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Momento único

“- Sim, esse é o meu desejo.

Jassie manteve o olhar fixo no juiz. Seu olhos sequer piscaram. Manteve a cabeça ereta e as mãos espalmadas, uma sobre a outra, na pedra escura da mesa gelada. Ao seu lado Conrad juntava os papéis com sofreguidão. Ajustados os detalhes do divórcio e não haveria mais nada para um advogado fazer. Ou dizer.

O juiz voltou seu rosto para o lado oposto da mesa de mogno, a qual estava impregnada com décadas de lágrimas e palmas suadas na antiga sala da vara de família e sucessões. Encontrou os olhos de Rick, que ainda fitavam o cabelo dourado de Jassie. O velho Juiz Desmond repetiu a pergunta e recebeu apenas um “sim“, seco e breve. Ato contínuo, entregou os papéis para ambos assinarem e deu por encerrada a sessão.

Rick e Jassie saíram da sala ladeado pelos seus advogados, quase juntos. Com passos apressados se aproximaram do elevador, que fica ao lado da velha cafeteria. Os quatros ficaram parados e mudos, olhando para os velhos ladrilhos do piso, até que Rick quebrou o silêncio e voltou-se para Jassie.

– Você poderia tomar um café comigo? Prometo ser breve.

Jassie, surpresa, olhou reflexamente para Conrad, mas antes que ele dissesse qualquer coisa, respondeu:

– Por certo, Richard.

Rick despediu-se dos advogados e entrou na cafeteria com Jassie. Puxou a cadeira para ela, como sempre fazia, e pediu o cappuccino que tantos anos de convivência haviam lhe ensinado a solicitar.

Começou a falar de alguns detalhes da guarda de Peter, a bicicleta, a nova escola, o chalé na montanha, a pensão, o carro, detalhes que já haviam sido tratados pelo advogados. Jassie apenas escutava, sem tirar os olhos do, agora, ex marido.

– Eu acho que também lhe devo desculpas. As coisas meio que fugiram do controle nos últimos tempos. Saiba que eu não…

Jassie interrompeu abruptamente suas palavras, com a mão espalmada a frente.

– Por favor, Rick, hoje não. Já discutimos isso por anos, que foram muito duros para mim. Já entrei e saí dessa casa de tristezas, de rancores e de mágoas. Hoje estou livre. Quero começar uma nova vida, e não vou aceitar que meu ressentimento seja uma prisão da qual não consiga escapar. Hoje não é dia de brigar, mas de agradecer, e só por isso aceitei seu convite para este café. Estou aqui, em verdade, para fechar este ciclo e para lhe dizer da minha gratidão.

Rick escutou um pouco assustado. Não havia sido uma separação fácil. Cada fotografia, cada parede pintada na casa, cada gaveta de tralhas mostrava um fragmento de vidas que cursaram juntas. Também ele juntava os cacos de um projeto que se espatifou, por isso as palavras de Jassie soaram tão estranhas e inesperadas.

– Acho que você não entende, disse ele. Eu apenas queria que…

– Quem não entendeu foi você, interrompeu Jassie. Não preciso mais de suas desculpas. Estas feridas estão se curando. Mas queria agradecer de verdade para você.

– O que está pensando?

– Nada de grandioso, sequer espetacular. Apenas algo que lembrei ontem, quando juntava os papéis do divórcio. São memórias de quando Peter nasceu. Eu lembro da dor, do cansaço, do dia quente de agosto, da banheira que você montou em nossa sala, das cortinas que a tia Betsy nos deu de casamento. Essas imagens são presentes até hoje em minhas lembranças, e gostaria que o aroma do alecrim que circulava por aquela sala ficasse impregnado em minhas narinas até o final dos meus dias.

Jassie respirou fundo, sorriu timidamente e permitiu que uma pequena gota de orvalho viesse a adornar os seus olhos azulados.

– Entretanto, Rick querido, nada foi mais importante e mais impactante em minha vida do quer ver você levantar meu filho – nosso filho – daquela água tinta de sangue e levá-lo aos seus braços, e depois quando disse…

– Seja bem vindo, você é meu filho, completou Rick, enquanto a emoção daquele momento voltou a moldar os contornos de sua face.

– Sim, Rick, naquele momento, naquele fragmento minúsculo de tempo eu fui a mulher mais feliz do mundo, possuída por uma alegria infinita, com a esperança renovada na vida. Olhar meus dois amores lado a lado foi o momento mais pleno de luz de toda a minha existência. Nada superou aquele instante e eu não vou permitir que nossos caminhos divergentes apaguem a lembrança mais bela e cálida que eu guardo de todos estes anos.

Rick se manteve em silêncio enquanto as lágrimas corriam. Jassie tomou seu cappuccino, agradeceu o convite e se levantou. Com passos firmes e a cabeça erguida saiu da cafeteria para trilhar o resto de sua vida.”

Jennifer Martin-Ottis, “A dip into nothing” (Um Mergulho no Nada), Ed. Pégasus, pág 135

Jennifer estudou na Pennsylvania University e fez seu debut na literatura com o livro de ensaios e crônicas “Close to the Edge” de 1973, uma referência explícita a um disco do Yes de rock progressivo lançado no ano anterior. Trabalhou durante vários anos como jornalista e crítica literária no Nebraska Herald, até lançar seu primeiro romance em 1980, que se chamou “A Common Day in the Prairie” (Um dia Comum no Campo). “A dip into nothing” foi seu quinto e derradeiro livro, uma coletânea de ensaios, lançado em 1998, um ano antes da sua morte. Ela foi casada por mais de 40 anos com o famoso publicitário Ferris Ottis, e deixou dois filhos, Bartholomeu e Marylin.

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Modismos

Nelson Carneiro

Eu era adolescente quando Nelson Carneiro, deputado pelo Rio de Janeiro, fez passar a lei do divórcio.  O ano era 1977, e a partir dessa data muitas mulheres encheram-se de coragem e, enfrentando todo tipo de preconceitos e julgamentos, exigiram de seus maridos o desenlace jurídico definitivo. É verdade que muitos maridos também o solicitaram, mas reconheço que os pedidos partiam majoritariamente das esposas.

Quando a avalanche de divórcios se tornou evidente muitos disseram se tratar de um “modismo”, algo inconsequente; irresponsável até.  Entretanto, eu conheci e conversei com muitas dessas mulheres que, abrindo mão de tudo que tinham, – estabilidade,  conforto, dinheiro, segurança, reconhecimento social – separaram-se de seus companheiros para se tornarem estigmatizadas como “divorciadas”. Quando eu lhes perguntava porque se aventuravam neste salto no escuro de uma separação elas respondiam: “Claro que é difícil, angustiante e penoso, e é evidente que me sinto insegura, mas manter-me casada seria muito pior”.

Ao encontrar críticas ao “modismo” dos partos extra-hospitalares eu me pergunto se, na visão destas gestantes e seus maridos, a opção de um parto no hospital não lhes parece uma alternativa muito mais violenta e indigna do que a escolha radical que fizeram, a ponto de buscarem opções que para muitos podem parecer insensatas.

A verdade é que TODA a escolha pelo local de parto é POLÍTICA, sem exceção. A não ser que seja imposta, e aí já não é mais escolha. Parir de forma normal, no mundo contemporâneo, é ligar o liquidificador no condomínio às 3h da madrugada: não há como não se tornar algo público. Nossas escolhas influenciam os que nos circundam, e eles por sua parte interferem em nosso cotidiano. Portanto, as escolhas políticas se fazem em função de demandas daqueles com quem convivemos. Os partos na atualidade refletem a inconformidade crescente com o modo como as sociedades contemporâneas lidam com a liberdade e a autonomia das mulheres.

Se há abusos e, por vezes, escassez de bom senso, há também – e de forma exponencialmente maior – no modelo anacrônico e autoritário de partos que temos hoje. Para que a atenção seja melhor é fundamental que nos debrucemos sobre uma crítica madura e pertinente sobre os limites da tecnocracia e o preço da alienação. Com isso vamos diminuir a chance de escolhas insensatas ao oferecer um atendimento hospitalar centrado na mulher e suas necessidades, respeitando seu protagonismo e sua autonomia para tomar as decisões que lhe cabem.

Infelizmente, ao invés de fazermos uma autocrítica dura, corajosa e madura ao modelo anacrônico de atenção obstétrica,  perdemos tempo e recursos preciosos atacando a CONSEQUÊNCIA disso: a escolha livre e consciente por um parto que tenta se afastar das amarras do autoritarismo.

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