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Sem autocrítica

Nas redes sociais, logo após os resultados do primeiro turno das eleições de 2026, o sentimento era de surpresa e consternação. Era inacreditável que Lula pudesse estar perdendo o primeiro turno para um “desqualificado” como o filho do ex-presidente. Imediatamente começaram a aparecer as explicações, as interpretações e os culpados. Alguns influencers da esquerda liberal começaram sua campanha para “virar o jogo” com um pedido curioso: “não culpem a esquerda” por esta derrota. Respeitosamente expliquei aos meus amigos que este pedido é absurdo. “Vocês até podem pedir que eu vote em Lula, mas não admito que a resposta para esta derrota seja abolir a autocrítica”, respondi, mesmo sabendo que pouco seria levado em consideração. Além desse pedido, havia a solicitação de que os movimento identitários – feministas, antirracistas, transativistas – fossem poupados dos ataques, pois esta atitude apenas reforçaria o discurso daqueles que nos combatem. “Fogo amigo” diziam eles. Achar que perdemos para “fascistas” é outro erro absurdo do discurso da esquerda. Perdemos porque a esquerda saiu da rua e se tornou chapa branca, elitista e identitária – entre outros erros. O identitarismo tomou conta dos partidos à esquerda do espectro político, enquanto o PT se “endireitava”, colocando os conservadores da burguesia comportadinha e latifundiária em postos chave do governo. Observem o absurdo das falas da Janja (outra responsável pelos erros de comunicação) e vejam as políticas de subserviência ao um discurso anti-científico sobre trans. Isso ofendeu as mulheres do pais, que se obrigaram a chamar a si mesmas de “mulheres-cis”. Quem não percebeu o quanto isso afastou as mulheres simples da esquerda, então não prestou atenção.

“Não é o momento”, diziam eles, e “deveríamos unir forças dentro do campo progressista e popular para evitar o mal maior – a vitória do fascismo”. Esta foi a parte que achei mais insensata. Como eu repito exaustivamente há muitos anos, o identitarismo destruiu a esquerda ao corroer sua vinculação com as lutas operárias. E não foi por acaso: o objetivo das organizações identitárias é exatamente esse, mesmo que muitos dos seus participantes ainda não tenham percebido. Como organização parida nos criadouros do partido democrata, este sempre foi seu objetivo. Percebam como todos os principais nomes da linha de frente dos identitários receberam bolsas para se “aprimorar” nas universidades imperialistas? Manuela, Jean Wyllys, Márcia Tiburi – e muitos outros – foram financiados pelos Estados Unidos para os estudos de gênero ou sobre homossexualidade através de suas agências. E por quê? Porque sabiam que esse modelo de compreensão da realidade é impopular, agressivo, supremacista e anti-povo, mas principalmente porque produz a fragmentação das lutas de classe.

O resultado está aí na nossa cara, e não há como negar que a esquerda identitária se afastou do povo, tornou-se elitista, vendo mais humanidade em minorias supostamente oprimidas do que na grande massa do povo operário brasileiro, cuja opressão é real e econômica. A direita agiu de forma inteligente ao colocar em evidência os identitários e o feminicídio como temas para serem debatidos à exaustão. A maioria da população não concorda com a ênfase dada a estas questões; o pobre da periferia sabe o quanto a polícia mata garotos e estes meninos mortos também são uma tragédia para as famílias. Entretanto, os grupos identitários das universidades, afastados da realidade da gente comum, estabelece como prioridade as “identidades perseguidas e oprimidas”.

O povo não aceita mais isso. O debate estéril sobre pronomes e de banheiros idem. O trabalhador que acorda cedo – e que vota – está se lixando para estas questões. O identitarismo dividiu a população. Isso é operação de propaganda do imperialismo, mas se a a esquerda não compreender por meio de uma severa autocrítica as razões para esse fracasso teremos que suportar por décadas os governos de milicianos à frente do Evangelistão. Estou percebendo que o furo é mais embaixo, e que a necessária mea-culpa da esquerda ainda vai demorar muito a ocorrer. Se continuarmos a chamá-los de fascistas, colocando a crítica moral como o centro do nosso discurso, continuaremos perdendo. Enquanto não colocarmos o operário, o brasileiro comum, o pobre que vai ao culto, como centrais na nossa luta, afastando-nos do identitarismo que esfacela a sociedade, colocando pobres contra pobres, estaremos nos afundando no poço da arrogância. O PSOL já implodiu, o PDT idem, O centrão – direita limpinha – foi para o fundo do saco. Quem saiu vitorioso foi a extrema-direita, que se mobilizou e ofereceu uma esperança. Nós sabemos o quanto as promessas da direita são excludentes e destrutivas para a nação, mas não há como negar seu apelo popular. A esquerda perdeu porque o povo rejeitou sua politica supremacista e excludente – e isso precisa ser dito.

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