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Espiritismo e identitarismos

Há momentos históricos em que palavras aparentemente banais passam a carregar uma quantidade extraordinária de tensão. “Identidade”, “gênero”, “masculinidade”, “feminilidade”, “privilégio”, “opressão”, “woke”, “red pill” são algumas delas. Basta pronunciá-las para que imediatamente se organizem campos adversários, cada qual com seu vocabulário, suas certezas, suas vítimas, seus culpados e sua interpretação do mundo.

Para o espiritismo, entretanto, talvez a pergunta mais interessante não seja determinar qual desses campos está certo. Uma doutrina que se apresenta como espiritualista e progressiva deveria formular uma pergunta anterior: o que o aparecimento simultâneo desses movimentos revela sobre o homem contemporâneo?

A chamada cultura woke, os movimentos identitários, a reação anti-woke e o universo red pill são fenômenos muito diferentes. Não possuem a mesma origem, não defendem os mesmos valores e frequentemente são inimigos declarados. Seria intelectualmente pobre colocá-los todos no mesmo saco. Entretanto, observados de certa distância, apresentam uma curiosa semelhança: todos procuram responder a uma crise contemporânea de identidade, pertencimento, reconhecimento e significado. E é precisamente aí que o espiritismo talvez tenha algo particular a dizer.

A busca contemporânea por uma identidade

Uma das grandes transformações das sociedades modernas foi a progressiva perda da capacidade das instituições tradicionais de responder à pergunta mais elementar que uma pessoa pode fazer: quem sou eu? Durante séculos, religião, família, comunidade, profissão, nacionalidade e tradição ofereciam respostas relativamente estáveis. O indivíduo não precisava inventar completamente a própria identidade; em grande medida, recebia-a. A modernidade desfez parte dessas certezas. Isso trouxe enorme liberdade, mas também produziu desorientação. Quando estruturas antigas perdem autoridade, outras surgem para fornecer significado. A política passa então a ocupar espaços que anteriormente pertenciam à religião, à comunidade e à tradição. É nesse contexto que a chamada política de identidade ganhou enorme importância.

A literatura sociológica mostra que movimentos identitários procuram conectar experiência pessoal, pertencimento a grupos, relações de poder e ação política. Mary Bernstein observa que as próprias políticas de identidade envolvem debates sobre experiência, cultura, poder e sobre se determinadas identidades devem ser compreendidas como essenciais ou socialmente construídas. Assim, acontecimentos anteriormente percebidos como individuais podem ser reinterpretados por uma chave coletiva; o sofrimento deixa de ser apenas “o que aconteceu comigo” e passa a ser também consequência de uma estrutura. Para muitas pessoas, isso pode ser profundamente esclarecedor. Preconceitos que eram vividos silenciosamente tornam-se reconhecíveis; grupos historicamente invisibilizados ganham linguagem para descrever suas experiências; sofrimentos antes naturalizados podem ser questionados. Todavia, toda ferramenta interpretativa contém também um risco: aquele de transformar uma dimensão verdadeira da existência na explicação total da existência. Nestas circunstâncias, uma interpretação unívoca da realidade torna-se uma sedução muitas vezes de difícil dissipação. O ser humano pode então começar a desaparecer dentro de sua categoria.

A reação

Nenhum movimento cultural importante permanece sem produzir reação. Essa é uma característica da dialética em nossa cultura. O surgimento do Partido dos Trabalhadores e suas vitórias eleitorais no Brasil foi o berço da aparição de seu contraponto: as jornadas de junho em 2013, o MBL, o impeachment da presidenta eleita e a emergência da extrema direita no cenário nacional. Desta forma, o crescimento das políticas identitárias foi seguido pelo surgimento – inevitável, eu diria – de um amplo universo hoje chamado, de maneira bastante imprecisa, de anti-woke.

Não existe propriamente uma doutrina anti-woke. Sob essa expressão convivem liberais preocupados com liberdade de expressão, conservadores religiosos, críticos do pós-modernismo, pessoas incomodadas com políticas identitárias, grupos nacionalistas e também indivíduos simplesmente exasperados com determinados códigos culturais – como pronomes e banheiros. A reação, entretanto, pode reproduzir o mesmo mecanismo que pretende combater. Se uma política identitária reduz o indivíduo à identidade do grupo a que pertence, sua oposição pode começar a interpretar cada pessoa principalmente como representante da ideologia adversária. Neste contexto de oposição surge uma curiosa simetria. De um lado:

“Você fala assim porque pertence a determinada posição social.”

Do outro:

“Você fala assim porque foi capturado pela ideologia woke.”

Nos dois casos, existe o risco de deixarmos de ouvir a pessoa porque já sabemos previamente o que ela é. O rótulo passa a preceder o indivíduo e o sujeito carrega o peso da sua ideologia como um fiel depositário de seus conceitos, prisioneiro de seus conceitos e contradições.

A pílula vermelha

O fenômeno red pill acrescenta uma dimensão particularmente interessante a essa disputa. Sua metáfora fundadora vem do filme Matrix: tomar a pílula vermelha significa abandonar uma realidade ilusória e finalmente enxergar o mundo como ele realmente é. É difícil imaginar metáfora mais próxima de uma experiência de revelação. O homem que “toma a red pill” passa a reinterpretar suas experiências amorosas, fracassos, rejeições e relações entre homens e mulheres mediante um novo vocabulário: alpha, beta, hipergamia, simp, blue pill e inúmeras outras categorias. Aquilo que parecia uma sequência confusa de experiências individuais recebe uma explicação.

Não por acaso, um estudo acadêmico publicado em 2025 analisou explicitamente a “Red pill Community como comunidade espiritual”. As autoras, Weronika Karwoska e Natalia Brzezinska, identificaram elementos como narrativa de iniciação, sistema de valores, busca de autorrealização, respostas a questões existenciais, formação comunitária e recrutamento — funções historicamente desempenhadas por comunidades religiosas.   Mas cuidado; estas coincidências não nos permitem categorizar o movimento red pill como uma religião. Significa algo mais interessante: o impulso humano que produzia religião não desapareceu simplesmente porque as sociedades se secularizaram. A necessidade de significado permanece. Quando as religiões tradicionais deixam espaços vazios, esses espaços podem ser ocupados por ideologias, comunidades digitais, identidades políticas ou sistemas que prometem revelar aquilo que permanece oculto aos demais.

A estrutura da conversão

É curioso observar que movimentos absolutamente antagônicos podem desenvolver estruturas semelhantes. A sequência frequentemente é esta:

sofrimento → descoberta de uma explicação → aquisição de um novo vocabulário → reinterpretação do passado → pertencimento a uma comunidade → desejo de transmitir aos outros aquilo que se descobriu.

É a estrutura clássica de inúmeras experiências religiosas. Depois da conversão, o passado inteiro pode parecer diferente. O espírita olha para determinado sofrimento e pensa: “agora compreendo isso à luz da reencarnação”. O adepto da red pill olha para relacionamentos anteriores e pensa: “agora compreendo aquilo através da dinâmica entre homens e mulheres que antes desconhecia”. Da mesma forma, alguém que adere a determinada corrente identitária pode rever acontecimentos antigos e pensar: “agora reconheço aquela experiência como manifestação de uma estrutura de discriminação”. As conclusões podem ser inteiramente diferentes, muitas vezes absolutamente antagônicas, como no caso de grupos feministas identitários e aqueles que aderem à agenda red pill. Porém, o mecanismo humano, entretanto, é familiar. Em todos esses casos, uma linguagem nova reorganiza a memória. E toda linguagem produz visibilidade: depois que aprendemos uma categoria, passamos a encontrá-la em lugares onde anteriormente não a víamos.

E o que o espiritismo faz diante disso?

Aqui está, provavelmente, a contribuição mais radical da doutrina espírita para esse debate. Segundo O Livro dos Espíritos, nossa identidade fundamental não é masculina nem feminina. À pergunta 200 — “Têm sexos os Espíritos?” — a resposta que os espíritos enviam à Kardec é negativa: os sexos dependeriam do organismo no qual o espírito se insere. Nas questões seguintes, Kardec afirma que um mesmo Espírito pode encarnar como homem ou como mulher e que as diferentes condições corporais permitem adquirir experiências diferentes. Essa proposição produz consequências filosóficas extraordinárias. O espiritismo não nega a realidade do corpo, mas também não permite que o corpo encerre completamente a definição do indivíduo. Eu sou meu corpo durante esta existência, mas não sou apenas meu corpo. Da mesma maneira, não sou apenas minha classe social, minha raça, minha nacionalidade, minha orientação sexual, meu sexo, minha profissão ou minha posição política. Tudo isso pertence à experiência encarnada e pode ser decisivamente importante.

Entretanto, o espiritismo deixa muito claro, como um dos pilares da sua filosofia, que nenhuma dessas categorias esgota aquilo que somos. Sob a perspectiva espírita, antes de todas estas máscaras (personas) existe o Espírito. Essa ideia impede, ao menos teoricamente, dois reducionismos opostos. De um lado, dificulta transformar identidades sociais em essências absolutas; de outro, dificulta transformar diferenças biológicas em destinos espirituais absolutos. De acordo com a perspectiva espírita, um Espírito pode atravessar ambas as experiências sexuais ao longo de diferentes existências. No filme das mesmas diretoras de Matrix – as irmãs Wachowski, elas mesmas transsexuais – chamado “Cloud Atlas”, elas brincam com um grupo de pessoas que se encontram em múltiplas encarnações nas quais trocam de gênero no correr das gerações que se sucedem. É difícil imaginar conceito menos compatível tanto com uma metafísica rígida da masculinidade quanto com a ideia de que a identidade humana possa ser completamente encerrada numa única categoria social. Neste aspecto, o espiritismo inaugura uma visão revolucionária de gêneros ao coloca-los como apenas uma roupagem temporária que usamos para desempenhar tarefas e adquirir conhecimento advindo das distintas visões de mundo que eles compreendem.

Nem woke, nem anti-woke

É aqui que o espiritismo corre um risco contemporâneo. O risco de procurar em Kardec uma autorização para simplesmente escolher um dos exércitos disponíveis. Espíritas progressistas podem desejar transformar a doutrina numa confirmação religiosa das pautas identitárias contemporâneas enquanto os Espíritas conservadores podem desejar transformá-la numa arma contra essas mesmas pautas. Ambos deveriam ter cautela. Procurar respostas em “livros sagrados”, escritos há centenas ou milhares de anos, carrega o risco eterno de anacronismo, ou guerras interpretativas fragmentárias, que são uma característica das vertentes cristãs. Kardec escreveu no século XIX, e seus textos contêm ao mesmo tempo princípios surpreendentemente universalistas e afirmações marcadas pelas concepções sociais de sua época.

A questão 822 de O Livro dos Espíritos, por exemplo, defende inequivocamente a igualdade de direitos entre homens e mulheres, afirma que qualquer privilégio concedido a um sexo é contrário à justiça e chega a dizer que a escravização da mulher acompanha a barbárie. Ao mesmo tempo, o comentário apresenta uma divisão tradicional oitocentista das funções masculinas e femininas. Não é necessário esconder essa tensão, assim como as questões relacionados ao “racismo” de Kardec, tão amplamente discutido. Ao contrário: reconhecê-la é profundamente kardequiano. Uma doutrina que afirma a existência do progresso não pode supor que todas as formulações sociais do século XIX sejam a última palavra sobre problemas humanos que continuaram evoluindo nos séculos seguintes.

O problema da red pill visto pelo espiritismo

Por sua vez, o movimento red pill parte frequentemente de sofrimentos masculinos reais. Solidão, rejeição afetiva, ruptura conjugal, dificuldades de relacionamento, perda de referências de masculinidade e sensação de inutilidade social não são invenções. Ignorá-los apenas porque alguns discursos que surgiram em torno deles são desagradáveis seria erro semelhante ao de negar sofrimentos relatados por movimentos identitários porque discordamos de determinadas interpretações políticas desses sofrimentos. Por outro lado, reconhecer um sofrimento não obriga a aceitar toda teoria construída para explicá-lo. “Domados: Como a Cultura Traiu o Homem Americano” (Stiffed: The Betrayal of the American Man) é um livro célebre da jornalista e feminista americana Susan Faludi, lançado em 1999. Neste livro a autora explica como, ao lado das mudanças econômicas, o fim de empregos industriais estáveis nas décadas de 1980 e 1990, os homens viram seus papéis tradicionais ruírem. O livro não foca em um embate culposo entre homens e mulheres e não se resume ao apontar de dedos. Pelo contrário, a grande questão da autora é por que os homens se recusam a se engajar em sua própria causa e por que não se revoltam ou tentam reverter esse esvaziamento da mesma forma que o movimento feminista fez. O movimento red pill vem exatamente nessa direção: para uma masculinidade posta à prova, e na tentativa de encontrar significado em um mundo onde os papéis sociais são voláteis e vicariantes, esta ideologia tenta oferecer um destino, um significado e um rumo para os homens.

É aí que a perspectiva espírita pode estabelecer uma diferença fundamental. Os red pills frequentemente procura uma explicação externa para o sofrimento do homem: a natureza feminina, o feminismo, a hipergamia, a transformação das relações sexuais ou determinadas estruturas sociais. O espiritismo desloca inevitavelmente parte da pergunta. Na questão 919 de O Livro dos Espíritos, quando Kardec pergunta pelo método mais eficaz de aperfeiçoamento moral. Dos espíritos recebe a velha resposta socrática: “Conhece-te a ti mesmo.”

Isso muda radicalmente a direção do olhar. Não elimina estruturas sociais e não absolve injustiças externas, mas impede que toda explicação de nosso sofrimento termine invariavelmente apontando para o outro. Antes de perguntar “o que as mulheres fizeram aos homens?” ou “o que os homens fizeram às mulheres?”, a ética espírita acrescentaria outra pergunta: “O que estou fazendo de mim mesmo diante dessa experiência?”

A tentação moral das tribos

Talvez o ponto comum mais perigoso entre movimentos identitários, anti-woke e red pill não esteja em suas doutrinas, mas em uma característica humana muito mais antiga: a facilidade com a qual transformamos pertencimento em superioridade moral. Todos estes grupos inevitavelmente produzem uma tendência ao supremacismo, a ideia de que somos superiores àqueles que ainda não conseguiram enxergar “a Verdade”.

Toda comunidade tende a produzir uma divisão entre quem compreendeu e quem não compreendeu a “mensagem”. É quase inevitável olhar para o mundo e dividi-lo entre “nós e eles”. Os esclarecidos e os alienados; os desconstruídos e os preconceituosos; os redpilled e os bluepilled; os que dormem e os woke; os progressistas e os reacionários. E, naturalmente, existem os bons espíritas e seu contraponto: aqueles que “ainda não compreenderam a doutrina”. Nesse momento, diferentes ideologias começam novamente a parecer umas com as outras. Kardec oferece um critério desconfortável para todos esses campos. Na questão 785 de “O Livro dos Espíritos”, o professor Rivail pergunta qual é o maior obstáculo ao progresso moral. A resposta oferecida pelos espíritos foi: “O orgulho e o egoísmo.”

Não diz direita;
Não diz esquerda;
Não diz capitalismo;
Não diz socialismo;
Não diz feminismo;
Não diz patriarcado;
Não diz conservadorismo;
Diz orgulho e egoísmo.

E justamente por serem universais eles podem aparecer em qualquer ideologia — inclusive naquela que acredita estar combatendo todos os outros.

Uma terceira posição

Talvez, portanto, o significado do surgimento simultâneo da cultura identitária, da reação anti-woke e da red pill para os espíritas seja menos o de escolher um lado do que o de reconhecer um fenômeno antropológico. Estamos diante de uma sociedade que continua desesperadamente procurando identidade, significado, comunidade e orientação moral. Em outras épocas, essas necessidades eram majoritariamente respondidas pelas religiões. Com o decréscimo das religiões como guias do pensamento humano e o roteiro para apaziguar nossas angústias, estas perguntas podem ser respondidas por comunidades políticas e digitais, e isso explica por que as discussões se tornam tão intensas. Porém. quando alguém critica uma opinião que temos, podemos mudar de opinião, mas quando alguém ameaça aquilo que define quem somos, a reação é completamente diferente. Talvez parte da ferocidade das atuais guerras culturais venha exatamente daí: muitas ideias deixaram de ser apenas ideias e passaram a funcionar como identidades. E identidade ameaçada produz defesa.

O Espírito antes da identidade

Existe uma resposta espírita possível a tudo isso, mas ela exige certa coragem. Ela consiste em afirmar simultaneamente duas coisas.

  • As experiências sociais importam.
    Sexo, gênero, raça, pobreza, riqueza, discriminação, violência, masculinidade, feminilidade e todas as condições concretas da existência produzem experiências reais. Negá-las em nome de uma espiritualidade abstrata seria transformar o espiritismo numa desculpa para não enxergar o mundo. Mas também:
  • Nenhuma dessas experiências define completamente o ser humano.
    O pobre não é apenas pobre.
    A mulher não é apenas mulher.
    O homem não é apenas homem.
    A pessoa trans não é apenas trans.
    O negro não é apenas negro.
    O conservador não é apenas conservador.
    O militante identitário não é apenas militante identitário.
    O redpiller não é apenas redpiller.

Todos são, antes disso, sujeitos de uma experiência humana que, para o espiritismo, ultrapassa imensamente a presente existência, e se espalha na poeira das estrelas, numa multiplicidade infinita de experiências e aprendizado. Talvez essa seja uma das ideias mais poderosas que a doutrina possa oferecer às guerras culturais contemporâneas: o homem é sempre maior do que a categoria utilizada para descrevê-lo.

A caridade como limite da ideologia.

Há ainda um critério bastante simples para testar qualquer sistema de pensamento. A questão 886 de “O Livro dos Espíritos” define caridade como “benevolência para com todos, indulgência para as imperfeições dos outros, perdão das ofensas”. A palavra importante talvez seja “todos”.

Não apenas aqueles cuja identidade reconhecemos.
Não apenas as vítimas que consideramos legítimas.
Não apenas os homens feridos.
Não apenas as mulheres feridas.
Não apenas aqueles que compartilham nossa interpretação da sociedade.
Todos.

Isso não significa neutralidade moral diante da injustiça. Significa apenas que o combate à injustiça não autoriza a desumanização daquele que identificamos como adversário. Talvez seja precisamente aí que todas as tribos contemporâneas — religiosas ou seculares — enfrentem sua prova mais difícil.

O aparecimento do red pill e do anti-woke

Para o espiritismo, portanto, o surgimento da red pill e das ondas anti-woke não deveria ser interpretado simplesmente como triunfo da reação, assim como o crescimento das políticas identitárias não deveria ser interpretado simplesmente como sinal de progresso. Todos esses fenômenos são também sintomas. Eles revelam uma sociedade discutindo desesperadamente quem somos, como devemos viver juntos, o que homens e mulheres significam uns para os outros, quem merece reconhecimento e de onde retiramos nossas referências morais. São perguntas religiosas em uma sociedade que muitas vezes deixou de usar linguagem religiosa, e talvez seja precisamente por isso que despertam tanta paixão. O espiritismo poderia entrar nessa arena oferecendo mais uma bandeira, mas seria provavelmente a contribuição menos interessante que poderia dar. Sua contribuição mais original talvez seja justamente outra: lembrar que antes da raça há o homem; antes do homem e da mulher há o Espírito; antes da ideologia há uma consciência; antes da tribo há uma individualidade em processo de aprendizado.

E que nenhuma identidade adquirida durante algumas décadas de existência pode esgotar uma criatura cuja história, segundo a própria doutrina, atravessa inúmeras vidas. Talvez seja essa a perspectiva que o tumulto contemporâneo convida os espíritas a recuperar. Não perguntar primeiro “de que lado estamos?”, mas… “O que todas essas disputas revelam sobre o estágio moral e espiritual em que nos encontramos?”. E, depois disso, uma pergunta ainda mais difícil: “Em que medida nossa própria necessidade de certezas está nos impedindo de enxergar o outro?”

Nesta perspectiva, sem desmerecer a importância das lutas sociais e da busca por espaço e relevância, o espiritismo oferece a possibilidade de o espírito funcionar como uma espécie de “metaidentidade”, que relativiza – sem apagar – todas as identidades da encarnação. Nesse ponto, a guerra cultural deixa de ser apenas um fenômeno externo. Transforma-se em exame de consciência. E aí voltamos, por um caminho inesperado, ao princípio talvez mais antigo e mais difícil de todos: conhece-te a ti mesmo.

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