Forte Apache

Quanta ingenuidade e alienação teve a minha geração que brincou de “Forte Apache”. Era uma passada de pano brutal e uma lavagem mental programada para que a população branca americana acreditasse na mentira – apenas muitos anos depois questionada – de que a “conquista do Oeste” foi uma colonização limpa e justa de “vazios populacionais”.

Nada disso; o “Forte Apache”(que eu muito brinquei na infância) era parte de um plano conduzido pelo cinema americano de transformar assassinos, torturadores, matadores de crianças, incendiários e ladrões de terra em “pessoas de bem”. Colonos que adoravam a Cristo e que tentavam levar sua palavra aos índios e suas “crenças primitivas”. E sequer é necessário ir longe: o mesmo se fez com os “Bandeirantes”, cruéis assassinos de indígenas, canalhas e genocidas que são hoje nomes de rua e tem estátuas distribuídas pela cidade.

Quando acreditamos na inocência desses brinquedos, com a crença de que eram apenas baseados em filmes de “bang-bang“, na verdade estamos nos referindo a um importantíssimo momento da cultura dos Estados Unidos alguns anos após o fim da Guerra. É o que os americanos tratam como “Wild West” ou “Far-o-West“, que diz respeito à conquista feita à Oeste anos após a guerra de secessão, do norte contra o sul. Este movimento expansionista levou cerca de 300 000 pessoas, oriundas do restante dos Estados Unidos e do exterior, para estas terras, pela descoberta de jazidas na costa oeste, mais especialmente na Califórnia. Foi exatamente esta descoberta que levou os “Pioneiros” (isso lembra outro seriado?) a migrarem em massa para estas terras inóspitas e selvagens (wild) para bem longe (far) no Oeste americano.

O problema é que essa trilha de pioneiros passava por cima de lugares povoados por inúmeras populações indígenas (first nations) como Cherokee, Navajos, Sioux, Comanches, Chippewa, Mohawks, etc, que foram dizimadas, mortas, queimadas e destruídas em uma verdadeira carnificina que nós celebrávamos inocentemente quando víamos “Daniel Boone”, “Rin-tin-tin” e “Os Pioneiros” na TV e depois brincávamos com o Forte Apache.

Esse brinquedo, assim como essas propagandas de brancos assassinos travestidas de seriados de TV, deveriam servir como amostra da crueldade humana, algo a ser tratado como grande vergonha planetária.

Não é por ser “violento” que o “Forte Apache” deveria ser debatido, mas por romantizar o genocídio das populações originárias da América, os massacres, as mortes e as torturas. Recomendo o livro de D. Brown: “Enterre o meu coração na curva do rio”.

A propósito: alguém acha que seria legal um brinquedo chamado “Hiroshima” que tem um “Enola Gay” sobrevoando uma cidade e uma rosa de fumaça para as crianças brincarem?

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Arquivado em Pensamentos, Violência

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