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Elogio, ainda

Quando passei no vestibular, aos 18 anos, marquei de encontrar com os amigos no local onde as listas com os nomes dos aprovados seriam afixadas nas paredes. Fomos então aguardar no Estádio do Inter, onde funcionava um dos cursinhos pré-vestibular da época. Estas cenas, por certo, seriam impossíveis em um mundo como o de hoje, onde a aprovação seria enviada para seu celular em casa. Pois nos anos 70 as listagens de aprovação vinham impressas em papel e os estudantes corriam desesperados para encontrar – ou não – seu nome nas listas produzidas pelo CPD da Universidade.

Na hora em que as listas apareceram corri para a parede da sala e fui um dos primeiros a ver meu nome impresso. Estava ao lado do meu irmão e da minha namorada – também aprovados – e meus amigos, que estavam lá pela farra. Fizemos festa ali mesmo, na hora, com tinta, água e tesoura; não sobrou um fio sequer na minha cabeça. Depois de comemorar brevemente com a turma, voltei para casa, esgotado pelas emoções daquele dia. Ao chegar, foi meu pai quem abriu a porta. Olhou minha cara suja de tinta e minha cabeça raspada e deu um “meio sorriso”, bem característico para quem o conhecia. No disse uma única palavra. Não me deu parabéns e nem sequer tapinhas nas costas. Ficou em silêncio enquanto eu percorria o corredor de casa para tomar banho. Depois jantamos e, mais uma vez, nenhuma palavra foi dita.

Assim como os sonhos são organizados enquanto os descrevemos, as palavras só fazem sentido quando são escutadas. Também os silêncios encontram sua maior eloquência no momento em que deixam imóveis as membranas timpânicas. De todos os elogios que recebi na minha vida, a mudez do meu pai no momento em que eu adentrava a vida adulta foi o mais intenso e significativo. Do vão misterioso que emoldurava sua fala sem palavras brotava a confiança de que esta vitória nada mais era do que algo esperado para quem ele tanto confiava.

Muitas vezes o elogio verdadeiro está em não elogiar…

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Elogios

É evidente que existem elogios sinceros e justos. Não há dúvida que nossas ações – ou muitas delas – são merecedoras de apreço e consideração. Não há razão para desconfiar de qualquer palavra positiva sobre você, seu caráter, suas ideias ou o seu trabalho.

Todavia, os elogios podem ser grandes armadilhas. Muitas pessoas lhe elogiam para receber como recompensa um presente futuro: uma dívida de consideração e apreço. As pessoas podem lhe elogiar esperando de volta a mesma consideração e admiração. Portanto, acreditar em elogios, mesmo quando aparentemente não há retorno objetivo, é uma atitude no mínimo arriscada, pois que o ganho de quem elogia é inconsciente e subliminar.

Elogios devem sempre ser escutados com clara desconfiança. Raramente produzem benefícios, porém podem nos tornar arrogantes e presunçosos, pois carregam o pior dos venenos: a confiança exagerada em si mesmo.

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Bebel

Ontem andando pelas ruas de New Orleans com minha filha Bebel passei por dos sujeitos negros e mais velhos do que eu sentados na soleira de uma porta no centro da cidade. Quando nos viram lado a lado um deles olhou para mim e disse com um sorriso malicioso nos lábios:

Hei man, I gotta tell you. You are a very lucky man!

Sorri de volta e agradeci. Afinal, ele estava certo, mas pela razão errada.

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Tigrão

Tigrao

Aconteceu agora. Toca o telefone que só as grávidas conhecem. Atendo imaginando quem poderia estar em trabalho de parto. Uma voz de mulher jovem me pergunta:

– Alô, é da casa do Tigrão?

Fico em silêncio por instantes. Não conheço a voz. Que dizer?

– Talvez, respondo eu.

– Como assim “talvez”?, indagou a moça.

Ainda sem saber direito o que dizer, respondi a ela:

– Minha flor, sempre sonhei escutar isso de uma mulher. Infelizmente não sou o Tigrão, mas agradeço por ter ligado.

Ela deu uma sonora gargalhada. Explicou que Tigrão é o seu pai, pediu desculpas ainda rindo e se despediu.

Tigrão. Ai, ai…

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