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Pai, um momento

Eu e meu pai, na rua dos Andradas

–  Compra pai. Compra!

Ele continuou caminhando e não soltou minha mão. Sei o quanto seu passos eram contidos para acompanhar minhas perninhas pequenas. Era meu aniversário de 10 anos e era costume nestas datas a gente acompanhá-lo ao seu trabalho.

–  Estamos atrasados, Ricardo. Vamos apurar o passo. Ainda precisamos tomar café.

O café no refeitório do CETAF. Nada de mais, mas a possibilidade de comer num lugar diferente no meu aniversário tinha um gosto todo especial. Continuei o caminho e olhei mais uma última vez para a vitrine. A promessa colorida e vistosa do cartaz era de milhões. Bastariam para isso alguns poucos trocados e o resultado seria espetacular. Era possível ficar rico, bastando para isso acreditar.

–  Mas por que você não compra o bilhete? – perguntei eu tentando acompanhar suas pernas compridas dando umas corridinhas para emparelhar.

–  Não acho justo. – disse ele secamente

–  E por que não seria justo? Qual o problema em ficar rico? Se a gente for sorteado podemos ficar milionários. Assim como o Onassis.

Ele riu da minha comparação. “Como ele sabia que o Onassis era rico? Onde ouviu dessas coisas?” – pensou.

Segurou um pouco a passada e olhou sério para mim, como sabendo que era o momento para dar uma explicação mais demorada. Desta vez não seria possível usar o “na volta a gente compra”.

–  Não acho certo que qualquer pessoa ganhe dinheiro que não venha do seu trabalho. Receber o prêmio por um bilhete premiado significa que muitos perderam para você ganhar . Não é bonito ganhar o dinheiro das pessoas sem ter trabalhado para isso. Por isso nunca jogo e nem aposto.

Fiquei pensativo, tentando entender sua posição. Que mal poderia haver em arriscar a sorte? Só ganha quem joga, só acerta o número quem tiver…sorte. Qual o erro?

A realidade é que o significado objetivo dessa conversa não tem tanta importância, e poderíamos debater por horas a questão das loterias, dos bingos, e etc. Entretanto, é óbvio que essa história é plena de significados simbólicos, e só por isso ela se mantém na minha memória já passados 60 anos.

Na verdade, não foi sua negativa ao jogo ou sua resistência em “tentar a sorte” que me impressionou. Não foi por negar a se arriscar diante do desconhecido, pois sua vida foi cheia de apostas corajosas – inclusive a mais desafiadora de todas: desistir das antigas crenças e certezas. O que me pegou – e esta é minha honesta interpretação – foi quando me disse que o dinheiro que ganhamos precisa ter o trabalho e a dedicação como contrapartidas obrigatórias. Foi sua adesão a uma “ética da riqueza” que me cativou e deixou essa marca na memória.

Sobrou dessa história a certeza de que a paternidade não precisa ser feita de ações espetaculares, declarações grandiosas ou momentos sublimes de amor pelos filhos. Ela é construída com tijolos minúsculos, por atos banais do dia a dia, palavras e silêncios. Meu pai, por certo, não se lembraria dessa conversa; ela certamente passou despercebida no aluvião de conversas que compõem o cotidiano.

Quanto a mim, jamais a esqueci.

Até hoje creio que meu coração comunista começou a bater nesse dia, e por isso agradeço ao meu pai por mais esta, entre as milhares de lições que ele me deu e das quais serei eternamente devedor.

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Merecimento

São-joão

Caminhava ao seu lado apressando meu passinhos de criança para acompanhar suas pernas compridas. O ano era 1965, o mês novembro. Não contava mais do que cinco anos de idade. Porto Alegre não tinha mais que meio milhão de habitantes. Poucos carros ousavam cruzar suas esquinas e bondes amarelos da Carris ainda riscavam os paralelepípedos das ruas vazias. Os congestionamentos chegariam apenas 20 anos depois.

Andávamos, eu e meu pai, pela Av. Salgado Filho, perto de onde, três décadas depois, eu teria meu consultório. Na frente do Cinema São João passamos por uma banca de jornais onde, além das Revistas Manchete, Fatos & Fotos, Realidade e da fotonovela Sétimo Céu era possível comprar a Folha da Tarde e o Correio do Povo. Além disso podiam-se ver perdurados nas paredes do “stand” os bilhetes da Caixa Econômica Estadual.

Além das bancas, as loterias eram vendidas por ambulantes, que gritavam suas profecias nas esquinas do Centro. “Mil novecentos e quarenta, quem nasceu nesta data?”, gritava o ceguinho com a bengala em uma mão e a tripa de bilhetes na outra. “Olha o bilhete da sorte, gurizada medonha!!” tornou-se o bordão famoso na voz poderosa do vendedor, que perambulava em frente a Casa Slopper, imortalizada na música “Miss Suéter”, de Bosco e Blanc.

Minha atenção dividiu-se entre a mão segura e firme do meu pai e as cartelas coloridas penduradas na banca. A promessa era clara e insofismável: compre um bilhete e fique rico. Um premio que daria acesso a toda as felicidades estampadas nas publicidades que desde cedo caíam sobre minha cabeça de menino.

– Pai, disse eu, por que você não compra um bilhete? Se sair o seu número você pode ficar rico, e se você ficar rico pode comprar tudo, tudo, tudo que tiver no mundo e mais todas as coisas do universo. Compra vai…

– Acho que não, disse ele, sem diminuir o passo e sem desviar a atenção para os bilhetes coloridos.

– Mas pai, se você ganhar podemos ter tudo, comprar tudo.

Somente então ele diminuiu o passo e olhou para mim. Sua resposta foi em uma frase curta e breve.

– Eu acho que nenhum dinheiro tem valor se não for fruto do seu trabalho.

Aquela frase simples, de uma certa forma, selou um destino. Em verdade, nunca podemos saber ao certo o impacto que uma frase, ação ou atitude vai produzir na vida de uma criança. A frase, dita em um despretensioso passeio pela cidade, permaneceu meio século em minha memória. Sua energia sobreviveu por décadas talvez porque ela resumia, de uma forma honesta e concisa, a postura ética que meu pai seguia. Para ele só seria lícito colher o que se plantou, sejam frutos saborosos ou os espinhos que os cercam.

Quando lembro desse evento penso que estas frases soltas em nossa memória são os minúsculos quadriláteros coloridos que compõem o caleidoscópio de nosso mundo psíquico. Somos constituídos por estas pequenas lembranças, cuja força e intensidade moldam nosso caráter.

Por esta singela razão cuide o que diz diante dos pequenos. Talvez suas palavras sejam mais importantes do que você imagina, e são, em verdade, os alicerces para a construção daquela personalidade que aos poucos se constitui.

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