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Quando eu era criança um dos programas de maior sucesso da TV era a comédia dramática M*A*S*H* (Mobile Army Surgical Hospital – Hospital Móvel do Exército Norte-Americano), que retratava o cotidiano de um hospital de campanha americano na guerra da Coreia. Foi exibida pela CBS entre 1970 e 1983, e seu capítulo final foi durante décadas o recorde de audiência na TV americana. A série era uma brilhante comédia sobre dois cirurgiões, Hawkeye e “Trapper” John McIntyre (Alan Alda e Wayne Rogers), e suas traquinagens no hospital, em especial com seus superiores, sempre retratados como tolos e incompetentes. Ambos os cirurgiões aliavam suas excelentes habilidades cirúrgicas com um humor ácido e zombeteiro. O programa também era moralista ao extremo; os cirurgiões pegavam todas as mulheres, mas nunca as casadas; faziam troça de um casal (o cirurgião chefe e “hot lips”, uma enfermeira) que tinham um caso. Colocavam um nerd como figura importante e um “falso trans”, que se vestia de mulher para ser mandado embora – sem jamais conseguir.

Os 13 anos da série são um brilhante exemplo do “empacotamento americano”. Ele funciona quando um fato vergonhoso da história americana é empacotado como algo heroico, grandioso ou cômico e vendido desta forma “adocicada” para sua população e para todos os cantos do Império. Nesse contexto, a guerra na Coreia – ou a Guerra de Libertação Nacional para os coreanos – é retratada como algo engraçado, pitoresco, com figuras cativantes e com espaço para brincadeiras. Nesta série, os americanos são mostrados como nobres, justos, corretos misericordiosos e bons, e o coreanos como miseráveis, carentes e vítimas inocentes de uma guerra criada pelos comunistas que odeiam a liberdade.

Logo após a derrocada japonesa na guerra com o exército americano, a parte sul da Coreia saiu do controle japonês para se tornar um entreposto americano no mar da China. Enquanto isso, o norte mantinha sua luta pela libertação total do país, eliminando o último dos invasores: os americanos e seus sequazes. Pelo forte sentimento anticomunista (medo da União Soviética) a guerra foi um exemplo de brutalidade e de abusos contra os direitos humanos, tornando-se um divisor de águas do imperialismo. Até então, nunca havia ocorrido em tempos modernos tamanha crueldade com um país e seu povo como o ocorrido lá. Essa guerra se tornou o marco de violência, o modelo a ser aplicado em todas as outras intervenções imperialistas, como no Vietnã, Iraque, Afeganistão, Líbia e outros. Os Estados Unidos jogaram sobre a península coreana 635 mil toneladas de bombas e 33 mil toneladas de Napalm – mais bombas foram jogadas pelos americanos na Coreia Popular (Coreia do Norte) do que durante a guerra do Pacífico contra o Japão, apenas 6 anos antes. O famoso General MacArthur desejou explicitamente a utilização de bombas atômicas na península – entre 30 e 50 delas na fronteira com a Manchúria – o que deixaria um rastro imenso de destruição e radioatividade.

O norte do país foi totalmente destruído: hospitais, escolas, conventos, diques, represas, plantações, casas, indústrias e pontes jogando a Coreia na “idade da pedra”. Inúmeros massacres foram realizados pelos soldados americanos ou sob a sua supervisão, mas nada disso aparece – nem de forma sutil – nos 13 anos em que a série americana esteve no ar. Literalmente tudo foi bombardeado. No espaço de 3 anos os americanos mataram 1/5 da população civil do norte, por volta de 3 milhões de pessoas (a imensa maioria civis – mulheres e crianças), e estabeleceram no sul uma ditadura que perdurou por décadas. Apesar disso, um armistício foi declarado em 1953 e a Coreia Popular conseguiu estabelecer a autonomia sobre a parte ao norte do paralelo 38. No início dos anos 70, em uma forma diabólica de fazer desaparecer tantos crimes, eu e milhões de americanos dávamos risadas assistindo as travessuras dos médicos e enfermeiras na península coreana.

 “O que quase nenhum americano sabe ou lembra é que nós bombardeamos o Norte inteirinho por 3 anos, sem nenhum tipo de cuidado em relação aos civis”, explica Bruce Cumings, historiador da Universidade de Chicago, em seu livro “The Korean War: A History”.

O “empacotamento” também foi feito com os filmes de Hollywood em relação ao massacre das populações indígenas no século XIX na conhecida “corrida do ouro”. Surgiram a partir daí os filmes de faroeste (Far West, o oeste longínquo), Os Pioneiros, Rin tin tin, Gary Cooper, John Wayne, Forte Apache, etc. Um dos maiores genocídios do século XIX foi empacotado e vendido para o mundo como a vitória dos “pioneiros” cristãos contra as populações primitivas e violentas. E que história eles contam sobre a segunda guerra mundial? Ora, de que foram os vencedores, mesmo que qualquer historiador sério, baseado em números de soldados perdidos, unidades de infantaria e a importância logística cruciais das vitórias ao leste, reconheça que a grande responsável pela vitória contra o nazismo tenha sido a União Soviética e sua “Grande Guerra Patriótica“.

Somos bombardeados pela propaganda imperialista de forma incessante, ininterrupta, massiva e persistente. Tudo o que sabemos do mundo, em especial dos países da resistência ao imperialismo como Palestina, Rússia, Cuba, China e a Coreia Popular, vem de fontes empenhadas nesse tipo de empacotamento, pela falsificação da verdade, pela mentira contumaz e pela desumanização dos outros povos, de forma que só seja possível chegar até nós a versão escolhida pela máquina de propaganda controlada pelos Estados Unidos. A liberdade de um povo também significa contar sua própria história, e como diria Milan Kundera “A Luta do homem contra o poder é a luta da memória contra o esquecimento”.

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Milan

O escritor Milan Kundera faleceu aos 92 anos. Alguns defendem o trabalho do escritor – um notório anticomunista – dizendo que as acusações de Milan Kundera aos dramas do bloco soviético eram baseadas na verdade. “As coisas que ele relata eram reais” dizem. Todavia, o mesmo tipo de narrativa aconteceu faz pouco aqui no Brasil quando os golpistas falavam: “sim, mas as queixas contra Dilma eram todas reais” – o que justificaria o golpe. Neste caso, o “real” é aquela perspectiva apresentada pelos vencedores, né? As coisas na União Soviética eram realmente conturbadas durante a Guerra Fria (entre outras razões pelo esforço armamentista, que destruiu sua economia, mas é o que faz a Rússia ainda existir e estar vencendo a guerra – exatamente o que a Coreia Popular historicamente faz), mas o golpe de Yeltsin – a serviço do Império – fez a Rússia mergulhar no Caos do qual levou 25 anos para se reerguer.

Quem reclama do período Temer-Bolsonaro pode imaginar como seria uma economia reduzir-se a 1/3 do que era nos meses que se seguiram à fragmentação do bloco soviético. A destruição da União Soviética e o poder popular por ela criado era visto como o grande objetivo para a expansão do Império. Não foi possível com os tanques, mas o foi pela guerra gelada do comércio.

E quanto à “Primavera de Praga”, o eurocentrismo que ela denuncia é apenas espetacular. Claro, tanques em Praga são inaceitáveis, não? Já no Vietnã, qual o problema? Por que será que a gente não dá nomes bonitos para os 70 países invadidos pelo Império nas últimas décadas? Só esse episódio parece causar horror aqui no Ocidente. Mas e a Síria? E a Líbia, que retrocedeu um século após a invasão (por que não a “Primavera de Trípoli”?)? E Gaza? E o Afeganistão? E o Iraque? E o Panamá? Não deveríamos tratar por ‘Verão Panamenho” quando o país foi invadido e o presidente Noriega sequestrado pelos americanos? Não haveria uma estação do ano para adornar e dar nomes às sanguinárias invasões do imperialismo em países soberanos?

Eu li Milan Kundera e “A insustentável leveza do ser” me cativou. Poético, tocante, duro e delicado. Mas também li Vargas Llosa, que foi um baluarte de sustentação de Fugimori – e inclusive de sua filha, além de ter apoiado Orbán e Bolsonaro. E isso porque é possível ser reacionário e um gigante da literatura. Da mesma forma eu adoro Zizek e fiquei chocado ao ler seu apoio ao Otanistão, para tristeza de todo mundo que deseja o fim da guerra. As posições políticas desses escritores e intelectuais (inclusive Kundera) eu ponho na conta da russofobia que muitos ainda carregam. Se aqui no Brasil ainda acreditamos nas mentiras contadas sobre a USSR, imaginem o que é feito pela máquina de propaganda da burguesia entre os vizinhos da Rússia, e o grau de manipulação que deve existir até hoje. Mesmo com os graves erros cometidos na Cortina de Ferro – e que devem ser denunciados – nada justifica a adesão ao imperialismo mortal e destruidor que esses personagens adotaram. Meu interesse não é diminuir a importância do escritor Kundera, apenas lembrar desse aspecto da sua personalidade. Um grande escritor, mas um reacionário no campo da politica.

Por outro lado eu nunca deixo de me surpreender com o anticomunismo da esquerda brasileira. Essa característica pode ser explicada pela cultura ocidental que afunda no oceano de propaganda anticomunista que já tem mais de 1 século. Esses ataques é que nos fazem ver o cisco da “primavera” e não enxergar a trave das inúmeras invasões genocidas do Império. Talvez Milan seja “menos” anticomunista do que os francamente direitistas, como Soljenítsin ou Vargas Llosa, ou quem sabe nunca saberemos ao certo até onde o seu anticomunismo poderia chegar. Como saber?

Aliás, sabe o que mais choca as pessoas quando lembram do “A insustentável leveza ser”? O fato de um médico ter se tornado um mísero limpador de vidros. Acho que essa é a ideia central do autor: como pode haver uma subversão de classes a ponto de um médico, alguém que representa os valores das classes superiores, ter se tornado um simples operário. Para a burguesia é um horror imaginar que alguém da “nobreza capitalista” seja “reduzido” a um mero proletário. Todo o livro de Milan é recheado por esse pânico burguês de imaginar um mundo sem classes, onde limpadores e cirurgiões podem sentar na mesma mesa.

Mas, como eu já disse, os reacionários podem ser grandes literatos. Ferdinand Céline, um dos maiores escritores frances do século XX, era nazista, mas foi ele quem escreveu a melhor e mais bela biografia de Ignaz Phillop Semmelweis. Não posso cobrar dele que seja como eu quero. Milan escreveu maravilhosas obras, mas seu reacionarismo não pode passar em brancas nuvens.

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