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Fanáticos

É preciso ter cuidado com as armadilhas que tentam fazer o povo brasileiro odiar a própria seleção…

Sim, a maioria dos jogadores (e também da seleção) é formada por bolsonaristas, um fenômeno bem explicado não só pelas características clássicas do “pobre que vira rico” e se associa com os antigos opressores, mas também porque estas pessoas tem negócios, investimentos, dívidas, processos, grana preta que aparece de forma obscura e, portanto, só existe vantagem em se associar ao poder e àqueles que controlam as finanças de um país. Chamá-los de “fascistas” é um passo muito adiante, e este epíteto deve ser reservado apenas àqueles ativistas, que fazem arminha e que se associam às propostas claramente violentas e antidemocráticas do Sr. Jair.

“Sim, mas são todos fanáticos religiosos”, como foi dito em um texto que está circulando pelas redes sociais. Outro erro grave: estes sujeitos não são fanáticos; são crentes e assumem uma postura bem característica das igrejas evangélicas que frequentam. A atitude deles é uma derivação da “doutrina da graça”, criada por Santo Agostinho de Hipona. No século V, o concílio de Cartago (418) afirmou que, por causa do pecado original, a Graça de Deus se tornou um artifício fundamental para a salvação da alma. O Concílio de Éfeso (431) confirmou esta perspectiva. Agostinho condenava frontalmente o “pelagianismo”, doutrina criada pelo monge inglês Pelagius da Bretanha. Este religioso se estabeleceu na sede do império Romano ao redor de 405, tendo posteriormente viajado para o norte da África e Palestina. Escreveu dois livros sobre o pecado, o livre-arbítrio e a graça: Da natureza e Do livre-arbítrio.

Santo Agostinho de Hipona

Para Pelagius o livre arbítrio que o ser humano possuía lhe oferecia a condição de alcançar a santidade e a virtude pelas próprias forças, sem que lhe fosse oferecida qualquer “graça”. Agostinho se opunha de forma intensa a esta ideia. Dizia ele: “está errado qualquer um que afirme que, (…) se a graça não fosse dada, ainda assim poderíamos, embora com menos facilidade, observar os mandamentos de Deus sem ela”.

Pelagius da Bretanha

Portanto, a santidade (inclusive no futebol) só pode ser alcançada através de uma ação divina específica, que ofereça uma condição especial e diferenciada àquele por ela alcançado. Segundo esta perspectiva, não é possível a um jogador de futebol ter sucesso em sua carreira sem que Deus o tenha escolhido. Por esta razão dizem sempre diante das vitórias: “foi o Senhor quem permitiu”, “em primeiro lugar agradeço à Deus”, “Jesus me ajudou neste caminho”, “não fui eu, foi Deus”, “Deus no comando”, “Deus é fiel”. E mesmo nas derrotas a postura é a mesma: “Deus está esperando um momento melhor para mim”, “Deus escreve certo por linhas tortas”, “Deus vai me agraciar no futuro”, etc. exatamente porque esta é a visão disseminada nas igrejas evangélicas, aferradas aos conceitos Agostinianos e que rejeitam o viés pelagianista. Essa visão, por certo, também tem efeitos claros de manter o fiel cativo, sem autonomia para se dedicar à sua fé. A “graça” sempre pressupõe intermediários.

Portanto, não são fanáticos, nem mesmo são religiosos; apenas reproduzem um conceito muito disseminado no meio evangélico no qual convivem. Tratá-los como insanos não ajuda a seleção e muito menos o Brasil. O Imperialismo está sempre querendo que o mundo periférico despreze seus heróis e seus símbolos. Não é de hoje que percebemos o interesse de desmerecer e menosprezar qualquer líder ou ídolo efetivamente oriundo das classes populares. Fizeram assim com Garrincha, Pelé e agora Neymar. A Seleção Brasileira de futebol também é alvo de críticas infundadas, tentando nos fazer olhar para cada jogador que tenha emigrado para o futebol mais valorizado no mundo como se fossem traidores, interesseiros e dinheiristas. Ou seja: um sujeito pobre que – através de um esforço imenso – consegue a ascensão social só pode ser admirado se abrir mão da justa recompensa pelo seu talento e assumir uma vida modesta ou pobre. Parece que a riqueza só é garantida à minoria composta pelos membros das castas superiores, os burgueses, agraciados por Deus com sua fortuna, mesmo que nenhum esforço tenha sido empreendido para conquistar esta posição. Destruir ídolos populares é um projeto colonialista de destruição dos seus heróis nacionais, através de uma iconoclastia que não surge da humanização desses personagens, mas como uma estratégia muito bem elaborada de desprezo moralista, com o claro objetivo de fomentar a dominação comandada pelo imperialismo. A perseguição injusta e covarde contra Lula é o exemplo mais simples e fácil para entender o quanto as grandes potências, interessadas na subserviência nacional, apostam nesta ação. Fiquemos atentos.

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Idealismo Espírita

Falar do espiritismo enquanto doutrina progressista e baseando-se em seus ensinamentos e sua perspectiva científica e adogmática é puro idealismo. Na materialidade, na concretude do real, o espiritismo se apresenta como uma seita cristã (e cristólatra), conservadora, à direita no espectro político e caracteristicamente moralista. O espiritismo não difere de forma consistente de outras expressões religiosas ocidentais no que se refere ao perfil dos seus prosélitos. É uma lástima, pois sua base ideológica prometia ser revolucionária.

No Brasil, justiça seja feita, só as religiões de matriz africana se aproximam discretamente da atenção ao povo preto, pobre e oprimido pelo capital, e ainda assim de forma muito sutil. O cristianismo brasileiro é, acima de tudo e em todas as suas expressões, muito mais ligado à Roma e ao Sinédrio do que ao povo chinelão que comia poeira e gafanhotos na Palestina.

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Bolsonaristas de Cristo

Quem são os cristãos do bolsonarismo?

Esta é uma questão complexa, mas acredito que religião destes sujeitos é um culto às aparências. O cristianismo deles é de “forma“, quase nada de “conteúdo“. Trata-se de uma fé cristã identitária, que busca conectar-se com uma pretensa herança branca e europeia, que deseja se destacar da “barbárie” indígena ou africana, e que nada tem a ver com os valores da solidariedade, do amor ao próximo, do perdão e da comunhão.

Um cristianismo branco e europeu, sem Cristo, sem bem-aventuranças, sem povo, sem os pobres, sem os desvalidos, sem a moral e sem os valores do Evangelho.

Reverenciam um Jesus de arma na cintura, fiéis invadindo igrejas, atacando os padres, bebendo e cuspindo impropérios contra os semelhantes. O Império do ódio e do ressentimento, em todos os sentidos o oposto daquilo que o cristianismo pretendia trazer como “boa nova” para este mundo

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Pedra de tropeço

Durante muitos anos assisti espíritas explicando a “necessidade” da exploração, da iniquidade e da injustiça social como “campo de expiação” para a humanidade. Em outras palavras, tratavam o mal, a ignorância, o erro, a iniquidade e a dor como ações benfazejas do Criador para que, através delas, pudesse o ser humano evoluir e depurar suas falhas e erros. Assim, a “pedra de tropeço” da desigualdade seria “adequada” para as experiências humanas, oferecendo um desnível que, para a trajetória evolutiva, seria essencialmente pedagógico.

Por esta razão (entre tantas outras) é fundamental a crítica incessante contra o conservadorismo inerente às religiões. É preciso colocar o dedo na ferida das posturas alienantes que negam a importância crucial da luta de classes. É inadmissível que uma corrente de pensamento inerentemente progressista como o espiritismo seja vista como um dos principais focos de conservadorismo do cenário religioso brasileiro. A ação humana é sempre propositiva, jamais passiva e alienada. Teremos o futuro que for por nós construído, e não aquele oferecido por Deus ou pelo “andar da humanidade”. Sem esse contraponto, as religiões ocuparão a linha de frente das posições mais reacionárias, impedindo o desenvolvimento social e travando a luta por igualdade. Exatamente o que vemos entre os adeptos do neopentecostalismo.

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Consensos Manufaturados e Religião

Esta semana a direção da UDV, União do Vegetal – uma seita cristã criada por Mestre Irineu usando plantas (Mariri e Chacrona) para fazer um chá usado de forma iniciática, declarou apoio ao atual presidente da República, Jair Bolsonaro. Do pouco que conheci do perfil dos frequentadores desta religião (eu mesmo já escrevi sobre o tema e já participei de um encontro), eu tive um nível zero de surpresa com essa declaração de voto. A mesma sensação que tive ao testemunhar o bolsonarismo dos espíritas. Percebam; há um padrão de conexão entre as religiões dos países imperialistas com os valores conservadores. Por esta razão a UDV, os evangélicos, os espíritas cristãos, muitos católicos e outros estão todos ligados pelos fios invisíveis do conservadorismo brasileiro, uma estrutura social que namora com o fascismo. Creio que já escrevi muito sobre minha desilusão com os religiosos, e ainda lembrei com dos amigos de infância que se tornaram bolsonaristas, defensores do Jesus com arma na cintura, desconsiderando as falas racistas, violentas, misóginas, homofóbicas e genocidas do líder. Para mim ainda é inacreditável que, aqueles mesmos que falavam do Jesus que oferece a outra face, justificam abertamente as ações racistas, homofóbicas e terroristas do atual presidente.

A justificativa? O fantasma comunismo, por certo, que serve como um “homem do saco” para adultos. Mas também se encontra com frequência a associação de Lula com “ditaduras”, como a Venezuela, Cuba e a Coreia Popular (um trio que é tanto usado pela direita quanto desconhecido por ela), em especial no que diz respeito ao envio de dinheiro para estas “ditaduras”, assim como a “ladroagem de Lula” (que só não foi condenado porque houve um erro no CEP – uma tecnicalidade). Todavia, estes mesmos moralistas desconversam quando questionados sobre as fotos do presidente Bolsonaro com o Sheik da Arábia Saudita, este sim um ditador sanguinário e cruel, ou os inúmeros casos de corrupção no seu governo.

Entre estes aficionados do capitão encontramos gente educada, estudiosa, com curso superior, pais de família, diretores de Centros Espíritas, pastores, padres, crentes de todo tipo; todos irmanados em uma luta contra os “vermelhos”, os vagabundos dos sindicatos, os invasores de terra, os ativistas do MST (que mal sabem usar uma enxada) e os indefectíveis “socialistas de IPhone”.

“Vai pra Cuba”, “Empacote tudo que você tem e distribua para os pobres”, “Ahh, reclama do capitalismo mas usa luz elétrica(??), celular(??) e computador(??)”. “Quer ficar como a Venezuela? Na Coreia do Norte é proibido cortar o cabelo igual ao Kim, e na China você é condenado à morte em 30 dias e a família ainda precisa pagar a bala. Quer isso no nosso país?”

Somos bombardeados todos os dias por uma avalanche impressionate de propaganda via redes sociais, que em muitos causa uma profunda lavagem cerebral. “Credo quia absurdum“, como diria Agostinho, “acredito nas fake News porque são absurdas, e isso prova minha fé e o meu engajamento”. São 80 anos de propaganda anticomunista diária subliminar, insidiosa, camuflada, sub-reptícia e constante. Não importa o quão ridículas são as fake news sobre “comunistas que comem criancinhas“, ou “Na Coreia Popular mentem que a seleção cenceu o Brasil na Copa do Mundo“. Todo santo dia, martelando na cabeça, criando ficções ridículas (como estas acima), produzindo narrativas baseadas em delações falsas, estrangulado as economias socialistas com boicotes, sanções e bloqueios. Condenando quem denuncia os crimes do Imperialismo – como foi feito com Edward Snowden, Chelsea Manning e Julian Assange – atacando (e matando) líderes dos direitos humanos (como na Colômbia) e usando religião como um escudo, uma identidade que precisa ser preservada dos ataques insanos dos depravados, gayzistas, abortistas e ateus, tudo pelo bem dos nossos valores e do santo nome de nosso senhor Jesus Cristo, amém.

Sobre esta ligação dos religiosos em geral com o conservadorismo e a propaganda anticomunista acho que o sobrinho de Freud, Edward Louis Bernays, tem mais a dizer do que Hippolyte Rivail, o filósofo de Lyon. Edward Bernays dizia que “somos controlados, nossas mentes são moldadas, nossos gostos são formadas e nossas ideias são sugestionadas”. Ele foi quem primeiro entendeu a importância da propaganda na criação do que passou a ser chamado de “Consenso Manufaturado”, um conceito primeiramente criado por Walter Lippmann em 1922 e posteriormente disseminado pelo intelectual americano Noam Chomsky. . Não se pode desprezar décadas de propaganda violenta que, junto com os aparatos de repressão do Estado, tentam evitar a explosão inevitável da barragem produzida pelas lágrimas de milhões que são excluídos pelos privilegiados do capitalismo. Propaganda e Estado policial. Publicidade e Forças armadas a serviço do Império. Salve-nos Luke Skywalker

Praticamente todas as religiões derivadas do cristianismo – enquanto fenômeno social, não como doutrina – replicam uma visão individualista do progresso onde cada um, através da penitência, da fé, da “reforma intima”, do sacrifício, da dedicação à Igreja e o pagamento do dízimo, será responsável pela evolução espiritual do planeta, um conceito que se adapta maravilhosamente à meritocracia do nosso modelo capitalista. Assim, as mudanças vão ocorrer na dependência de ações individuais, inobstante os modelos sociais a que estamos submetidos. Outro fator é o pacifismo alienante de muitos religiosos, um idealismo paralisante que os impede de aceitar a sociedade de classes como o resultado inexorável do capitalismo, a qual só será derrubada através da luta de classes e do enfrentamento.

Quando eu vejo o “cristão mediano”, frequentador da sua Igreja, que toma passes, faz comunhão, se confessa, toma hóstia ou água fluida e entoa os cânticos não consigo perceber nenhuma diferença substancial entre todas as modalidades de fé cristã. Todos eles reproduzem condicionamentos sobre costumes e política, da mesma forma como qualquer um que tenha sido intoxicado por oito décadas de violenta propaganda contra a luta organizada dos trabalhadores. Espíritas, católicos, protestantes em suas diversas denominações são semelhantes demais aos “crentes” e os neopentecostais nesse terreno para que se perceba qualquer diferença. A religião, no dizer de Hegel em “Crítica da Filosofia do Direito, , é o “Ópio do Povo” (Die Religion … Sie ist das Opium des Volkes), canalizando a energia de milhões para a contemplação e a aceitação das mazelas, ao invés de seguir as palavras de Cristo e agir objetivamente para diminuir a iniquidade no planeta e a dor de seus semelhantes.

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Religião e alienação

“Ahh, mas o Brasil não é o coração do mundo e a pátria do Evangelho? Há de existir uma intencionalidade dos planos espirituais para o nosso país. Não ficaremos órfãos de cristandade”.

Esse é o papo dos espíritas de hoje.

Sinto muita tristeza em dizer isso, mas uma improvável vitória de Bolsonaro nestas eleições levaria o Brasil à morte, à violência e, por fim, à confrontação em níveis nacionais. Não é uma ameaça, mas um temor bem fundamentado. A hipnose a que se submete o povo brasileiro não pode durar indefinidamente. Com o tempo – que vai depender da nossa consciência e poder de reação – teremos de despertar desse sono. A fome voltou, o desemprego não baixa, os programas sociais já foram exterminados, o desmatamento prosseguirá, o extermínio dos índios idem.

O ódio é o idioma falado pelos bolsonaristas nas ruas, vários ativistas de esquerda já foram mortos, inimigos (e ex parceiros) de Bolsonaro desaparecem, e o Congresso se verga às decisões que desejam transformar o Brasil em um fazendão, onde os latifundiários, os rentistas, os especuladores e os banqueiros terão sempre a última palavra sobre os destinos do país.

Estes assassinatos que estamos vendo agora poderão se tornar o padrão daqui por diante. A tensão entre o Brasil pobre e os donos do poder se acentuará e os conflitos inevitavelmente explodirão. Não há como conter o desencanto indefinidamente. O auxílio criminoso eleitoreiro vai acabar. Se Bolsonaro fosse eleito em janeiro tudo voltaria ao terror de sempre, mas aí já seria muito tarde.

Para os espíritas eu apenas posso dizer que Jesus era um socialista pregando revisionismo judaico e mobilização política para judeus que sonhavam com um levante contra Roma. Ele jamais foi o “governador da Terra”, uma afirmação corrente entre alguns espíritas iludidos com um pretenso destino especial deste país. Esse tipo de ficção ufanista agride a realidade dos fatos e nada mais é do que um dos mantenedores do nosso atraso social e econômico.

NÃO SOMOS ESPECIAIS. Nós brasileiros não somos melhores, não somos predestinados a nada. Construímos a estrada à medida que andamos. O Brasil foi o último país a exterminar a escravidão, o país que mais concentra renda na mão de poucos bilionários (que sequer vivem no país), temos a elite mais racista e perversa entre os países emergentes, e somos a nação que mais mata gays, pretos e pobres pelas mãos do Estado. Temos uma das polícias mais violentas do mundo e matamos mais brasileiros do que a guerra da Ucrânia, todo santo dia.

Não me venham falar de religião, de espíritos superiores, de Cristo apaixonado pelo Brasil. Precisamos extirpar a perversidade entranhada na estrutura de poderes deste país e isso é uma tarefa para este mundo, e não para o plano celestial.

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Ayahuasca

Minha experiência com a ayahuasca ocorreu há exatos 20 anos, na Bahia. Estávamos com minha amiga Robbie fazendo um “tour” sobre humanização do nascimento quando recebemos o convite de uma querida amiga, Maria Helena, para uma sessão especial na “União do Vegetal”. Tanto eu quanto Robbie – antropóloga americana e ativista da humanização do nascimento – atravessávamos os vales sombrios de nossos profundos e dolorosos dramas pessoais e foi elaborada para nós uma sessão especial de “cura”, ou de “saúde” – não recordo o termo exato utilizado.

Fomos em uma turma de vários colegas até o templo, um lugar esplendoroso e cercado de natureza. No interior do amplo salão havia dezenas de cadeiras de praia espalhadas e uma música de viola que tocava ininterruptamente. Lembro do intérprete das canções: Elomar.

Ficamos escutando aquela música por muito tempo, talvez por mais de uma ou duas horas. O silêncio, a música e o local produziam uma sensação inebriante e cristalina de paz.

Num determinado momento entraram os mestres, com suas características camisas verdes e muita pompa. Depois disso começou uma pregação doutrinária. A União do Vegetal é um sincretismo curioso de lendas amazônicas com partes da Bíblia, em especial o velho testamento e o rei Salomão. É uma “religião cristã reencarnacionista” que reconhece Cristo como o Salvador da Humanidade e foi criada em 1961 em plena Floresta Amazônica pelo seringueiro José Gabriel da Costa – “Mestre Gabriel” – um baiano nascido no município de Coração de Maria, região de Feira de Santana. O conteúdo da pregação pareceu seguir o roteiro padrão das igrejas cristãs, com exaltação dos valores morais, conservadorismo, padrões de comportamento determinados pelo gênero, etc, mas com uma liturgia muito interessante.

Num dado momento, após a pregação inicial e a evocação dos objetivos daquela sessão, um visitante novato levantou a mão e tentou explicar a razão de sua presença na reunião, pedindo para fazer alguns questionamentos. Foi imediatamente interrompido, bem no meio da sua manifestação e de forma um tanto rude, e lhe foi explicado que essas questões exigem um protocolo especial. Primeiro levanta-se a mão e se pede ao Mestre a permissão para fazer a pergunta; caso o Mestre autorize o sujeito continua e a faz. Ele concordou e levantou a mão, dizendo logo após: “Mestre, posso fazer uma pergunta?”, ao que o Mestre prontamente respondeu… “Não”.

Eu ri, mas não devia.

Depois passou-se à sessão com a ayahuasca propriamente dita. Foi colocada à frente do público em uma jarra transparente que continha a substância, cuja cor me pareceu semelhante ao “suco verde” que me acostumei a tomar pela manhã.

Essa substância é preparada a partir de duas plantas amazônicas, o cipó Mariri (Banisteriopsis caapi), e as folhas da árvore Chacrona (Psicotria viridis). O Chá Ayahuasca (ou Hoasca) é também chamado de Vegetal e seus discípulos o bebem durante as sessões, para efeito de concentração mental.

Feito o convite nos levantamos e entramos na fila. Quando levei o copo à boca senti gosto de “grama amarga”. Tomei o equivalente a meio copo de Vegetal e voltei a me sentar. Em alguns minutos todos haviam tomado e estavam de volta aos seus lugares, aguardando em silêncio e escutando os cânticos.

Algum tempo se passou até que um mestre se acercou de mim e perguntou se eu havia sentido a “burracheira”, que se define como a alteração sensorial produzida pela mistura das plantas. Eu respondi (talvez para agradá-lo) dizendo “creio que sim”. Ele deu uma gargalhada que foi acompanhada por vários dos presentes. “Quem sente a burracheira não acha e muito menos tem dúvida”.

Alguns minutos mais tarde outro mestre avisou que se alguém quisesse tomar mais uma dose poderia fazê-lo pois ele iria encerrar a oferta do Vegetal. Minha amiga Maria Helena me cutucou e eu prontamente levantei. Só no dia seguinte ela me contou que a “cutucada” era uma pergunta (se eu desejava tomar mais) e não um convite para mais uma dose. De qualquer maneira foi esse estímulo que me fez tomar a segunda – e fatídica – dose. Levantei, dirigi-me ao pote de vidro transparente, servi meio copo de ayahuasca e voltei a sentar.

Nesse momento eu já havia percebido que muitas pessoas levantavam de seus assentos em direção ao banheiro para vomitar. O vômito é descrito como uma boa reação ao Vegetal, produzindo um efeito exonerativo, semelhante às terapêuticas vomitivas da idade média ou dos enemas necessários na Grécia antiga como preâmbulo ao encontro com os Oráculos.

Em poucos minutos ficou claro que eu não ia escapar de chamar o “hugo”. Senti que estava ficando tonto e nauseado, e com uma espécie de aceleração mental. Aos poucos, mas de forma crescente, imagens multicoloridas se multiplicavam à minha frente, como um filme visto numa velocidade tão absurda que suas formas e cores se tornavam misturadas e confusas. O estranhamento foi ficando paulatinamente mais forte, e a náusea mais intensa, até o momento em que achei prudente me levantar para não passar vexame à vista de todos.

Saí da sala cambaleando e caminhei poucos passou na grama aparada que circundava o templo. Veio então a primeira golfada de vômito, cuja cor se confundiu com o gramado aos meus pés. Caí desfalecido ao solo logo após.

Acordei com o rosto colado ao chão espetado pela fina grama. Tentei entender o que havia acontecido e me dei conta que havia desmaiado após ter vomitado o Vegetal. Apesar do pequeno alívio que se seguiu, a minha mente não freava sua alta rotação e a náusea se mantinha. De onde estava consegui ver os banheiros que ficavam em uma construção contígua ao templo. Achei que um pouco de água fria no rosto me ajudaria e me esforcei para caminhar até lá.

Sim, era a “burracheira” e, sim, não havia como confundir.

Venci a distância de uns 15 metros com enorme dificuldade. As cores, as luzes, as imagens, a velocidade, a náusea insuportável, a angústia dobravam de intensidade a cada passo dado. Quando eu estava a dois metros da porta do banheiro verguei os joelhos vencido pela fraqueza, senti meu corpo dobrar em dois e meu rosto tocar o solo, me deixando na vexatória posição na qual “Napoleão perdeu a guerra”.

Apaguei totalmente, pela segunda vez. Lembro de ver uma luz se esvaindo, minguando como nas velhas televisões à válvula, que apagavam sua imagem de fora para dentro até restar apenas um minúsculo ponto brilhante no centro da tela. O universo se fechava à minha volta.

Meu despertar foi igualmente especial. Senti uma pequena lâmpada se acender e, em seguida, a reinicialização do “sistema”. Lembro de me perguntar primeiro quem eu era, depois onde estava e o que fazia ali. Recordo também de pensar nos meus filhos, talvez o que de mais valioso nos prende a esse mundo. Durante alguns segundos (minutos?) fiquei nesse estado de semi consciência até que senti uma mão tocar o ombro e uma voz me perguntando: “Você está bem?”

Era um grupo de Mestres que havia me seguido até ali, suspeitando que minha reação havia sido demasiado forte.

Fui ajudado por eles a me levantar e entrei no banheiro, onde a água fria de uma torneira me ajudou a respirar melhor e desembaralhar um pouco os pensamentos. Passados alguns instantes eu já suportava abrir os olhos e responder aos mestres. Em poucos minutos eu já estava sentado no auditório com os demais participantes.

Da experiência não tive nenhum insight consciente, nenhuma “abertura sensorial”, e nenhuma “entrada em um portal de luz”, mas é verdade que ninguém havia me prometido tal resultado. Também não houve uma ideia especial que tenha me ocorrido e sequer senti o desatar de algum nó emocional ou espiritual. Foi uma viagem pelos sentidos, porém muito mais forte do que eu supunha.

Guardei da passagem um entendimento um pouco mais rebuscado da origem do fenômeno religioso assim como do significado ancestral dos rituais de beberagem ritualística. Percebi o quanto essas celebrações possuem um potente papel agregador nas comunidades, e também a semelhança dos seus conteúdos litúrgicos com as diversas religiões com as quais já tive contato.

Depois da experiência no templo ainda tive dois dias de alteração, em especial a vontade de falar muito e sobre diversos assuntos, mas depois voltei ao meu característico caráter reservado. Fiquei muito impactado com os efeitos físicos e mentais da ayahuasca, mas não ao ponto de me submeter à ideologia claramente conservadora que a envolve. Contínuo até hoje um “agnóstico espírita” com profundo respeito pelas religiões, mas sem nenhum interesse em seguir qualquer uma delas.

Guardo essa experiência principalmente pelos amigos que me acompanharam e pela sensação de suporte que tive quando do meu segundo desmaio. Muitas vezes – em especial quem é da área da saúde – somos quem ampara aqueles que estão diante de um grande e profundo drama, e o melhor que podemos oferecer é nossa companhia, nosso silêncio e uma firme, porém delicada, mão no ombro.

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Guerra Moral

Eu entendo as boas intenções desses religiosos, mas sei que existe um conceito por trás desse gesto que frequentemente nos leva para o lado errado do debate.

Esses três personagens – clérigos das três grandes religiões abrahâmicas – estão igualmente relacionados aos massacres ao povo Palestino, em especial em Gaza. Em geral, querem nos fazer crer que existe um elemento religioso nessas disputas. Todavia, apenas os tolos acreditam que a solução desses problemas se dará através da comunhão de pastores, rabinos e padres, como se as questões do colonialismo e da iniquidade fossem morais e as religiões pudessem resolvê-las. Isso é falso.

Minha perspectiva é de que, se esse encontro pudesse trazer qualquer solução ao bolsonarismo que nos aflige, bastaria ir a Gaza, dar as mãos, fazer uma marcha ecumênica pela paz envolvendo estas religiões e o conflito se resolveria. Entretanto, todos sabemos que o drama da pobreza no Brasil e a ocupação sionista da Palestina NADA tem a ver com as religiões.

Imaginar o contrário é seduzir-se pela mentira. Nada se resolve com esse tipo de iniciativa. Aliás, o próprio Jesus dizia que “não vim trazer a paz, mas a espada“. A solução só poderá através da luta de classes, pelo enfrentamento ao colonialismo assassino e contra o Imperialismo opressor. Às religiões nada tem a ver com os dilemas profundos do Brasil e não são a solução para nossa miséria.

O fundamentalismo religioso evangélico no Brasil não tem nada de religiosidade – basta ver o amor à violência e a veneração às armas – mas tem uma adesão clara aos valores conservadores e apenas por essa interface se comunica com a política. Ambos – conservadorismo e religião – aceitam a opressão como natural, e só por isso estão irmanados. Não há cristianismo em Bolsonaro assim como não há nada de judaísmo nos invasores europeus que fazem limpeza étnica na Palestina.

Misturar esse debate é ação diversionista. As religiões nunca foram motivo para as guerras, mas foram frequentemente usadas para camuflar interesses geopolíticos e econômicos. Esses três clérigos estão, mesmo sem o saber, estimulando o uso dessa camuflagem ao nos fazer crer que as religiões unidas poderiam ser um obstáculo ao avanço do bolsonarismo.

Para mim o que existe de mais chato nos debates atuais é quando os liberais reclamam de posições radicais, dizendo que o radicalismo impede o consenso. Confundem o conceito de radicalismo com o extremismo. Extremismo é o que vai até o extremo – e dificulta uma posição que possa produzir acordos – enquanto o radical (do latim “radix”) vai à RAIZ, por isso o nome. Por certo que sou radical, e por isso mesmo não me deixo seduzir pelas propostas de amor e comunhão que os religiosos tentam nos oferecer, que nada mais são que uma versão romantizada e contemporânea da “pax romana”.

Ou seja: “calem-se, deixem tudo como está e não toquem nas feridas sociais pois isso atrapalha a nossa “paz” e a comunhão entre as classes“. Eu prefiro o barulho das espadas se chocando em combate do que o silêncio das adagas na garganta. Isso é ser “radical”: entender que não existe paz oferecida graciosamente, muito menos uma paz que trata conflitos geopolíticos e econômicos como simples questões morais, como uma guerra do “bem contra o mal”.

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O Jesus do trezoitão

É importante entender o fenômeno que se espalhou pelo Brasil a partir de meados dos anos 80 com a chegada do modelo de negócios das religiões neopentecostais ao Brasil. Trazido e disseminado pelo Pastor Edir Macedo, em pouco mais de três décadas acabou conquistando legiões de “crentes” em todo o país a ponto de exportar sua tecnologia de conversões e dízimos para países da América Latina e África, em especial. Como característica desse movimento temos a base popular (é centrada na população mais pobre e deserdada), os ataques violentos às religiões de matriz africana, a leitura acrítica e fundamentalista da Bíblia, o conservadorismo nos costumes e uma clara adoção aos partidos mais à direita – incluindo aqueles francamente fascistas. É um dos mais importantes fenômenos sociais ocorridos nos últimos anos, em função da amplitude de sua atuação em diversos setores da sociedade, em especial na política.

É também essencial não permitir que este debate seja direcionado às crenças religiosas que estas religiões pregam. Nosso país tem a liberdade de culto como preceito basilar de sua constituição, e não cabe questionar os postulados de nossas inúmeras seitas – por mais que sejam conflitantes com as nossas. Portanto, não se trata de um debate teológico, mas sociológico, que vai se ocupar com as expressões destas religiões na cultura, para além do seu catecismo. E vamos deixar bem claro que a “questão evangélica” no Brasil (e nos Estados Unidos) não se restringe à denominação protestante ou àqueles prosélitos que seguem a enorme lista de pastores milionários. Infelizmente o problema não se esgota nos malandros e televangelistas, pois vejo – com tristeza e sem surpresa – que o mesmo modelo moralista e hipócrita ocorre em quase todas as seitas ligadas ao cristianismo.

O próprio espiritismo, que se propõe mais aberto, crítico e relacionado à busca de respostas sobre a essência do universo sem desprezar a ciência, não consegue se libertar de sua origem branca, europeia e de classe média, colocando-se ao lado das forças conservadoras e reacionárias que tomaram o Brasil de assalto através de um golpe juridico-midiático. A maioria dos espíritas que conheço adotaram a lógica punitivista, conservadora e reacionária que Bolsonaro trouxe à tona, fazendo coro com a grande massa de evangélicos que engrossam o público alvo do atual mandatário da nação. Posso dizer o mesmo de muito católicos e até mesmo de umbandistas.

Por certo que a realidade dos espíritas é muito diferente daquela dos evangélicos. O espiritismo não possui rede de TV, igrejas suntuosas, “exércitos de Jesus”, milhões sendo distribuídos para pastores e dirigentes, muito menos possui uma bancada no parlamento, o que torna os evangélicos um poder político e econômico através dos inúmeros tentáculos que se espalham pela sociedade. Entretanto, a retórica dos líderes espíritas muito se aproxima do que existe de mais raso e moralista no discurso evangélico. Escutar um espírita defendendo a “família”, “a moral”, os “costumes”, ou despejando conceitos conservadores sobre a sexualidade, pouco difere do que é dito nos púlpitos das mega igrejas protestantes. Um exemplo disso é a adesão do Chico Xavier ao regime militar de 64 e o apoio explícito e público de Divaldo Franco ao lavajatismo.

A resposta para isso precisa ser corajosa. É mandatório limitar, controlar e vigiar o poder econômico e político das igrejas. É necessário impedir que estas instituições sejam locais de lavagem de dinheiro e corrupção. Junto com a “questão militar”, a “questão da mídia” e o “judiciário” os evangélicos no poder são um dilema que o Brasil laico precisará enfrentar antes que o país se torne um Evangelistão mais cruel e dogmático que sua versão do oriente. Para termos um país livre deste tipo de opressão é preciso que as religiões sejam confrontadas em sua perspectiva reacionária, preconceituosa, racista e violenta, que aceita um Deus corrompido, agressivo e vingativo e um Jesus que, “só não andava armado porque não tinha onde comprar uma pistola”.

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Religiosidades

Gostaria de analisar de uma forma mais racional a relação entre a evidente “religiosidade” do povo brasileiro e suas consequências morais. Para isso trago a frase que colhi do texto de um religioso de esquerda que procurava avaliar as razões da dissonância entre essa característica e os resultados práticos na relação entre as pessoas deste país.

“O Brasil é o maior país católico do mundo, é uma das maiores nações cristãs do planeta. Somos um povo muito religioso. Todos e todas concordamos que a Fé em Deus tem uma consequência ética. Para cristãos e cristãs, a consequência ética máxima da fé em Deus é o AMOR AO PRÓXIMO.”

Acredito que a fala acima contém um “non sequitur”. Sim, é verdade que somos cristãos, mas se trata de uma formalidade e não de um compromisso com suas diretrizes morais.

A ideia de que somos “religiosos” não é exata, ou pode induzir a falsas interpretações. É certo de que temos religiões e que nos dedicamos a elas. Não há dúvida de que nos vinculamos às suas igrejas e templos, mas isso não nos torna “religiosos”, e muito menos demonstra um desejo de sermos éticos ou de “amar o próximo” acima de todas as coisas. Não vou falar sequer do “oferecer a outra face”….

Religiões são, acima de tudo, formas de expressar identidade, na busca por algo que nos congrega, nos faz participar de um mesmo rebanho, de um mesmo grupo de pessoas com história, cultura, práticas e crenças semelhantes. Essa necessidade de fortalecer-se através dos iguais que existe nas religiões, nos partidos e nos times de futebol é um aspecto absolutamente indissociável da nossa condição humana. Todavia, a partir dessas vinculações aceitar que acreditamos nos valores das religiões (ou mesmo dos partidos) é um salto arriscado e não há porque incorporá-lo sem ressalvas.

Essa dissociação entre a Religião e seus postulados explica não apenas as brutais Cruzadas – massacres em nome de Cristo – mas também qualquer outra guerra onde se usa a Religião como mote (mesmo escondendo interesses econômicos ou nacionalistas). Também oferece uma explicação para as “bênçãos de pistolas”, as marchas com Cristo (que anunciam golpes contra a democracia), as igrejas milionárias, os pastores abusadores, os mercadores da fé, a intolerância com gays e com outras religiões, mas também para o fato de que os grupos menos cristãos em essência (na ética e nas propostas) sejam aqueles que mais defendem a figura de Jesus em suas múltiplas seitas evangélicas.

É possível dizer que “cremos em Deus”, mas isso nada tem a ver com um compromisso ético de nossa parte e muito menos que isso nos faria “amar ao próximo”, ou “perdoar a quem nos ofende”. Não, essas crenças não nos vinculam diretamente a estas condutas.

As religiões são apenas idiomas que usamos para nos conectar com aqueles que compartilham nossa visão de mundo. São os potes que fazemos descer ao manancial da água da fé, o veio cristalino de onde brota esse sentimento aquém da racionalidade e que nos move no sentido de apreender o sentido cósmico universal. Sua conexão com a mudança de atitude do sujeito (se existe) é imperceptível ou ausente. Não há nenhuma moralidade superior no crente em relação ao ateu, pois que a conduta ética está calcada em valores surgidos muito antes de qualquer racionalidade capaz de guiar condutas.

Acreditar em Deus – ou no seu filho – não lhe torna uma pessoa melhor, mais nobre, ética ou pacífica, mas talvez ajude a esconder muitas das suas pequenas e grandes sujeiras.

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