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Modismos

Nelson Carneiro

Eu era adolescente quando Nelson Carneiro, deputado pelo Rio de Janeiro, fez passar a lei do divórcio.  O ano era 1977, e a partir dessa data muitas mulheres encheram-se de coragem e, enfrentando todo tipo de preconceitos e julgamentos, exigiram de seus maridos o desenlace jurídico definitivo. É verdade que muitos maridos também o solicitaram, mas reconheço que os pedidos partiam majoritariamente das esposas.

Quando a avalanche de divórcios se tornou evidente muitos disseram se tratar de um “modismo”, algo inconsequente; irresponsável até.  Entretanto, eu conheci e conversei com muitas dessas mulheres que, abrindo mão de tudo que tinham, – estabilidade,  conforto, dinheiro, segurança, reconhecimento social – separaram-se de seus companheiros para se tornarem estigmatizadas como “divorciadas”. Quando eu lhes perguntava porque se aventuravam neste salto no escuro de uma separação elas respondiam: “Claro que é difícil, angustiante e penoso, e é evidente que me sinto insegura, mas manter-me casada seria muito pior”.

Ao encontrar críticas ao “modismo” dos partos extra-hospitalares eu me pergunto se, na visão destas gestantes e seus maridos, a opção de um parto no hospital não lhes parece uma alternativa muito mais violenta e indigna do que a escolha radical que fizeram, a ponto de buscarem opções que para muitos podem parecer insensatas.

A verdade é que TODA a escolha pelo local de parto é POLÍTICA, sem exceção. A não ser que seja imposta, e aí já não é mais escolha. Parir de forma normal, no mundo contemporâneo, é ligar o liquidificador no condomínio às 3h da madrugada: não há como não se tornar algo público. Nossas escolhas influenciam os que nos circundam, e eles por sua parte interferem em nosso cotidiano. Portanto, as escolhas políticas se fazem em função de demandas daqueles com quem convivemos. Os partos na atualidade refletem a inconformidade crescente com o modo como as sociedades contemporâneas lidam com a liberdade e a autonomia das mulheres.

Se há abusos e, por vezes, escassez de bom senso, há também – e de forma exponencialmente maior – no modelo anacrônico e autoritário de partos que temos hoje. Para que a atenção seja melhor é fundamental que nos debrucemos sobre uma crítica madura e pertinente sobre os limites da tecnocracia e o preço da alienação. Com isso vamos diminuir a chance de escolhas insensatas ao oferecer um atendimento hospitalar centrado na mulher e suas necessidades, respeitando seu protagonismo e sua autonomia para tomar as decisões que lhe cabem.

Infelizmente, ao invés de fazermos uma autocrítica dura, corajosa e madura ao modelo anacrônico de atenção obstétrica,  perdemos tempo e recursos preciosos atacando a CONSEQUÊNCIA disso: a escolha livre e consciente por um parto que tenta se afastar das amarras do autoritarismo.

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