Ideologia, eu quero uma prá viver…

Ultimamente vejo as pessoas reclamando que o debate da ciência agora está politizado – e até partidarizado – exaltando ideologias em detrimento da “objetividade” da ciência positiva. Correntes filosóficas e perspectivas diversas tomam o lugar outrora ocupado por experimentos, estudos, gráficos, números e estatísticas. Entretanto, a ideia de uma ciência isenta me parece tão ingênua quanto uma justiça ou um jornalismo “imparciais”. Creio ainda que, aqueles que acreditam numa suposta isenção da ciência apenas ignoram a possibilidade de formas diferentes e alternativas de pensar e de analisar problemas científicos.

Pergunta honesta de alguém descrente das análises isentas e desapaixonadas: onde está a objetividade da ciência para o tratamento da tuberculose, que todos os anos mata milhões de pobres distribuídos pelos bolsões de miséria da África? Onde está a frieza científica quando milhões sucumbem à malária, à diarreia por desmame precoce, à fome endêmica, à pneumonia, à hipertensão? Por que não há para estas doenças a mesma mobilização que ora vemos para a Covid, que matará muito menos do estas nossas velhas conhecidas?

É preciso ver quem controla a ciência médica. Quem paga seus custos? Quem a financia? Pois basta uma doença ameaçar brancos e sujeitos da classe média dos países ocidentais para a nossa sociedade se erguer e exigir medidas tecnológicas imediatas, como vacinas e novas drogas, mobilizando recursos aos milhões nas pesquisas, logística e manufatura de medicamentos. Foi assim com a Aids e está sendo o mesmo agora com a Covid 19.

É como a tortura: nos escandalizamos (e com justiça) pelas torturas cometidas pela ditadura contra políticos, jovens militantes, mulheres e professores, mas ainda temos dificuldade de nos mobilizar quando a vítima é preto, pobre e bandido. Essa escolha é ideológica.

A ciência é – e sempre foi – ideológica. A simples escolha do que será investigado já é uma opção mediada pelos valores nos quais estamos inseridos. Quando nos apavoramos com uma doença e desconsideramos outras nossa visão já está impregnada de ideologia. E se você tiver o poder de tomar decisões o fará baseado nos valores que lhe afetam diretamente, e não necessariamente pelo que atinge e ameaça a maioria.

Escutei de um conselheiro do CRM há muitos anos uma frase cuja tolice marcante nunca consegui esquecer “Não existe ideologia na medicina, apenas boas e más práticas”. Para dizer isso era preciso negar a realidade que nos atropela: “a isenção da ciência só seria possível se os cientistas deixassem de ser… humanos”. Ignorar o mar de significantes que nos envolvem invocando uma objetividade ilusória é uma enfermidade que ataca muitos pseudo cientistas.

O que precisamos não é da ilusão de uma “ciência isenta”, mas sim de uma ciência democrática, onde as escolhas da ciência sejam tomadas em benefício da maioria e não para proteger o capital e quem o controla.

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Arquivado em Ativismo, Medicina

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