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Imundície

Pizarro e a Conquista do Peru, 1846 por John Everett Millais (1829-1896, UK)

Li agora uma postagem que criticava os europeus por se acharem os donos do mundo mesmo quando, durante a época das navegações, suas cidades eram imundas e fétidas. Com outras palavras o texto dizia: “Como poderiam exigir nossa subserviência quando andavam misturados com seu próprio excremento e quase foram destruídos pela própria sujeira? Toda essa falta de asseio e promiscuidade foram responsáveis pela ocorrência da peste negra, entre outras tantas mazelas. Como ousam se considerar superiores??” finaliza o post, que mistura indignação com humor.

Atrás dessa informação existe a crença de que o cristianismo – uma “máquina totalitária”- seria o responsável pelos massacres e extermínios das populações nativas. Estas seriam “superiores”, mais asseadas, e (acreditem) mais pacíficas. Nada poderia estar mais longe da verdade. A resposta à indagação de “como poderiam ser superiores?” é simples: o poder não tem nada a ver com higiene, bons costumes, asseio pessoal, etc. e também nada tem a ver com superioridade moral; isso é apenas um preconceito modernamente disseminado. Vou mais além, e talvez deixe alguns desavisados um pouco chocados, talvez surpresos: os europeus dominaram o mundo, entre outros fatores, por causa da sua imundície.

Exatamente. Ser imundo foi uma imensa vantagem sobre os ameríndios, por exemplo. Quando aqui chegaram, os fedorentos espanhóis – em especial – trouxeram suas armas (e a pólvora), seu aço (nos escudos e espadas, em contraposição ao frágil bronze dos nativos americanos) e…. germes, milhões de bactérias peludas e gosmentas, adquiridas principalmente através da domesticação de múltiplos animais; o convívio íntimo com vacas, porcos, galinhas, cães, gatos e cavalos. Isso significa muito mais espécies do que os mexicas e incas haviam sido capazes de domesticar para compartilhar germes e doenças. Essa promiscuidade ofereceu aos europeus uma superioridade imunológicas importante, produzida pelo contato intenso e incessante com uma grande variedade de microrganismos.

A invasão europeia das Américas causou proporcionalmente poucas baixas indígenas em combates diretos, quando comparados com os confrontos diretos com os invasores, mesmo com a diferença brutal de capacidade bélica – basta ler sobre a grande batalha de 1532, onde Pizarro capturou o chefe inca Ataualpa no Peru, onde menos de 100 espanhóis destruíram 80 mil nativos em poucas horas – mas principalmente pelas doenças contagiosas (gripe, varíola, pneumonia, conjuntivite, etc,) que os invasores do velho mundo carregavam em sua bagagem, as quais produziram as mortes posteriores. Sem o saberem, trouxeram em suas roupas, suor, perdigotos e sangue suas armas mais perigosas e mortíferas

Portanto, a imundice dos europeus foi um dos seus maiores trunfos para se estabelecerem como cultura preponderante e dominante. Longe de ser uma “desvantagem” ou símbolo de inferioridade, sua porquice provavelmente permitiu que se tornassem senhores do mundo.

Achar que os cristão eram muito diferentes – ou tinham diferenças intelectuais e morais – com os povos invadidos é apenas culpa branca estéril, um pensamento cafona e racista. Os povos são todos feitos de pessoas, grupos que se organizam em diferentes graus de sofisticação tecnológica e social, mas possuem a mesma contituição moral. Os ameríndios não fizeram a viagem inversa para a conquista da Europa apenas porque eram incompetentes para isso, e não porque fossem pacíficos ou porque não aceitavam as guerras e conflitos. Ora, a história da América Central, dos mexicas, dos toltecas é de uma violência inacreditável. Fizeram crueldades com as populações conquistadas que são inimagináveis até para a violência animal dos conquistadores espanhóis. A ideia de que eles eram “pacíficos” é uma idealização absurda. Ainda hoje existem disseminadores da ideia de “bom primitivo”, o “indígena pacífico”, mas isso é irreal, e existem provas documentais de que isso jamais poderia ter acontecido.

Aliás, o pacifismo em todo o planeta sempre acaba quando seus filhos começam a passar fome. Os Europes, por questões da geografia, da agricultura, da pecuária e da orientação do clima (horizontalmente determinado, ao invés de verticalmente estabelecido) saiu na frente e chegou primeiro às Américas, derrotando povos de tecnologica mais atrasada e biologicamente despreparados. Essa conquista não foi por uma questão moral, religiosa ou qualquer outra dessas características. Se pensarmos dessa forma preconceituosa e racista, seremos obrigados a aceitar diferenças essenciais entre povos e culturas – como inteligência e moralidade – e isso nos fará retroceder 200 anos na história da equidade racial nesse planeta.

O grande problema é o idealismo. A visão de que as ideias cristãs são totalitárias – em contraposição ao teleologia dos nativos – é pura perspectiva idealista. Se Constantino não tivesse convertido o Imperio Romano ao cristianismo Cristóvão Colombo chegaria aqui carregando uma imagem de Júpiter ou de Marte. Para os interesses comerciais dos europeus a figura a representá-los seria irrelevante; as questões materiais serão sempre preponderantes e se sobrepõem às ideias. O cristianismo – ou o islã – são apenas religiões que captam e transcrevem (e não disseminam por si só) as aspirações humanas de proteção e sobrevivência para lhes oferecer um suporte ideológico, mas não são jamais os motores da transformação social. As religiões são ideologias onde colocamos nossos valores, e não de onde os retiramos. Ou seja: se não fosse o cristianismo seria qualquer outra ideologia a carregar os anseios de expansão da cultura europeia para além do atlântico.

Recomendo como leitura complementar a obra “Armas, Germes e Aço” de Jared Diamond, onde ele descreve com riqueza de detalhes e de forma pormenorizada as razões pelas quais existem diferenças marcantes no desenvolvimento do processo civilizatório nas diferentes partes do mundo.

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Decisões e Protagonismo

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Onde foi, durante o caminho, que cometemos este erro?

“Colocar a culpa nos outros (médicos, natureza, defeitos genéticos, bacias pequenas, etc…) pode ser muito bom e efetivo para aliviar a frustração de parto que (por alguma razão), não ocorreu. Aliás, é o que TODO mundo faz, principalmente quando analisamos a propensão para culpar os médicos pelos maus resultados; o que antes era um “esporte nacional” americano agora tornou-se uma bolha de judicialização prestes a explodir por lá. Entretanto, eu prefiro pensar que o fracasso, na imensa maioria das vezes, está relacionado ao que NÓS MESMOS fazemos, pelas nossas escolhas pessoais, assim como o sucesso de nossos projetos também se estabelece por uma série de eleições que realizamos. Jared Diamond, no seu livro “Colapsos” já falava explicitamente em como as sociedades “ESCOLHEM” fracassar ou ter sucesso, e cita os Anasazi, os habitantes de Páscoa e os nórdicos da Groenlândia do século XI como exemplos de más escolhas que levaram ao colapso e, por fim, ao extermínio. Entretanto, estas escolhas desastrosas – nas sociedades mas igualmente na vida privada – não operam conscientemente, mas os resultados vão acabar acontecendo por conta das eleições mal direcionadas ou incorretamente avaliadas. Assim também fazemos com as pequenas e aparentemente simples decisões quanto ao parto; elas vão ao final compor um quadro onde nitidamente se enxerga a “mão” do pintor, com suas fraquezas, dificuldades e medos, assim como sua capacidade, determinação e coragem.

Culpar algo fora de nós é normalmente manobra escapista, que apesar de nos aliviar momentaneamente das tristezas por um objetivo não alcançado, acaba criando um fosso de alienação, que por fim nos impede de ter nas mãos as rédeas de nossa vida.

Eu entendo quem pense ser mais “adequado” encontrar respostas na genética, nas bacias pequenas ou nos micro-organismos. Há quem prefira diminuir suas dores e frustrações determinando que a culpa pelo que lhe acontece é dos médicos, da natureza madrasta, do hospital ruim, das bactérias, dos vírus, da mãe cerceadora, do pai severo ou ausente, ou por causa de uma maldição qualquer (divina ou satânica). Eu prefiro correr todos os riscos e assumir a minha posição de protagonista, sem cair na tentação de me alienar das responsabilidades. Não fosse assumir esta posição e nenhuma vitória seria plena, pois que ela estaria sempre a ser conduzida por outro.

Max sempre me disse que crescer significa assumir as responsabilidades do vida, tomar para si o protagonismo de suas decisões, e não delegar para outros o que nos cabe. No nascimento, assumir como suas as prerrogativas de decidir o caminho a seguir é o primeiro passo na direção de um nascimento digno e cidadão.”

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