

Ao dobrar o corredor da cafeteria em direção ao estacionamento eu percebi meu colega Tarik sentado sozinho em uma mesa, absorto com seu celular nas mãos. Encontrei Tarik há muitos anos, ainda na faculdade, e fui o responsável direto pela sua entrada no nosso grupo de trabalho. Conhecia seu serviço e gostava de sua dedicação e iniciativa. Achei, desde o início, que ele poderia somar no trabalho que estávamos iniciando e acreditei que sua presença poderia acrescentar dinamismo aos nossos projetos.

Desviei meu caminho da saída e me dirigi à sua mesa.

– Tarik, tudo bem? Como vai?

Ele me olhou com surpresa, mas de forma pouco expressiva. Eu me sentei à sua frente enquanto ele me dava um “olá” sem muito esforço. Animado pelo encontro fortuito eu lhe disse:

– Eu precisava mesmo conversar contigo rapidamente sobre o que pretendemos fazer no departamento. Estamos com planos importantes e gostaria muito de saber sua opinião e sua posição sobre o que decidiremos na próxima quarta-feira.

Tarik me olhou impassível por alguns instantes e após esta pausa disse:

– Ok, aguarde um instante. Vou buscar o café.

Levantou-se da cadeira e dirigiu-se à cafeteria à frente. Passados alguns instantes ele voltou com uma bandeja que continha uma xícara de café. Olhou-me nos olhos e disse:

– Bem, o que você queria mesmo me dizer?

Foi naquele momento, quando me dirigiu a pergunta, que eu entendi o que, até então, eu havia sido incapaz de perceber. Imediatamente tudo passou a fazer sentido e fui tomado por grande constrangimento. Literalmente eu não sabia o que dizer ou fazer. Por certo que ali estava mais um gigantesco erro meu: uma arrogância imensa e uma profunda incapacidade de enxergar por detrás do meramente aparente à visão desarmada. Fui envolvido por uma nuvem escura de desapontamento, uma vergonha súbita e constrangedora. Baixei o olhar e o fixei mais uma vez no café, seus matizes de marrom e negro, seu vapor hipnótico e seu odor cativante.

– Nada, Tarik, nada. Não era nada. Olha, eu falo com você outra hora, talvez na quarta-feira, antes da reunião. Preciso sair agora. Foi um prazer lhe ver. Mande um abraço para Laila.

Estiquei a mão e cumprimentei Tarik antes de sair. Senti em sua mão um aperto frouxo. Olhei para ele à minha frente e pensei: “Que tipo de pessoa poderia comprar uma única xícara de café ao conversar com um amigo e tomá-la sozinho, sem qualquer constrangimento?”

A resposta era simples: alguém que tinha por mim profundo desprezo. Agora estava explicada a reação de Tarik ao me ver: ele estava claramente constrangido com minha falta de percepção dos seus sentimentos. Eu nunca havia percebido o ódio que Tarik nutria por mim, e o quanto ele me desconsiderava como colega. Estivera ali, por todos esse tempo, e eu nunca fui capaz de enxergar.

Por muitos anos depois desse dia continuei sentindo o gosto amargo da vergonha ao me lembrar de tamanha desatenção. Infelizmente ela aparece com mais frequência no momento em que fixo meus olhos em uma uma xícara fumegante de café.

Aisha Boukhalfa, “Oásis de Ideias”, ed. Sextante, pág 135

Aisha Boukhalfa é uma escritora argelina nascida em Batna, em 1975. Fez seus estudos em Argel na Benyoucef Benkhedda Universidade de Argel, tendo se graduado em jornalismo em 2005. A partir de então tem se ocupado com o movimento feminista argelino, a participação no partido Comunista da Argélia e seu trabalho como doula atendendo partos nas cidades de Argel, Blidas e Boumerdas. Por seu ativismo feminista e seu trabalho como doula ela acabou se tornando cronista, e suas histórias acabaram se transformando em livro. “Oásis de Ideias” é uma coletânea de histórias sobre suas experiências, em especial com o trabalho com gestantes em um país onde os direitos reprodutivos e sexuais ainda estão muito defasados quando comparados com a Europa ocidental. Suas crônicas são distribuídas através do seu blog pessoal e do Facebook. Mora em Argel e é casada com o enfermeiro Omar Boukhalfa, com quem tem uma filha nascida de parto domiciliar chamada Iasmin.

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Enfermeiras Padrão

Quando eu comecei a trabalhar em hospitais a Enfermeira Padrão era a enfermeira diplomada, com curso superior. Naquele tempo ainda existiam as auxiliares de enfermagem, que eram pessoas sem qualquer formação, apenas prática. No hospital da periferia de Porto Alegre onde trabalhei por 4 anos, no início dos anos 90, ainda havia auxiliares de enfermagem que atendiam os partos, quando o convênio pagava pouco ou para deixar o médico dormir. Eram mulheres que entraram no hospital como auxiliares de limpeza e foram “progredindo na carreira”. Tornaram-se, muitas delas, “parteiras” cujo aprendizado se deu no auxílio aos médicos e junto às outras parteiras mais experientes. Seriam “parteiras tradicionais urbanas”, por seguirem uma “tradição” de assistência e serem oriundas do povo, e não das escolas ou da Academia.

Algumas delas eram espertas e muito hábeis. Foi com uma dessas auxiliares que aprendi na prática a ação da água no trabalho de parto. Mal as pacientes começavam a esboçar algum tipo de desespero e ela as colocava debaixo do chuveiro quente. “Vamos secar a caixa d’água do hospital, doutor” dizia ela dando risadas.

Entretanto, apesar de uma certa sabedoria oriunda da experiência, seu conhecimento de partos era limitado às práticas violentas que testemunhavam cotidianamente. Assim, a assistência que davam mimetizava as más condutas que observavam no procedimento médico. Seus partos eram na posição de litotomia (pacientes deitadas de costas na maca), faziam episiotomias, kristeller, gritos, comandos, luzes fortes ligadas, corte prematuro do cordão, etc e tudo aquilo que há 30 anos já sabíamos ser inadequado. Elas eram, mesmo sem o saber, o espelho justo de uma assistência indigna às mulheres.

Quando cheguei no plantão resolvi (como sempre) botar o pé na porta. Decidi no primeiro dia que no meu plantão os partos seriam todos na posição de cócoras (como padrão), cesarianas seriam marcadas com indicação clara (o que produzia ódio nos anestesistas que eram obrigados a comparecer de madrugada ao hospital) e decidi abolir por completo as episiotomias. Também o bebê seria colocado no colo da mãe após o nascimento.

É evidente que minha passagem pelo hospital foi marcada por perseguições. Numa instituição com 45% de cesarianas, e que atendia quase exclusivamente SUS, ter um médico que tinha 10% de intervenções gerava inconformidade e resistência.

Entretanto, a raiva dos médicos era compreensível. Sabia que isso abalava seu conjunto de crenças e, em especial, questionava seu poder absoluto sobre o corpo das mulheres. Dizer para uma mulher “fique na posição que desejar” é um tapa na onipotência médica, e isso não poderia ficar impune.

Contudo, eu não esperava a contrariedade das “parteiras”, as auxiliares diretas do meu trabalho. Sim, elas também não gostavam de ver um médico agindo diferente da cartilha que elas mesmas haviam aprendido. O que eu trazia de novo as incomodava e suspeito que isso tem a ver com fidelidade e dívida amorosa.

Acreditar que eu estava certo seria dar as costas aos seus antigos professores e tudo que eles lhes ensinaram com sua prática e seu exemplo. Seria trair seus mestres com a “velha novidade” que eu trazia. Isso parecia grave demais para elas. Era preferível continuar com os mesmos procedimentos violentos contra as gestantes – mulheres como elas – e manterem-se fiéis aos seus orientadores e referenciais do que se arriscar e fugir com o jovem aventureiro de ideias renovadoras. Mudar suas condutas seria uma crítica contundente e indisfarçável aos seus superiores.

“Se isso que o senhor faz fosse o certo todos estariam fazendo, seu doutorzinho do passo certo”, disse-me uma delas. E como não entender o medo da novidade, que carregava o risco de colocar por terra tudo que haviam aprendido a duras penas nos últimos 30 anos?

Sobrou da experiência uma válida reflexão: quem ousa mudar um paradigma sempre carrega essa carga: a incompreensão e a resistência serão os únicos resultados certos e obrigatórios. Mas, como eu aprendi muito cedo, é preciso agir por um imperativo ético, jamais pela promessa de sucesso ou para ser, finalmente, aceito e compreendido.

Também restou o agradecimento àquelas mulheres simples de onde retirei muitos ensinamentos válidos para toda a vida.

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