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Dia sem pai

Pai e mãe, ouro de mina
Coração, desejo e sina…

Hoje era o dia de juntar os netos e ir na casa dele escutar histórias, trocar abraços e ouvir os comentários mais variados sobre – literalmente – qualquer coisa. Este domingo está feliz pelos abraços que recebo, e triste pelos que já não posso mais dar. Hoje é o primeiro “dia dos pais” em que ele não está entre nós; a primeira vez que não tenho meu pai para abraçar.

Tive a oportunidade rara de alcançar o meu pai na corrida do tempo; quando ele morreu ambos já éramos velhos, e pude “trocar figurinhas” com ele sobre o que nós dois sentíamos com o aconchego da velhice a nos envolver com seus braços gelados. Muito do que sei sobre ser velho aprendi com seus conselhos e seu humor sobre a “melhor idade”. Hoje ele me deixa sozinho nessa trilha, e não tenho mais sua experiência para me contar como serão os dias que me restam.

Uma das últimas coisas que ele me disse, quando sua marcante lucidez já estava muito distante, foi uma de suas observações sarcásticas características. Durante sua estadia no hospital eu me aproximei do seu ouvido e disse: “Oi pai, sou eu, Ricardo. Lembra de mim? Sou o seu filho mais bonito”. Ele abriu os olhos, ajeitou o corpo na cama do hospital e disse: “Meu Deus, como você está velho!”.

Olhou firme da minha face e demos uma breve risada. Depois aprofundou-se em seu sono, esperando apenas o momento exato para mergulhar na dimensão desconhecida que o aguardava. Espero que ele esteja bem, e que mantenha para toda a eternidade o humor, a elegância, o charme, a fidelidade aos seus princípios e o amor que sempre direcionou à sua família. Por certo que minha mãe vai cuidar para que mantenha-se na linha.

Em breve serei eu. Percebo a cada dia que passa a proximidade da minha morte, como alguém que sente o frio do inverno se aproximando nas primeiras brisas do outono. Hoje mesmo perguntei ao meu neto Oliver se eu poderia conhecer o filho dele quando nascesse. Oliver disse que não sabe se vai ser pai, talvez com medo da responsabilidade de ser tão bom nessa tarefa quanto seu pai e seu bisavô. Espero ter essa oportunidade cada vez mais rara em um mundo onde as funções parentais perdem valor diante do individualismo que nos cerca.

Ao meu pai deixo o agradecimento de mostrar a mim a grandeza dessa tarefa, construção recente na história da humanidade, mas que oferece às crianças um suporte firme e seguro para alcançar seus mais nobres objetivos.

Sinta-se abraçado, pai.

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Passagens

Eu passei a melhor parte da minha vida observando a transição das mulheres – em menor intensidade também a dos homens – em direção à maturidade, como mães e pais. O parto, como corte brutal na percepção egoística do mundo, nos joga de forma mais ou menos intensa nas agruras da insegurança e da tarefa de cuidar dos que chegam. Todavia, ainda me surpreendo com a velocidade com a qual essa transformação ocorre. Muitas vezes fiquei espantado ao falar com pacientes apenas algumas semanas após o parto quando já era possível perceber – na forma como se posicionavam diante dos temas – as mudanças de perspectivas, de ênfases e de posturas. É como se a partir do parto fosse aberto um portal pelo qual a realidade ampliada pelo fórceps da experiência lhes permitisse enxergar o mundo de forma mais alargada.

O malho da dor aguda, da espera e da angústia produz a transformação, que será tanto mais intensa e profunda quando maior forem os significados depositados sobre ela. Por isso continuo a achar que a experiência da maternidade e da paternidade são dores e angústias que valem a pena ultrapassar. Por certo que saímos um pouco menos piores, menos arrogantes e mais humildes depois de termos a carne triturada na passagem por este purgatório de êxtase e lágrimas.

Além disso, tais experiências pelo vale da paternidade e da maternidade nos permitem olhar os próprios pais com mais condescendência. Fico feliz de estar vivo para ver meus filhos passando por esta transição.

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Pedagogias

  • Ele chega cabisbaixo, choramingando e visivelmente irritado.
  • O Pedro está me chamando de burro!!
  • Saia de perto do seu irmão, António.
  • Mas ele me chamou de burro e feio…
  • Você não deve brincar com ele agora. Qual sua dúvida?
  • Mas eu não quero que ele me chame assim!!!

Nesta cena banal e corriqueira se encerra uma escolha essencial entre duas abordagens pedagógicas, e quem já teve filhos pequenos poderá entender bem qual é. Pedro, nessa história é o protagonista, mesmo fora da cena. Ele inseriu o fato novo, a acusação, a provocação. Antonio reage e se coloca na defensiva. Procura um juiz para interceder. Existem duas possibilidades. Uma exógena e outra endógena.

A opção “exógena” faz você sair do que está fazendo e tratar a acusação em si. Chama Pedro, lhe dá um “pito”, diz para não chamar seu irmão assim, coloca-o de castigo. Todavia, esta estratégia exalta o fato, valoriza-o, empodera a acusação e aceita o protagonismo de Pedro. A tentação de “inticar” com o irmão, fazer tudo de novo e voltar a ser o centro das atenções é, via de regra, irresistível. Pedro, depois de tanta exaltação, voltará a ser protagonista

A opção “endógena” é muito mais difícil, complexa e custosa, e só pode ser feita quando as crianças já têm algum tipo de maturidade. Ela se baseia em refutar a acusação, desmerecer a ofensa e retirar Pedro de sua posição de protagonismo. Ao invés de uma atitude protetiva para António – que o coloca na confortável posição de vítima – a abordagem será desmerecer as acusações, tratando-as como sendo carentes de sentido. Com isso, Pedro deixa de ser o centro das atenções, sua fala perde valor e sentido e o processo de resolução vai ocorrer endogenamente, no reforço da auto estima de António.

  • O Pedro está me chamando de burro
  • Você não é burro, António.
  • Mas ele me chamou de burro e feio.
  • Você não é nenhum dos dois. É lindo e esperto. Qual sua dúvida sobre isso?
  • Mas eu não quero que ele me chame assim!!
  • E você vai dar atenção ao que os outros dizem ou vai acreditar no que você mesmo sabe?

A questão é que esta matriz de reação se mantém durante toda a vida, em especial durante a vida adulta, quando continuamos nos posicionando diante dessas escolhas. Por certo que o modelo exógeno é o único que temos quando somos muito pequenos e precisamos da proteção alheia. Já o modelo endógeno se inicia quando somos capazes de reforçar nossas próprias capacidades ao invés de depender do suporte dos outros.

Quando vejo reações defensivas aos ataques do “outro lado”, seja ele qual for, meu primeiro pensamento é “humm, sentiu o golpe“. A defesa de si mesmo, ou de suas ideias, diante de qualquer ataque demonstra essencialmente fragilidade e falta de confiança. É o menino que corre para a mãe ou o pai quando chamado de “feio”. O que ele pede é um abraço e alguém que lhe afirme suas qualidades, quando ele mesmo se sente impotente para isso isso.

Assim, o modelo “exógeno” funcionará em curto prazo e para quem está – ou é – muito frágil, mas o modelo “endógeno” será sempre mais efetivo para estabelecer o crescimento e a autoestima, seja de sujeitos, ideias, projetos ou revoluções.

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Diploma

“Se fosse necessário curso ou aprendizado especial para o exercício da paternidade e da maternidade ainda seríamos um aglomerado de bosquímanos humanoides vagando pela savana africana. Não se constrói a parentalidade por processos cognitivos – mesmo que eles sejam sempre bem vindos – mas por elementos muito mais primitivos e arcaicos como a pulsionalidade afetiva que nos liga à reprodução e à maternagem.

Exigir cursos ou diplomas como condição para tornar-se pai ou mãe é acreditar que o amor pelos filhos pode ser aprendido com a leitura de livros e apostilas e – pior ainda – que para ser um bom pai ou mãe é necessário um certificado na parede”.

Amalia Sturnberg, “Echoes of Hallibur”, ed. Parnasus, pag. 135

Amalia Sturnberg é uma escritora alemã nascida em Postdam em 1954. Estudou no Estados Unidos com o professor Lovejoy sobre as origens da bipedalidade, em especial no estudos sobre o Ardipithecus ramidus. Lecionou a cadeira de Paleoantropologia na University of Princeton até se aposentar em 2010 por problemas de saúde. Vive em Nova York com seu marido, o conhecido jazzista Das Mingle.

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Dia dos Pais

Desde muito cedo, a criança é um depósito de desejos parentais. Em verdade, bastam poucos segundos para que a alma da criança, tal qual uma massinha colorida de modelar, seja manipulada, manuseada e constituída pela voz e o olhar de sua mãe. Desses sussurros, palavras e frases cortadas a criança é jogada dentro da linguagem e ali ficará enclausurada, condenada a um mundo de símbolos e significados. Também esse encontro a tornará prisioneira de um amor que, tanto é essencial para a vida quanto é sufocante e limitante.

Para estas, que sobreviveram pela dádiva do amor a elas dispensado por este ser mitológico que é a mãe, a melhor forma de sobreviver à primeira infância é ter em seu caminho uma pedra. Uma gigantesca rocha a obstaculizar seu caminho. Pétrea, dura, forte e ígnea, capaz de interromper esse amor, impedindo a continuidade de uma relação perfeita, para que essa criança possa encontrar – por si mesma – o caminho do amor maduro.

O nome dessa pedra é pai. “Pai, tu és pedra, tu és rocha, e sobre teus ombros construirei minha vida. Tu serás o grande exemplo para nortear meu caminho. O maior aprendizado que levarei de ti é que essa função será uma construção eterna, uma tarefa infinda, um trabalho imperfeito e sem fim.”

Grato por existir.

(Na foto, meu pai Maurice, meu avô Samuel, meu filho Lucas, e eu. Todos pais, cheios de erros e imperfeições, repletos de equívocos e falhas, mas que ainda assim merecem que seu trabalho na seara da paternidade seja – por um dia apenas – reconhecido.)

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