Arquivo da categoria: Religião

Espiritismo e identitarismos

Há momentos históricos em que palavras aparentemente banais passam a carregar uma quantidade extraordinária de tensão. “Identidade”, “gênero”, “masculinidade”, “feminilidade”, “privilégio”, “opressão”, “woke”, “red pill” são algumas delas. Basta pronunciá-las para que imediatamente se organizem campos adversários, cada qual com seu vocabulário, suas certezas, suas vítimas, seus culpados e sua interpretação do mundo.

Para o espiritismo, entretanto, talvez a pergunta mais interessante não seja determinar qual desses campos está certo. Uma doutrina que se apresenta como espiritualista e progressiva deveria formular uma pergunta anterior: o que o aparecimento simultâneo desses movimentos revela sobre o homem contemporâneo?

A chamada cultura woke, os movimentos identitários, a reação anti-woke e o universo red pill são fenômenos muito diferentes. Não possuem a mesma origem, não defendem os mesmos valores e frequentemente são inimigos declarados. Seria intelectualmente pobre colocá-los todos no mesmo saco. Entretanto, observados de certa distância, apresentam uma curiosa semelhança: todos procuram responder a uma crise contemporânea de identidade, pertencimento, reconhecimento e significado. E é precisamente aí que o espiritismo talvez tenha algo particular a dizer.

A busca contemporânea por uma identidade

Uma das grandes transformações das sociedades modernas foi a progressiva perda da capacidade das instituições tradicionais de responder à pergunta mais elementar que uma pessoa pode fazer: quem sou eu? Durante séculos, religião, família, comunidade, profissão, nacionalidade e tradição ofereciam respostas relativamente estáveis. O indivíduo não precisava inventar completamente a própria identidade; em grande medida, recebia-a. A modernidade desfez parte dessas certezas. Isso trouxe enorme liberdade, mas também produziu desorientação. Quando estruturas antigas perdem autoridade, outras surgem para fornecer significado. A política passa então a ocupar espaços que anteriormente pertenciam à religião, à comunidade e à tradição. É nesse contexto que a chamada política de identidade ganhou enorme importância.

A literatura sociológica mostra que movimentos identitários procuram conectar experiência pessoal, pertencimento a grupos, relações de poder e ação política. Mary Bernstein observa que as próprias políticas de identidade envolvem debates sobre experiência, cultura, poder e sobre se determinadas identidades devem ser compreendidas como essenciais ou socialmente construídas. Assim, acontecimentos anteriormente percebidos como individuais podem ser reinterpretados por uma chave coletiva; o sofrimento deixa de ser apenas “o que aconteceu comigo” e passa a ser também consequência de uma estrutura. Para muitas pessoas, isso pode ser profundamente esclarecedor. Preconceitos que eram vividos silenciosamente tornam-se reconhecíveis; grupos historicamente invisibilizados ganham linguagem para descrever suas experiências; sofrimentos antes naturalizados podem ser questionados. Todavia, toda ferramenta interpretativa contém também um risco: aquele de transformar uma dimensão verdadeira da existência na explicação total da existência. Nestas circunstâncias, uma interpretação unívoca da realidade torna-se uma sedução muitas vezes de difícil dissipação. O ser humano pode então começar a desaparecer dentro de sua categoria.

A reação

Nenhum movimento cultural importante permanece sem produzir reação. Essa é uma característica da dialética em nossa cultura. O surgimento do Partido dos Trabalhadores e suas vitórias eleitorais no Brasil foi o berço da aparição de seu contraponto: as jornadas de junho em 2013, o MBL, o impeachment da presidenta eleita e a emergência da extrema direita no cenário nacional. Desta forma, o crescimento das políticas identitárias foi seguido pelo surgimento – inevitável, eu diria – de um amplo universo hoje chamado, de maneira bastante imprecisa, de anti-woke.

Não existe propriamente uma doutrina anti-woke. Sob essa expressão convivem liberais preocupados com liberdade de expressão, conservadores religiosos, críticos do pós-modernismo, pessoas incomodadas com políticas identitárias, grupos nacionalistas e também indivíduos simplesmente exasperados com determinados códigos culturais – como pronomes e banheiros. A reação, entretanto, pode reproduzir o mesmo mecanismo que pretende combater. Se uma política identitária reduz o indivíduo à identidade do grupo a que pertence, sua oposição pode começar a interpretar cada pessoa principalmente como representante da ideologia adversária. Neste contexto de oposição surge uma curiosa simetria. De um lado:

“Você fala assim porque pertence a determinada posição social.”

Do outro:

“Você fala assim porque foi capturado pela ideologia woke.”

Nos dois casos, existe o risco de deixarmos de ouvir a pessoa porque já sabemos previamente o que ela é. O rótulo passa a preceder o indivíduo e o sujeito carrega o peso da sua ideologia como um fiel depositário de seus conceitos, prisioneiro de seus conceitos e contradições.

A pílula vermelha

O fenômeno red pill acrescenta uma dimensão particularmente interessante a essa disputa. Sua metáfora fundadora vem do filme Matrix: tomar a pílula vermelha significa abandonar uma realidade ilusória e finalmente enxergar o mundo como ele realmente é. É difícil imaginar metáfora mais próxima de uma experiência de revelação. O homem que “toma a red pill” passa a reinterpretar suas experiências amorosas, fracassos, rejeições e relações entre homens e mulheres mediante um novo vocabulário: alpha, beta, hipergamia, simp, blue pill e inúmeras outras categorias. Aquilo que parecia uma sequência confusa de experiências individuais recebe uma explicação.

Não por acaso, um estudo acadêmico publicado em 2025 analisou explicitamente a “Red pill Community como comunidade espiritual”. As autoras, Weronika Karwoska e Natalia Brzezinska, identificaram elementos como narrativa de iniciação, sistema de valores, busca de autorrealização, respostas a questões existenciais, formação comunitária e recrutamento — funções historicamente desempenhadas por comunidades religiosas.   Mas cuidado; estas coincidências não nos permitem categorizar o movimento red pill como uma religião. Significa algo mais interessante: o impulso humano que produzia religião não desapareceu simplesmente porque as sociedades se secularizaram. A necessidade de significado permanece. Quando as religiões tradicionais deixam espaços vazios, esses espaços podem ser ocupados por ideologias, comunidades digitais, identidades políticas ou sistemas que prometem revelar aquilo que permanece oculto aos demais.

A estrutura da conversão

É curioso observar que movimentos absolutamente antagônicos podem desenvolver estruturas semelhantes. A sequência frequentemente é esta:

sofrimento → descoberta de uma explicação → aquisição de um novo vocabulário → reinterpretação do passado → pertencimento a uma comunidade → desejo de transmitir aos outros aquilo que se descobriu.

É a estrutura clássica de inúmeras experiências religiosas. Depois da conversão, o passado inteiro pode parecer diferente. O espírita olha para determinado sofrimento e pensa: “agora compreendo isso à luz da reencarnação”. O adepto da red pill olha para relacionamentos anteriores e pensa: “agora compreendo aquilo através da dinâmica entre homens e mulheres que antes desconhecia”. Da mesma forma, alguém que adere a determinada corrente identitária pode rever acontecimentos antigos e pensar: “agora reconheço aquela experiência como manifestação de uma estrutura de discriminação”. As conclusões podem ser inteiramente diferentes, muitas vezes absolutamente antagônicas, como no caso de grupos feministas identitários e aqueles que aderem à agenda red pill. Porém, o mecanismo humano, entretanto, é familiar. Em todos esses casos, uma linguagem nova reorganiza a memória. E toda linguagem produz visibilidade: depois que aprendemos uma categoria, passamos a encontrá-la em lugares onde anteriormente não a víamos.

E o que o espiritismo faz diante disso?

Aqui está, provavelmente, a contribuição mais radical da doutrina espírita para esse debate. Segundo O Livro dos Espíritos, nossa identidade fundamental não é masculina nem feminina. À pergunta 200 — “Têm sexos os Espíritos?” — a resposta que os espíritos enviam à Kardec é negativa: os sexos dependeriam do organismo no qual o espírito se insere. Nas questões seguintes, Kardec afirma que um mesmo Espírito pode encarnar como homem ou como mulher e que as diferentes condições corporais permitem adquirir experiências diferentes. Essa proposição produz consequências filosóficas extraordinárias. O espiritismo não nega a realidade do corpo, mas também não permite que o corpo encerre completamente a definição do indivíduo. Eu sou meu corpo durante esta existência, mas não sou apenas meu corpo. Da mesma maneira, não sou apenas minha classe social, minha raça, minha nacionalidade, minha orientação sexual, meu sexo, minha profissão ou minha posição política. Tudo isso pertence à experiência encarnada e pode ser decisivamente importante.

Entretanto, o espiritismo deixa muito claro, como um dos pilares da sua filosofia, que nenhuma dessas categorias esgota aquilo que somos. Sob a perspectiva espírita, antes de todas estas máscaras (personas) existe o Espírito. Essa ideia impede, ao menos teoricamente, dois reducionismos opostos. De um lado, dificulta transformar identidades sociais em essências absolutas; de outro, dificulta transformar diferenças biológicas em destinos espirituais absolutos. De acordo com a perspectiva espírita, um Espírito pode atravessar ambas as experiências sexuais ao longo de diferentes existências. No filme das mesmas diretoras de Matrix – as irmãs Wachowski, elas mesmas transsexuais – chamado “Cloud Atlas”, elas brincam com um grupo de pessoas que se encontram em múltiplas encarnações nas quais trocam de gênero no correr das gerações que se sucedem. É difícil imaginar conceito menos compatível tanto com uma metafísica rígida da masculinidade quanto com a ideia de que a identidade humana possa ser completamente encerrada numa única categoria social. Neste aspecto, o espiritismo inaugura uma visão revolucionária de gêneros ao coloca-los como apenas uma roupagem temporária que usamos para desempenhar tarefas e adquirir conhecimento advindo das distintas visões de mundo que eles compreendem.

Nem woke, nem anti-woke

É aqui que o espiritismo corre um risco contemporâneo. O risco de procurar em Kardec uma autorização para simplesmente escolher um dos exércitos disponíveis. Espíritas progressistas podem desejar transformar a doutrina numa confirmação religiosa das pautas identitárias contemporâneas enquanto os Espíritas conservadores podem desejar transformá-la numa arma contra essas mesmas pautas. Ambos deveriam ter cautela. Procurar respostas em “livros sagrados”, escritos há centenas ou milhares de anos, carrega o risco eterno de anacronismo, ou guerras interpretativas fragmentárias, que são uma característica das vertentes cristãs. Kardec escreveu no século XIX, e seus textos contêm ao mesmo tempo princípios surpreendentemente universalistas e afirmações marcadas pelas concepções sociais de sua época.

A questão 822 de O Livro dos Espíritos, por exemplo, defende inequivocamente a igualdade de direitos entre homens e mulheres, afirma que qualquer privilégio concedido a um sexo é contrário à justiça e chega a dizer que a escravização da mulher acompanha a barbárie. Ao mesmo tempo, o comentário apresenta uma divisão tradicional oitocentista das funções masculinas e femininas. Não é necessário esconder essa tensão, assim como as questões relacionados ao “racismo” de Kardec, tão amplamente discutido. Ao contrário: reconhecê-la é profundamente kardequiano. Uma doutrina que afirma a existência do progresso não pode supor que todas as formulações sociais do século XIX sejam a última palavra sobre problemas humanos que continuaram evoluindo nos séculos seguintes.

O problema da red pill visto pelo espiritismo

Por sua vez, o movimento red pill parte frequentemente de sofrimentos masculinos reais. Solidão, rejeição afetiva, ruptura conjugal, dificuldades de relacionamento, perda de referências de masculinidade e sensação de inutilidade social não são invenções. Ignorá-los apenas porque alguns discursos que surgiram em torno deles são desagradáveis seria erro semelhante ao de negar sofrimentos relatados por movimentos identitários porque discordamos de determinadas interpretações políticas desses sofrimentos. Por outro lado, reconhecer um sofrimento não obriga a aceitar toda teoria construída para explicá-lo. “Domados: Como a Cultura Traiu o Homem Americano” (Stiffed: The Betrayal of the American Man) é um livro célebre da jornalista e feminista americana Susan Faludi, lançado em 1999. Neste livro a autora explica como, ao lado das mudanças econômicas, o fim de empregos industriais estáveis nas décadas de 1980 e 1990, os homens viram seus papéis tradicionais ruírem. O livro não foca em um embate culposo entre homens e mulheres e não se resume ao apontar de dedos. Pelo contrário, a grande questão da autora é por que os homens se recusam a se engajar em sua própria causa e por que não se revoltam ou tentam reverter esse esvaziamento da mesma forma que o movimento feminista fez. O movimento red pill vem exatamente nessa direção: para uma masculinidade posta à prova, e na tentativa de encontrar significado em um mundo onde os papéis sociais são voláteis e vicariantes, esta ideologia tenta oferecer um destino, um significado e um rumo para os homens.

É aí que a perspectiva espírita pode estabelecer uma diferença fundamental. Os red pills frequentemente procura uma explicação externa para o sofrimento do homem: a natureza feminina, o feminismo, a hipergamia, a transformação das relações sexuais ou determinadas estruturas sociais. O espiritismo desloca inevitavelmente parte da pergunta. Na questão 919 de O Livro dos Espíritos, quando Kardec pergunta pelo método mais eficaz de aperfeiçoamento moral. Dos espíritos recebe a velha resposta socrática: “Conhece-te a ti mesmo.”

Isso muda radicalmente a direção do olhar. Não elimina estruturas sociais e não absolve injustiças externas, mas impede que toda explicação de nosso sofrimento termine invariavelmente apontando para o outro. Antes de perguntar “o que as mulheres fizeram aos homens?” ou “o que os homens fizeram às mulheres?”, a ética espírita acrescentaria outra pergunta: “O que estou fazendo de mim mesmo diante dessa experiência?”

A tentação moral das tribos

Talvez o ponto comum mais perigoso entre movimentos identitários, anti-woke e red pill não esteja em suas doutrinas, mas em uma característica humana muito mais antiga: a facilidade com a qual transformamos pertencimento em superioridade moral. Todos estes grupos inevitavelmente produzem uma tendência ao supremacismo, a ideia de que somos superiores àqueles que ainda não conseguiram enxergar “a Verdade”.

Toda comunidade tende a produzir uma divisão entre quem compreendeu e quem não compreendeu a “mensagem”. É quase inevitável olhar para o mundo e dividi-lo entre “nós e eles”. Os esclarecidos e os alienados; os desconstruídos e os preconceituosos; os redpilled e os bluepilled; os que dormem e os woke; os progressistas e os reacionários. E, naturalmente, existem os bons espíritas e seu contraponto: aqueles que “ainda não compreenderam a doutrina”. Nesse momento, diferentes ideologias começam novamente a parecer umas com as outras. Kardec oferece um critério desconfortável para todos esses campos. Na questão 785 de “O Livro dos Espíritos”, o professor Rivail pergunta qual é o maior obstáculo ao progresso moral. A resposta oferecida pelos espíritos foi: “O orgulho e o egoísmo.”

Não diz direita;
Não diz esquerda;
Não diz capitalismo;
Não diz socialismo;
Não diz feminismo;
Não diz patriarcado;
Não diz conservadorismo;
Diz orgulho e egoísmo.

E justamente por serem universais eles podem aparecer em qualquer ideologia — inclusive naquela que acredita estar combatendo todos os outros.

Uma terceira posição

Talvez, portanto, o significado do surgimento simultâneo da cultura identitária, da reação anti-woke e da red pill para os espíritas seja menos o de escolher um lado do que o de reconhecer um fenômeno antropológico. Estamos diante de uma sociedade que continua desesperadamente procurando identidade, significado, comunidade e orientação moral. Em outras épocas, essas necessidades eram majoritariamente respondidas pelas religiões. Com o decréscimo das religiões como guias do pensamento humano e o roteiro para apaziguar nossas angústias, estas perguntas podem ser respondidas por comunidades políticas e digitais, e isso explica por que as discussões se tornam tão intensas. Porém. quando alguém critica uma opinião que temos, podemos mudar de opinião, mas quando alguém ameaça aquilo que define quem somos, a reação é completamente diferente. Talvez parte da ferocidade das atuais guerras culturais venha exatamente daí: muitas ideias deixaram de ser apenas ideias e passaram a funcionar como identidades. E identidade ameaçada produz defesa.

O Espírito antes da identidade

Existe uma resposta espírita possível a tudo isso, mas ela exige certa coragem. Ela consiste em afirmar simultaneamente duas coisas.

  • As experiências sociais importam.
    Sexo, gênero, raça, pobreza, riqueza, discriminação, violência, masculinidade, feminilidade e todas as condições concretas da existência produzem experiências reais. Negá-las em nome de uma espiritualidade abstrata seria transformar o espiritismo numa desculpa para não enxergar o mundo. Mas também:
  • Nenhuma dessas experiências define completamente o ser humano.
    O pobre não é apenas pobre.
    A mulher não é apenas mulher.
    O homem não é apenas homem.
    A pessoa trans não é apenas trans.
    O negro não é apenas negro.
    O conservador não é apenas conservador.
    O militante identitário não é apenas militante identitário.
    O redpiller não é apenas redpiller.

Todos são, antes disso, sujeitos de uma experiência humana que, para o espiritismo, ultrapassa imensamente a presente existência, e se espalha na poeira das estrelas, numa multiplicidade infinita de experiências e aprendizado. Talvez essa seja uma das ideias mais poderosas que a doutrina possa oferecer às guerras culturais contemporâneas: o homem é sempre maior do que a categoria utilizada para descrevê-lo.

A caridade como limite da ideologia.

Há ainda um critério bastante simples para testar qualquer sistema de pensamento. A questão 886 de “O Livro dos Espíritos” define caridade como “benevolência para com todos, indulgência para as imperfeições dos outros, perdão das ofensas”. A palavra importante talvez seja “todos”.

Não apenas aqueles cuja identidade reconhecemos.
Não apenas as vítimas que consideramos legítimas.
Não apenas os homens feridos.
Não apenas as mulheres feridas.
Não apenas aqueles que compartilham nossa interpretação da sociedade.
Todos.

Isso não significa neutralidade moral diante da injustiça. Significa apenas que o combate à injustiça não autoriza a desumanização daquele que identificamos como adversário. Talvez seja precisamente aí que todas as tribos contemporâneas — religiosas ou seculares — enfrentem sua prova mais difícil.

O aparecimento do red pill e do anti-woke

Para o espiritismo, portanto, o surgimento da red pill e das ondas anti-woke não deveria ser interpretado simplesmente como triunfo da reação, assim como o crescimento das políticas identitárias não deveria ser interpretado simplesmente como sinal de progresso. Todos esses fenômenos são também sintomas. Eles revelam uma sociedade discutindo desesperadamente quem somos, como devemos viver juntos, o que homens e mulheres significam uns para os outros, quem merece reconhecimento e de onde retiramos nossas referências morais. São perguntas religiosas em uma sociedade que muitas vezes deixou de usar linguagem religiosa, e talvez seja precisamente por isso que despertam tanta paixão. O espiritismo poderia entrar nessa arena oferecendo mais uma bandeira, mas seria provavelmente a contribuição menos interessante que poderia dar. Sua contribuição mais original talvez seja justamente outra: lembrar que antes da raça há o homem; antes do homem e da mulher há o Espírito; antes da ideologia há uma consciência; antes da tribo há uma individualidade em processo de aprendizado.

E que nenhuma identidade adquirida durante algumas décadas de existência pode esgotar uma criatura cuja história, segundo a própria doutrina, atravessa inúmeras vidas. Talvez seja essa a perspectiva que o tumulto contemporâneo convida os espíritas a recuperar. Não perguntar primeiro “de que lado estamos?”, mas… “O que todas essas disputas revelam sobre o estágio moral e espiritual em que nos encontramos?”. E, depois disso, uma pergunta ainda mais difícil: “Em que medida nossa própria necessidade de certezas está nos impedindo de enxergar o outro?”

Nesta perspectiva, sem desmerecer a importância das lutas sociais e da busca por espaço e relevância, o espiritismo oferece a possibilidade de o espírito funcionar como uma espécie de “metaidentidade”, que relativiza – sem apagar – todas as identidades da encarnação. Nesse ponto, a guerra cultural deixa de ser apenas um fenômeno externo. Transforma-se em exame de consciência. E aí voltamos, por um caminho inesperado, ao princípio talvez mais antigo e mais difícil de todos: conhece-te a ti mesmo.

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Religião

Mandato dos Sete Montes

A revolução comunista precisa ultrapassar essa Constituição e criar uma nova carta magna para o Brasil. Enquanto isso não ocorre, a decadência do modelo capitalista vai produzindo o absurdo e o bizarro cotidianamente. Entretanto, essa guerrilha aberta entre católicos e protestantes – simulando a luta ancestral da Irlanda – eu deixo para os religiosos debaterem. Nós que somos comunistas não adoramos ídolos, sejam eles Nossa Senhora ou Bolsonaro.

Cabe, todavia, um alerta. O Brasil, nas mãos do Flávio Rachadinha, pretende se tornar uma grande Israel, que alguns tanto admiram. Com isso a morte dos “palestinos brasileiros” – os pretos e pobres das favelas – será naturalizada, da mesma forma como é o destino de milhares em Gaza. Ou a direita nunca suspeitou do amor que a família Bolsonaro sempre devotou ao racismo e ao supremacismo de Israel?

Aliás, até eles mesmo sabem que a luta do Flávio contra os católicos e seus símbolos não é de agora. Flávio e Jair Bolsonaro – ambos católicos de formação – uniram-se à rafuagem evangélica mais apodrecida e corrupta, como Edir, Malafaia, Waldemiro e quetais, com evidentes propósitos eleitorais. Por trás disso, a Teologia do Domínio, o poder político para a “Gang do Templo”, com o objetivo de criar um grande Evangelistão, que nada deverá ao Talibã em termos de violência moralista e conservadora.

Segundo os defensores do “Mandato dos Sete Montes”, entre eles essa turminha evangélica sionista brazuca (que se enche de grana com turismo chinelão para Israel), os cristãos deveriam ocupar posições estratégicas nesses campos para transformar a sociedade conforme valores cristãos. A ideia central é que a sociedade estaria organizada em sete grandes áreas de influência, simbolizadas como “montes”:

Família
Religião
Educação
Governo e política
Mídia e comunicação
Artes e entretenimento
Economia e negócios

Na formulação mais branda – que se poderia chamar de identitária ou representativa – isso significa apenas participar e exercer influência. Na versão mais radical ou “dominionista”, significa conquistar o controle das instituições e submeter a vida pública a uma determinada interpretação do cristianismo. Quando Tariflávio diz que vai “entregar o Brasil a Jesus Cristo”, isso é a formulação “hard core” de dominação do pensamento nacional, que regride ao século XIX e institui uma religião oficial no Estado – outrora laico. Não há outro termo senão “retrocesso maligno”.

Deixe um comentário

Arquivado em Política, Religião

Cristolatria anacrônica

Eu não acredito em Jesus e não tomo como verdade praticamente nada do que foi escrito sobre a vida dele.

Não reconheço a Bíblia como um documento histórico e não considero válida nenhuma das referências indiretas da sua existência. Acredito apenas que um judeu reformista de um grupo zelote tentou tomar o poder dos romanos durante a ocupação romana na Palestina. Sua proposta era mundana, política e violenta. Na minha visão particular (sujeita a críticas), Cristo é uma criação coletiva, surgida do campo simbólico da Europa de um pouco menos de 2 mil anos passados, com o gigantismo de Roma e suas conquistas e respondendo aos anseios e aspirações de uma grande massa de camponeses e os escravos que se dirigiram ao centro do poder imperial. Pouca ou nenhuma relação existe com o “Cristo real”, que perambulou pela palestina e foi morto pelos romanos por sedição.

Nada do que aparece no Novo Testamento atribuído a esse personagem, chamado Jesus, se refere realmente a ele. Foram textos escritos entre 50 e 90 anos após sua morte, por pessoas que não o conheceram pessoalmente, através de tradição oral e adaptados ao gosto e aprovação do poder central – os romanos. Colocar Jesus como um “mensageiro” de Deus, um “Avatar”, um profeta inserido num “plano divino” é a mais absoluta insensatez, e não resiste às análises mais simples. A história de Jesus foi escrita para dar conta da angústia dos operários e escravos de Roma. O cristianismo, em verdade, é uma ideia genial de Paulo. Esse personagem é o Edir Macedo de 2 mil anos atrás, ou semelhante ao que fez Billy Graham no evangelismo americano. Usou um personagem que não chegou a conhecer para criar uma religião (ou uma vertente) baseada nessa figura mítica – e irreal.

Continuar olhando para Jesus da forma como as religiões o fazem – incluída aí a “religião espírita” – nos vincula ao atraso e ao modelo dogmático das religiões. Para fazer o espiritismo evoluir é necessário romper essa barreira. A cristolatria estanca a evolução cientifica e filosófica do espiritismo.”

Deixe um comentário

Arquivado em Religião

Onde estão os espíritas?

Tenho visto alguns pensadores questionando o vazio de sociedades espíritas, em especial a ausência de jovens frequentadores. Falam da violência urbana, problemas para estacionar, dificuldades variadas para o acesso. Entretanto, eles mesmos dizem que tais explicações não são suficientes para dar conta do fenômeno.

Minha visão desse problema talvez não agrade os próprios espíritas. Eu frequentei sociedades espíritas na época em que Dr. Fritz, Arigó, Chico Xavier, Gasparetto, João de Deus e depois Divaldo Franco eram ícones culturais. Roberto Carlos e outros artistas se diziam admiradores do espiritismo. A doutrina espírita estava “na crista da onda”. Era legal e charmoso ser espírita, algo que atraía intelectuais e artistas. Todavia, o espiritismo cristão, que cultura personalidades e se comporta como uma seita cristã reencarnacionista, está fadado a este destino: ser uma versão progressista do catolicismo. Nada mais do que isso. Esta alternativa não atrai mais a juventude como antes. Na sociedade contemporânea é muito mais sedutor para os jovens a versão evangélica, que se adapta de forma precisa ao modelo neoliberal, ao ethos capitalista e “desmoralizador” (isento de conteúdo moral) das vertentes pentecostais. Ninguém alcança sucesso e dinheiro no espiritismo, porém esta proposta está implícita no chamado das igrejas evangélicas. Os evangélicos assumiram – por méritos – a posição que o espiritismo tinha no imaginário social há 50 anos.

Perceba como a juventude espírita floresceu na minha época, final dos anos 70 e início das anos 80. Lembro bem das “tardes juvenis” com 200 jovens, e CONJERGS (congresso da juventude espírita do RS) lotadas de jovens de todo canto do Estado, mas começou a declinar exatamente com o surgimento das igrejas evangélicas, como a Igreja Universal do Edir Macedo. Ao meu ver, lá estão agora os antigos jovens espíritas, seduzidos pelas promessas de redenção da narrativa neoliberal que se iniciou com Reagan e Thatcher, exatamente nesta época, início dos anos 80. Por outro lado, qual o grande problema do vazio das instituições espíritas? O espiritismo não é uma religião, e muito menos uma religião de massas. Reclamar que somos poucos é o mesmo o que questionar porque as salas de música erudita estão vazias e os bailes funk estão sempre lotados. As razões são semelhantes: no primeiro uma proposta de estudo, aprofundamento de ideias, dúvidas, pesquisas, enquanto no segundo a sedução inescapável da vida fulgurante de som, dança, alegria e erotismo. Não há como competir. O espiritismo produz uma seletividade natural, e necessariamente minoritária na cultura.

Entretanto, as mudanças estão aí para serem, testadas Convocar pessoas para estudar espiritismo num sistema horizontal e aberto é um bom caminho, mas para isso a versão espírita laica e científica é a melhor (única?) solução. Para iniciar, seria muito bom abandonar o igrejismo, como alguns espiritas progressistas apontam. É fundamental se afastar da cristolatria espírita, das vinculações com as crenças místicas cristãs, assumir uma postura verdadeiramente universalista e que seja útil e compreensível a todas as culturas. Para além disso, é essencial estimular o estudo científico, o debate filosófico e abandonar a visão moralista que sempre caracterizou nossas instituições.

Deixe um comentário

Arquivado em Religião

Críticas

Estariam os críticos do espiritismo pegando pesado demais nas avaliações das questões mediúnicas? Por que existem analistas que desempenham um papel tão desctrutivo quanto aquelas feitas pelo Padre Quevedo, uma fugura caricata dos anos 90? E mais intrigante ainda, qual a razãode espíritas estarem fazendo estes “ataques”, comportando-se como verdadeiros “cavalos de Troia” a minar a confiança dos seguidores de Kardec, a ponto de não ser possível acreditar que ainda se consideram espíritas? Não deveríamos equilibrar o teor da crítica, não caindo na descrença absoluta e nem na aceitação acrítica das manifestações?

Talvez a resposta para este importante questionamento esteja contida em sua própria indagação: é provavel que a melhor escolha seja uma posição equidistante entre o ceticismo estéril que inválida a própria adesão do sujeito ao espiritismo e o ufanismo espiritista quem em tudo crê – nas mensagens e suas autorias, nas reencarnações “planejadas”, na autoridade do médium, etc – e de forma entusiasmada, empolgada em demasia e crédula, deixando de lado a necessária postura crítica. Entretanto, qualquer ciência para assim afirmar-se precisa ser falsificável. Esses sujeitos, um tanto descrentes da mediunidade, prestam um relevante serviço de depuração do fenômeno espírita. Não é raro vermos no espiritismo toda sorte de enganações, algumas até politicamente motivadas. Não raro aparecem mensagens exaltando a ditadura militar ou personagens menos nobres da política (e do judiciário) nacional vindas de médiuns que usam de sua autoridade para fortalecer estas ideias. Seriam elas verdadeiramente de outro plano?

Meu pai, que foi um conhecido pensador espírita, diante desse tipo de provocação, usava uma ferramenta bem prática, a qual considero válida neste e em outros campos do conhecimento. Dizia ele que, os personagens que conhecemos no plano material não se transformam radicalmente após o desenlace físico. Por isso mesmo, é possível reconhecer traços de personalidade, o estilo, o modo de escrita, as ideias e as manias inseridas em um texto psicografado. Além disso, estes espíritos não se tornam toti-conscientes após o desencarne. Talvez digam besteiras e asneiras do lado de lá também. Os erros reconhecidos nas obras espíritas – em especial as fantasias de vidas nos planetas do sistema solar – deveriam nos mostrar que esses erros podem ocorrer. Talvez sejam até a regra, não a exceção

Em função disso, sua regra era simples: escute a mensagem mediúnica como se ele tenha sido dita por um encarnado, um amigo mais velho e experiente, nada mais do que isso. Não há como oferecer estatuto de verdade a algo apenas por ter surgido de uma manifestação espiritual e distinta dos conselhos cotidianos. Espíritos são gente, apenas invisíveis. Assim, ele aplicava semprecessa máxima: se a mensagem fizer sentido e for útil, então ela tem valor; caso contrário ela carece de importância e relevância. Conheci sociedades espiritualistas onde o líder espiritual da casa governava de forma despótica seus seguidores por meio das mensagens supostamente espirituais que recebia, usando a mística da manifestação das almas para lhes garantir autoridade e poder. Por certo que ninguém ousava questionar a origem da mensagem e o fenômeno em si, pois isso significaria romper o sistema de autoridade e hierarquia da casa. Este não me parce um modelo livre pensador no qual o movimento espírita laico poderia se inspirar.

Por fim, não creio que o excessivo ceticismo de alguns espíritas com certos fenômenos mediúnicos deva nos assustar ou incomodar, pois eles estão a testar continuamente nossa hipótese. E, como afirmava Kardec, o espiritismo precisa ter condições de encarar a razão – e a ciência – em qualquer época da humanidade. Afinal, se ela for uma quimera, acabará desaparecendo inexoravelmente. Entretanto, se o espiritismo contém porções de verdades ele florescerá mais cedo ou mais tarde, a despeito de qualquer crítica ou descrédito. Não acredito que o espiritismo proponha uma “nova ciência”, tão somente um novo objeto. Ciência é fundamentalmente método. O método científico pode ser aplicado aos fenômenos espíritas, adaptando-se a necessidade de avaliar fenômenos carregados de subjetividade. O mesmo se aplica à psicanálise ou à homeopatia, mas não podemos permitir que nosso desejo de acreditar seja mais forte que nosso saudável ceticismo.

E viva a ciência!

Deixe um comentário

Arquivado em Religião

Sharia

A “nova moda” da direita brasileira, que se envergonha de apoiar abertamente os massacres contra palestinos em Gaza e na Cisjordânia, é falar mal da Sharia – veja aqui uma boa explicação da Sharia no Youtube. Com isso pretendem dizer que, “sim… os israelenses são psicopatas e criminosos de guerra, mas os árabes são selvagens e não respeitam crianças ou mulheres. Eles estão invadindo o mundo todo e impondo sua cultura àqueles que não se curvam a Allah”.

Que bobagem isso. Quanta ignorância! Essa direita de pouco estudo não percebe o quanto de manipulação islamofóbica existe nessa narrativa. Por acaso os judeus do Brasil não obedecem o Talmud? O que isso deveria preocupar o ordenamento jurídico do Brasil? Atacar – em especial sem conhecer – as religiões alheias é permitir-se ser manipulado pelos opressores!!! Exatamente quando Israel massacra sem piedade e com extrema crueldade mais de 50 mil crianças, entre mortas e feridas, na Palestina a extrema direita raivosa cria oportunisticamente esse julgamento público da “Lei da Sharia“, como se isso fosse uma ameaça aos “valores do ocidente”. O objetivo é claro: suco de orientalismo, como diria Edward Said. Serve apenas para pintar os muçulmanos como selvagens e incivilizados, adoradores de “divindades demoníacas”. Aliás, algo que Hollywood fez nos últimos 70 anos.

Não é necessário gostar dos regramentos religiosos de outras religiões, que são válidos desde que não agridam as leis do país onde estão estabelecidos. E essas leis religiosas valem apenas para muçulmanos, e não para quem não pertence a esta religião. Portanto, não há ameaça alguma aos valores cristãos. Quem matou 27 milhões de russos na 2a guerra mundial? Os que seguiam a Sharia ou a Bíblia? Quem massacra criancas palestinas, muçulmanos ou Israel? Essa conversa surgiu dos defensores do Estado terrorista de Israel para tentar passar pano para o genocídio televisado dos palestinos, e muita gente ingênua está mordendo a isca!!! A estes, peço que mostrem alguma vez que a lei da Sharia violou direitos humanos no Brasil, e na mesma hora eu mostro o número de crianças violadas pelos adultos cristãos no Brasil!!

A população árabe e descendente no Brasil é estimada em cerca de 11,6 milhões de pessoas, segundo pesquisa da Câmara de Comércio Árabe Brasileira. Entre 2000 e 2026, o crescimento demográfico foi impulsionado pela estabilidade histórica, pela assimilação cultural e por novas ondas de refugiados. Quantos casos de crimes realizados em nome da Sharia foram registrados? Quantas vezes vimos muçulmanos na TV instigando violência contra outros povos e crenças? Quantas vezes países muçulmanos invadiram nações soberanas? Compare suas respostas com o que se faz em nome de Cristo.

Viva os descendentes árabes e muçulmanos do Brasil. Viva o apoio irrestrito à população Palestina!!! Pela liberdade de expressão religiosa. Pelo fim da exploração ridícula da Sharia, como se ela fosse o regulador da vida social de todos, e não apenas da vida religiosa do seu grupo. Os países islâmicos tem leis e judiciário, e tem normativas de ordem religiosa como a Sharia, da mesma forma como o ocidente tem leis e, apesar disso, convive com o assassinatos da população pobre e preta dos moradores de favela.

Deixe um comentário

Arquivado em Religião

Viver e Conviver

Este foi o livro que publiquei alguns dias antes de entrar no Mosteiro. Escrevi em homenagem ao trabalho silencioso e discreto do meu pai, Maurice Jones, na construção de um projeto de “espiritismo laico”, não religioso (no sentido de sectário, dogmático) e racionalista, baseado em quatro pilares: Deus (sentido cósmico), princípio espiritual, comunicação entre os planos e reencarnação. Sua perspectiva era a abolição dos moralismos, construções mundanas e temporais que servem muito mais como um torniquete mental, usado para moldar comportamentos que, em última análise, servem aos poderes constituídos.

Por desvendar a realidade do espírito, o espiritismo tem uma vocação transformadora e revolucionária, ao contrário do que se tornou: uma mera seita cristã reencarnacionista, contaminada pelo ritualismo sectário e afastada da visão científica e racional apregoada por Kardec. O livro tem duas partes: na primeira eu descrevo nossas conversas sobre vários temas, abordando de forma crítica alguns “dogmas” repetidos pela comunidade espírita e debatendo dilemas na compreensão do mundo espiritual, a partir de sua experiencia de mais de 70 anos de vivência no tema; já a segunda parte contém textos inéditos escritos por meu pai e jamais publicados em livro.

Caso seja do interesse de alguém, basta escrever para richerbertjones@gmail.com. O investimento é de 46 reais, despesas de envio incluídas.

Deixe um comentário

Arquivado em Religião

Determinismo

Creio ser importante ressaltar que o debate é mais profundo do que parece. A questão que se coloca nesse quadrinho é estabelecer a contraposição de duas propostas espíritas. De um lado, a ideia do ACASO: uma mulher atacada por acaso por um estuprador, sem nada ter feito para isso; uma ocorrência de puro azar. Esta visão se contrapõe à proposta DETERMINISTA, que afirma que todos os fatos de hoje – das punições aos benefícios – são decorrência de algo do passado, de uma vida anterior onde houve falhas a serem purgadas na vida atual ou créditos a serem resgatados. Aliás, é daí que vem uma conhecida expressão brasileira “Eu devo ter atirado muita pedra na cruz para ter que passar por isso”.

Para quem aceita a hipótese determinista, todo o sofrimento presente estaria relacionado a um fato do passado, seja uma dívida ou um talento. O problema para aqueles que creem no determinismo – não cai uma folha da árvore sem que Deus tenha conhecimento – é que essa perspectiva os levaria a aceitar uma vida absolutamente controlada pelo destino, pelos “espíritos superiores”, pelas rígidas leis de causa e efeito (sucedânea da Lei de Talião) ou por Deus, sem que haja qualquer protagonismo de sua parte. Se tudo já estava previamente escrito, de que adiantaria mudar suas condutas? Já para aqueles que acreditam no acaso – ou na ocorrência de fatos dramáticos sem uma causalidade moral anterior – é necessário aceitar que o aprendizado não precisa necessariamente ocorrer pelas punições. Em verdade, a concepção determinista do mundo espiritual é um espelho de nossas próprias convicções punitivistas, que acreditam no poder transformador das penas, das punições, das cadeias e dos castigos. Essa é a visão mais direitista, que acredita que as prisões e penas poderiam produzir algum benefício nas sociedades, algo que se contrapõe à materialidade dos fatos.

Alguns poderiam dizer que não é preciso vasculhar outras existências para explicar as dores desta; muitas vezes colhemos aqui mesmo o que foi plantado nesta vida.  Entretanto, essa proposta apenas traz o limite do debate mais para perto (nesta vida, não necessariamente em outras), mas mantém o dilema principal: é preciso ter feito algo de mal para ser vítima de uma tragédia? Não podemos ser vítimas do acaso? Se você é determinista, dirá que todo efeito necessariamente tem uma causa; as dores serão sempre a decorrência de malfeitos e culpas. Já se você acreditar na possibilidade do aleatório, aceitará que muitas vezes o sofrimento não foi produzido por nenhum fato anterior, mas que ainda assim pode ser fonte de aprendizado.

Além disso, creio que o quadrinho carrega uma falácia lógica, chamada de “non sequitur”, na qual a conclusão, que encerra as ponderações, não decorre das premissas apresentadas. Quando um espírita “determinista” fala de “pecados do passado”, ele não está justificando o crime, mas tentando entendê-lo numa perspectiva maior, mais abrangente, que englobe as vidas passadas e a lei de causa e efeito – também chamada de “lei do carma”. Portanto, é possível a ele dizer que o abuso é “horrível, injustificável, monstruoso e que merece punição, como forma de proteger a sociedade”, enquanto, ao mesmo tempo, tenta entender porque aquela específica mulher passou por tamanha provação e dor. Como eu disse anteriormente, não concordo com a visão determinista admitida pela maioria dos espíritas que procuram causalidades morais em cada tragédia, mas, por uma questão de justiça, creio que esta visão não transfere a culpa para a vítima, apenas tenta entender, dentro desta específica lógica, o que estes sofrimentos poderiam ter como causa.

Deixe um comentário

Arquivado em Religião

Missão

Conheci um médico dedicado há alguns anos que me contou que resolveu estudar medicina pelo estímulo indireto de sua professora de biologia do segundo grau. A descrição apaixonada e encantadora do surgimento e da estruturação da vida no planeta que ela trazia às suas aulas o aproximaram das ciências biológicas. Sua paixão pela fisiologia humana, pela etologia (o estudo do comportamento animal) e pela botânica enchia de entusiasmo os estudantes. Esta anônima professora de biologia foi – sem o saber – responsável pela carreira de um médico, e as vidas por ele modificadas carregam um pouco de sua paixão. Através da perspectiva cativante dessa humilde professora, o futuro médico teve o estímulo necessário para dar início à sua missão de vida.

É por esta via que eu entendo a “espiritualidade”. Penso que a crença em algo para além do mundo físico “denso” não é uma questão que possa ser racionalmente debatida, pois sobre este tema não me parecem haver evidências suficientes para posturas assertivas e peremptórias. Assim, prefiro entender tal vinculação com o mundo espiritual como essencial e primitiva, algo que tem a ver com como sentimos o mundo, e não como o pensamos. A partir deste sentimento é que o sujeito estabelece sua visão teleológica da estrutura íntima do universo, suas causas e consequências.

Dito isto, eu creio que todos nós nascemos com uma missão. Chegamos a esse mundo para cumprir tarefas, que vão produzir melhorias em nossa compreensão do mundo e da natureza última do universo. Entretanto, não me refiro a forma grandiloquente ou pedante de definir a palavra “missão” que normalmente usamos. Para mim, a “missão” trata de um projeto subjetivo, pessoal e ligado às dificuldades específicas de cada sujeito. Isso determina que o sucesso de uma existência esteja nessa possibilidade pessoal de crescimento, e não nos resultados econômicos, intelectuais ou políticos percebidos. Da mesma forma, não acredito que o sujeito tenha compromissos específicos e prévios antes de nascer; a missão do sujeito aparece nas circunstâncias e nos contextos de cada vida e de cada sujeito, e pode se modificar quantas vezes forem necessárias. Pode trocar os caminhos, mudar as barreiras a enfrentar, modificar os grandes objetivos e subverter a ordem das etapas, mas o fim será sempre adquirir experiência e crescer.

Por esta forma de ver cada etapa de vida, a missão vai sendo construída no labor diário, e pode ser tanto cuidar da sua mãe, educar seus filhos, proteger um marido, acalentar seus parentes, ajudar sua mulher e todas as ações humanas que nos levam para longe do egoísmo e da ignorância. Pode ser também comandar um país, uma cidade ou um Império, mas também dedicar-se a tarefas humildes como aquelas de uma simples professora de biologia. É importante lembrar que as grandes tarefas do planeta só foram possíveis graças ao trabalho anônimo de milhões de pessoas, cada a delas em sua missão pessoal, lutando solitariamente para serem melhores do que quando aqui chegaram.

Deixe um comentário

Arquivado em Causa Operária, Pensamentos, Religião

Espiritismo e religião

O espiritismo surgiu da investigação sobre fenômenos extraordinários que ocorriam em Paris em meados do século XIX. Hippolyte Léon Denizard Rivail, pedagogo francês, nascido em Lyon, diante do desafio de encontrar uma resposta racional e lógica para estes fatos, desenvolveu uma metodologia para a busca do entendimento do que ocorria. “Se as mesas carecem de músculos, nervos e discernimento, alguma força inteligente as move”, teria dito o professor Rivail. Caberia à curiosidade, acrescentada de método científico, a tarefa de esclarecer a origem das “mesas girantes”.

Entretanto, a busca de uma explicação para estes fatos de forma alguma demandaria a criação de uma religião. Seria como imaginar que Isaac Newton, propondo que os objetos são atraídos pela massa dos planetas e das estrelas pela teoria da gravitação, tivesse como objetivo o amor ao próximo, a fraternidade, a existência de Deus ou a evolução espiritual. Não, por certo que Newton era movido tao somente pela busca da verdade. A existência de espíritos, ou sua manifestação neste plano, não precisa ser investigada por meio das religiões que, por sua vez, acabam por criar códigos de comportamento e proibições de toda ordem, em especial sobre as múltiplas manifestações da sexualidade.

A ideia de uma “religião dos espíritos” nunca foi o objetivo inicial do espiritismo, que se propunha a investigar sua existência, criando a “ciência dos espíritos”. A mescla dessa proposta primordial com o cristianismo está na origem da cisão atual entre o espiritismo cristão e o espiritismo laico, mas também na imensa disseminação das ideias espíritas, em especial no Brasil, através do sincretismo tão característico do nosso caldeirão cultural.

Deixe um comentário

Arquivado em Religião