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Dia dos Pais

Pela primeira vez em anos minha página do Facebook não foi inundada por agressões aos pais na passagem do seu dia. Minha fantasia – pouco provável – é de que as pessoas finalmente descobriram que em cada ano existem 364 dias para criticar a pequena porcentagem daqueles que não entenderam a paternidade como um dos elementos mais importantes na estrutura psíquica dos filhos, e apenas um único dia para homenagear e reconhecer a importância do pai na vida de qualquer sujeito.

Talvez a triste realidade seja apenas que estas pessoas há muito não frequentam meu Facebook e não convivem na pequena bola em que estou inserido. Atacar a paternidade – e também a maternidade – é ferir a todos nós que nos tornamos pais ou que somos filhos de alguém. Eu ainda prefiro acreditar que estamos deixando de ofender as figuras paternas porque aos poucos estamos percebendo que não é justo que todos paguem pelas experiências ruins de uma pequena minoria.

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The Jetsons

Seja bem-vindo, George Jetson!

George J. Jetson (nascido em 31 de julho de 2022) é um personagem fictício e pai da família Jetson, com 40 anos de idade e que vive no ano de 2062. Ele é o marido de Jane Jetson e pai de dois filhos: a filha adolescente Judy e o filho em idade escolar Elroy. Além disso a família possui uma empregada doméstica robô chamada Rose e um cão que se chama Astro.”

George Jetson tinha 40 anos e já era pai de uma filha adolescente. Aqui está uma coisa que os criadores da série não imaginavam: a queda na idade de início da paternidade. Nos dias de hoje um sujeito como ele teria uma criança de colo nos braços. Quantas pessoas de classe média vocês conhecem que tiveram filhos na terceira década de vida, dos 20 aos 30 anos – além de mim? Quais as repercussões que as sociedades experimentaram a partir dessa mudança radical na época de iniciar a vida reprodutiva, alargando em mais de uma década a adolescência?

Uma delas é evidente: a diminuição da relevância dos avós na cultura contemporânea, que deixaram de ser figuras presentes na vida e na educação dos netos para passarem a ser fotos nos álbuns de família e histórias contadas pelos filhos aos netos. As pessoas nos dias de hoje entram na “avozidade” depois dos 70 anos, na oitava década de vida. Com uma expectativa de vida que gira em torno dos 80 anos no ocidente criamos uma civilização cujos avós não conseguem acompanhar a adolescência dos netos, o que é uma perda brutal para ambos.

Sim, é verdade, eu não tenho nenhuma resposta a este dilema e também sequer sou capaz de oferecer uma proposta, mas acho necessário perceber o quanto nossa vida humana se afasta paulatinamente das regras do paleolítico superior, criando uma desajuste entre o que somos e a estrutura psíquica e física para a qual fomos criados.

De qualquer maneira, salve George!! Um dos primeiros heróis da TV (junto com Fred Flintstone, seu antípoda do tempo das cavernas) que mostrava uma típica família americana com a conformação clássica das séries que estariam por vir (Simpsons, Family Guy, Jeannie é um Gênio, A Feiticeira, A Familia Adams, A Família Dinossauro, etc.) onde os homens são atrapalhados, confusos, feios e tolos, e as mulheres são sempre bonitas, sensatas, espertas e ponderadas.

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Direito à paternidade

Circula na Internet um texto sobre paternidade escrito por um humorista da minha cidade que faz sucesso entre pessoas que conheço. Acho esse texto um brutal equívoco, mas…. na boa, perco até a vontade de explicar ao me dar conta que isso vai alertar as patrulhas, pois se trata de um texto nutrido pelo mais cristalino preconceito de classe.

Ok, devido aos pedidos incessantes, explico: o articulista, um humorista de rádio, deixa claro que a paternidade só deve ser exercida por aqueles que, como ele, usufruem de boas condições vida, que podem cuidar com atenção e denodo das suas crias. A condição de pai seria vedada ao proletário que carece (entre outras virtudes) de paciência porque suas condições de trabalho são estressantes, ou que precisa dormir aos domingos para recuperar energias gastas durante a semana de trabalho incessante. Para ele a paternidade deve ser garantida apenas àqueles que têm as condições características da burguesia: tempo, dinheiro, disposição, saúde e educação.

Não passa pela cabeça desses “formadores de opinião” que é necessário que as condições sociais melhorarem para todos, para que não seja necessário arbitrar quem pode e quem não pode exercer o direito sagrado de ser pai ou mãe. Sua manifestação parte de uma divisão social estanque, fixa, pétrea, onde os estratos sociais determinariam quem poderia exercer direitos humanos básicos. Como a paternidade.

Mais ainda, o texto coloca a culpa nas pessoas que não tem tempo, estão cansadas, esgotadas, sobrecarregadas, impacientes, neuróticas e angustiadas, ao invés de olhar para o contexto massacrante em que suas vidas estão inseridas. Isso me lembra, com tristeza, o velho papo da burguesia que reclama o fato de que pobres, deseducados e ignorantes também tem (pasmem!!!) o direito de votar.

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Regras

Quando meus filhos eram pequenos eu também era muito jovem; antes que eu chegasse nos 30 ambos já eram alfabetizados. Agora, observando as brincadeiras dos meus netos, descubro que o mundo deles é baseado na produção de regras e limites. Qualquer jogo ou disputa é precedida de um extenso desfiar de regras, do que pode ou não pode, do que é lícito e o que é proibido.

“Vamos fazer que a gente era transformers, mas tu não pode me atacar e só pode usar as armas comuns, e eu posso usar esses poderes aqui”. Eu fico encantado com esses diálogos pois eles são a encenação lúdica dos dilemas angustiantes que carregam em sua adaptação ao mundo. Tudo depende se pode, se foi combinado, se vale, se deixam, etc. É com o eles enxergam o mundo: um lugar cheio de interdições civilizatórias chatas e incômodas.

Na minha juventude eu fui esmagado pelo peso torturante das ideias, algo que me envolveu de forma completa e onde me joguei de maneira compulsiva. Não tive tempo e/ou sabedoria para saborear essas lições maravilhosas com meus filhos, pelo menos não o quanto deveria. Hoje, já consigo parar e escutar dos meus netos a beleza destes encontros, saboreando a dor e a delícia que vivenciam enquanto crescem.

Quero ter saúde só para curtir essas maravilhas mais um pouco…

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Decidam-se

Se o pai é importante, abandono paterno faz sentido e deve ser combatido, para proteger a criança dessa falta. Todos os esforços devem ser feitos para que os pequenos tenham o direito de conectar-se com o pai, entendendo-se a paternidade como uma função essencial na infância e a relação do pai com seus filhos considerada parte dos seus direitos fundamentais.

Todavia, se o pai é tratado como descartável, desimportante e supérfluo então deixem os homens em paz na sua falta de conexão com os filhos. Cobrem na justiça a pensão e fechem a conta. Se as mulheres são tão autossuficientes assim, então não há razão para se preocupar com os pais e suas ausências.

Em suma: Não dá para cobrar presença paterna e chamar os pais de inúteis ao mesmo tempo.

Nesse debate eu fico com o velhinho de Freiburg, tio Sig: “Não me cabe conceber nenhuma necessidade tão importante durante a infância de uma pessoa do que a necessidade de sentir-se protegida por um pai”.

A frase dita pelo pai da psicanálise, expressa um sentimento que supera a lacuna de gerações, mantendo-se relevante muito após a época em que foi expressa. E não esqueçam que o abandono paterno é mais um efeito nocivo do capitalismo.

Pai não é essencial, mas nem mãe é… entretanto, eles são de extrema importância para a construção da estrutura psíquica do sujeito. Outra do Sig: “A maior função de uma mulher é ensinar seu filho a amar, enquanto isso, a maior função de um pai é salvar esta criança das garras do amor materno”. Sem essas figuras a criança buscará alhures alguém para lhe ensinar o amor e, mais ainda, alguém que imponha a este amor primitivo seu necessário limite.

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