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Aprender

Imagina um sujeito que questionava as rotinas insensatas da atenção ao parto – como as episiotomias, o kristeller, as cesarianas abusivas, o corte prematuro de cordão, o afastamento precoce da mãe e do bebê, as vacinas usadas imediatamente após o parto, as rotinas de afastamento etc. – há 30 anos e demonstrava que todas elas faziam parte de uma mitologia médica sem qualquer evidência científica que as justificasse, que apenas serviam aos interesses de uma corporação e ao patriarcado na sua missão de expropriar o parto da mulher. O que aconteceria com um profissional assim? Não é difícil de imaginar…

Pois esta semana eu li um conceito que me chamou a atenção, e que veio em forma de questionamento. Era sobre a ideia – felizmente ainda não colocada em prática – de colocar crianças na escola aos 6 meses de idade e ensiná-las a caminhar com a ajuda de professores e através de equipamentos sofisticados de “auxílio à marcha”. O que aconteceria se as crianças aprendessem a andar com esses profissionais, em vez de o fazerem junto à sua família, em suas casas, como uma experiência afetiva e familiar?

Pois eu afirmo que bastariam duas gerações para passarmos a acreditar que somente com uma escola especializada seriam os bebês capazes de aprender a andar. O ensino domiciliar poderia até ser proibido.

Imagina, aprender em casa, sem professores, sem equipamentos!! E se uma criança cair? E se um bebê morrer? Aprender em casa é coisa da idade média!!! Estamos no século XXI, não podemos mais aceitar modismos perigosos!!

Parece familiar?

Não seriam necessárias mais do que poucas décadas para que o aprendizado “natural” e “fisiológico” de andar – que sempre foi feito através do afeto e respeitando aos tempos subjetivos (10 meses? 11 meses? 1 ano? Qual a diferença?) – desaparecesse por completo. Os estudos sobre o mecanismo da marcha seriam feitos apenas em escolas, comparando métodos de ensino entre si, mas negando a existência de um método multi milenar que sempre nos acompanhou, pois que este agora seria tratado como exemplo de atraso e perigo.

Sabe qual o resultado óbvio dessa aventura tecnocrática? “Disfunção de marcha“, atraso no desenvolvimento, problemas de equilíbrio e desenvolvimento muscular, da mesma forma como a intervenção médica abusiva sobre os ciclos vitais criou os problemas no parto e estimulou o desmame precoce. Pior, nós acabaríamos formando mais especialistas para tratar os graves problemas de marcha e equilíbrio que criamos, porém não de forma crítica e responsável, mas acrescentando ainda mais intervenções para manter intocado o poder sobre os corpos, desnaturalizando dramaticamente nossas experiências de vida.

A crítica aos limites da intervenção só pode ser feita com coragem e determinação. A expropriação da natureza humana em nome do poder consagrado aos “especialistas” precisa ser desafiada, para que não destruamos o pouco de humano que ainda resta em nós.

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