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Pagar a conta

Oi amor, vamos rachar essa conta?

O galãzinho da Globo disse em uma entrevista para a TV que não acha justa a obrigação de pagar as contas em um encontro com uma garota. Falou também que não se importa de pagar a conta do restaurante para amigos e namoradas, mas que se sente desconfortável com essa expectativa, como se esse ônus fosse obrigatório, e esta atitude seria “o que se espera de um homem”. Obviamente identitáries reclamaram do comentário.

Estranhamente eu vi este mesmo tipo de reclamação vindo exatamente das mulheres durante décadas, e sempre achei uma justa reivindicação. Muitas me diziam que não se importavam de cozinhar e/ou lavar a louça para o marido ou a família, mas se diziam indignadas com a naturalização que se criava sobre essa função, como se esse fosse o papel a ser desempenhado pelas mulheres. Como se ao ver uma pilha de louça suja na pia fosse natural e lógico que a obrigação de limpá-la recaísse sempre sobre elas.

Ora…. serei mais uma vez o “chato da equidade”. Se é possível reclamar de velhas construções sociais incidindo sobre as mulheres, porque seria injusto ou errado que os homens também questionassem seu papel de “pagadores compulsórios”?

Eu tenho a mesma posição em relação às pessoas ou instituições que sempre quiseram me pagar coisas. Nestes momentos eu lembrava das palavras do meu irmão, que sempre dizia: “Tudo que é de graça é muito caro”. Por isso a minha eterna posição rabugenta em relação às indústrias farmacêuticas e seus “presentinhos”. Eu sabia que jamais me dariam uma caneta, um jantar, uma viagem ou o ingresso em um congresso apenas pelos meus belos olhos; ele queriam a minha assinatura nas receitas pois sabiam que eu era a ligação fundamental entre o chão da fábrica de drogas e a boca do paciente. Seus agradinhos serviam para me seduzir a prescrever suas bugigangas, e para isso não titubeavam em me comprar com espelhinhos e miçangas.

Com o tempo eu fui abandonado por todas as empresas de medicamentos, a ponto de nunca mais receber nenhuma em meu consultório – o que me deixou muito orgulhoso.

“Ah, mas você vê maldade em tudo”. Não!!! Vejo a realidade da relação capitalista e me permito enxergar por detrás do meramente manifesto aos sentidos mais grosseiros. Muitas mulheres sacam rápido quando os homens pretendem exercer um poder sobre elas através do pagamento das contas, mas poucas se apercebem como será difícil contornar a situação depois de terem recebido a sua parte. “Ou dá ou desce”, sempre foi o mantra de quem tinha o volante nas mãos. Por trás destas dádivas (dos homens, das mulheres, das empresas, etc.) existe a expectativa de uma contrapartida, e quem se nega a enxergar isso é tolo ou perverso.

Só há uma forma de se proteger: não aceitar nada “de graça” se você desconfia que existe uma clara intenção de receber um “benefício” posterior, caso contrário a sua dívida ficará ativa. Mas, pra não dizer que não falei de flores, muitas vezes existem razões bem óbvias para deixar alguém lhe pagar, como por exemplo uma amiga que sabe que você está mal de grana, ou o namorado que acha que “é a sua vez de pagar”. Não é necessário criar um modelo de absoluta paranoia. No meu caso, quando as pessoas dizem “Deixa que eu pago, você é nosso convidado” eu aceito, porque sei que farei o mesmo quando for a minha vez de convidar.

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Chave e fechadura

Quando vi essa imagem na página da amiga Dani Cuccia todas as interpretações que passaram pela minha cabeça eram de caráter sexista. Tipo… “os homens controlam as mulheres no sexo enquanto elas controlam suas mentes“, ou “as mulheres tem a chave para a razão masculina e os homens a chave para a sexualidade delas“.

Essas perspectivas podem ser facilmente interpretadas como essencialistas e/ou sexistas; portanto, anacrônicas. A imagem, por isso, me incomodou, mas me oportunizou pensar sobre ela, acima de tudo porque colocam no gênero especificidades que não são encontradas em todos e todas, mas que surgem tão somente como construções sociais, deterioráveis com o tempo e variáveis na geografia.

Todavia, a partir de um ponto de vista mais subjetivo e ligado às conexões que ligam mente-corpo-sexualidade a imagem poderá adquirir um novo sentido.

Olhando-se de maneira alternativa não se trata de determinar de quem é a chave ou a fechadura – que foi a minha leitura inicial – mas ao fato de que a sexualidade está intrinsecamente ligada à planos mentais e espirituais mais profundos, onde muitas vezes a chave de um abre as portas do outro.

Assim, a sexualidade expressa e livre poderia aclarar estados mentais enquanto um pensamento claro e racional poderá fazer desanuviar transtornos da eroticidade, como no caso de um vaginismo, tumores, alergias ou uma irritação vaginal banal causada pelo medo de aventurar-se em uma nova dimensão de afeto com alguém.

Por é se leitura, a imagem pode apenas significar que, na dimensão humana, os afetos permeiam o sexo e são por ele envolvidos.

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