Arquivo da tag: ciborgue

Cyborg

Imagine-se chegando em uma cidade e perceber, já no aeroporto, que a maioria das pessoas anda em cadeiras de rodas. Faz uma rápida conta mental e contabiliza mais da metade como incapazes de caminhar com as próprias pernas. Mais ainda: quando chega ao banheiro nota uma fila de homens aguardando para colocar uma sonda urinária, já que não conseguem urinar por si mesmos. Quando sai à rua, se dá conta que uma quantidade enorme de pessoas usa bolsa de colostomia anexada aos seus ventres, porque seus intestinos já não funcionam adequadamente. Não seria este um choque brutal? Não caberia perguntar o que houve nessa localidade capaz de produzir uma epidemia de incapacidades? Não seria justo e necessário investigar as origens de tamanha tragédia?

Mas, não será essa ficção apenas uma caricatura do que já estamos vivendo hoje, como vaticinou Donna Haraway em seu “Cyborg Manifesto”?

Dentaduras de sorrisos perfeitos, olhos com cristalinos artificiais, quadris de titânio, rostos com botox e fios de ouro fazem do humano uma pálida lembrança do que outrora fomos. Como o “Homem de 6 milhões de dólares” almejamos a transcendência dos limites tímidos do nosso corpo, exigindo da tecnologia que suplante nossas imperfeições através dos recursos técnicos artificiais.

Quanto mais “avançamos” enquanto sociedade mais nos percebemos trocando funções fisiológicas orgânicas – e seus milhões de anos de aperfeiçoamento – por versões artificiais “top de linha”, como novos-ricos ciborgues exibindo nossas ereções quimicamente estimuladas, nossas perucas rejuvenescedoras, pontes de safena e válvulas cardíacas como preciosos objetos de consumo.

Diante de tamanho esplendor tecnocrático, por que deveríamos nos assombrar com o fato de que 57.5% das mulheres brasileiras são levadas a uma cesariana, alijadas da vivência fisiológica e natural dos seus partos – fato que acompanhou a humanidade desde seu alvorecer? Por que deveria nos causar espanto que quase 60% das mulheres são incapazes de dar conta de algo que suas bisavós entendiam como tarefa natural da feminilidade?

Se há um corpo que se presta ao (ab)uso da tecnologia, este será o das mulheres. Afinal, sua incompetência, fragilidade e defectividade são exaltadas pela cultura e pela própria estrutura do modelo patriarcal. A expropriação de sua inata capacidade de gestar e parir não é nada além de um capítulo a mais na sua larga história de intromissões e invasões.

Hoje a verdadeira revolução não está mais em descobrir o próximo “gadget” precioso que vais tornar nossa vida mais tranquila e segura, mas em questionar o quanto de humanidade restará em nós quando a nenhuma criança mais for dado o direito de nascer do ventre de uma mulher.

ENGLISH VERSION

Imagine yourself arriving in a city and realizing, already at the airport, that most people in that place are in wheelchairs. You do a quick mental count and notice that more than half is unable to walk on their own legs. Even more: When you go to the bathroom, you notice a line of men waiting to put in a urinary tube, as they cannot urinate by themselves. When you leave the premises, you realize that a huge number of people use a colostomy bag attached to their bellies, because their intestines are no longer functioning properly. Wouldn’t this be a brutal shock? It would not be appropriate to ask what happened in this locality so terrible as to produce an epidemic of disabilities? Would it not be fair and necessary to investigate the origins of such a tragedy?

However, isn’t this fiction just a caricature of what we are already experiencing today, as predicted by Donna Haraway in her “Cyborg Manifesto”?

Dentures with perfect smiles, eyes with artificial lenses, titanium hips, faces filled with botox and gold threads which make the human a pale reminder of what we once were. As the “Million Dollar Man” we aim to transcend the timid limits of our bodies, demanding from technology that it overcomes our imperfections through artificial technical resources.

The more we “advance” as a society, the more we find ourselves trading organic physiological functions – and their millions of years of improvement – ​​for “top-of-the-line” artificial versions, like cyborg nouveaux riches showing off our chemically stimulated erections, our rejuvenating wigs, heart bypass grafts and heart valves as precious consumer items.

Faced with such technocratic splendor, why should one we be amazed at the fact that 57.5% of Brazilian women are taken to a caesarean section, denied of the physiological and natural experience of their births – a fact that has accompanied humanity since its dawn? Why should it surprise us that nearly 60% of women are unable to cope with something their great-grandmothers saw as the natural task of femininity?

If there is a body that lends itself to the (ab)use of technology, it will be that of a woman. After all, its incompetence, fragility and defectiveness are exalted by the culture and by the very structure of the patriarchal model. The expropriation of her innate ability to gestate and give birth is just another chapter in her long history of intrusions and invasions.

Today the real revolution is no longer discovering the next precious “gadget” that will give our lives more pleasure and connection, but rather questioning how much humanity will be left in us when no more child will be given the right to be naturally born from a woman´s womb.

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Medicina