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Discutir

Batalha grega 01

Sempre que eu entro em um debate – em especial nas redes sociais – eu me recordo de uma passagem da Odisseia de Homero onde, durante uma batalha que se iniciava, um soldado pergunta ao seu oponente:

“Diga-me antes de lutar se você é humano ou um Deus. Caso seja um Deus, portanto imortal, não perderei meu tempo numa batalha cuja vitória é, por definição, impossível”.

Em muitas discussões nossos argumentos se comportam como “imortais”. De nada importam as evidências e provas que a nós são lançadas. Somos imunes a elas, infensos ao seu poder destrutivo, pois a couraça que nos protege não é construída pelos tijolos frouxos e débeis da razão cambiante e frágil, mas pelo rochedo inexpugnável dos dogmas.

Quando enfrentamos adversários que se comportam dessa maneira, faz-se necessário agir tal qual o bravo soldado heleno e perguntar ao seu oponente:

“Estarias disposto a deixar morrer seus argumentos se a força dos meus lhes for superior? Permitirias que uma nova ordem invadisse teu pensamento à força de um exército de palavras a mudar a tua mente?”

Se a resposta for negativa, afaste-se da luta. Estás diante de um imortal, que permanecerá intocado pelas novas verdades, preso no cimento de seus preconceitos.

Lembre que “discutir” é “sacudir“. Discutir vem do termo latino “discutere“, que deriva de “quatere” (daí a palavra inglesa “quake“, como em “earthquake“) que significa sacudir. Dessa forma, “discutir” significa sacudir alguma coisa com o fim de separá-la. É o mesmo que fazemos quando discutimos: sacudimos as palavras para verificarmos se o argumento é sólido. Quando se discute com outra pessoa presume-se que os argumentos do seu oponente PODEM mudar sua visão de mundo – ou sua opinião sobre aquele assunto específico – desde que sejam coerentes e lógicos. Também é certo que SEUS argumentos poderão modificar a visão seu adversário sobre a questão debatida, desde que sejam igualmente corretos e abrangentes.

Entretanto, se você aprioristicamente se nega a mudar de posição e fecha as portas para uma nova postura então a discussão é absolutamente inútil. Quem se nega a mudar, mesmo com a força dos argumentos, não tem opinião: tem fé, e esta é irracional por definição. Como regra de ouro, “nunca discuta racionalmente com alguém cujos argumentos não forem racionalmente construídos”.

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Exercícios Natalinos

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Ok, então está combinado. Feliz Natal, abraços, tudo de bom, lembranças pra família.

Talvez. Esse Natal eu fiquei pensando em exercícios necessários. Pensei em duas coisas. Na primeira, lembrei do meu pai me perguntando a respeito do falsificacionismo. Dizia ele: “Pense nas suas convicções mais sérias e profundas, nas coisas em que você acredita com mais fervor. Pense, por exemplo, no poder da mulher de gestar e parir com dignidade, ou na sobrevivência da alma após a falência do invólucro carnal. Pense nessas “verdades” profundamente. Agora, depois de regozijar-se com o conforto que tais certezas oferecem, imagine que elas são em verdade falsas e que há como comprovar, basta que você escute os argumentos que eu lhe oferecerei em contrário. Responda com sinceridade: você os escutaria?

Será que eu os receberia como um contraponto válido ao meu modo especial de ver tais fenômenos ou fecharia meus ouvidos às coisas que não desejo escutar? Ficaria concentrado e confortado em minhas certezas ou aceitaria a relatividade das verdades que acalento? Teria a coragem de encarar a possibilidade de estar errado, ou me iludiria eternamente com a confiança em fatos que não suportam uma análise mais profunda?

A necessidade de questionar minhas certezas sempre me perseguiu, desde que escutei Raul Seixas cantando “Eu prefiro ser esta metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo“. Se aquilo que acredito não pode ser questionado é por que não passa de um dogma, e os dogmas cristalizam o pensamento e congelam a criatividade. O livre pensar não aceita a petrificação dos conceitos, pois a dinâmica do conhecimento não permite paradas. Mesmo causando dor e muito medo, questionar seus próprios valores e crenças é tão essencial quanto crescer ou respirar.

Se você acredita demais em algo, que tal questionar suas crenças mais intensas? Quem sabe não seja mais honesto relativizá-las e encará-las como o que verdadeiramente são: partes de um mosaico infinito, pedaços passageiros de um caleidoscópio que muda a cada movimento minúsculo do conhecimento, fragmentos de algo indizível e desconhecido chamado “verdade”.

A segunda coisa que pensei me serve de ideia para o segundo exercício. Então é isso aí, Feliz Natal para você e sua família, felicidades e boa sorte, um ano cheio de realizações e que o menino Jesus possa iluminar sua vida, e bla, blá, blá… Tudo bem, não há nada de mal em desejar o melhor para os que nos amam e nos querem bem. Mas e os outros? O que fazer com aqueles que nos magoaram e feriram? O que desejar a eles nesse período? Nada? Desejar o “mal”? Ignorar? Maldizer?

Ok, este é o exercício. Pense nas pessoas que lhe fizeram mal, que falaram mal de você, que lhe agrediram, que ignoraram, que caluniaram ou perseguiram, que se ocuparam de denegrir a sua imagem perante os outros, que mentiram para tirar vantagens e com isso te prejudicaram. Feche os olhos e pense nessas pessoas.

De novo. Olhe no rosto dele(s). Olhe profundamente nos seus olhos. Imagine cada detalhe de sua face.

Pronto…

Agora imagine que ele é seu filho ou sua filha. Que por mais que tenha feito coisas erradas você jamais deixará de perdoar, pois que suas almas foram conectadas até antes mesmo dela nascer. Olhe para seu inimigo como se ele fosse da sua carne, tão próximo que você pode até sentir o que ele sente.

Pensou? Percebeu que, assim tornados próximos, os inimigos se humanizam? Desta maneira fica mais fácil entender a sua mágoa e o que os fez atacar e agredir. Quem sabe entender e perdoar seus desafetos seja o maior presente de Natal possível de ser oferecido.

Podemos tentar, ao menos…

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