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Sobre dor e perdão

Quando sua filha nasceu estava de plantão no último dia como doutorando no hospital escola onde estudou. Passados 13 dias veio a se formar, e apenas três semanas depois já estava novamente de plantão, agora como residente. No dia do parto não tinha mais do que 26 anos e, além dos temores que cercam o parto, ainda estava angustiado com a escolha dos novos residentes, o que deveria acontecer nos próximos dias.

Por certo que o jovem estudante prestes a se formar não interferiu no parto da própria esposa, que ficou a cargo de uma residente. O parto foi muito tranquilo, apesar das violências de praxe comuns daquela época. Entretanto, depois de várias horas de ocorrido, já no fim da madrugada, o recém pai foi profundamente maltratado pela residente. Esta foi grosseira, maldosa e até ameaçadora. Fez uma cena em pleno centro obstétrico apenas porque o doutorando foi acompanhar sua mulher e filha recém nascida à maternidade e não permaneceu ao seu lado para passar os dois casos restantes da noite anterior para os próximos plantonistas.

Nunca conseguiu aceitar a violência daquelas palavras. Era impossível entender as razões pelas quais ela foi tão bruta com um colega seu que acabava de ser pai e precisava dar assistência à sua esposa e filha. A raiva do seu olhar nunca lhe saiu da cabeça, como uma interrogação, uma dúvida. Entretanto, intuía que tal manifestação era direcionada a outro sujeito, e que estaria tão somente ocupando o lugar de outra pessoa.

Muitos anos mais tarde ele finalmente ficou sabendo do que se escondia por detrás do meramente manifesto na cena. Aquela médica era namorada – há vários anos – de um homem casado. Certamente que nutria a esperança que ele abandonaria a esposa para, finalmente, ficar com ele, e testemunhas lhe contaram que esta médica era verdadeiramente apaixonada por aquele sujeito. Entretanto, exatamente na época deste parto, o namorado comunicou que estava abandonando sua esposa… mas também não a queria mais. De uma só tacada livrou-se das duas mulheres de sua vida para se juntar a uma terceira, a qual nenhuma das duas tinha conhecimento.

Para ela o efeito foi devastador. Uma relação de muitos anos desmoronava de uma hora para outra. Nesse ínterim, seu colega – um sujeito sem importância, sem brilho, sem destaque, sem glamour – torna-se pai durante o seu plantão. A alegria do nascimento e a exaltação do parto conquistado foram demais para ela. Explodiu em indignação e, por certo, enxergava na felicidade do jovem colega o amante a quem tudo ofereceu e nada obteve em troca. Colocou naquele amanhecer toda a sua indignação nos ombros de alguém que passava por um dos momentos mais intensos e transformadores de sua vida.

Por muitos anos ele a odiou em silêncio. Não podia admitir que tamanha grosseria pudesse ser justificada. Sua alma só veio a serenar quando, finalmente, pode conhecer o drama que se desenrolava por detrás da violência verbal a que foi submetido em um momento onde só deveria haver felicidade.

Por fim foi possível perdoá-la, mesmo sem jamais ter lhe dito como havia ficado magoado com suas atitudes. Sua dor iniciou e findou sem que ela soubesse.

Não há dúvida que, fosse possível conhecer as dores que habitam os corações machucados, seria mais fácil entender as reações violentas que nos atingem. Por certo que muito mal já fizemos aos outros sem sequer notar a amplitude do dano que causamos, mas tenho a esperança que o perdão possa um dia acalmar estes corações.

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Desculpas

Há alguns anos escrevi um texto a respeito de um post em um blog que eu havia lido. Era uma história sobre sexualidade que mexeu comigo porque sempre tive esse tipo de angústia em relação aos filhos, crianças, adolescentes, etc… Por impulso escrevi um texto no Facebook sem citar de onde vinha este relato, mas dizendo que discordava do que havia sido escrito por uma série de razões. Era, por certo, um chamado à reflexão, não um ataque a uma pessoa que sequer sabia quem era.

Na minha cabeça era como escrever um texto a partir de uma notícia da Reuters que dizia (inventei a notícia): “Mulher búlgara adota apenas um dos gêmeos”, e eu respondesse: “Ora, eu não acho justo que apenas um seja adotado. Isso é cruel”. Assim, de forma impessoal, sem jamais imaginar que essa mulher do outro lado do planeta viesse me contestar pela minha posição pública quando ao caso, sem maiores aprofundamentos.

(Espero que o presidente atual não venha me cobrar pelas coisas que digo dele também…)

Para minha surpresa a pessoa que escreveu o post me escreveu indignada – furiosa até – e, anos passados, ainda existem reverberações dessa onda de contestação dura que surgiu após a sua manifestação. Acabei fazendo bloqueios em massa, não por discordância das teses em questão, mas por ofensas, agressões, ameaças e ódios. Só anos depois descobri quem era a autora do post e sua luta contra abusos sexuais, mas quando descobri já era tarde.

Não quero tratar do tema do post e da minha crítica a ele, e também sei que as pessoas que desenvolveram ódio por mim não vão me perdoar pelo que vou dizer agora, mas acho que é melhor dizer isso do que deixar em silêncio.

Eu errei. Errei rude. Eu me arrependo do que escrevi. Novamente, nem se trata de questionar o conteúdo – sobre ele poderia haver muito debate – mas certamente da forma. Não há desculpa para uma coisa feita até com boa intenção, mas que acaba ferindo pessoas. Fui ingênuo e burro ao não perceber que minha crítica poderia – pelas vias fluidas da Internet – chegar aos olhos da pessoa a quem eu me referia, mesmo morando em outro país. Além disso, a questão central – a sexualidade – não poderia ser tratada num post público desta forma, pois ela oferece gatilhos para muitas identificações e angústias.

Errei duramente por ter publicado de forma aberta. Poderia ter escrito privadamente para amigos que pensam de forma parecida – ou mesmo antagônica – para ver os limites do tema, mas jamais abertamente, imaginando que isso pudesse ser tratado “em tese”.

Na época eu escrevi para a autora do post original pedindo para conversar, mas ela, compreensivelmente, não quis. Creio que por muitos anos me odiou e não tiro suas razões. Errei, mesmo sem o desejar, ao expor suas escolhas, com as quais na época discordava.

Sim, gostaria de pedir perdão pois vi que muitas pessoas lembram desse fato ainda com rancor. Sei também que para elas eu não serei perdoado, e também não as culpo, mas o pedido de desculpas públicas não exige respostas de quem solicita, apenas o reconhecimento do erro por quem o praticou.

Aprendi com esse erro e procurei não repeti-lo, já passados quase 4 anos. Tive mais cuidado. Não fiz um pedido de desculpas anterior porque não queria despertar o vendaval de acusações que agora voltou à tona. Ou talvez apenas por medo, insegurança e vergonha. Talvez tivesse sido melhor fazê-lo antes, mas este, por certo, foi outro erro.

Todavia, nunca é tarde. Peço humildemente perdão também e – em especial – para seu filho que acabou sendo envolvido na discussão. Peço desculpas para as pessoas a quem ofendi e magoei, mas não peço nada em troca. Apenas deixo claro que reconheço o meu erro e que devo desculpas a todos por não entender a dor que poderia provocar com a amplitude das minhas palavras.

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Mc Quem?

O caso do menino que fez piada com uma criança na Disney mostra como, no mundo cibernético, uma vida pode ser destruída em 30 segundos. Isso me faz lembrar a frase que minha mãe colou na parede do seu quarto: “Cuida como vives; talvez sejas o único evangelho que teu irmão lê“. Quem deseja adentrar no mundo do sucesso e da fama – seja lá por qual caminno for – precisa entender que sua imagem, o que fala e como se comporta é um modelo a ser seguido por muitos – as vezes por milhões.

Se há uma constante no mundo da fama ela foi descrita por Augusto dos Anjos: “A mão que afaga é a mesma que apedreja”. Aqueles que exaltam serão os primeiros a lhe afundar quando a dívida afetiva da adoração custar a ser paga. “Eu lhe dei meu amor e minha veneração; como vai me pagar?

A atitude do rapaz foi deplorável e insensível; desrespeitosa e grosseira. Porém, a onda de vingança destrutiva contra ele me causa igual incômodo. O mesmo punitivismo que cria monstros como Moro e Dalanhol habita dentro do(a) “cidadã(o) de bem” que goza vendo a destruição de um sujeito cujo erro todos fomos testemunhas.

Perdoar NÃO significa condescender com o erro, mas entendê-lo e aplicar a pena justa, nem mais e nem menos. Destruir pessoas nunca será uma pena adequada. Usar a justa indignação como veículo de perversidade e da vingança jamais será caminho para uma sociedade solidária.

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O perdão solitário

“O perdão é o mais solitário dos sentimentos. Ele não se relaciona com o sujeito cujo crime nos ofende ou maltrata, mas com a nossa percepção do malfeito. Ele também não implica em inocentar quem nos fez o mal. Perdoar não é esquecer ou relevar, mas apenas reconhecer em nós a mesma semente de mal que em outro floresceu por circunstâncias que jamais saberemos por completo. O perdão não é difícil pela gravidade do crime, mas pela imensidão de nossa arrogância.”

Maurice Deschamps Faure, “L’épine de l’oeillet”, Ed. Printemps, pág 135

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O perdão impossível

Infelizmente parece mesmo que só os pastores evangélicos conseguem acolher pessoas que cometem erros, mesmo os mais terríveis. Enquanto isso, a sociedade só joga pedra. Acusa, destrói, promove vingança e é sempre inexorável nos seus julgamentos. Nao adianta mofar anos na prisão, é preciso incinerar, picotar e cuspir em cima. Aqui, esquerda e direita se encontram, no submundo dos sentimentos mais rasteiros.

Já os evangélicos, muito mais por marketing do que por virtude, recebem os “pecadores” e lhes oferecem o benefício (ou a possibilidade) da “redenção”. O resto da sociedade joga pedra na Geni. “Enquanto existirem Suzanes todas as minhas maldades e perversões serão aliviadas”. As Genis são tão odiadas e desprezadas quanto…. necessárias.

Não reclamem, pois, pelo crescimento acentuado do fundamentalismo mais tacanho e emburrecedor no nosso meio; participamos desta bestialidade ao oferecer aos párias sociais apenas esta possibilidade de ler os ensinamento cristãos – e a esperança do perdão, que é universal.

O que nos incomoda em Suzane é ver que não somos tão diferentes dela quanto gostaríamos…

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