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Nada

Meus avós morreram há 30 anos. Lembro ainda, mas meus filhos quase nada guardam deles. Em três décadas eles foram sendo lentamente apagados da lembrança direta de quase todos. Quando eu e meus irmãos – e alguns poucos primos – morrermos as últimas imagens de nossos avós descerão à tumba conosco. Ficarão em algum livro, numa foto em preto e branco, num registro fotográfico perdido em um sótao.

Minha avó paterna, um pouco antes de morrer com mais de 90 anos, me dizia “Eu tive oito filhos, mas queria ter doze. Sammy foi quem não quis mais”. Ela me ensinou que não se pode julgar os valores de alguém fora do contexto em que estavam inseridos. Hoje em dia suas escolhas seriam escândalo; em sua época, um reforço da sua feminidade e um sentido de propósito nobre e belo. Nunca esqueci aquela curta conversa à beira do seu leito enquanto ela me falava de suas vida e seus tesouros. Minhas avós ainda estão guardadas na minha mente, com carinho e saudade, mas sou da última geração que ainda vai carregá-las na lembrança.

Em pouco tempo eu também vou abandonar este plano terreno e bem o sei que em alguns poucos anos ninguém se lembrará de mim. Vejo meus netos pequenos e fico nutrindo a ilusão que eles se lembrarão de mim, contarão as minhas histórias, guardarão minhas piadas e caretas. Desejo avidamente que eles guardem algo de mim, mas sei que não é justo pedir isso a eles; não há como querer que eles me garantam a imortalidade. O meu destino – o nosso – é virar esse fragmento, esse pedaço ínfimo de alma que constitui cada um que segue nossos caminhos.

Falo ainda bastante dos meus pais para os meus filhos, como a dizer “guardem eles com vocês quando eu me for”, mas sei o quanto o tempo é cruel – e sábio – ao nos fazer esquecer um pouquinho dos antigos amores a cada dia que se passa. Daqui a pouco nada restará de mim. Ninguém saberá quem fui e o que fiz. Nenhuma pessoa terá a menor ideia de minha curta passagem por aqui. Serei um minúsculo ponto apagado, sem luz. Por esta razão, creio que o momento de agora é o único que temos para oferecer algum sentido à nossa vida. No fim nada ficará, nada restará por muito tempo.

Nada.

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BRAN

Aqui está um breve manual de apoderamento sobre a saúde, que deve ser utilizado por todos aqueles que pretendem assumir o protagonismo de suas próprias vidas, em especial as gestantes que se encontram diante de dilemas importantes sobre o seu bem estar e suas escolhas.

Diante de uma intervenção médica qualquer, seja terapêutica ou diagnóstica, cabem os seguintes tópicos e perguntas ao seu médico, que podem ser memorizados pela sigla BRAN.

Benefícios: Quais os benefícios desse exame ou intervenção? Por exemplo: de que adianta realizar uma “transluscência nucal” se sou contra o aborto e esse exame não pressupõe nenhum tratamento? Quais os benefícios de fazer hemogramas, glicemia, exames de urina?

Riscos: Que riscos eu tenho ao marcar essa cesariana? Que riscos eu tenho em manter essa gestação para mais de 41 semanas? Qual o risco em fazer antibióticos profiláticos em uma bolsa rota?

Alternativas: Que alternativas eu tenho para essa medicação? Que outras possibilidades eu tenho às drogas para esta minha afecção? Que escolhas eu tenho diante das circunstâncias e contextos que se apresentam?

Nada: E se eu nada fizer, o que acontecerá? Se eu apenas aguardar, quais serão as consequências? Se eu apenas mantiver o curso natural das coisas, quais as minhas chances?   Sem essas perguntas talvez seu silêncio leve a uma perda de controle sobre sua saúde. E a alienação nunca será um caminho de crescimento.

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