Medo

Eu tenho muitos medos, e sei muito bem o que é o temor de perder a credibilidade.

Durante 30 anos fui médico de mulheres, e dei aulas e cursos em muitos lugares do Brasil e do mundo. Minhas amigas, colegas e a plateia para qual eu falava eram quase excluivamente formadas por mulheres. Por esta perspectiva aprendi, aos trancos e barrancos, a entender o mundo pelo discurso das mulheres. Escutava suas dores, seus sentimentos, a forma de ver e sentir o mundo e suas propostas para mudá-lo. Eu vivi durante a maior parte da minha vida adulta em um mundo feminino, com tudo que existe de criativo, doloroso e complexo neste universo. Minha visão era muito derivada da ótica especial que as mulheres me ensinaram. A consequência natural foi a adoção de uma perspectiva identitária, que me acompanhou durante décadas.

Porém, num determinado momento da minha vida, e a partir de um conjunto de decepções que me levaram a produzir uma reflexão muito profunda sobre minha visão de mundo e o meu trabalho, eu abandonei as minhas crenças e a perspectiva identitária, as quais carreguei durante toda a minha vida. Entretanto, ao mesmo tempo em que eu dava um giro nas minhas concepções, as pessoas que confiavam no meu trabalho continuavam conectadas a uma narrativa francamente ligadas aos valores do identitarismo, olhando o mundo de forma excludente, essencialista e moralista. O simples fato de questionar a realidade fazia com que estas pessoas se afastassem de mim; algumas simplesmente paravam de falar comigo. Fui expulso de uma comunidade com um “abaixo assinado” porque questionei ações que mais pareciam “corporativismo de gênero”, e não uma busca por equidade, justiça, cooperação e respeito mútuos. Ser um homem num contexto feminino e questionar a cola que as mantém unidas é um roteiro seguro para a exclusão.

Com o tempo percebi que uma das estratégias para sobreviver é simplesmente evitar temas muito delicados. Por exemplo, parei de falar nas redes sociais sobre a questão das mulheres, das trans, do ativismo gay e a respeito do racialismo. Achei que deveria centrar minha energia em coisas que não causariam tanta turbulência, brigas, incompreensãoes e cancelamentos. Naquela época, uma frase que cansei de escutar foi: “Puxa, você me decepcionou”. Por isso, eu entendo quem prefere ficar em silêncio e não se sente seguro de enfrentar uma massa raivosa lhe atacando pessoalmente pelas suas ideias e posturas. O episódio de mulheres sendo atacadas por mulheres por pensarem de forma diferente da maioria nas Universidades ou nos Partidos políticos sãoexemplos de como assumir uma postura contra-hegemônica pode ser agressivo e até perigoso. Tive experiência como esta no enfrentamento constante que tive na luta pela humanização do nascimento e sei muito bem como nos sentimos quando bombardeados desta forma.

E sim, tem gente que é casca grossa e enfrenta qualquer disputa sem pestanejar. Entretanto, muitas vezes é porque não há tanto em jogo, e estas pessoas não correm o risco de perder o emprego, até mesmo a profissão, o posto de chefia, a credibilidade e a confiança dos outros. Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que se é… e cada um sabe até onde consegue segurar a barra. Para aqueles que um dia fraquejaram, a minha solidariedade. Fragilizar-se diante de suas posturas é natural, e por isso é importante pensarmos e agirrmos no coletivo. Quando um sente medo o outro o abraça com coragem.

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