Arquivo da categoria: Causa Operária

Sem autocrítica

Nas redes sociais, logo após os resultados do primeiro turno das eleições de 2026, o sentimento era de surpresa e consternação. Era inacreditável que Lula pudesse estar perdendo o primeiro turno para um “desqualificado” como o filho do ex-presidente. Imediatamente começaram a aparecer as explicações, as interpretações e os culpados. Alguns influencers da esquerda liberal começaram sua campanha para “virar o jogo” com um pedido curioso: “não culpem a esquerda” por esta derrota. Respeitosamente expliquei aos meus amigos que este pedido é absurdo. “Vocês até podem pedir que eu vote em Lula, mas não admito que a resposta para esta derrota seja abolir a autocrítica”, respondi, mesmo sabendo que pouco seria levado em consideração. Além desse pedido, havia a solicitação de que os movimento identitários – feministas, antirracistas, transativistas – fossem poupados dos ataques, pois esta atitude apenas reforçaria o discurso daqueles que nos combatem. “Fogo amigo” diziam eles. Achar que perdemos para “fascistas” é outro erro absurdo do discurso da esquerda. Perdemos porque a esquerda saiu da rua e se tornou chapa branca, elitista e identitária – entre outros erros. O identitarismo tomou conta dos partidos à esquerda do espectro político, enquanto o PT se “endireitava”, colocando os conservadores da burguesia comportadinha e latifundiária em postos chave do governo. Observem o absurdo das falas da Janja (outra responsável pelos erros de comunicação) e vejam as políticas de subserviência ao um discurso anti-científico sobre trans. Isso ofendeu as mulheres do pais, que se obrigaram a chamar a si mesmas de “mulheres-cis”. Quem não percebeu o quanto isso afastou as mulheres simples da esquerda, então não prestou atenção.

“Não é o momento”, diziam eles, e “deveríamos unir forças dentro do campo progressista e popular para evitar o mal maior – a vitória do fascismo”. Esta foi a parte que achei mais insensata. Como eu repito exaustivamente há muitos anos, o identitarismo destruiu a esquerda ao corroer sua vinculação com as lutas operárias. E não foi por acaso: o objetivo das organizações identitárias é exatamente esse, mesmo que muitos dos seus participantes ainda não tenham percebido. Como organização parida nos criadouros do partido democrata, este sempre foi seu objetivo. Percebam como todos os principais nomes da linha de frente dos identitários receberam bolsas para se “aprimorar” nas universidades imperialistas? Manuela, Jean Wyllys, Márcia Tiburi – e muitos outros – foram financiados pelos Estados Unidos para os estudos de gênero ou sobre homossexualidade através de suas agências. E por quê? Porque sabiam que esse modelo de compreensão da realidade é impopular, agressivo, supremacista e anti-povo, mas principalmente porque produz a fragmentação das lutas de classe.

O resultado está aí na nossa cara, e não há como negar que a esquerda identitária se afastou do povo, tornou-se elitista, vendo mais humanidade em minorias supostamente oprimidas do que na grande massa do povo operário brasileiro, cuja opressão é real e econômica. A direita agiu de forma inteligente ao colocar em evidência os identitários e o feminicídio como temas para serem debatidos à exaustão. A maioria da população não concorda com a ênfase dada a estas questões; o pobre da periferia sabe o quanto a polícia mata garotos e estes meninos mortos também são uma tragédia para as famílias. Entretanto, os grupos identitários das universidades, afastados da realidade da gente comum, estabelece como prioridade as “identidades perseguidas e oprimidas”.

O povo não aceita mais isso. O debate estéril sobre pronomes e de banheiros idem. O trabalhador que acorda cedo – e que vota – está se lixando para estas questões. O identitarismo dividiu a população. Isso é operação de propaganda do imperialismo, mas se a a esquerda não compreender por meio de uma severa autocrítica as razões para esse fracasso teremos que suportar por décadas os governos de milicianos à frente do Evangelistão. Estou percebendo que o furo é mais embaixo, e que a necessária mea-culpa da esquerda ainda vai demorar muito a ocorrer. Se continuarmos a chamá-los de fascistas, colocando a crítica moral como o centro do nosso discurso, continuaremos perdendo. Enquanto não colocarmos o operário, o brasileiro comum, o pobre que vai ao culto, como centrais na nossa luta, afastando-nos do identitarismo que esfacela a sociedade, colocando pobres contra pobres, estaremos nos afundando no poço da arrogância. O PSOL já implodiu, o PDT idem, O centrão – direita limpinha – foi para o fundo do saco. Quem saiu vitorioso foi a extrema-direita, que se mobilizou e ofereceu uma esperança. Nós sabemos o quanto as promessas da direita são excludentes e destrutivas para a nação, mas não há como negar seu apelo popular. A esquerda perdeu porque o povo rejeitou sua politica supremacista e excludente – e isso precisa ser dito.

Deixe um comentário

Arquivado em Causa Operária, Política

Panis et circenses

Vale a pena escutar o que o Renan Santos fala da direita brasileira. Em uma entrevista feita para um podcast nas redes sociais ele descreve de forma muito clara como se organiza o pensamento da direita brasileira. Esta é uma análise muito boa e surpreendentemente lúcida. Renan foi o primeiro sujeito à direita do espectro partidário a admitir que o público médio da direita é muito menos inteligente que o da esquerda. Depois dele, foi a vez de José Medeiros (PL), candidato a senador pelo MS, dizer que seu eleitorado bebe detergente e chama ET com celular. Este é um reconhecimento que tem significado vindo de onde veio.

Neste vídeo ele descreve a direita como “entretenimento” e mostra como Nikolas, Bolsonaro e outros são palhaços cujo objetivo é divertir pessoas nas redes sociais e, acima de tudo, “não fazer nada”. Este, aliás, é o lema da nova direita americana: “nada acontece”. Não é à toa que Nikolas, Bolsonaro Pai, Flávio ou mesmo Zé Trovão têm uma produção parlamentar nula ou pífia. Ou seja: o papel que desempenham, desde o advento das redes sociais, não é “fazer algo”, “criar leis”, “abrir um debate” ou “defender uma proposta” de cunho popular e ligada aos valores da direita. Não, sua função é pura performance e a intenção é produzir um espetáculo circense, colocar peruca, debochar, gritar, invadir a passeata dos adversários, provocar parlamentares da esquerda, fazer selfies…. e mais nada.

Nunca os romanos estiveram tão certos: “panis et circenses”. A frase foi criada pelo poeta romano Juvenal no início do século II d.C., em sua obra Sátira X, e o significado original é uma crítica à falta de interesse da população romana pelas grandes decisões políticas. Na nossa metáfora atualizada, o pão se refere às emendas, milhões direcionados às suas bases eleitorais, comprando votos legalmente – mas de forma imoral. Isso sem falar das emendas secretas que foram um gigantesco escândalo no mundo político, e que ainda continuam a agitar os bastidores de Brasília. Já o circo está nas suas próprias atuações parlamentares, sempre pautadas pelo vazio, pela representação e pela atração de público pela via do divertimento. Flávio Bolsonaro, por sua profunda incapacidade intelectual para esta função, seria uma revivescência do governo “panis et circenses” do pai: espetáculo pastelão, deboche, cercadinho, viagens a Israel, privatizações criminosas e a volta da fome.

Que Deus tenha piedade de nós…

Deixe um comentário

Arquivado em Causa Operária, Política

Palavra morta

Eu comecei a escrever sobre a Palestina há uns 15 anos, quando tudo era mato no debate público do Oriente Médio. Claro, não entre os intelectuais e ativistas originais, mas na opinião pública e nas mídias sociais nascentes. Eu era adolescente quando ocorreu a guerra do Yom Kippur, e os meus colegas de escola tratavam Moshe Dayan como um “herói contemporâneo” de histórias em quadrinhos, com aquele tapa-olho de piratas. Levariam ainda 30 anos para eu descobrir que ele era um monstro. Na minha juventude, defender os “terroristas” da Palestina, que atacavam Israel com suas bombinhas feitas em casa, ainda era considerado uma heresia. Afinal, Israel era a única democracia no Oriente Médio, “a villa in the jungle“, como eles mesmos se declaravam, ou as “flores que brotam no deserto”. Os palestinos não passavam de fanáticos muçulmanos, que sacrificavam a si e aos seus filhos em nome de suas ideias religiosas obscuras e imorais. Nesta época assisti um documentário sobre a Palestina onde um interlocutor inglês dizia, referindo-se aos palestinos: “É impossível debater com fanáticos”.

Todavia, essas definições nunca foram suficientes para mim. Alguma coisa me incomodava na descrição que faziam do problema e dos habitantes da região. Civilizados contra fanáticos; pessoas de bem contra terroristas. Um grupo de pioneiros que retorna para “sua terra” e é atacado por gente primitiva e ignorante que os agride por “antissemitismo”. Homens maduros que usam seus próprios filhos como “escudos humanos“. Havia algo de estranho nessa definição pasteurizada e maniqueísta. Apesar das opiniões serem muito negativas em relação aos palestinos, eu me perguntava: o que faz um sujeito tirar a própria vida em nome de uma ideia? Seria possível usar os filhos para se defender? Quem faria isso? As mães palestinas não amam seus filhos? O que faz esse povo continuar lutando apesar da imensa disparidade de forças e o suporte que seus adversários recebem da maior potência do mundo? O “fanatismo” explica isso?

A resposta para estas perguntas e minha mudança interior iniciou-se quando fui convidado a comparecer ao Festival Internacional de Cinema no Rio de Janeiro para acompanhar minha amiga Debra Pascali-Bonaro, que apresentaria “Orgasmic Birth“, o filme que ela produziu e no qual fiz uma pequena aparição. Depois da nossa apresentação no festival eu assisti a entrevista de um diretor libanês que estava apresentando um documentário sobre a guerra de resistência do Líbano contra Israel. O documentário se chama “Entre deux Fronts” O tema é justamente a retirada israelense do sul do Líbano em maio de 2000 e a situação que se seguiu, com o Hezbollah assumindo o controle da região e antigos membros do Exército do Sul do Líbano (aliado de Israel) ficando frente a frente com integrantes do Hezbollah. Eu fiquei impactado com a descrição daquele diretor, pois pela primeira vez eu havia visto um sujeito da região falando da luta do seu povo contra um agressor. Eles pareceram, pela primeira vez, pessoas humanas, indignadas e com um propósito nobre. Não tinham jeito de fanáticos.

Depois disso comecei a ler sobre o assunto. Consegui baixar um documentário chamado “Cinco Câmeras Quebradas“, sobre um palestino que usava uma câmera para gravar o cotidiano de humilhações, agressões, violência, medo e abusos que os palestinos eram obrigados a suportar em Gaza e na Cisjordânia. O título se refere às câmeras quebradas pelos israelenses durante a produção de seu documentário caseiro. Depois de assistir este filme a minha cabeça já estava completamente transformada, e pela primeira vez eu me sentia na pele do povo que lutava em nome da própria soberania contra os ataques de potências ocidentais – como Israel. E foi então que tive a experiência, pela primeira vez, de ser chamado de “antissemita”, apenas por fazer perguntas e por defender a autodeterminação do povo palestino. Mal sabia eu que essa marca, tatuada na testa de quem ousa questionar o supremacismo sionista, é feita para dar a quem a usa uma marca moral de degradação.

Cabia para mim a pergunta: por que eu nunca havia visto ou escutado esta história na perspectiva dos povos ocupados? Por que nunca ninguém me contara a história da Palestina na visão das pessoas que moravam lá e que foram expulsas pelos colonos europeus que chegaram por meio do movimento sionista do início do século XX? Por qual razão a perspectiva dos oprimidos sempre foi silenciada? Nesta época de efervescência eu conheci o documentário “Reel Bad Arabs – How Hollywood Vilifies a People” e a estigmatização fabricada dos árabes começou a fazer sentido. Depois que eu descobri que eu havia sido enganado a vida inteira é que surgiram personagens como Schlomo Sand, Miko Peled, Norman Finkelstein, Max Blumenthal, Gideon Levy e Ilan Pappe. Eu não estava sozinho em minha inquietude.

Daquele dia em diante perdi o medo de ser acusado de “antissemita”. Se essa palavra significava lutar pela liberdade do povo palestino, para que eles reconquistassem a sua dignidade e sua terra, então eu não mais me importaria de ser tratado dessa forma. Hoje podemos perceber que essa ofensa perdeu completamente o valor; de tanto ser usada para calar dissidências ela virou palavra morta, um xingamento sem sentido. E o mundo inteiro hoje se levanta para celebrar um mundo onde a Palestina estará, finalmente, livre do sionismo.

Deixe um comentário

Arquivado em Causa Operária, Palestina

Fim do Futebol. Será?

Hoje (18/09/2026) foi publicada na Internet uma manifestação dos clubes brasileiros em defesa das BETs. Clubes da Série A e federações de futebol se mobilizaram contra a possibilidade de o Governo Federal proibir os jogos de cassino on-line, argumentando que uma mudança brusca na regulamentação das apostas teria forte impacto financeiro no futebol brasileiro. As BETs autorizadas investem mais de R$ 1 bilhão por ano em patrocínios, beneficiando desde grandes clubes até equipes menores, futebol feminino, categorias de base e projetos sociais. No manifesto, as entidades reconhecem os riscos sociais associados às apostas e defendem maior fiscalização, prevenção e proteção aos consumidores, mas sustentam que a regulamentação é preferível à proibição, pois permite tributação e controle das empresas e combate às plataformas clandestinas, para as quais, segundo elas, os apostadores poderiam migrar caso o mercado legal fosse restringido.

O manifesto dos clubes brasileiros tem razão em alguns pontos, em especial ao dizer que poderia haver uma quebradeira nos clubes. Há contratos firmados com as BETS e muitos contratos de jogadores caros, comprados no exterior, estão ligados às receitas que seriam esperadas com tais contratos. É claro que estes aspectos não podem ser desconsiderados. A bancarrota de clubes tradicionais do Brasil, que fazem parte da malha de sustentação da cultura brasileira, e aquilo que nos define na mente de milhões de estrangeiros, não pode ser algo visto como positivo. Não se trata, portanto, de utilizar um remédio que, de tão forte, viesse a matar o paciente. os clubes brasileiros, em sua maioria, estão com situação financeira calamitosa, e o dinheiro das BETs ajuda e diminuir o impacto dos desastres financeiros causados por seus dirigentes.

Entretanto, enfrentar os assaltos a banco e prender os criminosos que os promovem também deixa muitas famílias em necessidade. Não há como justificar as BETs apenas porque ela ajuda o futebol a pagar suas contas. Existem inúmeros estudos mostrando o desastre que as apostas causam nas famílias do Brasil. O Banco Central estimou que, apenas entre janeiro e agosto de 2024, cerca de 24 milhões de brasileiros fizeram apostas on-line, movimentando aproximadamente R$ 20,8 bilhões por mês. O problema é especialmente grave entre famílias de baixa renda: análise do TCU encontrou cerca de 802 mil famílias beneficiárias do Bolsa Família que, em janeiro de 2025, comprometeram mais de 2% de sua renda com apostas, faixa considerada de alto risco para despesas essenciais e endividamento. Além da perda financeira, o Ministério da Saúde relaciona o jogo problemático a endividamento, conflitos e rompimento de vínculos familiares, problemas de saúde mental, perda de emprego e maior risco de suicídio, estimando, com base na literatura científica, que cada pessoa que desenvolve transtorno do jogo pode afetar outras seis ao seu redor. A preocupação tornou-se suficientemente grande para que o governo passasse a impedir beneficiários do Bolsa Família e do BPC de manter contas nas plataformas licenciadas; até agosto de 2026, cerca de 3 milhões de beneficiários haviam sido bloqueados.

Há um outro fator importante. Quanto mais dinheiro é envolvido nas apostas maior será a sedução para alterar o resultado dos jogos para favorecer apostadores. O aspecto particularmente preocupante da era das BETs on-line é o spot-fixing: não é mais necessário combinar quem vai ganhar ou perder a partida. Um jogador pode manipular algo aparentemente secundário — tomar um cartão, cometer uma falta, provocar um escanteio ou alterar uma estatística individual — e isso já pode movimentar apostas. Foi justamente esse modelo que apareceu com força na Operação Penalidade Máxima brasileira. Inúmeros jogadores e clubes estiveram envolvidos em escândalos dessa natureza, e as absolvições de alguns deles certamente passa por uma ação paternalista da justiça com clubes de enorme torcida. Entre eles temos Bruno Henrique (Flamengo), Ivan Toney (Inglaterra), Sandro Tonalli (Itália), Alef Manga (Coritiba) e muitos outros, inclusive de equipes menores que sequer tomamos conhecimento. E isso não ocorre apenas no futebol; no Beisebol ocorreram escândalos semelhantes. No Chicago White Sox, em 1919, oito jogadores foram acusados de participar de um esquema para entregar partidas da World Series para o Cincinnati Reds. Todos foram banidos. Também no basquete, onde Jontay Porter em 2024 foi banido da NBA por passar informações confidenciais a apostadores sobre o próprio desempenho.

Eu também sou contra o proibicionismo. Acho que devemos dar a liberdade às pessoas para que estas façam escolhas informadas sobre seu destino – inclusive seu dinheiro. Entretanto, vejo na questão das BETs um fenômeno parecido com aquele que eu testemunhei há mais de 30 anos quando cortaram a publicidade do cigarro da Formula 1 e posteriormente das televisões. Isso acarretou um lento e sustentado declínio do tabagismo, que se sustentava não por uma adesão livre do sujeito ao cigarro, mas por um massacre de propaganda e vinculação desse hábito com o “sucesso”. Bastou cortar a fonte de publicidade e o consumo de cigarros iniciou seu declínio, o que causou uma melhoria importante na taxa de mortes por câncer de pulmão. A logica é que se percebe na reação dos clubes pelo temor que o novo governo possa obstaculizar as BETs é exatamente essa. Lembro do Armindo Antônio Ranzolin, radialista e dirigente da ABERT nos anos 90, lendo uma carta aberta da sua associação onde se posicionavam de forma veemente contra a proibição de propagandas de cigarro na TV. Veja, não tiveram sequer escrúpulos para defender propaganda de cigarro, que matava milhões no mundo todo, um veneno reconhecido há décadas. A grana do cigarro deixou de fluir, e o mesmo poderá acontecer com as BETs.

O futebol está sendo sustentado por gente doente, apostadores que vendem a alma pelos seus vícios. Não existe “diversão” em apostar; esta é uma mentira vendida para disfarçar os mecanismos psicológicos que prendem um sujeito ao jogo. Devemos permitir que isso aconteça? Podemos considerar que a opção por jogar é uma opção livre? Podemos desconsiderar a pressão da propaganda massiva sobre a população? É lícito não reconhecer o efeito hipnótico dos ganhos fáceis em uma população massacrada pela barbárie do capitalismo decadente? Ou devemos escolher uma opção sanitária, baseada na diminuição dos danos, constrangendo os empresários de apostas que se aproveitam do desespero da população para lucrar? Cabe salientar o momento em que esta campanha veio à tona: um mês antes das eleições. Os dirigentes de futebol do Brasil são em sua imensa maioria pertencentes às classes mais altas, e muitos deles são do partido de direita do ex presidente Bolsonaro. Não existiria aí a intenção de colocar as torcidas do Brasil contra a esquerda, que por muitas vezes cogitou ações contra o “Império Milionário das BETs”?

O fim das BETs provavelmente traria uma convulsão no mundo do esporte, mas com o tempo o futebol se adaptaria. Talvez tenham que pagar menos de 2 milhões mensais para técnicos importados da Europa. É possível que alguns jogadores tenham seus salários cortados pela metade ou bem menos. Mas com o tempo isso seria bom para o futebol.

1 comentário

Arquivado em Causa Operária, Pensamentos

NAZA

Os dois cineastas israelenses, Yuval Abraham e Rachel Szor, que produziram o documentário NAZA, já opdem ser considerados heróis contemporâneos. NAZA (2026) é uma investigação sobre o funcionamento interno da máquina militar e de inteligência de Israel durante a guerra em Gaza. Construído principalmente a partir dos depoimentos anônimos de 24 integrantes e ex-integrantes das forças armadas e dos serviços de inteligência israelenses, o filme revela como sistemas de vigilância, inteligência artificial e critérios burocráticos são empregados na seleção de alvos para bombardeios, incluindo cálculos prévios do número de civis que poderão morrer — justamente a ideia expressa pelo termo militar “NAZA”, relacionado às baixas civis esperadas. Filmadas discretamente, muitas vezes à noite em telhados de Tel Aviv, as entrevistas descrevem decisões tomadas diante de telas, nas quais casas habitadas e famílias inteiras podem ser reduzidas a números e parâmetros operacionais. Em vez de recorrer principalmente a imagens gráficas da destruição, Abraham e Szor concentram-se na burocratização e desumanização da violência, mostrando como pessoas comuns passam a funcionar como pequenas peças de um sistema capaz de produzir mortes em escala industrial. É inegável seu esforço em expor para o mundo as imagens do genocídio que ocorre na Palestina. Seu filme mostrou a podridão da sociedade israelense, a depravação racista e supremacista do sionismo. Centenas de jornalistas, pensadores, historiadores, intelectuais e ex-soldados do IDF há décadas nos alertam para os crimes de Israel, mas nada como um documentário feito por judeus israelenses para trazer aos nossos olhos depoimentos dos próprios criminosos, confessando seus delitos. Ambos provaram, com imagens e documentos, a matança vergonhosa de Israel e a psicopatia dos seus governantes.

O filme, pela reação do público no Festival de Veneza (25 minutos de aplausos, um recorde) e pela repercussão internacional parece ser um verdadeiro divisor de águas. Nas redes sociais só o que se fala é “quando chega aqui?”. A recepção mundial do documentário mostra que Israel está vivendo seus estertores, seu final aterrorizante e sua derrocada definitiva, ao mesmo tempo em que testemunhamos o despertar da consciência sobre o horror da sociedade de Israel. O apartheid, o racismo, o colonialismo, as expulsões de terras, as humilhações, o culto à morte, o assassinato de crianças, os massacres em campos de refugiados e nas filas por comida, as crianças queimadas vivas ou esfomeadas de propósito; nada disso poderia ser escondido eternamente.

O Nakba – a catástrofe da tomada da Palestina por sionistas europeus – não foi um fato ocorrido e circunscrito no passado, mas um evento em curso. A segregação, os muros, o racismo, a proibição de circular pelo próprio país dos seus ancestrais estão acontecendo nesse instante para os palestinos, agora mesmo, enquanto você lê este texto. O mundo acordou para a necessidade de exterminar o supremacismo de Israel. Não há mais como a civilização conviver com apartheid, etnocracias e colonialismo.

Já existem retaliações e ameaças dirigidas aos diretores do documentário, mas ao mesmo tempo mais de mil cineastas israelenses assinaram um documento em apoio aos colegas, ameaçados inclusive de serem expulsos de Israel. Mas, com o passar do tempo, os sionistas que serão penalizados pelos seus crimes, e o mundo inteiro se levantará contra o sionismo abjeto e criminoso que destrói milhares de vidas na Palestina. Malditos sejam aqueles que tentam normalizar ou justificar a morte de 20 mil crianças. Nem os piores nazistas aceitariam isso.

Chega.

Deixe um comentário

Arquivado em Causa Operária, Palestina

Novidade eleitoral

Parece que apareceu o candidato ideal para os religiosos envergonhados. Sim, aquela turma “do bem”, que é caridosa, que ajuda os pobres, que se emociona com filmes da sessão da tarde, que colabora na Igreja, que doa roupas na sociedade espírita, que toma passe no terreiro, que tem amigos negros e um parente gay. Chegou o cara para os “nem-nem”, o sujeito que pode nos livrar de votar no filho do miliciano, o mesmo que está por trás do crime organizado, totalmente entranhado nas milícias, envolvido no Dark Horse (O Pangaré Preto) e que se borra quando fica nervoso.

A sua chegada também ajuda quem não quer votar na esquerda, não porque seu candidato se afastou do povo, “endireitou-se”, buscou alianças espúrias com as elites predatórias, frustrou expectativas, não melhorou a condição da classe média e não incentivou a transformação radical do país na direção do socialismo. Não, isso é menos importante do que evitar que um candidato retirante nordestino e sem curso superior venha a ganhar novamente eleições, até porque do nordeste seus eleitores só curtem as praias e nem gostam muito “daquela gente”.

Talvez esse candidato também não confie na entrega do Brasil no colo dos americanos e a consequente perda da autonomia e soberania nacionais. Por outro lado, é possível que esse candidato acredite que a esquerda no poder pode nos levar ao “comunismo”, mesmo com um presidente explicitamente anti-comunista. Certamente ele se equilibra bem sobre o muro. E sobre o identitarismo, ele já veio com a fórmula perfeita: tecnologia, usando drones para pegar maridos abusivos. Que sacada!!

Esse cara, pelo vazio de suas propostas, pela falta de talento político, pela superficialidade de sua literatura de autoajuda e pela sua inexperiência no trato com a coisa pública, é o candidato ideal para os místicos, os “Jesus te ama”, a turma do “amor vencerá”, do empreendedorismo oportunista e para o pessoal do “pensamento positivo”. Ao mesmo tempo em que exalta o “espírito empreendedor”  para transformar todo brasileiro pobre em dono de “start up”, ele enxerga o comunismo como uma ameaça por demais radical, mesmo que possa melhorar a vida de 90% dos brasileiros. Não há como saber ainda, mas é possível que seu sonho molhado seja que o nosso atual presidente seja sequestrado pelos americanos e seu sucessor possa oferecer aos invasores nossas riquezas. Sem lutas e revoluções, usando apenas a ferramenta do amor. 

Enquanto isso, o candidato diferente de tudo isso que encontramos nas entrevistas da Globo, e que deseja romper com a divisão da sociedade em classes, a propriedade privada dos meios de produção e que luta por uma sociedade justa e solidária não tem espaço para oferecer sua alternativa ao grande público. Para a Globo e o TSE, esse candidato é “apimentado” demais para o capitalismo brasileiro.

 Veremos onde isso vai dar…

Deixe um comentário

Arquivado em Causa Operária, Política

Milícias e Escândalos

Sabem porque eu acho que revelar as ligações do Flávio com o crime organizado e as milícias não vai surtir um grande efeito eleitoral? Na verdade, creio que estas ligações com o submundo não produzem nenhum efeito deletério para as candidaturas da direita. Digo isso porque o brasileiro médio não acha a milícia uma coisa ruim. Lembram do Bolsonaro exaltando os grupos de extermínio da Bahia e convidando para virem ao Rio estabelecer seu domínio? Na época quem reclamou? Quem se escandalizou? Quem deu voz de prisão a ele? O mesmo com os elogios ao Brilhante Ustra. Quem agiu em nome da democracia e dos direitos humanos? Quem bradou contra esse crime?

Poucos….

No Brasil, e em muitos outros lugares, as pessoas não são contra a tortura e o extermínio feitos pela polícia. Olhem os comentários nas notícias de linchamentos de assaltantes, ou dos ladrões que foram perseguidos pela vítima e morreram atropelados por furtarem um celular. Lembrem do governador “Na cabecinha Witzel” e seu elogio à execução sumária e os pulinhos ridículos de comemoração? O brasileiro médio deplora a tortura que sofre, e pelas múltiplas formas que ela lhe atinge, mas não a tortura aplicada aos outros – em especial pretos e pobres.

O mesmo ocorre com a ligação aos grandes escândalos financeiros, como a ligação de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. Para boa parte do eleitorado da direita brasileira, esse envolvimento apenas demonstra o poder do candidato, capaz de influenciar a pauta nacional e movimentar somas gigantescas. O fato de solicitar intervenção americana na soberania brasileira também é um sinal de poder. De acordo com as definições modernas, que nos permitem chamar os tempos atuais de “A era dos Canalhas“, Flávio Bolsonaro incorporaria os elementos do herói neoliberal, sem caráter e sem escrúpulos, mas vitorioso no embate pelo poder. 

Não quero criminalizar a sensação de insegurança do povo e o alívio que um extermínio do “mal” ilusoriamente oferece, mas não podemos ser ingênuos de acreditar que somos um povo pela paz. Ofereçam milicianos e muitos vão aplaudir. Diante de um sujeito imoral e canalha, muitos vão acreditar que se trata da melhor escolha. Mortes causadas pela polícia da mesma forma passam a ser celebradas. Enquanto tivermos uma sociedade de classes haverá insurgentes contra sua injustiça estrutural, e essa reação fará o pobre achar que estará mais seguro sendo “protegido” por milicianos e contraventores. 

Deixe um comentário

Arquivado em Causa Operária, Política, Violência

Apagamentos

A ideia de falar sobre qualquer tema sem freios e com plena liberdade ainda causa controvérsias. Para muitos, em especial para a esquerda identitária, alguns debates são opressivos, pois ofendem grupos oprimidos e podem gerar dano. É o que se chama “palavras que matam”, ou “discurso de ódio”. Isso está por trás de projetos como o da Misoginia ou o famigerado projeto para criminalizar críticas a Israel, pois levariam ao antissemitismo e ao holocausto.

Para quem defende essas pautas existem temas que não podem ser expressos publicamente. Por essa lógica, não poderemos falar de coisas que podem afetar negativamente as pessoas. Tipo, comunismo. Não pode falar, afinal o comunismo “matou milhões”. Não podemos criticar Israel, pois…. ora, Holocausto. Não podemos falar da ditadura militar pois ela salvou o Brasil do… comunismo, ora. E a lista vai ao infinito, mas chama a atenção que o rol de proibições é feito sempre por quem tem poder de calar a voz dos outros.

Talvez alguns não entendam minha reação alérgica à censura, isso porque são muito jovens. Já eu sou do tempo em que as mentiras eram combatidas com a verdade e não com a censura. Aliás, levei borrachada da Brigada Militar por dizer “censura nunca mais”. Ora vejam só que ingênuo eu era. A censura, como debate público, ressurgiria com muita força exatamente na esquerda e entre os movimentos identitários ali inseridos, nos dando a entender que censurar, afinal de contas, poderia ser uma… coisa boa. “Vamos proteger minorias criando uma blindagem do discurso para eles”, mas só para eles. Homens héteros, brancos e cis são os nossos ‘inimigos” e para eles continua valendo a nossa natural virulência. Essa precisa permanecer assegurada.

Opressão mata mesmo, mas a opressão verdadeira, não os “gatilhos”, as “palavras mortais” ou o “discurso de ódio” – um conceito vago e impreciso exatamente para poder caber nele o que nos interessa. Opressão é matar palestinos, é fome, bloqueio, invasão, violência, miséria, e não chamar um cara de “viado”. O fato de algo ser ofensivo e preconceituoso não significa que ele é ilegal. As palavras precisam ser livres, incluindo aí as ofensas, pois sem isso obstruímos o debate, moralizando o discurso e impedindo que ele chegue nas feridas mais profundas da sociedade.

Por último, a ideia da “censura do bem” é um erro brutal sobre o funcionamento psiquico humano. Parte da ideia de que, se uma coisa não é dita ou não é escrita, ela pode enfraquecer e até desaparecer. Será que Freud precisa reencarnar para nos ensinar de novo sobre o “retorno do recalcado”? Será que as pessoas não viram que os partidos comunistas sempre foram proibidos e estão cada vez mais fortes? Não notaram o recrudescimento das células nazistas apesar de organizações e símbolos serem proibidos há décadas? Não perceberam o quanto proibir homossexualidade é absurdo? E, por fim,  não perceberam o quanto silenciar a expressão de inconformidade apenas atrasa o surgimento das ideias, fazendo-as retornar ainda mais poderosas?

Liberdade de expressão é quando alguém diz o que você não quer ouvir. Sem tratar esse valor como sagrado, todos os outros direitos fundamentais são atingidos. E quem não consegue combater nazismo, sionismo, machismo e qualquer outra ideologia apresentando argumentos tenho uma má notícia: você não acredita na sua verdade, por isso quer tanto destruir a fala de quem se opõem a ela.

Proust fala sobre isso em um de seus livros, “A Fugitiva” (Albertine Disparue). Nele, o narrador, Marcel, vive a perda de Albertine, que o abandona inesperadamente. A partir daí, ele tenta obsessivamente recuperá-la e compreender sua partida, recorrendo inclusive a intermediários e procurando descobrir detalhes sobre a vida dela. A situação muda radicalmente quando recebe a notícia da morte de Albertine. É aqui que quero chamar a atenção para a opção de Marcel. Ao invés de censurar seus sentimentos, jogou-se a eles para entender seu significado. Ele sabia que escondê-los seria um erro, pois sua fúria acabaria voltando. Ou seja, ao invés de apagar as lembranças e tentar esquecer a mulher que o abandonou fez exatamente o oposto: foi atrás dela para entender sua fuga, e só assim, confrontando a realidade dura, ser capaz de superar seu luto. Essa é uma aula memorável de Marcel Proust ao mundo (e à psicanálise): de nada adianta apagar ou calar aquilo que nos desagrada; a única solução é a superação, e esta só ocorre por meio da confrontação.
 

Deixe um comentário

Arquivado em Causa Operária, Pensamentos

Discurso de Ódio e Direitos Absolutos

Perceberam como o uso da expressão “nenhum direito é absoluto” sempre aparece quando se torna necessário encobrir uma ilegalidade ou um abuso cometido contra direitos fundamentais – em especial o direito de livre expressão? Tipo, rejeitam a fala de um sujeito ou sua manifestação controversa e, na ausência de argumentos satisfatórios, apresentam o silenciamento, argumentando que este preceito constitucional nao pode ser “levado aos extremos”, e que não é um “direito absoluto”.

Outra forma de atacar a liberdade é acusar as críticas ferozes de serem “discursos de ódio”. E desde quando o ódio passou a ser proibido? Como estes “arautos da paz” acreditam que os países e os povos se libertaram da opressão e da escravidão? Por acaso creem que as tiranias – todas elas – foram abolidas com discursos, abaixo-assinados ou tapinhas nas costas? Como negar a potência transformadora do ódio para remover estruturas recalcitrantes e opressivas? Por qual razão achamos razoável criminalizar a inevitável aspereza das palavras, as adjetivações duras e os ataques severos, se isso faz parte da linguagem humana?

Pois eu afirmo que as acusações de “discurso de ódio” e a defesa da inexistência de “direitos absolutos” são estratégias conservadoras, usadas para que verdades nao venham à tona – ou demorem a aparecer na superfície do discurso. A falácia do “discurso de ódio” é amplamente usada para bloquear as críticas ao Estado Terrorista de Israel, criando a ideia de que a mera análise crítica e acusatória ao colonialismo na Palestina é um ato racista e moralmente condenado. O mesmo ocorre com os outros identitarismos, onde criticar mulheres, negros, trans ou gays virou crime de ódio, mesmo que as críticas sejam direcionadas exclusivamente à sua atuação profissional ou política. E se o sujeito reclama do cerceamento do seu direito de expressão recebe como resposta: “nenhum direito é absoluto” e pronto.

Um projeto político que não encare de frente a proteção do sagrado direito de livre manifestação não pode ser considerado de esquerda, e muito menos socialista. Quem prioriza seus vínculos identitários, colocando-os acima da plena liberdade, sem estes subterfúgios oportunistas, não terá moral para reclamar quando sua voz for definitivamente silenciada.

Como dizia Rui Costa Pimenta, sou do tempo que a mentira era combatida com a verdade, não com a censura.

* As imagens que ilustram esta postagem são do tempo em que eu, ainda menino, acreditava no fim definitivo da censura. Acervo da UFRGS.

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Causa Operária, Política

Indignação

Sobre o silêncio compulsório

Ficou claro que a argumentação usada para a proibição da manifestação do Sr. Herédia – ex-marido da Sra. Maria da Penha – é semelhante àquela usada pelos defensores do impeachment da Presidenta Dilma: “Ora, ela foi julgada, o congresso decidiu e ela foi deposta. Tudo muito legal. Tudo dentro da lei, e aqui está o STF para ratificar”

Vou explicar – mais uma vez – meu ponto de vista, que coincide com o de algumas pessoas que se manifestaram e vai de encontro à visão de outros. Quero mostrar que este trâmite aparentemente “legal” é exatamente o que contestamos. Dizer que o Sr Herédia ao dar entrevistas, citar o caso e comentar os personagens envolvidos vai revitimizar é uma explicação, ao meu ver, inaceitável. Para não ferir os sentimentos de quem acusa, a solução seria a mordaça, o silêncio compulsório? Pois para mim, censurar desta forma é absurdo e atenta contra os direitos humanos mais básicos – mesmo que tenha percorrido os caminhos legais de um processo.

Vou expor minha perspectiva: no mundo todo centenas de condenações foram revistas porque os condenados, indignados pelo que consideravam uma injustiça, nunca aceitaram se calar. Somente por este espítito inquebrantável de pessoas inocentes que não aceitaram o erro judiciário é que foi possível reparar imensos equívocos. Permitam citar um caso emblemático:

“Exonerated Five” é o nome dado a cinco adolescentes — Kevin Richardson, Antron McCray, Raymond Santana, Korey Wise e Yusef Salaam — condenados injustamente em Nova York, em 1989, pelo estupro de uma corredora no Central Park. As condenações se apoiaram fortemente em confissões falsas obtidas em interrogatórios, apesar de o DNA não corresponder a nenhum deles. As condenações foram anuladas em 2002, depois que o verdadeiro autor confessou e seu DNA confirmou a autoria. Estes meninos nunca aceitaram a condenação e jamais aceitaram se calar. Suas famílias mantiveram acesa a chama da indignação.

Em função do grande número de casos em que as condenações ocorrem por pressão popular, linchamentos virtuais ou porque se encaixam na narrativa e no campo simbólico de um determinado tempo e latitude, criou-se o Innocence Project, que é uma organização jurídica sem fins lucrativos criada em 1992 por Barry Scheck e Peter Neufeld. Ela investiga condenações possivelmente injustas e atua judicialmente para conseguir a exoneração de pessoas condenadas por crimes que não cometeram, historicamente com grande uso de testes de DNA e, hoje, também contestando outras formas de provas falhas – como aquelas baseadas unicamente no testemunho da vítima.

Existe ainda a Innocence Network, uma rede que reúne organizações desse tipo nos EUA e em outros países, oferecendo assistência jurídica e investigação gratuitas a pessoas que alegam inocência. Inclusive, existe o Innocence Project Brasil, inspirado nesse movimento.

Ou seja, existe um preceito reconhecido no mundo inteiro de que se indignar diante do que considera uma injustiça é um direito inalienável. Não se trata sequer de negar-se a respeitar o devido processo legal que, como vemos todos os dias, pode cometer falhas. Se até com o presidente podem errar, imagine com um mero e vulgar cidadão. Assim, indignar-se, falar publicamente, “espernear”, apontar a injustiça e não aceitar a culpa, são sentimentos humanos e não podem ser punidos ou cerceados.

Não fosse por isso, pela voz dos garotos de Nova York e por milhares de outras pessoas julgadas erradamente, estes personagens estariam até hoje pagando por crimes que jamais cometeram.

A corredora do central park estava errada. Só ela?

Deixe um comentário

Arquivado em Causa Operária, Pensamentos, Violência