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Rabisco no Papel

Meu pai queria ser aviador, como seus amigos de juventude. Naquela época a estética dos garotos no pós guerra era imitar os aviadores americanos no estilo: o casaco de couro, os “combat boots” e no chiclete mascado de forma blasé. Ele pensou em estudar no aeroclube, mas era pobre demais para fazer o curso. Alguns de seus colegas mais abastados seguiram adiante e depois foram contratados pela Varig, onde fizeram carreira até seu fechamento.

Passei a vida escutando a descrição que ele fazia das “máquinas mortíferas” da segunda guerra: o Messerschmitt alemão, o Spitfire inglês, o Nakajima KI-84 japonês e o Mustang P-51 americano. Quando eu e meu irmão mais velho fazíamos aniversário ele nos dava modelos dessas aeronaves para “nós” montarmos. Era o sonho dourado da sua infância em pura projeção.

Na adolescência planejou ser um artista plástico. Desenhava muito bem, tinha um traço fino e gostava de desenhar formas humanas. Perguntei-lhe porque desistiu e ele explicou com a frieza que o caracterizava:

– Desisti porque me dei conta da minha mediocridade. Eu jamais seria um grande artista e creio que não conseguiria sequer sobreviver da minha arte. Fica para a próxima.

Apenas um quadro seu sobreviveu, e ele está comigo agora. Nós chamávamos o quadro jocosamente de “Brokeback Mountain de Osório”, e ele sempre ria britanicamente quando perguntávamos se continuava visitando seu amigo.

Uma vez, quando tinha 5 anos de idade e o vi desenhando, fiz um pedido a ele que até hoje me impressiona. Sei a idade que tinha pois foi na casa que morei até os 5 anos, em São Leopoldo. Meu curioso pedido foi:

– Pai, pode me desenhar? Mas não como sou agora, e sim como serei no futuro. Quando eu crescer. Pode?

Ele sorriu e começou a rabiscar. Depois de uns poucos minutos mostrou o desenho, feito com caneta Bic. Era um homem gordo, de cabelos volumosos e negros, rosto arredondado. Até hoje, quando lembro, me vem à mente a imagem do meu tio Ênio, ou do meu avô materno Olinto. Era assim que ele me via; imaginava que eu seria um Blumm, alemão, entroncado e forte, e não um inglês magricela e de boca estreita, como ele.

Fico feliz que ele pôde imaginar que eu seria alguém que herdou os traços da minha mãe e sua família. Hoje, eu daria qualquer coisa para olhar aquele rabisco mais uma vez. Gostaria de lhe dizer que fiz o máximo que pude para ser o homem da imagem desenhada. Tentei ser aprovado por ele, mesmo quando discordava. Sei que errei no cabelo, e muitas outras coisas – e ele também não imaginava que minha rebeldia seria tão marcante – mas é certo desde então ele já intuía a imensa admiração que sempre guardei por ele.

Onde você estiver, pai, faça um retrato de como eu vou ser quando ficar bem velhinho. Espero que o seu desenho de agora mostre alguém muito parecido com você.

Saudade….

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Arquivado em Histórias Pessoais