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Volta pra casa

Adoro os videozinhos de soldados gringos que voltam do front de batalha em algum lugar invadido pelo imperialismo e fazem uma surpresa para seus familiares. Lágrimas, emoção, alívio e alegria…

Voltaram das guerras imperialistas onde mataram homens, crianças, pais de família, mulheres, bebês e velhos, em sua grande parte de pele escura e seguidores do Islã. Destruíram países inteiros para roubar petróleo e outros recursos naturais.

Criaram redes de prostituição de crianças, como no Afeganistão e no Vietnã. Estupraram e violentaram a memória e o corpo dos habitantes nas dezenas de nações que invadiram desde a segunda guerra mundial.

Mas, depois de tanto matar e destruir, voltam cansados para seus lares cristãos para abraçar seus filhos loiros e de olhos claros, e receber o beijos de seus pais fiéis a Jesus Cristo.

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Rabisco no Papel

Meu pai queria ser aviador, como seus amigos de juventude. Naquela época a estética dos garotos no pós guerra era imitar os aviadores americanos no estilo: o casaco de couro, os “combat boots” e no chiclete mascado de forma blasé. Ele pensou em estudar no aeroclube, mas era pobre demais para fazer o curso. Alguns de seus colegas mais abastados seguiram adiante e depois foram contratados pela Varig, onde fizeram carreira até seu fechamento.

Passei a vida escutando a descrição que ele fazia das “máquinas mortíferas” da segunda guerra: o Messerschmitt alemão, o Spitfire inglês, o Nakajima KI-84 japonês e o Mustang P-51 americano. Quando eu e meu irmão mais velho fazíamos aniversário ele nos dava modelos dessas aeronaves para “nós” montarmos. Era o sonho dourado da sua infância em pura projeção.

Na adolescência planejou ser um artista plástico. Desenhava muito bem, tinha um traço fino e gostava de desenhar formas humanas. Perguntei-lhe porque desistiu e ele explicou com a frieza que o caracterizava:

– Desisti porque me dei conta da minha mediocridade. Eu jamais seria um grande artista e creio que não conseguiria sequer sobreviver da minha arte. Fica para a próxima.

Apenas um quadro seu sobreviveu, e ele está comigo agora. Nós chamávamos o quadro jocosamente de “Brokeback Mountain de Osório”, e ele sempre ria britanicamente quando perguntávamos se continuava visitando seu amigo.

Uma vez, quando tinha 5 anos de idade e o vi desenhando, fiz um pedido a ele que até hoje me impressiona. Sei a idade que tinha pois foi na casa que morei até os 5 anos, em São Leopoldo. Meu curioso pedido foi:

– Pai, pode me desenhar? Mas não como sou agora, e sim como serei no futuro. Quando eu crescer. Pode?

Ele sorriu e começou a rabiscar. Depois de uns poucos minutos mostrou o desenho, feito com caneta Bic. Era um homem gordo, de cabelos volumosos e negros, rosto arredondado. Até hoje, quando lembro, me vem à mente a imagem do meu tio Ênio, ou do meu avô materno Olinto. Era assim que ele me via; imaginava que eu seria um Blumm, alemão, entroncado e forte, e não um inglês magricela e de boca estreita, como ele.

Fico feliz que ele pôde imaginar que eu seria alguém que herdou os traços da minha mãe e sua família. Hoje, eu daria qualquer coisa para olhar aquele rabisco mais uma vez. Gostaria de lhe dizer que fiz o máximo que pude para ser o homem da imagem desenhada. Tentei ser aprovado por ele, mesmo quando discordava. Sei que errei no cabelo, e muitas outras coisas – e ele também não imaginava que minha rebeldia seria tão marcante – mas é certo desde então ele já intuía a imensa admiração que sempre guardei por ele.

Onde você estiver, pai, faça um retrato de como eu vou ser quando ficar bem velhinho. Espero que o seu desenho de agora mostre alguém muito parecido com você.

Saudade….

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Conversa ao telefone

Meu pai, 90 anos, ao telefone hoje:

– Fui fazer um tratamento dentário que precisava fazer a tempo. Fiquei esperando pra ver se morria antes. Como não morri, resolvi fazer. Chato isso…

– Não se apresse, pai. Se precisar bote uma chapa novinha.

– Pois é. Ultimamente vejo filmes e leio coisas antigas. Não me sinto deprimido mas fiquei chorão vendo filmes e lendo os livros que vocês escreveram (eu e meu irmão Roger Jones)

– Leia coisa de qualidade, pai. Não perca suas energias com canastrões. Use os meus livros para ajeitar o pé da mesa da cozinha, que está desequilibrada.

– Estou falando sério, vocês escrevem bem. Quando você fala de parto é muito bom de ler e viajar por esse mundo desconhecido para um homem como eu. Só não leio mais porque tenho medo de ler alguma coisa que você escreveu sobre política. Meu filho, eu já te falei tantas vezes que…

– Pai, nós já falamos sobre isso.

– Sim eu sei, eu sei. Nao vamos entrar nessa seara. Tenho saudades da tua mãe. Penso em reencontrá-la. Não sinto tristeza, sinto curiosidade desse mundo que vou reencontrar.

– Quem sabe vou antes que você. Nunca se sabe.

– Tchau filho, fiquem em casa.

– Tchau pai, fique em paz

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Nathalie

Nathalie cruzou as mãos sobre os joelhos e manteve seus olhos baixos, fixados em um ponto abaixo do horizonte plúmbeo. Tinha-os tristes e as linhas que os circundam eram marcadas por nuvens densas a cobrir de sombras seu rosto.

– Nada pode preencher este vazio, Nick. Não há sequer palavras que possam ser ditas. Talvez aqui esteja mesmo o “encontro das pontas” que Denny falou. Se não é possível descrever em palavras a emoção fulgurante do nascimento, também a morte só pode ser descrita se for sentida na carne. Nada do que é dito faz sentido diante da ausência, do vão, do nada que nos recobre.

Nick, engoliu em seco e pensou que seu silêncio diria mais do que qualquer frase. Olhou os olhos secos de Nathalie e sentiu nos próprios braços, como uma cãibra, a dor da impotência. Queria acalentar sua amiga, mas não há abraço suficiente para um momento de dor como esse.

Nathalie continuou, depois de suspirar e girar os olhos pelo teto, sem poder fixá-los em nada.

– Sabe o que sinto, Nick? Uma sensação incrível de arrancamento. Como um membro arrancado sem aviso. O desejo de caminhar e perceber que faltam as pernas, ou de afagar quando se foram os braços.

– Mas… Nick balbuciou meias palavras, mas foi interrompido pela fala de Nathalie.

– O que me vem à mente é saber que o que eu mais gostava já não poderei fazer. Não tenho agora comigo as festas, as viagens, o nascimento dos nossos filhos e a chegada dos netos. Essas são luzes brilhantes que iluminaram nosso caminho e jamais as perderei da lembrança. Entretanto, o amor não se sustenta apenas por estes alicerces, mas pelos humildes tijolos que lhe dão forma. Em minha mente agora está um prato da comida que ele mais gostava, o barulho da chave no portão da casa, seus passos arrastados no pequeno hall, sua face cansada e o sorriso que ele colava no rosto quando sentia o cheiro da sua comida predileta.

– Entendo, murmurou Nick

– Que sentido há em viver quando aquele sorriso simples, por um encontro banal, se perde na poeira de uma história comum para sempre?

Nathalie deixou correr uma lágrima tímida enquanto o sol se recolhia e avisava ao relógio o fim de mais um ciclo.

Jeremy S. Woolworth, “Bridge to Nowhere”, Ed Sargasso, pág 135

Jeremy Sean Woolworth é um escritor americano nascido em Rodman, Nova York, em 1935. É descendente de uma família de milionários americanos descendentes de Frank Winfield Woolworth que abriu a gigantesca rede de lojas Woolworth, inaugurada em 1879. Apesar de seu berço dourado, jamais se interessou pelos negócios – que seus irmãos levaram adiante – e se dedicou desde muito cedo à literatura. Fez em seus livros uma excelente descrição da sociedade americana prévia à segunda guerra mundial e, depois dela, com a sombra do macarthismo assombrando a liberdade de expressão que atingiu artistas, jornalistas e escritores – incluindo ele mesmo, o que culminou com sua prisão pela comissão liderada pelo senador Joseph McCarthy. Em “Bridge to Nowhere” descreve o terror entre os círculos literários pela perseguição política liderada por elementos conservadores em pleno surgimento da guerra fria.

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