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Carta a Theo

Há poucas semanas você partiu ainda antes de chegar. Theo, filho de Lucas e Ariane, com 30 semanas de gestação. Como disse meu irmão Roger, “um bisneto que se foi antes do seu bisavô”. Sem explicações e sem avisos, apenas fechou seus olhinhos enquanto ainda aguardava em silêncio, imerso no mundo aquático, quentinho e róseo que o circundava.

De sua breve passagem, algumas descobertas. A primeira é de que o valor da vida está em sua fragilidade. Como pétala, quanto mais delicada mais rara sua beleza. Para além disso, o aprendizado de que a dor, por mais violenta e dilacerante, sempre carrega consigo várias lições . No seu caso Theo, você nos ensinou o valor da comunhão, do suporte, da família, da vida e do perdão. Também nos mostrou a importância da resiliência e da aceitação, assim como nos lembrou que juntos somos mais fortes e capazes de suportar mesmo as perdas mais dolorosas.

Theo, você seguiu seu caminho e à nós resta a saudade de tudo que não vivemos ao seu lado: as brincadeiras com seus irmãos, primos e amigos, a vida na Comuna, o amor dos seus pais e tios, os vovôs carecas e as avós doces e carinhosas. Todavia, sabemos que você está em algum lugar imaginando quando poderá voltar. Quiçá antes do que pensamos…

Vá Theo. Siga o seu caminho. Curta as nuvens, as estrelas e o céu azul. Brinque com os pássaros e a chuva. Estará para todo o sempre vivendo em nossos corações.

* Fotos da cerimônia de despedida com a família mais próxima na Comuna *

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Contextos

Li pelas redes sociais um texto onde a articulista tentava mostrar as dificuldades pelas quais Karol (do BBB) havia passado desde sua infância – difícil e penosa – para que nosso julgamento sobre suas atitudes egoístas ou preconceituosas pudesse ser contextualizado diante de uma vida de luta, dor e sofrimento. Esse texto veio logo depois de outro, de igual teor, que pedia mais amor ao julgar a transexual que, depois de pedir “mais aglomeração”, acabou falecendo pela Covid19. Também ela havia sido vítima de uma sociedade cheia de julgamentos, violência, incompreensões e cancelamentos. Muito antes ainda eu li a história de uma mãe estressada que bateu no seu filho pequeno durante uma viagem de ônibus porque ele insistia em colocar a mãozinha para fora da janela para brincar com o vento. Quando foi interpelada por outra passageira sobre a razão da violência ela desfiou uma série de pequenas tragédias cotidianas que colocavam aquela agressão dentro de um contexto maior, de privação e sacrifício. O nome do texto era algo como “Muitas vezes só o que ela precisa é de um abraço”. E foi mesmo com um abraço compassivo que o texto terminou.

Todos estes textos me chamaram à atenção por serem justos. Há que se conhecer o contexto para compreender a integralidade de qualquer ato desviante. Ortega y Gasset já nos ensinava: “Eu sou eu… e minhas circunstâncias”, mostrando que somos feitos de elementos alheios à nós, os quais pressionam por ações e atitudes.

Todavia, depois de ler estes textos eu fiquei com uma curiosidade: se no lugar de uma “lacradora“, artista negra e vinda dos estratos mais pobres da sociedade, de uma transexual marcada pelo desprezo e o abandono ou de uma mãe desgastada pela sua tripla jornada estivesse um homem, um abusador e agressor, haveria a mesma análise que tenta entender suas ações inseridas em um contexto de violência psicológica infantil? Sim, porque praticamente todos os abusadores e espancadores tiveram uma infância recheada de traumas e agressões, que são encenados pela vítima na fase adulta agora no papel do opressor. Ou esse raciocínio compreensivo só serve para minorias e oprimidos? Só é possível ser condescendente diante da possibilidade de identificação com o sofrimento alheio?

Pois eu faço o convite a que essa compreensão mais abrangente seja estimulada e assegurada a todos, e não somente àqueles grupos com os quais conseguimos desenvolver empatia. Até porque qualquer um de nós, seja preto, branco, homem, mulher, gay, trans, oprimido ou opressor já esteve diante de escolhas e acabou sendo o Torquemada de alguém.

Todos temos um lugar de dor onde se esconde nosso recalque. Meu singelo pedido é que, antes de julgar qualquer sujeito, é importante saber que todo mundo carrega feridas mal cicatrizadas e que é preciso entender aquele que comete erros dentro de seu contexto de vida. Todos nós, de uma forma ou de outra, cometemos delitos – com maior ou menor gravidade. Sem exceção…

Ser compreensivo e tolerante com os erros do próximo é bom e justo até porque é isso que esperamos que façam conosco. Todo mundo merece receber um julgamento de acordo com suas circunstâncias e contextos. Assim, o teste verdadeiro é tentar entender alguém cujas atitudes agridem nossa humanidade, procurando olhar para o criminoso (e não para seu crime) com a mesma justa compreensão com a qual julgamos a transexual ou a garota do Big Brother. E isso não significa perdoar crimes, mas entender os criminosos.

Justiça, amor e raio laser para todos.

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Perdoar não é absolver

Respeitosamente, discordo do manuscrito da imagem.

Nós não devemos nada aos nossos familiares que nos causaram mal. Perdão não é absolvição; devemos perdão a eles para nós mesmos, pois perdoar é libertar-se; ressentimento é escravidão.

Eu continuo afirmando que o nosso conceito de perdão é completamente equivocado. Acredita-se erroneamente que perdoar é absolver os erros, esquecer os malfeitos, apagar os crimes. Não, em hipótese alguma; perdoar é ENTENDER, situar-se, exercitar a empatia, a ponto de que quando o erro estiver próximo ele será compreendido dentro da esfera de opções que cercava quem o cometeu.

Pense assim: como você perdoaria uma criança que chutou sua canela? Entendendo que, por ser criança, não tem noção do mal ou da dor que isso pode causar. Parece fácil, não é? Sim, porque todos já fomos crianças e, assim, este erro está muito próximo de nossas experiências de vida. Isso também não significa que o crime está absolvido, pois via de regra chamamos a criança para um canto e lhe damos orientações – as vezes até um castigo – em função deste pequeno delito.

E porque não poderíamos agir assim com aqueles que erram? Ora, porque parece mais difícil exercer empatia com experiências que não passamos. Um assaltante parece distante de nós, mas se pensarmos bem, ele está muito mais próximo do que imaginamos. Basta para isso ENTENDER sua trajetória de vida, calçar seus sapatos e perceber as alternativas que a vida lhe ofereceu.

Perdoar é, acima de tudo, exercitar a empatia.

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Sobre dor e perdão

Quando sua filha nasceu estava de plantão no último dia como doutorando no hospital escola onde estudou. Passados 13 dias veio a se formar, e apenas três semanas depois já estava novamente de plantão, agora como residente. No dia do parto não tinha mais do que 26 anos e, além dos temores que cercam o parto, ainda estava angustiado com a escolha dos novos residentes, o que deveria acontecer nos próximos dias.

Por certo que o jovem estudante prestes a se formar não interferiu no parto da própria esposa, que ficou a cargo de uma residente. O parto foi muito tranquilo, apesar das violências de praxe comuns daquela época. Entretanto, depois de várias horas de ocorrido, já no fim da madrugada, o recém pai foi profundamente maltratado pela residente. Esta foi grosseira, maldosa e até ameaçadora. Fez uma cena em pleno centro obstétrico apenas porque o doutorando foi acompanhar sua mulher e filha recém nascida à maternidade e não permaneceu ao seu lado para passar os dois casos restantes da noite anterior para os próximos plantonistas.

Nunca conseguiu aceitar a violência daquelas palavras. Era impossível entender as razões pelas quais ela foi tão bruta com um colega seu que acabava de ser pai e precisava dar assistência à sua esposa e filha. A raiva do seu olhar nunca lhe saiu da cabeça, como uma interrogação, uma dúvida. Entretanto, intuía que tal manifestação era direcionada a outro sujeito, e que estaria tão somente ocupando o lugar de outra pessoa.

Muitos anos mais tarde ele finalmente ficou sabendo do que se escondia por detrás do meramente manifesto na cena. Aquela médica era namorada – há vários anos – de um homem casado. Certamente que nutria a esperança que ele abandonaria a esposa para, finalmente, ficar com ele, e testemunhas lhe contaram que esta médica era verdadeiramente apaixonada por aquele sujeito. Entretanto, exatamente na época deste parto, o namorado comunicou que estava abandonando sua esposa… mas também não a queria mais. De uma só tacada livrou-se das duas mulheres de sua vida para se juntar a uma terceira, a qual nenhuma das duas tinha conhecimento.

Para ela o efeito foi devastador. Uma relação de muitos anos desmoronava de uma hora para outra. Nesse ínterim, seu colega – um sujeito sem importância, sem brilho, sem destaque, sem glamour – torna-se pai durante o seu plantão. A alegria do nascimento e a exaltação do parto conquistado foram demais para ela. Explodiu em indignação e, por certo, enxergava na felicidade do jovem colega o amante a quem tudo ofereceu e nada obteve em troca. Colocou naquele amanhecer toda a sua indignação nos ombros de alguém que passava por um dos momentos mais intensos e transformadores de sua vida.

Por muitos anos ele a odiou em silêncio. Não podia admitir que tamanha grosseria pudesse ser justificada. Sua alma só veio a serenar quando, finalmente, pode conhecer o drama que se desenrolava por detrás da violência verbal a que foi submetido em um momento onde só deveria haver felicidade.

Por fim foi possível perdoá-la, mesmo sem jamais ter lhe dito como havia ficado magoado com suas atitudes. Sua dor iniciou e findou sem que ela soubesse.

Não há dúvida que, fosse possível conhecer as dores que habitam os corações machucados, seria mais fácil entender as reações violentas que nos atingem. Por certo que muito mal já fizemos aos outros sem sequer notar a amplitude do dano que causamos, mas tenho a esperança que o perdão possa um dia acalmar estes corações.

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Desculpas

Há alguns anos escrevi um texto a respeito de um post em um blog que eu havia lido. Era uma história sobre sexualidade que mexeu comigo porque sempre tive esse tipo de angústia em relação aos filhos, crianças, adolescentes, etc… Por impulso escrevi um texto no Facebook sem citar de onde vinha este relato, mas dizendo que discordava do que havia sido escrito por uma série de razões. Era, por certo, um chamado à reflexão, não um ataque a uma pessoa que sequer sabia quem era.

Na minha cabeça era como escrever um texto a partir de uma notícia da Reuters que dizia (inventei a notícia): “Mulher búlgara adota apenas um dos gêmeos”, e eu respondesse: “Ora, eu não acho justo que apenas um seja adotado. Isso é cruel”. Assim, de forma impessoal, sem jamais imaginar que essa mulher do outro lado do planeta viesse me contestar pela minha posição pública quando ao caso, sem maiores aprofundamentos.

(Espero que o presidente atual não venha me cobrar pelas coisas que digo dele também…)

Para minha surpresa a pessoa que escreveu o post me escreveu indignada – furiosa até – e, anos passados, ainda existem reverberações dessa onda de contestação dura que surgiu após a sua manifestação. Acabei fazendo bloqueios em massa, não por discordância das teses em questão, mas por ofensas, agressões, ameaças e ódios. Só anos depois descobri quem era a autora do post e sua luta contra abusos sexuais, mas quando descobri já era tarde.

Não quero tratar do tema do post e da minha crítica a ele, e também sei que as pessoas que desenvolveram ódio por mim não vão me perdoar pelo que vou dizer agora, mas acho que é melhor dizer isso do que deixar em silêncio.

Eu errei. Errei rude. Eu me arrependo do que escrevi. Novamente, nem se trata de questionar o conteúdo – sobre ele poderia haver muito debate – mas certamente da forma. Não há desculpa para uma coisa feita até com boa intenção, mas que acaba ferindo pessoas. Fui ingênuo e burro ao não perceber que minha crítica poderia – pelas vias fluidas da Internet – chegar aos olhos da pessoa a quem eu me referia, mesmo morando em outro país. Além disso, a questão central – a sexualidade – não poderia ser tratada num post público desta forma, pois ela oferece gatilhos para muitas identificações e angústias.

Errei duramente por ter publicado de forma aberta. Poderia ter escrito privadamente para amigos que pensam de forma parecida – ou mesmo antagônica – para ver os limites do tema, mas jamais abertamente, imaginando que isso pudesse ser tratado “em tese”.

Na época eu escrevi para a autora do post original pedindo para conversar, mas ela, compreensivelmente, não quis. Creio que por muitos anos me odiou e não tiro suas razões. Errei, mesmo sem o desejar, ao expor suas escolhas, com as quais na época discordava.

Sim, gostaria de pedir perdão pois vi que muitas pessoas lembram desse fato ainda com rancor. Sei também que para elas eu não serei perdoado, e também não as culpo, mas o pedido de desculpas públicas não exige respostas de quem solicita, apenas o reconhecimento do erro por quem o praticou.

Aprendi com esse erro e procurei não repeti-lo, já passados quase 4 anos. Tive mais cuidado. Não fiz um pedido de desculpas anterior porque não queria despertar o vendaval de acusações que agora voltou à tona. Ou talvez apenas por medo, insegurança e vergonha. Talvez tivesse sido melhor fazê-lo antes, mas este, por certo, foi outro erro.

Todavia, nunca é tarde. Peço humildemente perdão também e – em especial – para seu filho que acabou sendo envolvido na discussão. Peço desculpas para as pessoas a quem ofendi e magoei, mas não peço nada em troca. Apenas deixo claro que reconheço o meu erro e que devo desculpas a todos por não entender a dor que poderia provocar com a amplitude das minhas palavras.

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