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Careca

Eu já falei muitas vezes que nasci sem o chip do “amor aos animais”, e é verdade. Não tenho este tipo de sentimento de proximidade com os bichos e não consigo suportar em minha retina imagens antropomorfizadas de cães e gatos. Não os vejo como “crianças”, anjinhos, amigos ou parceiros. São bichos, e tenho certeza que eles gostam do que são. Não gosto de promiscuidade, gente dormindo com cachorro ou bicho de banho tomado com perfume.

Há muitos anos escutei uma frase de um veterinário homeopata que me marcou muito: “Consigo perceber com facilidade as vantagens emocionais de manter os animais domésticos próximos de nós, em especial para os velhos e as crianças, mas tenho dificuldade em encontrar vantagens que eles possam ter com a nossa presença”.

Isso dito, e reconhecendo minhas limitações, eu por vezes me questiono o que seria uma boa vida para um desses animais. Será que um gato castrado que faz companhia para uma senhora viúva em um apartamento é… “feliz”? E quanto a um cachorro que mora no pátio de uma casa, será ele mais feliz que um primo seu que mora na rua? O Vagabundo era mais infeliz que a Lady? Deveria invejá-la ou ter pena de sua prisão maravilhosa?

Penso nisso quando lembro da cadela da Comuna, a matriarca de nossa pequena matilha. Seu nome foi dado pelo meu neto Oliver em homenagem aos seus dois avós homens: “Careca”. Foi encontrada há muitos anos vagando pela nossa rua, que é um tradicional ponto de “desova de cães”. O esquema é conhecido: Chega o carro, diminui a marcha até parar, abre-se a porta do carona e ali o bichinho é deixado.

Para o azar da Careca não apenas foi deixada por sua antiga família, mas ao ser largada na rua foi atropelada, quebrando o quadril. Quando foi encontrada (horas? dias?) depois pelo nosso caseiro Márcio ela carregava apenas uma fina camada de pelo sobre uma montoado de ossos. Magra, feia e manca. Estava nas últimas.

Que fazer? Bem, o que fizemos foi acolhê-la e tratar seus machucados. Posteriormente, Luiz Augusto a levou para ser castrada. Acabou ficando na Comuna como guardiã, parceira de brincadeiras das crianças e caçadora de quero-queros. Hoje é uma senhora feliz, bem alimentada – apesar de continuar manca pelo acidente.

Olho para a Careca como um símbolo de resiliência e de fé. Depois do abandono e do acidente que lhe causou sequelas ela tinha apenas um destino sombrio à frente. Todavia, acabou recebendo como prêmio o “Éden Canino”, vivendo no melhor lugar onde um cão jamais sonharia viver. Livre, solta, independente, sem coleiras, sem espaços exíguos, sem opressão e sem regras. Careca tem a felicidade que eu gostaria de ter. Carrega no corpo a marca de sua vida de desventuras, mas conseguiu vencer a despeito de suas tragédias.

Está pronta para reencarnar como uma menina na próxima vida. Espero apenas que ninguém tenha a ideia de lhe colocar este apelido.

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Vaidades

Há alguns anos eu vi uma cena que até hoje me faz refletir. Nela havia um fusca estacionado no meio fio, enquanto um jovem se ocupava em lhe dar um banho de mangueira e passar uma esponja com sabão. Nada mais singelo e banal, não fosse o fato de que esse fusca era o carro mais enferrujado que já existiu sobre o planeta. Era todo amassado e com marcas gigantes de ferrugem que chegavam a carcomer a carroceria até atravessar em vários pontos. Era um caco velho, mas o jovem o estava cuidando, ajeitando e deixando limpo com todo o carinho, como se fosse um BMW.

Diante da cena tocante eu me perguntei em solilóquio: “que diferença faz estar limpo um carro TÃO deteriorado?”

Curiosamente eu sempre lembro dessa cena quando me olho no espelho e começo a pentear meus “cabelos”…

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