Arquivo da tag:

Fanáticos

É preciso ter cuidado com as armadilhas que tentam fazer o povo brasileiro odiar a própria seleção…

Sim, a maioria dos jogadores (e também da seleção) é formada por bolsonaristas, um fenômeno bem explicado não só pelas características clássicas do “pobre que vira rico” e se associa com os antigos opressores, mas também porque estas pessoas tem negócios, investimentos, dívidas, processos, grana preta que aparece de forma obscura e, portanto, só existe vantagem em se associar ao poder e àqueles que controlam as finanças de um país. Chamá-los de “fascistas” é um passo muito adiante, e este epíteto deve ser reservado apenas àqueles ativistas, que fazem arminha e que se associam às propostas claramente violentas e antidemocráticas do Sr. Jair.

“Sim, mas são todos fanáticos religiosos”, como foi dito em um texto que está circulando pelas redes sociais. Outro erro grave: estes sujeitos não são fanáticos; são crentes e assumem uma postura bem característica das igrejas evangélicas que frequentam. A atitude deles é uma derivação da “doutrina da graça”, criada por Santo Agostinho de Hipona. No século V, o concílio de Cartago (418) afirmou que, por causa do pecado original, a Graça de Deus se tornou um artifício fundamental para a salvação da alma. O Concílio de Éfeso (431) confirmou esta perspectiva. Agostinho condenava frontalmente o “pelagianismo”, doutrina criada pelo monge inglês Pelagius da Bretanha. Este religioso se estabeleceu na sede do império Romano ao redor de 405, tendo posteriormente viajado para o norte da África e Palestina. Escreveu dois livros sobre o pecado, o livre-arbítrio e a graça: Da natureza e Do livre-arbítrio.

Santo Agostinho de Hipona

Para Pelagius o livre arbítrio que o ser humano possuía lhe oferecia a condição de alcançar a santidade e a virtude pelas próprias forças, sem que lhe fosse oferecida qualquer “graça”. Agostinho se opunha de forma intensa a esta ideia. Dizia ele: “está errado qualquer um que afirme que, (…) se a graça não fosse dada, ainda assim poderíamos, embora com menos facilidade, observar os mandamentos de Deus sem ela”.

Pelagius da Bretanha

Portanto, a santidade (inclusive no futebol) só pode ser alcançada através de uma ação divina específica, que ofereça uma condição especial e diferenciada àquele por ela alcançado. Segundo esta perspectiva, não é possível a um jogador de futebol ter sucesso em sua carreira sem que Deus o tenha escolhido. Por esta razão dizem sempre diante das vitórias: “foi o Senhor quem permitiu”, “em primeiro lugar agradeço à Deus”, “Jesus me ajudou neste caminho”, “não fui eu, foi Deus”, “Deus no comando”, “Deus é fiel”. E mesmo nas derrotas a postura é a mesma: “Deus está esperando um momento melhor para mim”, “Deus escreve certo por linhas tortas”, “Deus vai me agraciar no futuro”, etc. exatamente porque esta é a visão disseminada nas igrejas evangélicas, aferradas aos conceitos Agostinianos e que rejeitam o viés pelagianista. Essa visão, por certo, também tem efeitos claros de manter o fiel cativo, sem autonomia para se dedicar à sua fé. A “graça” sempre pressupõe intermediários.

Portanto, não são fanáticos, nem mesmo são religiosos; apenas reproduzem um conceito muito disseminado no meio evangélico no qual convivem. Tratá-los como insanos não ajuda a seleção e muito menos o Brasil. O Imperialismo está sempre querendo que o mundo periférico despreze seus heróis e seus símbolos. Não é de hoje que percebemos o interesse de desmerecer e menosprezar qualquer líder ou ídolo efetivamente oriundo das classes populares. Fizeram assim com Garrincha, Pelé e agora Neymar. A Seleção Brasileira de futebol também é alvo de críticas infundadas, tentando nos fazer olhar para cada jogador que tenha emigrado para o futebol mais valorizado no mundo como se fossem traidores, interesseiros e dinheiristas. Ou seja: um sujeito pobre que – através de um esforço imenso – consegue a ascensão social só pode ser admirado se abrir mão da justa recompensa pelo seu talento e assumir uma vida modesta ou pobre. Parece que a riqueza só é garantida à minoria composta pelos membros das castas superiores, os burgueses, agraciados por Deus com sua fortuna, mesmo que nenhum esforço tenha sido empreendido para conquistar esta posição. Destruir ídolos populares é um projeto colonialista de destruição dos seus heróis nacionais, através de uma iconoclastia que não surge da humanização desses personagens, mas como uma estratégia muito bem elaborada de desprezo moralista, com o claro objetivo de fomentar a dominação comandada pelo imperialismo. A perseguição injusta e covarde contra Lula é o exemplo mais simples e fácil para entender o quanto as grandes potências, interessadas na subserviência nacional, apostam nesta ação. Fiquemos atentos.

Deixe um comentário

Arquivado em Religião

Religiosidades

Gostaria de analisar de uma forma mais racional a relação entre a evidente “religiosidade” do povo brasileiro e suas consequências morais. Para isso trago a frase que colhi do texto de um religioso de esquerda que procurava avaliar as razões da dissonância entre essa característica e os resultados práticos na relação entre as pessoas deste país.

“O Brasil é o maior país católico do mundo, é uma das maiores nações cristãs do planeta. Somos um povo muito religioso. Todos e todas concordamos que a Fé em Deus tem uma consequência ética. Para cristãos e cristãs, a consequência ética máxima da fé em Deus é o AMOR AO PRÓXIMO.”

Acredito que a fala acima contém um “non sequitur”. Sim, é verdade que somos cristãos, mas se trata de uma formalidade e não de um compromisso com suas diretrizes morais.

A ideia de que somos “religiosos” não é exata, ou pode induzir a falsas interpretações. É certo de que temos religiões e que nos dedicamos a elas. Não há dúvida de que nos vinculamos às suas igrejas e templos, mas isso não nos torna “religiosos”, e muito menos demonstra um desejo de sermos éticos ou de “amar o próximo” acima de todas as coisas. Não vou falar sequer do “oferecer a outra face”….

Religiões são, acima de tudo, formas de expressar identidade, na busca por algo que nos congrega, nos faz participar de um mesmo rebanho, de um mesmo grupo de pessoas com história, cultura, práticas e crenças semelhantes. Essa necessidade de fortalecer-se através dos iguais que existe nas religiões, nos partidos e nos times de futebol é um aspecto absolutamente indissociável da nossa condição humana. Todavia, a partir dessas vinculações aceitar que acreditamos nos valores das religiões (ou mesmo dos partidos) é um salto arriscado e não há porque incorporá-lo sem ressalvas.

Essa dissociação entre a Religião e seus postulados explica não apenas as brutais Cruzadas – massacres em nome de Cristo – mas também qualquer outra guerra onde se usa a Religião como mote (mesmo escondendo interesses econômicos ou nacionalistas). Também oferece uma explicação para as “bênçãos de pistolas”, as marchas com Cristo (que anunciam golpes contra a democracia), as igrejas milionárias, os pastores abusadores, os mercadores da fé, a intolerância com gays e com outras religiões, mas também para o fato de que os grupos menos cristãos em essência (na ética e nas propostas) sejam aqueles que mais defendem a figura de Jesus em suas múltiplas seitas evangélicas.

É possível dizer que “cremos em Deus”, mas isso nada tem a ver com um compromisso ético de nossa parte e muito menos que isso nos faria “amar ao próximo”, ou “perdoar a quem nos ofende”. Não, essas crenças não nos vinculam diretamente a estas condutas.

As religiões são apenas idiomas que usamos para nos conectar com aqueles que compartilham nossa visão de mundo. São os potes que fazemos descer ao manancial da água da fé, o veio cristalino de onde brota esse sentimento aquém da racionalidade e que nos move no sentido de apreender o sentido cósmico universal. Sua conexão com a mudança de atitude do sujeito (se existe) é imperceptível ou ausente. Não há nenhuma moralidade superior no crente em relação ao ateu, pois que a conduta ética está calcada em valores surgidos muito antes de qualquer racionalidade capaz de guiar condutas.

Acreditar em Deus – ou no seu filho – não lhe torna uma pessoa melhor, mais nobre, ética ou pacífica, mas talvez ajude a esconder muitas das suas pequenas e grandes sujeiras.

Deixe um comentário

Arquivado em Religião

Religiões

Hoje me aconteceu algo curioso. Recebi do Facebook uma mensagem estranha: “Seu pedido de inscrição no grupo ‘Religião para quê?’ foi aceito”. Cliquei no link e vi que se tratava de um grupo ateísta. Na sua página inicial fala do “mal que as religiões causam ao mundo”, mas curiosamente estes grupos se expressam como se fossem religiões comuns, com seus dogmas, explicações totalizantes, visões unívocas e o desejo explícito de culpar o vizinho do lado – as outras religiões – por todas as tragédias do mundo.

Meu primeiro – por certo, o último – post no grupo é este que se segue:

“Caros irmãos ateus, unidos pelo amor de Richard Dawkins, cultuadores da razão e da lógica ateia. Venho perante vós perguntar: se eu não me inscrevi nesse grupo… como pude ser aceito? E, se é possível ser sincero, acho que o conceito positivista e ingênuo do grupo está muito distante da visão que tenho das religiões. Explico…

As religiões são artifícios criados pelos homens para a compreensão de mistérios insolúveis pela ciência. São parte do conhecimento compartilhado pela humanidade e cumprem uma importante função social. Elas não são “A verdade”, mas são modelos de entendimento, formas de perscrutar o insondável.

A fé – um elemento aquém da racionalidade – é a água que corre sob o solo rochoso da razão. Essa água percorre todo o planeta e é igual em todas as latitudes, enquanto as religiões são os poços criados para atingir os mananciais profundos. Os orifícios que atravessam o solo duro da razão são distintos entre si, dependendo do tempo e do espaço; são obras da cultura onde estão inseridos. Entretanto, buscam sempre o mesmo: a água da fé, a compreensão dos sentidos cósmicos, a busca pelas razões primeiras e a direção do porvir. Enquanto houver dúvida e desconhecido haverá modelos que buscam nos oferecer uma explicação coerente.

Por esta razão, as religiões são eternas e imortais, mas não imutáveis. Tanto quanto qualquer criação humana elas se transmutam, se contorcem e se modificam para adaptarem-se a novos tempos. Não há como existir uma ciência que dê conta de todas as perguntas, todas as dúvidas existenciais, e que ofereça a explicação completa. Para sempre há de existir uma pergunta sem resposta, uma dúvida não satisfeita um vazio de compreensão. No entanto, diante da avalanche de novas evidências, até os Papas aceitam o darwinismo e reconhecem em Adão e Eva um casal alegórico.

Religiões são, desta forma, idiomas que nos conectam uns com os outros para com eles dividirmos as angústias do não-saber. Como qualquer língua, entendemos e falamos para aqueles que compartilham da nossa compreensão. Por vezes achamos as outras línguas estranhas e até incompreensíveis; algumas são para nós bizarras, indecentes ou até perversas. Todavia, algumas delas, de tão semelhantes, são quase idênticas àquelas que falamos.

Alguém poderá nos dizer: “Mas eu não preciso desse idioma, algo externo a mim. São línguas atrasadas e sem sentido”. Perfeito, não é necessário falar por nenhum idioma, mas isso serve para aqueles que não compartilham dúvidas, perguntas, ideias e uma aguçada curiosidade sobre o significado último do Universo. Caso você tenha uma perspectiva especial sobre isso, por certo que muitos outros tem a mesma visão teleológica e gostariam de falar neste mesmo “idioma”.

Já a ideia de que as religiões fazem “mal ao mundo”, é totalmente tola e infundada. Nunca houve guerras motivadas por elas, mesmo que sejamos ensinados a ver isso por alguns observadores pouco atentos. As guerras seguem um determinismo econômico, lutas de poderes e interesses geopolíticos. Somente ingênuos acreditam que as Cruzadas eram motivadas pela libertação da “Terra Santa”, que católicos e protestantes se digladiaram na Irlanda ou que judeus e muçulmanos se atacam na Palestina ocupada. Essas guerras tem claros interesses econômicos, fortes motivações políticas e sua face religiosa serve como propaganda ou para mascarar interesses muito mais materialistas do que o resgate de lugares sagrados ou a supremacia de um credo sobre outro.

As religiões são um conjunto de histórias, relatos e revelações onde depositamos nossos valores, e não de onde retiramos ensinamentos ou regras. O mesmo Corão onde encontramos violência está repleto de proposições pela paz e pela compreensão, assim como para o amor e o perdão; o mesmo encontraremos na Bíblia ou no Bhagavad Gita. Por isso mesmo são retratos completos de uma era, que nos oferecem a possibilidade de buscar o que nós queremos encontrar, dependendo daquilo que somos ou desejamos.

Religiões são construções humanas, escritas por homens, publicadas para os homens da Terra, em diversos momentos da história. São ricos repositórios do conhecimento alegórico humano, de nossa história, nossos valores e nossas aspirações. Religiões foram criadas para resolver problemas mundanos e para nos oferecer explicações hipotéticas sobre o funcionamento do Universo. Elas não são boas ou más; são coleções gigantescas de valores onde as pessoas – boas ou más – podem fazer perguntas e receber respostas que as satisfaçam.”

Grato pela atenção

Ric Jones, agnóstico

Deixe um comentário

Arquivado em Religião

Joe Rogan

Essa pandemia está colocando em perspectiva muitas coisas. Parece que era mesmo necessário ocorrer uma situação limite pra gente saber quem mantém seus princípios mesmo na adversidade e quem se refugia na censura e no arbítrio.

Pense nas questões abaixo:

* Se há alguns meses você dissesse que alguém poderia contrair a doença e continuar transmitindo o vírus mesmo após se vacinar seria imediatamente vítima de “cancelamento”;

* Há poucas semanas se você dissesse que máscaras de pano eram pouco efetivas ou inúteis seria chamado de “negacionista”;

* Se no ano passado você dissesse que os Estados Unidos e Fauci estavam envolvidos em estudos sobre “gain of function” de vírus em Wuhan – e que isto estaria implicado na origem da pandemia – seria chamado de “conspiracionista”.

Todas essas hipóteses hoje são aceitas por estudiosos e pesquisadores. Todas elas vieram à tona porque cientistas teimosos e contra-hegemônicos continuaram a debater e questionar a versão oficial mesmo sofrendo perseguições. Ciência é curiosidade, método e dúvida; as certezas são prêmios de consolação que o Criador oferece para os tolos e os dotados de mentes frágeis.

Marx já dizia que “A estrada para o inferno está pavimentada pelas boas intenções”. Um cientista não pode justificar seus preconceitos com a desculpa dos “nobres interesses”. Quem não suporta o contraditório procure um lugar que aceite os dogmatismos para se expressar. Quem acha que ciência é profissão de fé e que a censura de vozes dissidentes tem justificativa na democracia, deveria buscar abrigo na religião, e não no conhecimento científico. 

Pergunto: as pessoas que hoje cancelam Spotify e Joe Rogan por serem articuladores do “negacionismo” por acaso cancelaram Neil Young quando ele disse que não aceitaria receber um pacote de batatas de um caixa de supermercado gay, por medo de contrair AIDS?

Bidu…. eu avisei.

Spotify publica uma carta de apoio ao Joe Rogan e à plena liberdade de expressão do seu programa, literalmente mandando Neil Young e demais canceladores se lixarem. Que assim seja feito com todos os negacionistas da liberdade de expressão e do livre debate sobre temas espinhosos, em especial quando essa censura tende a favorecer impérios econômicos transnacionais.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

A dor da diferença

Muitos heterossexuais julgam os homossexuais como sendo promíscuos, frágeis, egoístas (sexo sem prole) e incapazes de relacionamentos afetivos duradouros. Já muitos gays acham os heterossexuais covardes (já fui tratado assim), com vidas sexuais monótonas, chatos e sem graça. Conformistas e preconceituosos.

Tudo errado…

São todos preconceitos tolos. Nada existe na homossexualidade inerentemente promíscuo ou egoísta, e nada existe da heterossexualidade que leve o sujeito a ter uma sexualidade monótona. Em verdade, o fato é que as escolhas dos outros, quando divergem das nossas, são desafiadoras. Todavia, ao invés de aceitarmos como válidas as diferentes perspectivas que a vida oferece, nós as atacamos com a ilusão de diminuir nossa angústia por termos escolhido esse caminho – e não o outro.

Funciona como o ateu que se irrita com a fé alheia ou o ex fumante que não suporta ver alguém demonstrando publicamente tamanho prazer com o cigarro. Também aqueles que raivosamente publicam fotos de gente na praia durante a pandemia enquanto se refugiam nos seus apartamentos consumindo Doritos e Netflix. O prazer do outros nos causa angústia e dor.

O poliamor, por exemplo, agride meus sentimentos de exclusividade, mas quem disse que precisa ser assim? Talvez a posse dos corpos para os deleites do prazer seja obsoleto mesmo, e o futuro verá a monogamia com a mesma estranheza que hoje vemos o culto à virgindade ou o cinto de castidade.

De minha parte, melhor garantir o muito que tenho em uma só. Se já é difícil achar uma que suporte minha neurastenia, que dirá com muitas. Aliás, não conseguiria nem dormir, imaginando o complô para me exterminar.

(a partir de uma conversa com Deia Moessa Coelho)

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Ateus e Fumantes

Há alguns anos eu passei na frente do antigo estádio do meu time no bairro da Azenha no exato momento em que milhares de fiéis de uma igreja pentecostal saíam de lá, com suas fatiotas, saias abaixo do joelho e carregando suas Bíblias na mão. Pareciam estar eufóricos com a pregação, e atravessavam a rua em bandos enormes, atrapalhando o fluxo. Lembro da minha profunda irritação ao vê-los passar na frente do carro, enquanto eu escutava roquenrrol no rádio.

Depois que segui para casa fiquei pensando na multidão e na minha raiva. Ora, eu já havia sido pego nesse tipo de congestionamento de pessoas após jogos de futebol, mas mesmo quando era do time adversário eu jamais me senti tão incomodado. Por que tanta irritação?

Foi então que eu lembrei de outro fenômeno correlato: a raiva que pessoas que não fumam nutrem pelos fumantes. Fumar parece ter se tornado, nas últimas duas décadas, um crime mais hediondo do que assassinato seguido de esquartejamento. Lembro do Contardo Calligaris, famoso psicanalista e fumante, contando que nos Estados Unidos recebeu xingamentos parado no semáforo vindos do carro ao lado por estar fumando dentro do seu próprio automóvel – e sozinho.

Pois então…. qual a relação entre a raiva contra os fumantes e a raiva direcionada aos crentes?

Para mim o ponto de contato entre ambas é… a inveja.

Sim, invejamos o prazer que o cigarro produz nas pessoas que fumam. Sabemos que o ato de fumar é profundamente prazeroso e que cria uma aura de calma e tranquilidade em quem se joga às baforadas. É o prazer alheio que, por não nos alcançar pelas proibições autoimpostas, nos atinge e maltrata. Odiamos no fumante o prazer que sonegamos a nós mesmos.

Pois o crente também é alvo de nossa envídia. Cobiçamos a segurança que ele tem nos desígnios divinos, sua fala cheia de propósitos últimos, sua postura altiva por estar “ao lado do pai”, seu comportamento confiante e sua fé no porvir. Escutar um crente que acredita na providência divina é insuportável para todos aqueles que não foram bafejados pela fé. Diante das agruras da vida, esta engenharia mental arcaica de acreditar num propósito superior para tudo causa sofrimento e dor profunda em quem só vê diante de si caos e desordem.

Não é à toa que aqueles que acreditam em Deus causam tanto desassossego nos ateus praticantes e ativistas. Mais do que desacreditar numa divindade ou em um propósito superior para a Vida, eles pretendem acabar com qualquer resquício de credulidade na humanidade.

Matando o prazer e a fé nos outros diminuímos um pouco nosso desprazer e nosso abandono.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Careca

Eu já falei muitas vezes que nasci sem o chip do “amor aos animais”, e é verdade. Não tenho este tipo de sentimento de proximidade com os bichos e não consigo suportar em minha retina imagens antropomorfizadas de cães e gatos. Não os vejo como “crianças”, anjinhos, amigos ou parceiros. São bichos, e tenho certeza que eles gostam do que são. Não gosto de promiscuidade, gente dormindo com cachorro ou bicho de banho tomado com perfume.

Há muitos anos escutei uma frase de um veterinário homeopata que me marcou muito: “Consigo perceber com facilidade as vantagens emocionais de manter os animais domésticos próximos de nós, em especial para os velhos e as crianças, mas tenho dificuldade em encontrar vantagens que eles possam ter com a nossa presença”.

Isso dito, e reconhecendo minhas limitações, eu por vezes me questiono o que seria uma boa vida para um desses animais. Será que um gato castrado que faz companhia para uma senhora viúva em um apartamento é… “feliz”? E quanto a um cachorro que mora no pátio de uma casa, será ele mais feliz que um primo seu que mora na rua? O Vagabundo era mais infeliz que a Lady? Deveria invejá-la ou ter pena de sua prisão maravilhosa?

Penso nisso quando lembro da cadela da Comuna, a matriarca de nossa pequena matilha. Seu nome foi dado pelo meu neto Oliver em homenagem aos seus dois avós homens: “Careca”. Foi encontrada há muitos anos vagando pela nossa rua, que é um tradicional ponto de “desova de cães”. O esquema é conhecido: Chega o carro, diminui a marcha até parar, abre-se a porta do carona e ali o bichinho é deixado.

Para o azar da Careca não apenas foi deixada por sua antiga família, mas ao ser largada na rua foi atropelada, quebrando o quadril. Quando foi encontrada (horas? dias?) depois pelo nosso caseiro Márcio ela carregava apenas uma fina camada de pelo sobre uma montoado de ossos. Magra, feia e manca. Estava nas últimas.

Que fazer? Bem, o que fizemos foi acolhê-la e tratar seus machucados. Posteriormente, Luiz Augusto a levou para ser castrada. Acabou ficando na Comuna como guardiã, parceira de brincadeiras das crianças e caçadora de quero-queros. Hoje é uma senhora feliz, bem alimentada – apesar de continuar manca pelo acidente.

Olho para a Careca como um símbolo de resiliência e de fé. Depois do abandono e do acidente que lhe causou sequelas ela tinha apenas um destino sombrio à frente. Todavia, acabou recebendo como prêmio o “Éden Canino”, vivendo no melhor lugar onde um cão jamais sonharia viver. Livre, solta, independente, sem coleiras, sem espaços exíguos, sem opressão e sem regras. Careca tem a felicidade que eu gostaria de ter. Carrega no corpo a marca de sua vida de desventuras, mas conseguiu vencer a despeito de suas tragédias.

Está pronta para reencarnar como uma menina na próxima vida. Espero apenas que ninguém tenha a ideia de lhe colocar este apelido.

Deixe um comentário

Arquivado em Histórias Pessoais

Espiritismo e compaixão

Há muito me desiludi com os espíritas, não com o espiritismo e sua idéia renovadora centrada na mediunidade e na reencarnação. Infelizmente os espíritas via de regra cursam o mesmo caminho moralista dos evangélicos e outras denominações. Possuem um desprezo explícito pelas raízes sociais da pobreza e cultivam um discurso meritocrático ao estilo “é pobre porque na vida passada foi rico e não teve compaixão“. Acreditam que as “leis do karma” se sobrepõem às experiências explícitas de desigualdade que testemunham no seu cotidiano. Acreditam na desigualdade e na exploração como experiências que não nos cabem interferir, sob pena de interferir nas leis divinas de causa e efeito

Ora, que profunda tolice!! Quanto desprezo pelas forças sociais que condenam grandes massas à exploração ao arbítrio dos poderosos. O espiritismo – por sua origem intelectual, europeia e progressista – poderia ter sido a grande força renovadora das religiões no Brasil, mas se manteve como uma seita evangélica carola e conservadora. Uma pena.

Repito o que já disse: só as religiões de matriz africana, por conterem a massa de pobres e negros da nossa sociedade, têm a potencialidade de reverter a má imagem criada pelas religiões neste país. Só elas – e uma parcela minoritária dos católicos – tem massa crítica suficiente para produzir mudanças no cenário de desigualdade no Brasil.

O resto cultiva a compaixão burguesa mais rasteira e inócua.

Sim, eu me desiludi com os espíritas. Isso não é uma acusação; é uma confissão. Para se desiludir é necessário, primeiro, se iludir. Mea culpa, mea máxima culpa…

Em relação à postura política os espíritas são decepcionantes. Certamente que há espíritas de vanguarda e politicamente bem posicionados, mas são exceção. A imensa maioria é composta de conservadores e entre eles um grupo claramente reacionário. As palmas à manifestação absurda e subserviente de Divaldo Franco para com Moro e a “República de Curitiba” (sic) em Goiás são inquestionáveis e demonstram o apoio majoritário dos espíritas às vertentes mais atrasadas e punitivistas do judiciário e à direita no espectro da política nacional.

Sim, nem todos os espíritas são reacionários, e alguns deles são bem explícitos com suas posições políticas. Entretanto, estes espíritas de esquerda são a minoria e não representam o conjunto desse movimento. São exceção dentro de um quadro de conservadorismo, elitismo e preconceito com os movimentos sociais. É muito difícil encontrar um espírita que não seja antipetê, coxinha, apoiador da Lava Jato e que se dedica a atacar Lula.

Sim, até mesmo a reencarnação – como forma de entender as idiossincrasias do mundo – é usada de forma simplista pela maioria dos espíritas e por isso mesmo merece ser criticada. Por esta razão citei a frase que tanto escutei durante a minha vida e que revela esse primarismo. Olhar para a reencarnação e não enxergar a iniquidade fomentada pelo capitalismo é outro absurdo conservador do movimento espírita.

E para finalizar, dá para generalizar, sim. Como movimento o espiritismo é socialmente retrógrado e conservador. É moralista e crítico aos avanços sociais, de forma evidente no que diz respeito à sexualidade – em especial ao universo LGBT. Politicamente é de centro direita e se aproxima da direita clássica. Raros espíritas são progressistas ou de esquerda. Boto mesmo essa gente toda no mesmo barco, pois essa é a imagem que seus líderes difundem desde sempre, de Chico Xavier a Divaldo, passando pela FEB e por inúmeros palestrantes que cruzam o Brasil oferecendo esta postura política de forma explícita ou nas entrelinhas.

Em suma, mesmo sabendo de notáveis espíritas de esquerda – tivemos um espírita Ministro da Saúde de Dilma – ainda assim a imagem do espiritismo é conservadora e moralista, muito semelhante à percepção que tenho do movimento evangélico no Brasil.

Os espíritas estão mais próximos de Malafaia do que de Francisco.

Deixe um comentário

Arquivado em Religião

(Des)crença

Nada como o parto para desafiar nossas (des)crenças.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Ciência x Religião

Tenho vários amigos que me falam, sem esconder o entusiasmo, de uma ou outra descoberta científica que confirma a palavra de Deus, seja na Bíblia ou em alguma outra tradição qualquer. A frase que termina este ímpeto de esperança é fé pode ser resumida em “não há real conflito entre ciência e religião“.

Minha percepção é que há mais do que conflito; estas são duas visões de mundo incompatíveis. Por outro lado ainda considero que elas podem existir dentro do mesmo indivíduo em relativa paz, com a exceção da tênue zona de fronteira que delimita seus espaços.

Ciência e religião são duas formas de compreensão do mundo e as duas são perenes e eternas. A tese de que o crescimento do conhecimento científico traria o desaparecimento das religiões me parece ingênua e normalmente é dita por religiosos, como os “neoateístas”. Basta olhar o risco do fundamentalismo religioso na política mundial (em especial no Brasil) para ver que a vinculação do povo com as religiões e suas cartilhas está longe de desaparecer. Mas engana-se quem acredita que isso pode ser combatido com ateísmo e mesmo evolucionismo.

A ciência trabalha na fronteira do conhecimento e usa a razão e a experiência como ferramentas. Ela é progressista e dinâmica; não respeita limites e avança célere para novas descobertas. É uma medida da ética e da política de seu tempo, e se move pelos ventos do poder econômico e dos interesses. Não é isenta e nem neutra, e fala a língua dos homens do seu tempo.

A religião (melhor seria a religiosidade), por seu turno, ultrapassa a fronteira do que é conhecível e tenta explicar o universo através de visões teleológicas e inteligentes, enxergando no universo uma força de coesão para além do que é possível comprovar com nossas ferramentas rudimentares. A religiosidade trabalha com a gigantesca porção de desconhecido que nos circunda. Sua plasticidade a faz se adaptar a cada nova investida da conhecimento científico e da razão, produzindo uma nova face a cada avanço do conhecimento sobre seu território.

Assim, ciência e religião trabalham com objetos distintos mesmo quando parecem se confundir, como no criacionismo. A força da ciência nesse ponto e o desaparecimento paulatino de resistência às teorias darwinianas deixará a visão do Gênese como mais uma alegoria passível de belas histórias, mas apartada de realidade dos fatos. Quando a razão chega as crenças procuram outro lugar para ocupar e tentar organizar o desconhecido.

Por fim a religião, ao se afastar dos elementos nos quais a ciência já jogou sua luz ficará livre para questionar a imensidão de perguntas sem respostas possíveis até então, como a nossa origem e os sentidos do universo.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos