Vingança

Josh, ainda com os braços apoiados na mureta de tijolos da sacada, olhava para o horizonte como que a procurar a resposta para sua angústia no grupo de nuvens que buscava um pouco de calor nos raios avermelhados dos últimos brilhos do sol.

– Não faz diferença, Josh; o que você diz não faz a menor diferença. Entenda que seus argumentos e explicações podem inclusive ser iguais àqueles usados pelo seu oponente. O fato de que você foi colocado a priori na posição de inimigo fará com que qualquer coisa que você disser será desvirtuada para parecer o contrário do que em verdade disse. Por que perder tempo tentando achar concordâncias com quem se nega a aceitá-las?

Josh manteve-se fixado na linha do horizonte enquanto o café perdia calor e fumegava na mesa ao lado. Parecia não haver qualquer maneira de acalmar sua tristeza. Ele finalmente voltou seu corpo para o quarto, onde seus olhos encontraram Pearl sentada à beira da cama, segurando sua xícara enquanto tentava encontrar uma brecha no muro de decepções que o cercava.

– Não consigo entender porque tanta aversão. Qual o sentido dessa barreira que desafia o bom senso e a lógica?

Pearl respirou fundo para responder, mas interrompeu sua fala antes da primeira sílaba. Percebeu que também seriam inúteis suas palavras. Não haveria nenhuma possibilidade de que frases e ideias, por si só, pudessem reparar os danos. Do fundo do poço do ressentimento ele só conseguiria emergir quando o tempo fosse capaz de cicatrizar as feridas abertas.

Olhou o vapor do seu café e pensou que, ele também, só poderia ser tomado quando o calor amainasse.

Terence H. Werther, “Revenge as a cursed inheritance” (A vingança como herança maldita), ed. Project, pág. 135

Terence Hash Werther começou a escrever no Kentucky Herald em 1969 como repórter esportivo, atuando na cobertura das corridas de cavalos. Ao invés de fazer análises técnicas sobre o histórico dos cavalos e suas chances estatísticas nos diversos pisos, usava da criatividade e produzia textos cheios de humor e graça. Foi o criador das famosas ‘entrevistas com os cavalos’, mas quais dublava os animais e fazia divertidas entrevistas com aqueles que estavam prestes a correr. Com o tempo, foi transferido para os setores de economia e posteriormente para literatura e arte, onde manteve uma coluna sobre cinema e livros por mais de 20 anos no mesmo jornal. Ao se aposentar escreveu seu primeiro romance, chamado “Among horses and beers”, sobre cocheiras, cavalos e jóqueis, espaços onde conviveu por muitos anos. Em “Revenge” ele acompanha os passos de Josh Daniels, um jovem judeu de Minesotta viciado em corridas e apostas que deseja ficar rico em New Jersey e voltar para sua cidade. Nada disso, aconteceu, e ele acabou envolvido com o submundo das apostas, drogas, prostituição e crime organizado. O filme baseado no livro está em fase de produção e será estrelado por Jeremy Altman no papel de Josh e Mary Gorgulho como Pearl, a garota autista prodígio que se apaixona por ele e o ajuda nas apostas.

Publicidade

Deixe um comentário

Arquivado em Citações

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s