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Futebol Raiz

Uma vez, no final dos anos 70, peguei o ônibus T2 para visitar uma namorada, que na época que morava perto da Aparício Borges (onde estará ela? que saudade…), e de pé, encostado na parede do fundo, estavam dois jovens negros conversando. Reconheci um deles de imediato: era o zagueiro titular do Inter.

Sim, um jogador de Futebol do Internacional transitando de ônibus pela cidade. Lembro de escutar um fragmento da conversa em que ele dizia “Parece que o Bahia está interessado no meu passe“. Quando eu ia para o colégio passava no edifício da esquina da Botafogo com Getúlio, onde moravam o Carpegiani e o Tovar, meio campistas do Inter. A gente conhecia inclusive o “opalão” de um deles, que ficava estacionado na frente do prédio. “Um dia vou ter um Opala”, pensava. Nunca tive.

Os jogadores hoje moram em condomínios fechados escondidos da população. Um jogador do meu time – o Grêmio – com 20 anos de idade, pegou seu primeiro salário gordo e comprou uma Ferrari. Sim, uma Ferrari. Conseguem imaginar pegar um ônibus (ou um Uber “juntos”) com uma estrela milionária do futebol atual?

A culpa não é dos jogadores, por certo, mas é um reflexo da nossa neurose. O salário do Neymar reflete a nossa doença, nossa angústia. Pagamos para que eles gozem por nós…

Na minha infância eu assistia muito futebol pela TV. Geraldo José de Almeida (olha lá, no placarrrr), Silvio Luís (pelo amor dos meus filhinhos…), Celestino Valenzuela (ba – lan – çou a rede, alegria da torcida chama-se…). Mas era tudo preto e branco mesmo, imagem borrada, TV com “fantasma”. Cara… as crianças hoje não sabem o que é imagem com fantasma. Também nunca colocaram Bombril na ponta da antena. Jamais assistiram futebol numa TV Telefunken ou Colorado RQ (a TV do Rei). E não viram jogadores de futebol que se pareciam com pessoas normais, com carros e namoradas comuns e com um endereço corriqueiro.

Futebol raiz, acreditem, era muito mais legal

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Futebol raiz

Sou do tempo em que jogador de futebol usava chuteira preta, jogava bola e fazia gols por nós. Nunca soube nome de suas namoradas nem mesmo se eram casados. Hoje o futebol é apenas a vitrine para seus verdadeiros negócios. No futebol – mas também em outros esportes – o gol, o drible, a firula, a vitória e a taça no armário são apenas elementos que ajudam o “esportista personagem” a fechar contatos de barbeador, cerveja ou desodorante.

Bernie McLaren, entrevista ao semanário “Sports in the Wire”, Edimburgo, pág. 135

Bernie McLaren é um renomado jornalista escocês especializado em futebol. Escreve em vários jornais escoceses sobre os campeonatos locais e internacionais. Tem dois livros sobre o esporte: “Sports in the Wire” e “Celtics – a Resistance Symbol”, onde mostra a história do clube escocês e suas origens na resistência de católicos e imigrantes irlandeses. Também nesse livro ele descreve a incrível conexão entre a torcida do Celtics e a luta pela liberdade da Palestina. Uma das mais tocantes partes do livro se relaciona à demonstração protagonizada em 18 de agosto de 2016 em um protesto pró-Palestina durante a partida contra o time israelense Hapoel Beer Sheeva, na primeira fase de classificação para a Liga dos Campeões, no estádio Celtic Park, em Glasgow. Membros da torcida organizada do time escocês, a Green Brigade, levaram para o estádio milhares de bandeiras da Palestina, associando-se a outras organizações de direitos humanos no posicionamento político pelo reconhecimento do Estado palestino, que tem seu território ocupado por Israel desde 1948. Mora em Glasgow e é casado com a jornalista Melinda Abraham.

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