O barulho ensurdecedor da festa da virada do ano invadia a cafeteria e disputava o espaço com o aroma de café e as pessoas que se amontoavam no balcão e nas mesas. Vez por outra foguetes explodiam e a os gritos que os seguiam penetravam no ambiente, atrapalhando a música que vinha da TV ligada pendurada na parede. Diogo tomava uma Coca Cola, mas sonhava com seu próximo aniversário, quando completaria 18 anos e poderia tomar cerveja como Lucas, seu primo. Célia estava com o olhar fixo na rua, imóvel há alguns instantes. Finalmente olhou para seu filho e, colocando a mão em seu braço, lhe disse:
— Diogo
— Sim?
— Lembra quando você era pequeno e sempre me perguntava quem era seu pai? Dizia que seu colegas na escola tinham pai que jogava bola com eles, enquanto você só tinha mãe. Dizia que um dia gostaria de vê-lo. E você queria saber como ele era, se era alto ou baixo, se o cabelo era parecido com o seu. Lembra disso?
— Sim, eu lembro. Eu era pequeno, depois perdi essa curiosidade. Já tem algum tempo que não penso mais nisso. Você disse que ele não morava mais nesse país e eu esqueci. Passou.
— É, faz alguns anos já. A gente fica velha e parece que tudo foi ontem. Eu tentava lhe explicar, mas você era pequeno, não entendia.
— Eu entendo mãe, não liga não. Criança é assim mesmo curiosa. Sem problema.
Duas crianças passaram espremidas por entre as mesas e empurraram com seus corpos as cadeiras. Célia sorriu pelas risadas marotas dos moleques, mas ainda pôde dizer “Cuidado!” quando eles quase derrubaram a garrafa à sua frente. Algumas gargalhadas cheias de álcool correram o pequeno salão vindo de um grupo de coroas que cantavam sem se preocupar com a afinação. Enquanto isso, os músicos do show da virada se intercalavam na cantoria da TV. Célia voltou a ficar com o olhar fixo no bar do outro lado da rua, que colocava cadeiras nas calçadas e servia bebidas e petiscos aos clientes.
— Preciso te contar uma coisa.
— O quê?
Ela indicou discretamente o bar à frente.
— Está vendo aquele homem de camisa vermelha?
Diogo procurou com os olhos.
— É seu pai.
O rapaz voltou-se para a mãe. Por algum tempo, não disse nada.
— Quer ir lá conhecê-lo?
O garoto baixou o olhar, bebeu o resto do refrigerante, e ficou olhando para o copo vazio por mais alguns instantes. Depois olhou para a mãe mais uma vez..
— Não. Não quero.
Eu olhava para Diogo e senti em seu olhar o peso daquela confissão. A história que Diogo me contou havia brotado entre uma conversa e outra, mas o sorriso nervoso que ele deu ao terminar o relato não deixou dúvidas sobre o significado daquele momento ocorrido há mais de 20 anos.
Depois de me relatar o não-encontro com seu pai ele ficou em silêncio por alguns instantes, e depois voltou a pintar umas peças de madeira com as tintas recebidas com o material do artesanato. Por instantes pensei ver seus olhos marejados, mas é provável que tenha sido o frasco de solvente aberto ao seu lado. Afinal, Diogo era bandido, e os bandidos não choram.
