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O Homem de Mil e Uma Faces

Após a morte de Jô Soares acontecida em 5 de agosto de 2022, muitas pessoas lembraram de outro gênio do humor brasileiro que nos deixou há uma década. O “homem de mil e uma faces”, o cearense Chico Anysio, coloriu minha infância com a multiplicidade de personagens hilários. Dono de um humor refinado, sutil e essencialmente brasileiro, suas caracterizações eram plenas de sofisticação e genialidade.

Não acredito estar exagerando ao dizer que nenhum artista brasileiro teve tanto ecletismo, tanta veemência e tanta diversidade. Músico, poeta, ator, comediante, humorista, roteirista, escritor e criador obstinado. Era dono de uma voz possante e de um olhar penetrante. Saltava em uma fração de segundos da doçura de uma mulher para a mais grosseira caracterização de um machão. Transitava da seriedade à mais escrachada palhaçada sempre com refino técnico e apurada capacidade de apreensão dos costumes. Mais do que fazer rir, nos fazia pensar com seu humor.

Seus inúmeros e eternos personagens farão parte do acervo artístico desse país. Perdemos o homem, muito precocemente para os padrões atuais, mas a sua obra se manterá viva na cabeça de milhões de crianças sexagenárias como eu, que cresceram dando gargalhadas intermináveis da fina ironia deste que foi o maior artista brasileiro do século XX.

Chico Anysio está no panteão dos maiores e mais inteligentes artistas brasileiros. Desde sua morte está encarregado de fazer os anjos sorrirem e aplacar com tuas piadas e histórias a ira dos Deuses. Sua imagem multifacetada ficará para sempre presente nessa cabeça de menino que me nego a abandonar.

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Adeus Eugênio Soares

É curioso que quase todo mundo lamenta a perda do Jô Soares e fala das suas entrevistas, mas na minha cabeça eu lembro de forma muito viva da Família Trapo (um brincadeira com a família Von Trapp, da Noviça Rebelde) na antiga TV Record (antes de ser um antro de pilantras como agora), com Ronald Golias; Renata Fronzi; Otello Zeloni; Ricardo Corte Real; a (agora) vereadora Cidinha Campos, Ronald Golias (Carlo Bronco Dinossauro) e o gordinho desengonçado Jô Soares. (vide abaixo)

Também recordo vivamente dos seus múltiplos personagens, os quais apresentava em seus programas de humor, como Planeta dos Homens, Satiricom, Faça Humor não faça Guerra, Viva o Gordo etc, maravilhosos, cada um deles uma aula de psicologia, comportamento, política e sociologia. E tudo isso durante a ditadura, onde o talento tinha que ser contido e cuidadoso, basta lembrar o nome do seu show de stand-up: “Viva o Gordo e Abaixo o Regime!!”.

Queria ressaltar apenas os meus personagens prediletos: Capitão Gay (identiraries hoje cancelariam), Múcio, Gardelón, Alvarenga, Bô Francineide, Padre Cosme, Padre Carmelo, Zé da Galera e tantos outros. Penso naquele humor da ditadura e percebo que era muito mais livre – e engraçado – do que este controlado pela geração woke.

A única mácula foi o programa reacionário com a nata do jornalismo golpista da Globo chamado de “As Meninas do Jô”, de triste memória, mostrando que o atraso e o fascismo estavam entranhados há muito tempo na emissora onde trabalhava.

Os meus heróis do humor da juventude já se foram: Golias, Chico Anysio e Jô Soares. Sobra a esperança de que eu possa desfrutar do talento deles depois que eu me for também.

A pergunta que me fizeram hoje foi: Jô ou Chico Anysio? Minha resposta foi que Chico era superior como humorista e ator, enquanto Jô foi o melhor enquanto artista e personalidade pública. Mas… vamos combinar que estas comparações acabam desmerecendo sem necessidade. Ambos são, para, mim as melhores lembranças de humor da minha infância. A dobradinha Jô Soares-Max Nunes está no mesmo nível de Chico Anysio-Arnaud Rodrigues. Aliás, acho que está acima. O humor de personagens no Brasil teve nessas duplas o seu ápice.

Lembrei uma característica engraçada do meu pai. Ele era um sujeito sério e intelectual, reservado e sofisticado; um verdadeiro lorde inglês. Um domingo cheguei para almoçar e escutei gargalhadas vindo de um quarto da casa dele. Quando cheguei na sala de TV o vi se dobrando de rir com uma piada dos Trapalhões. Imediatamente o “repreendi” confessando minha surpresa por vê-lo dar risadas das trapalhadas circenses de Didi, Dedé, Mussum e Zacarias. Ele deu de ombros e continuou rindo…

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PS: a respeito do Chico Anysio, eu lembro da manifestação do meu pai quando estreou o programa “Chico City”, onde ele circulava com enorme talento entre inúmeros e diversificados personagens. Ele me confessou, muitos anos depois, que não percebeu que era o Chico em todas aquelas figuras e só descobriu porque foi avisado no dia seguinte pelos colegas de trabalho. (veja aqui outro texto que escrevi sobre Chico Anysio)

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