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Fim do Futebol. Será?

Hoje (18/09/2026) foi publicada na Internet uma manifestação dos clubes brasileiros em defesa das BETs. Clubes da Série A e federações de futebol se mobilizaram contra a possibilidade de o Governo Federal proibir os jogos de cassino on-line, argumentando que uma mudança brusca na regulamentação das apostas teria forte impacto financeiro no futebol brasileiro. As BETs autorizadas investem mais de R$ 1 bilhão por ano em patrocínios, beneficiando desde grandes clubes até equipes menores, futebol feminino, categorias de base e projetos sociais. No manifesto, as entidades reconhecem os riscos sociais associados às apostas e defendem maior fiscalização, prevenção e proteção aos consumidores, mas sustentam que a regulamentação é preferível à proibição, pois permite tributação e controle das empresas e combate às plataformas clandestinas, para as quais, segundo elas, os apostadores poderiam migrar caso o mercado legal fosse restringido.

O manifesto dos clubes brasileiros tem razão em alguns pontos, em especial ao dizer que poderia haver uma quebradeira nos clubes. Há contratos firmados com as BETS e muitos contratos de jogadores caros, comprados no exterior, estão ligados às receitas que seriam esperadas com tais contratos. É claro que estes aspectos não podem ser desconsiderados. A bancarrota de clubes tradicionais do Brasil, que fazem parte da malha de sustentação da cultura brasileira, e aquilo que nos define na mente de milhões de estrangeiros, não pode ser algo visto como positivo. Não se trata, portanto, de utilizar um remédio que, de tão forte, viesse a matar o paciente. os clubes brasileiros, em sua maioria, estão com situação financeira calamitosa, e o dinheiro das BETs ajuda e diminuir o impacto dos desastres financeiros causados por seus dirigentes.

Entretanto, enfrentar os assaltos a banco e prender os criminosos que os promovem também deixa muitas famílias em necessidade. Não há como justificar as BETs apenas porque ela ajuda o futebol a pagar suas contas. Existem inúmeros estudos mostrando o desastre que as apostas causam nas famílias do Brasil. O Banco Central estimou que, apenas entre janeiro e agosto de 2024, cerca de 24 milhões de brasileiros fizeram apostas on-line, movimentando aproximadamente R$ 20,8 bilhões por mês. O problema é especialmente grave entre famílias de baixa renda: análise do TCU encontrou cerca de 802 mil famílias beneficiárias do Bolsa Família que, em janeiro de 2025, comprometeram mais de 2% de sua renda com apostas, faixa considerada de alto risco para despesas essenciais e endividamento. Além da perda financeira, o Ministério da Saúde relaciona o jogo problemático a endividamento, conflitos e rompimento de vínculos familiares, problemas de saúde mental, perda de emprego e maior risco de suicídio, estimando, com base na literatura científica, que cada pessoa que desenvolve transtorno do jogo pode afetar outras seis ao seu redor. A preocupação tornou-se suficientemente grande para que o governo passasse a impedir beneficiários do Bolsa Família e do BPC de manter contas nas plataformas licenciadas; até agosto de 2026, cerca de 3 milhões de beneficiários haviam sido bloqueados.

Há um outro fator importante. Quanto mais dinheiro é envolvido nas apostas maior será a sedução para alterar o resultado dos jogos para favorecer apostadores. O aspecto particularmente preocupante da era das BETs on-line é o spot-fixing: não é mais necessário combinar quem vai ganhar ou perder a partida. Um jogador pode manipular algo aparentemente secundário — tomar um cartão, cometer uma falta, provocar um escanteio ou alterar uma estatística individual — e isso já pode movimentar apostas. Foi justamente esse modelo que apareceu com força na Operação Penalidade Máxima brasileira. Inúmeros jogadores e clubes estiveram envolvidos em escândalos dessa natureza, e as absolvições de alguns deles certamente passa por uma ação paternalista da justiça com clubes de enorme torcida. Entre eles temos Bruno Henrique (Flamengo), Ivan Toney (Inglaterra), Sandro Tonalli (Itália), Alef Manga (Coritiba) e muitos outros, inclusive de equipes menores que sequer tomamos conhecimento. E isso não ocorre apenas no futebol; no Beisebol ocorreram escândalos semelhantes. No Chicago White Sox, em 1919, oito jogadores foram acusados de participar de um esquema para entregar partidas da World Series para o Cincinnati Reds. Todos foram banidos. Também no basquete, onde Jontay Porter em 2024 foi banido da NBA por passar informações confidenciais a apostadores sobre o próprio desempenho.

Eu também sou contra o proibicionismo. Acho que devemos dar a liberdade às pessoas para que estas façam escolhas informadas sobre seu destino – inclusive seu dinheiro. Entretanto, vejo na questão das BETs um fenômeno parecido com aquele que eu testemunhei há mais de 30 anos quando cortaram a publicidade do cigarro da Formula 1 e posteriormente das televisões. Isso acarretou um lento e sustentado declínio do tabagismo, que se sustentava não por uma adesão livre do sujeito ao cigarro, mas por um massacre de propaganda e vinculação desse hábito com o “sucesso”. Bastou cortar a fonte de publicidade e o consumo de cigarros iniciou seu declínio, o que causou uma melhoria importante na taxa de mortes por câncer de pulmão. A logica é que se percebe na reação dos clubes pelo temor que o novo governo possa obstaculizar as BETs é exatamente essa. Lembro do Armindo Antônio Ranzolin, radialista e dirigente da ABERT nos anos 90, lendo uma carta aberta da sua associação onde se posicionavam de forma veemente contra a proibição de propagandas de cigarro na TV. Veja, não tiveram sequer escrúpulos para defender propaganda de cigarro, que matava milhões no mundo todo, um veneno reconhecido há décadas. A grana do cigarro deixou de fluir, e o mesmo poderá acontecer com as BETs.

O futebol está sendo sustentado por gente doente, apostadores que vendem a alma pelos seus vícios. Não existe “diversão” em apostar; esta é uma mentira vendida para disfarçar os mecanismos psicológicos que prendem um sujeito ao jogo. Devemos permitir que isso aconteça? Podemos considerar que a opção por jogar é uma opção livre? Podemos desconsiderar a pressão da propaganda massiva sobre a população? É lícito não reconhecer o efeito hipnótico dos ganhos fáceis em uma população massacrada pela barbárie do capitalismo decadente? Ou devemos escolher uma opção sanitária, baseada na diminuição dos danos, constrangendo os empresários de apostas que se aproveitam do desespero da população para lucrar? Cabe salientar o momento em que esta campanha veio à tona: um mês antes das eleições. Os dirigentes de futebol do Brasil são em sua imensa maioria pertencentes às classes mais altas, e muitos deles são do partido de direita do ex presidente Bolsonaro. Não existiria aí a intenção de colocar as torcidas do Brasil contra a esquerda, que por muitas vezes cogitou ações contra o “Império Milionário das BETs”?

O fim das BETs provavelmente traria uma convulsão no mundo do esporte, mas com o tempo o futebol se adaptaria. Talvez tenham que pagar menos de 2 milhões mensais para técnicos importados da Europa. É possível que alguns jogadores tenham seus salários cortados pela metade ou bem menos. Mas com o tempo isso seria bom para o futebol.

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NAZA

Os dois cineastas israelenses, Yuval Abraham e Rachel Szor, que produziram o documentário NAZA, já opdem ser considerados heróis contemporâneos. NAZA (2026) é uma investigação sobre o funcionamento interno da máquina militar e de inteligência de Israel durante a guerra em Gaza. Construído principalmente a partir dos depoimentos anônimos de 24 integrantes e ex-integrantes das forças armadas e dos serviços de inteligência israelenses, o filme revela como sistemas de vigilância, inteligência artificial e critérios burocráticos são empregados na seleção de alvos para bombardeios, incluindo cálculos prévios do número de civis que poderão morrer — justamente a ideia expressa pelo termo militar “NAZA”, relacionado às baixas civis esperadas. Filmadas discretamente, muitas vezes à noite em telhados de Tel Aviv, as entrevistas descrevem decisões tomadas diante de telas, nas quais casas habitadas e famílias inteiras podem ser reduzidas a números e parâmetros operacionais. Em vez de recorrer principalmente a imagens gráficas da destruição, Abraham e Szor concentram-se na burocratização e desumanização da violência, mostrando como pessoas comuns passam a funcionar como pequenas peças de um sistema capaz de produzir mortes em escala industrial. É inegável seu esforço em expor para o mundo as imagens do genocídio que ocorre na Palestina. Seu filme mostrou a podridão da sociedade israelense, a depravação racista e supremacista do sionismo. Centenas de jornalistas, pensadores, historiadores, intelectuais e ex-soldados do IDF há décadas nos alertam para os crimes de Israel, mas nada como um documentário feito por judeus israelenses para trazer aos nossos olhos depoimentos dos próprios criminosos, confessando seus delitos. Ambos provaram, com imagens e documentos, a matança vergonhosa de Israel e a psicopatia dos seus governantes.

O filme, pela reação do público no Festival de Veneza (25 minutos de aplausos, um recorde) e pela repercussão internacional parece ser um verdadeiro divisor de águas. Nas redes sociais só o que se fala é “quando chega aqui?”. A recepção mundial do documentário mostra que Israel está vivendo seus estertores, seu final aterrorizante e sua derrocada definitiva, ao mesmo tempo em que testemunhamos o despertar da consciência sobre o horror da sociedade de Israel. O apartheid, o racismo, o colonialismo, as expulsões de terras, as humilhações, o culto à morte, o assassinato de crianças, os massacres em campos de refugiados e nas filas por comida, as crianças queimadas vivas ou esfomeadas de propósito; nada disso poderia ser escondido eternamente.

O Nakba – a catástrofe da tomada da Palestina por sionistas europeus – não foi um fato ocorrido e circunscrito no passado, mas um evento em curso. A segregação, os muros, o racismo, a proibição de circular pelo próprio país dos seus ancestrais estão acontecendo nesse instante para os palestinos, agora mesmo, enquanto você lê este texto. O mundo acordou para a necessidade de exterminar o supremacismo de Israel. Não há mais como a civilização conviver com apartheid, etnocracias e colonialismo.

Já existem retaliações e ameaças dirigidas aos diretores do documentário, mas ao mesmo tempo mais de mil cineastas israelenses assinaram um documento em apoio aos colegas, ameaçados inclusive de serem expulsos de Israel. Mas, com o passar do tempo, os sionistas que serão penalizados pelos seus crimes, e o mundo inteiro se levantará contra o sionismo abjeto e criminoso que destrói milhares de vidas na Palestina. Malditos sejam aqueles que tentam normalizar ou justificar a morte de 20 mil crianças. Nem os piores nazistas aceitariam isso.

Chega.

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Novidade eleitoral

Parece que apareceu o candidato ideal para os religiosos envergonhados. Sim, aquela turma “do bem”, que é caridosa, que ajuda os pobres, que se emociona com filmes da sessão da tarde, que colabora na Igreja, que doa roupas na sociedade espírita, que toma passe no terreiro, que tem amigos negros e um parente gay. Chegou o cara para os “nem-nem”, o sujeito que pode nos livrar de votar no filho do miliciano, o mesmo que está por trás do crime organizado, totalmente entranhado nas milícias, envolvido no Dark Horse (O Pangaré Preto) e que se borra quando fica nervoso.

A sua chegada também ajuda quem não quer votar na esquerda, não porque seu candidato se afastou do povo, “endireitou-se”, buscou alianças espúrias com as elites predatórias, frustrou expectativas, não melhorou a condição da classe média e não incentivou a transformação radical do país na direção do socialismo. Não, isso é menos importante do que evitar que um candidato retirante nordestino e sem curso superior venha a ganhar novamente eleições, até porque do nordeste seus eleitores só curtem as praias e nem gostam muito “daquela gente”.

Talvez esse candidato também não confie na entrega do Brasil no colo dos americanos e a consequente perda da autonomia e soberania nacionais. Por outro lado, é possível que esse candidato acredite que a esquerda no poder pode nos levar ao “comunismo”, mesmo com um presidente explicitamente anti-comunista. Certamente ele se equilibra bem sobre o muro. E sobre o identitarismo, ele já veio com a fórmula perfeita: tecnologia, usando drones para pegar maridos abusivos. Que sacada!!

Esse cara, pelo vazio de suas propostas, pela falta de talento político, pela superficialidade de sua literatura de autoajuda e pela sua inexperiência no trato com a coisa pública, é o candidato ideal para os místicos, os “Jesus te ama”, a turma do “amor vencerá”, do empreendedorismo oportunista e para o pessoal do “pensamento positivo”. Ao mesmo tempo em que exalta o “espírito empreendedor”  para transformar todo brasileiro pobre em dono de “start up”, ele enxerga o comunismo como uma ameaça por demais radical, mesmo que possa melhorar a vida de 90% dos brasileiros. Não há como saber ainda, mas é possível que seu sonho molhado seja que o nosso atual presidente seja sequestrado pelos americanos e seu sucessor possa oferecer aos invasores nossas riquezas. Sem lutas e revoluções, usando apenas a ferramenta do amor. 

Enquanto isso, o candidato diferente de tudo isso que encontramos nas entrevistas da Globo, e que deseja romper com a divisão da sociedade em classes, a propriedade privada dos meios de produção e que luta por uma sociedade justa e solidária não tem espaço para oferecer sua alternativa ao grande público. Para a Globo e o TSE, esse candidato é “apimentado” demais para o capitalismo brasileiro.

 Veremos onde isso vai dar…

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Milícias e Escândalos

Sabem porque eu acho que revelar as ligações do Flávio com o crime organizado e as milícias não vai surtir um grande efeito eleitoral? Na verdade, creio que estas ligações com o submundo não produzem nenhum efeito deletério para as candidaturas da direita. Digo isso porque o brasileiro médio não acha a milícia uma coisa ruim. Lembram do Bolsonaro exaltando os grupos de extermínio da Bahia e convidando para virem ao Rio estabelecer seu domínio? Na época quem reclamou? Quem se escandalizou? Quem deu voz de prisão a ele? O mesmo com os elogios ao Brilhante Ustra. Quem agiu em nome da democracia e dos direitos humanos? Quem bradou contra esse crime?

Poucos….

No Brasil, e em muitos outros lugares, as pessoas não são contra a tortura e o extermínio feitos pela polícia. Olhem os comentários nas notícias de linchamentos de assaltantes, ou dos ladrões que foram perseguidos pela vítima e morreram atropelados por furtarem um celular. Lembrem do governador “Na cabecinha Witzel” e seu elogio à execução sumária e os pulinhos ridículos de comemoração? O brasileiro médio deplora a tortura que sofre, e pelas múltiplas formas que ela lhe atinge, mas não a tortura aplicada aos outros – em especial pretos e pobres.

O mesmo ocorre com a ligação aos grandes escândalos financeiros, como a ligação de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. Para boa parte do eleitorado da direita brasileira, esse envolvimento apenas demonstra o poder do candidato, capaz de influenciar a pauta nacional e movimentar somas gigantescas. O fato de solicitar intervenção americana na soberania brasileira também é um sinal de poder. De acordo com as definições modernas, que nos permitem chamar os tempos atuais de “A era dos Canalhas“, Flávio Bolsonaro incorporaria os elementos do herói neoliberal, sem caráter e sem escrúpulos, mas vitorioso no embate pelo poder. 

Não quero criminalizar a sensação de insegurança do povo e o alívio que um extermínio do “mal” ilusoriamente oferece, mas não podemos ser ingênuos de acreditar que somos um povo pela paz. Ofereçam milicianos e muitos vão aplaudir. Diante de um sujeito imoral e canalha, muitos vão acreditar que se trata da melhor escolha. Mortes causadas pela polícia da mesma forma passam a ser celebradas. Enquanto tivermos uma sociedade de classes haverá insurgentes contra sua injustiça estrutural, e essa reação fará o pobre achar que estará mais seguro sendo “protegido” por milicianos e contraventores. 

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Apagamentos

A ideia de falar sobre qualquer tema sem freios e com plena liberdade ainda causa controvérsias. Para muitos, em especial para a esquerda identitária, alguns debates são opressivos, pois ofendem grupos oprimidos e podem gerar dano. É o que se chama “palavras que matam”, ou “discurso de ódio”. Isso está por trás de projetos como o da Misoginia ou o famigerado projeto para criminalizar críticas a Israel, pois levariam ao antissemitismo e ao holocausto.

Para quem defende essas pautas existem temas que não podem ser expressos publicamente. Por essa lógica, não poderemos falar de coisas que podem afetar negativamente as pessoas. Tipo, comunismo. Não pode falar, afinal o comunismo “matou milhões”. Não podemos criticar Israel, pois…. ora, Holocausto. Não podemos falar da ditadura militar pois ela salvou o Brasil do… comunismo, ora. E a lista vai ao infinito, mas chama a atenção que o rol de proibições é feito sempre por quem tem poder de calar a voz dos outros.

Talvez alguns não entendam minha reação alérgica à censura, isso porque são muito jovens. Já eu sou do tempo em que as mentiras eram combatidas com a verdade e não com a censura. Aliás, levei borrachada da Brigada Militar por dizer “censura nunca mais”. Ora vejam só que ingênuo eu era. A censura, como debate público, ressurgiria com muita força exatamente na esquerda e entre os movimentos identitários ali inseridos, nos dando a entender que censurar, afinal de contas, poderia ser uma… coisa boa. “Vamos proteger minorias criando uma blindagem do discurso para eles”, mas só para eles. Homens héteros, brancos e cis são os nossos ‘inimigos” e para eles continua valendo a nossa natural virulência. Essa precisa permanecer assegurada.

Opressão mata mesmo, mas a opressão verdadeira, não os “gatilhos”, as “palavras mortais” ou o “discurso de ódio” – um conceito vago e impreciso exatamente para poder caber nele o que nos interessa. Opressão é matar palestinos, é fome, bloqueio, invasão, violência, miséria, e não chamar um cara de “viado”. O fato de algo ser ofensivo e preconceituoso não significa que ele é ilegal. As palavras precisam ser livres, incluindo aí as ofensas, pois sem isso obstruímos o debate, moralizando o discurso e impedindo que ele chegue nas feridas mais profundas da sociedade.

Por último, a ideia da “censura do bem” é um erro brutal sobre o funcionamento psiquico humano. Parte da ideia de que, se uma coisa não é dita ou não é escrita, ela pode enfraquecer e até desaparecer. Será que Freud precisa reencarnar para nos ensinar de novo sobre o “retorno do recalcado”? Será que as pessoas não viram que os partidos comunistas sempre foram proibidos e estão cada vez mais fortes? Não notaram o recrudescimento das células nazistas apesar de organizações e símbolos serem proibidos há décadas? Não perceberam o quanto proibir homossexualidade é absurdo? E, por fim,  não perceberam o quanto silenciar a expressão de inconformidade apenas atrasa o surgimento das ideias, fazendo-as retornar ainda mais poderosas?

Liberdade de expressão é quando alguém diz o que você não quer ouvir. Sem tratar esse valor como sagrado, todos os outros direitos fundamentais são atingidos. E quem não consegue combater nazismo, sionismo, machismo e qualquer outra ideologia apresentando argumentos tenho uma má notícia: você não acredita na sua verdade, por isso quer tanto destruir a fala de quem se opõem a ela.

Proust fala sobre isso em um de seus livros, “A Fugitiva” (Albertine Disparue). Nele, o narrador, Marcel, vive a perda de Albertine, que o abandona inesperadamente. A partir daí, ele tenta obsessivamente recuperá-la e compreender sua partida, recorrendo inclusive a intermediários e procurando descobrir detalhes sobre a vida dela. A situação muda radicalmente quando recebe a notícia da morte de Albertine. É aqui que quero chamar a atenção para a opção de Marcel. Ao invés de censurar seus sentimentos, jogou-se a eles para entender seu significado. Ele sabia que escondê-los seria um erro, pois sua fúria acabaria voltando. Ou seja, ao invés de apagar as lembranças e tentar esquecer a mulher que o abandonou fez exatamente o oposto: foi atrás dela para entender sua fuga, e só assim, confrontando a realidade dura, ser capaz de superar seu luto. Essa é uma aula memorável de Marcel Proust ao mundo (e à psicanálise): de nada adianta apagar ou calar aquilo que nos desagrada; a única solução é a superação, e esta só ocorre por meio da confrontação.
 

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Discurso de Ódio e Direitos Absolutos

Perceberam como o uso da expressão “nenhum direito é absoluto” sempre aparece quando se torna necessário encobrir uma ilegalidade ou um abuso cometido contra direitos fundamentais – em especial o direito de livre expressão? Tipo, rejeitam a fala de um sujeito ou sua manifestação controversa e, na ausência de argumentos satisfatórios, apresentam o silenciamento, argumentando que este preceito constitucional nao pode ser “levado aos extremos”, e que não é um “direito absoluto”.

Outra forma de atacar a liberdade é acusar as críticas ferozes de serem “discursos de ódio”. E desde quando o ódio passou a ser proibido? Como estes “arautos da paz” acreditam que os países e os povos se libertaram da opressão e da escravidão? Por acaso creem que as tiranias – todas elas – foram abolidas com discursos, abaixo-assinados ou tapinhas nas costas? Como negar a potência transformadora do ódio para remover estruturas recalcitrantes e opressivas? Por qual razão achamos razoável criminalizar a inevitável aspereza das palavras, as adjetivações duras e os ataques severos, se isso faz parte da linguagem humana?

Pois eu afirmo que as acusações de “discurso de ódio” e a defesa da inexistência de “direitos absolutos” são estratégias conservadoras, usadas para que verdades nao venham à tona – ou demorem a aparecer na superfície do discurso. A falácia do “discurso de ódio” é amplamente usada para bloquear as críticas ao Estado Terrorista de Israel, criando a ideia de que a mera análise crítica e acusatória ao colonialismo na Palestina é um ato racista e moralmente condenado. O mesmo ocorre com os outros identitarismos, onde criticar mulheres, negros, trans ou gays virou crime de ódio, mesmo que as críticas sejam direcionadas exclusivamente à sua atuação profissional ou política. E se o sujeito reclama do cerceamento do seu direito de expressão recebe como resposta: “nenhum direito é absoluto” e pronto.

Um projeto político que não encare de frente a proteção do sagrado direito de livre manifestação não pode ser considerado de esquerda, e muito menos socialista. Quem prioriza seus vínculos identitários, colocando-os acima da plena liberdade, sem estes subterfúgios oportunistas, não terá moral para reclamar quando sua voz for definitivamente silenciada.

Como dizia Rui Costa Pimenta, sou do tempo que a mentira era combatida com a verdade, não com a censura.

* As imagens que ilustram esta postagem são do tempo em que eu, ainda menino, acreditava no fim definitivo da censura. Acervo da UFRGS.

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Indignação

Sobre o silêncio compulsório

Ficou claro que a argumentação usada para a proibição da manifestação do Sr. Herédia – ex-marido da Sra. Maria da Penha – é semelhante àquela usada pelos defensores do impeachment da Presidenta Dilma: “Ora, ela foi julgada, o congresso decidiu e ela foi deposta. Tudo muito legal. Tudo dentro da lei, e aqui está o STF para ratificar”

Vou explicar – mais uma vez – meu ponto de vista, que coincide com o de algumas pessoas que se manifestaram e vai de encontro à visão de outros. Quero mostrar que este trâmite aparentemente “legal” é exatamente o que contestamos. Dizer que o Sr Herédia ao dar entrevistas, citar o caso e comentar os personagens envolvidos vai revitimizar é uma explicação, ao meu ver, inaceitável. Para não ferir os sentimentos de quem acusa, a solução seria a mordaça, o silêncio compulsório? Pois para mim, censurar desta forma é absurdo e atenta contra os direitos humanos mais básicos – mesmo que tenha percorrido os caminhos legais de um processo.

Vou expor minha perspectiva: no mundo todo centenas de condenações foram revistas porque os condenados, indignados pelo que consideravam uma injustiça, nunca aceitaram se calar. Somente por este espítito inquebrantável de pessoas inocentes que não aceitaram o erro judiciário é que foi possível reparar imensos equívocos. Permitam citar um caso emblemático:

“Exonerated Five” é o nome dado a cinco adolescentes — Kevin Richardson, Antron McCray, Raymond Santana, Korey Wise e Yusef Salaam — condenados injustamente em Nova York, em 1989, pelo estupro de uma corredora no Central Park. As condenações se apoiaram fortemente em confissões falsas obtidas em interrogatórios, apesar de o DNA não corresponder a nenhum deles. As condenações foram anuladas em 2002, depois que o verdadeiro autor confessou e seu DNA confirmou a autoria. Estes meninos nunca aceitaram a condenação e jamais aceitaram se calar. Suas famílias mantiveram acesa a chama da indignação.

Em função do grande número de casos em que as condenações ocorrem por pressão popular, linchamentos virtuais ou porque se encaixam na narrativa e no campo simbólico de um determinado tempo e latitude, criou-se o Innocence Project, que é uma organização jurídica sem fins lucrativos criada em 1992 por Barry Scheck e Peter Neufeld. Ela investiga condenações possivelmente injustas e atua judicialmente para conseguir a exoneração de pessoas condenadas por crimes que não cometeram, historicamente com grande uso de testes de DNA e, hoje, também contestando outras formas de provas falhas – como aquelas baseadas unicamente no testemunho da vítima.

Existe ainda a Innocence Network, uma rede que reúne organizações desse tipo nos EUA e em outros países, oferecendo assistência jurídica e investigação gratuitas a pessoas que alegam inocência. Inclusive, existe o Innocence Project Brasil, inspirado nesse movimento.

Ou seja, existe um preceito reconhecido no mundo inteiro de que se indignar diante do que considera uma injustiça é um direito inalienável. Não se trata sequer de negar-se a respeitar o devido processo legal que, como vemos todos os dias, pode cometer falhas. Se até com o presidente podem errar, imagine com um mero e vulgar cidadão. Assim, indignar-se, falar publicamente, “espernear”, apontar a injustiça e não aceitar a culpa, são sentimentos humanos e não podem ser punidos ou cerceados.

Não fosse por isso, pela voz dos garotos de Nova York e por milhares de outras pessoas julgadas erradamente, estes personagens estariam até hoje pagando por crimes que jamais cometeram.

A corredora do central park estava errada. Só ela?

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Luta

Ric Jones, candidato ao Senado – PCO

Sim, vamos à luta

Mais uma campanha eleitoral está prestes a começar. Devemos nos preparar para o mesmo tipo de campanha que existe no país há muitas décadas, baseadas em pirotecnia, alarmismo, acusações falsas, negativismo, etc. Vejo os políticos dizendo tudo o que já foi dito, com os mesmos clichês e ataques pessoais aos demais candidatos. Ao seu lado, dando a eles suporte, existe um exército de ressentidos que agora querem sair do anonimato, falando as velhas tolices. No nosso campo, é claro que teremos que escutar as mesmas lorotas anti-comunistas dos anos 60. A educação popular em torno das ideias socialistas é um campo muito difícil, pois temos que nadar contra a corrente da ideologia dominante. Apesar disso, continuamos, pois o tempo continuou sua marcha contínua, o capitalismo já mostra sua falência inconteste, o imperialismo torna evidente sua face autoritária e assassina e os países da periferia como Irã, China, Rússia – e até o Brasil – começam a assumir protagonismo no mundo que, lentamente, se torna multipolar.

Apesar disso, uma fração da classe média ressentida sempre vai achar erro nesta trajetória, saudosa do tempo em que os apartamentos já vinham com dependência de empregada e que os serviços eram baratos porque as pessoas pobres não tinham como negociar o valor do seu trabalho. Esses personagens envelhecidos acreditam que havia virtude no modelo semi-escravocrata, determinado pelo berço, onde o sujeito branco e de classe média podia usufruir as benesses de um capitalismo em expansão e onde o emprego ainda crescia. Esse mundo acabou, e essa garotada que tinha dinheiro para ficar em casa tocando guitarra agora tem raiva da nova cara do mundo.

Estes que antes se deleitavam com o ciclo de crescimento capitalista agora percebem, com rancor, a decadência inescapável da sociedade de classes e da propriedade privada dos meios de produção. Um novo mundo precvis nascer, mas o velho teima em parmanecer, como alertava Gramsci. Porém, os velhos ressentidos são sempre tristes; já a política deve ser feita de esperança e desejo. É só por isso que resolvi dar a cara a bater e participar de algo que jamais pensei durante toda a vida: concorrer a um cargo eletivo. Meu objetivo é mostrar no ideário do PCO sua absoluta vinculação com uma postura antissistema, baseada na necessária ruptura com as velhas amarras do capitalismo, como a sociedade de classes, a opressão do homem pelo homem, a propriedade privada dos meios de produção e os engodos criados pelo imperialismo, como o identitarismo, usados para dividir nossa luta.

Se existe algo realmente diferente nas eleições, por certo que poderemos encontrar entre aqueles que abandonaram as ilusões do liberalismo, tanto à esquerda quanto à direita. Não vamos encontrar a ruptura necessária para um novo caminho entre aqueles que há décadas dizem o mesmo, e fazem dos ataques, das lacrações e dos ataques pessoais seu principal (por vezes único) discurso.

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Cavalo de Troia

A confusão entre a necessária defesa das mulheres, dos negros, dos gays, etc. com os princípios do identitarismo está na raiz do apequenamento das esquerdas no mundo todo. Esse engano levou à destruição parcial das lutas das esquerdas e o fortalecimento de grupos como incels e redpils. Veja o que viraram alguns partidos de esquerda, que foram originalmente revolucionários, mas que se tornaram agrupamentos identitários, cuja função é dividir e fragmentar o campo das esquerdas, produzindo partidos frágeis e sem norte.

Muitos confundem a luta pelos negros, mulheres, gays, etc. com luta identitária. Isso é um erro. Para um comunista a defesa destas identidades só vai ocorrer com a mudança do sistema econômico, com o fim da sociedade de classes e da propriedade privada dos meios de produção. Porém, os identitários se contentam com a “representatividade” e com vantagens e melhorias para suas tribos, seus grupos, suas identidades, e não para o conjunto da classe trabalhadora.

Essa manobra divisionista foi criada nos laboratórios da direita mundial por pessoas como George Soros e Bill Gates e por marqueteiros maquiavélicos como Steve Bannon. Não por outra razão estas grandes instituições internacionais financiam ONGs identitárias, pois sabem que elas funcionam como muros de contenção para as reivindicações do proletariado organizado. Desejam enfraquecer o movimento operário, fragmentando-o em grupos minúsculos que, ao invés de odiar as classes opressoras – os capitalistas – odeiam-se mutuamente. Assim o problema das mulheres são os homens, o dos negros são os brancos, dos gays são os héteros e dos trans são os cis. Assim, todos estes grupos perdem o foco, afastam-se da luta pela união das forças produtivas e deixam de perceber que todos estes personagens da cena social são igualmente explorados pela burguesia.  Como diria Júlio Cesar, “Divida e conquiste”, pois enfraquecidos são facilmente controláveis.

O identitarismo é o cavalo de Troia da direita enviado para as esquerdas.

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Terror

Muitos associam, anda hoje, o ativismo palestino com o terrorismo, um fenômeno dos anos 80. Citam o recente ocorrido em 7 de outubro, os homens bomba dos anos 80 e o ataque aos atletas olímpicos de Israel. Sim, esta última foi uma ação heroica e arriscada de um comando Palestino contra atletas de Israel em Munique. Não vou justificar ações terroristas, por certo, mas o que sempre me impressiona com as pessoas que criticam o terrorismo (que deve ser mesmo questionado) é porque nunca se perguntam as razões pelas quais jovens realizam ações desta natureza, inclusive suicidas. É como se chamá-los de “loucos” ou “fanáticos” fosse suficiente para explicar a motivação para tais atos.

A resposta está no “fugdán al-amal”, um termo usado na Palestina para descrever uma sensação de profunda desesperança e a perda da vontade de viver. Este estado de espírito se segue aos traumas psíquicos decorrentes da morte das pessoas a quem amamos. Por isso os exemplos dados, como 7 de outubro e as Olimpíadas de 1972 soam tão ridículos e até infantis porque dão a entender que as ações terroristas surgiram do nada, criadas por geração espontânea, tão somente pela “maldade” ou “crueldade” de “fanáticos”. Seriam levadas à cabo por sujeitos degenerados movidos por crenças místicas.

Quem afirma isso não entende nada de seres humanos e apenas desnuda um profundo desconhecimento da realidade Palestina. Não há mais como negar a realidade. Hoje em dia o que era escondido foi tornado visível com o advento da Internet, em especial o genocídio Palestino, os ataques terroristas à Cisjordânia e a destruição de Gaza. Acreditar que o motor da reação palestina é o “fanatismo” não passa de uma ofensa à memória das décadas de horror contra o povo palestino.

Na verdade, para a ocorrência dos atos de terror como estes citados é preciso que a situação seja tão deteriorada e humilhante que até atos extremos e terríveis como estes passam a fazer sentido. Até mesmo a mais primitiva das pulsões – a preservação da própria vida – se torna desimportante diante da dor e da desesperança. Somente depois de anos de assassinatos, mortes, sequestros, violência, abusos e humilhações estas ações passam a fazer sentido no campo simbólico de um povo. Esta é a linha final de um sofrimento insuperável, não seu início.

Eu pergunto: se você tivesse seus pais mortos num bombardeio covarde, sua mulher abusada por soldados num check-point, seus filhos espancados indo para a escola, seus irmãos presos e estuprados numa masmorra de Israel e sua vida fosse miserável desde as suas primeiras e mais remotas lembranças, não consideraria um ato extremo de terror, diante da evidência de que nada que foi tentado resolveu a sua dor e nada impediu o massacre continuado ao qual seu povo é submetido?

Responda com sinceridade…

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Arquivado em Causa Operária, Palestina