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Cabiria

Agora falando sério…

Há algumas semanas eu escrevi um conto onde o personagem principal não tinha nome. Quando fui descrever sua principal obra, precisei escolher um nome para o personagem e uma palavra veio à minha cabeça: “Cabiria”. O livro desse escritor fictício (chamado James Wilbur) então se chamou “Echoes of Cabíria”.

Depois que escrevi isso fiquei pensando porque havia escolhido esse palavra que brotou espontaneamente na minha cabeça (que eu não sabia sequer se era um lugar ou uma pessoa).
Depois que terminei de escrever o conto fui procurar no Google e me surpreendi com o que descobri. Cabiria é o nome da personagem principal do filme de Federico Fellini “Le notti do Cabiria” (As Noites de Cabiria) de 1957, estrelado por Giulietta Masina (que na época era esposa de Fellini) e que conta as desventuras de Cabiria, uma prostituta de uma pequena cidade italiana. O filme é belíssimo ao apresentar a fantasia romântica das mulheres, o culto ao amor, o sofrimento, as decepções, a tristeza e a esperança que teima em resistir mesmo diante de todas as adversidades.

A atuação de Giulietta Masina é impressionante. Umas das atuações femininas do cinema que mais me marcaram. Quem é mais velho vai lembrar de Dirce Migliaccio como uma das “irmãs Cajazeiras” da novela O Bem Amado de Dias Gomes. Ambas elétricas, engraçadas e pequeninas. Cabiria é vibrante, firme, forte, enérgica, “barraqueira” e ao mesmo tempo feminina, dócil, frágil, delicada e doce. O filme ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro de 1958, e não poderia ser mais merecido.

Passei muito tempo tentando entender por qual razão esse nome brotou do meu inconsciente. Por certo havia um “saber não sabido” que me direcionou para essa escolha, mas por quê? O que me atraía num filme que jamais havia assistido? E por que me impressionou tanto?

A verdade é que, ao terminar o filme, eu fui obrigado a exclamar:
– Put* que p*riu, que filme!!! Que atriz, que história, que beleza…

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Sinceridade

Aliás, Cabiria, eu sempre desconfio de gente que começa suas falas dizendo “Olha, eu sou bem sincera(o); digo mesmo, na cara.” Muitas vezes não há nada de sinceridade na fala dessas pessoas, mas tão somente um passe livre para a grosseria; uma liberação para a expressão da maldade e do ódio.

A sinceridade não precisa ser amarrada à brutalidade das palavras. É claramente possível ser justo enquanto amável, honesto e ainda assim ser doce. Mesmo diante de uma sentença dura e inexorável é possível reconhecer o crime, entender a necessidade da punição e ainda assim tratar o criminoso como alguém não muito diferente de nós, apenas inserido em um contexto doentio e vicioso que lhe deu muito poucas opções para agir na direção oposta ao seu destino.

A grosseria travestida de “verdade dura” nada mais é do que a licença que a verdade lhe oferece para deixar escapar seus verdadeiros sentimentos de desprezo, ressentimento e mágoa diante de algo ou alguém. Usar um fato verdadeiro para deixar que escapem seus piores sentimentos é prostituir sua verdadeira missão.

James Wilbur “Echoes of Cabiria”, ed. Patrus, pág. 135

James Wilbur é um jornalista canadense, nascido em Saskatoon, Saskatchewan. Escreveu vários romances, em especial romances históricos sobre a colonização do Canadá e a relação dos primeiros imigrantes com os habitantes originais, também chamados de “first nation”. Em “Ecos de Cabiria” James Wilbur presta sua homenagem ao grande diretor Federico Fellini em sua magistral obra de 1957 “Noites de Cabiria”. Neste filme, uma prostituta chamada Cabiria sonha encontrar o verdadeiro amor e uma vida plena, mas o choque com a realidade dura a faz sofrer desilusões e decepções. No romance de James Wilbur, Cabiria é uma transexual que cometeu um homicídio passional, mas é nebulosa a noção de que tenha ocorrido por legítima defesa. Na trama ela acaba se apaixonando pelo detetive que tenta investigá-la. A chocante descoberta da transexualidade de Cabiria – que de início respondeu aos seus avanços – fez com que o detetive McArthur questionasse seus sentimentos, sua própria sexualidade e, mais grave ainda, sua ética profissional. A história se desenrola através de um caleidoscópio de remorso, paixão e desejo, onde a lâmina fina da culpa aguarda qualquer mínimo desvio para cortar sem piedade.

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