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Inculta e bela…

Não há porque esmorecer diante das necessárias críticas aos modismos e criações contemporâneas que atrasam o aprofundamento de ideias. Criticar o identitarismo é certo, assim como questionar a “cultura woke” ou o politicamente correto. Também é justo e lembrar que o Brasil é um país essencialmente mestiço, evitando assim o agravamento de tensões raciais. Certo também é responsabilizar a direita internacional por fomentar a divisão criada pelo identitarismo, cujo objetivo sempre foi criar guetos de identidade que sobrepujassem em relevância a luta de classes.

Com isso nos fragmentamos e, separados, somos facilmente controláveis. Nada é mais parecido do que um branco miserável e um negro excluído, ambos em luta contra ricos de qualquer cor ou ascendência.

Entretanto, estamos errando ao tratar a língua como uma obra acabada e estanque. Se vamos um dia usar pronomes neutros não será pela decisão de um grupo de notáveis, muito menos por seus arroubos de indignação. A língua é um organismo vivo e adaptável; maleável e evolutivo. Só o latim e o sânscrito não mudam, porque estão mortos e petrificados. A autoridade máxima para as mudanças de um idioma é o uso popular. Se for usado, se cair nas graças do povo, então terá valor, seguirá adiante e vai se fortalecer e prosperar. Se não for utilizado vira gracejo e se torna esquecido.

E de nada adianta reclamar. Não fosse assim ainda estaríamos usando “vosmecê” em nossas conversas – mesmo informais. Não fez diferença alguma que um catedrático de época distante achasse ridícula e violenta a forma sincopada que a substituiu, a doce e elegante “você”. A disseminação popular foi soberana.

Quando eu encontrava, na forma escrita ou falada, a expressão “a nível de” eu mentalmente gritava “em nível, em nível!!!”, mas hoje soa ridículo ficar apregoando esse preciosismo diante da disseminação dessa forma de falar tão comum aos políticos. O uso venceu a norma culta.

Se o “todes“, “amigues” e estas outras formas vão prosperar – ou não – dependerá dos falantes desse idioma apenas, e não será pela nossa infrutífera indignação diante das mudanças inexoráveis da língua.

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Mitos médicos

Como barrar um exame ritualístico que foi incorporado ao imaginário popular nas últimas três décadas? O sucesso das ultrasonografias ocorreu de forma avassaladora mesmo sem ter jamais comprovado seu impacto positivo sobre o parto, tanto para as mães quanto para seus bebês. Poderíamos chamar de “um case de sucesso“.

Entretanto, por agir sobre os mistérios que envolvem o amnionauta, jogando luz sobre as capas de escuridão que o envolvem, esse exame assumiu uma posição tão primordial quanto imerecida no cenário do pré-natal.

De lição nos resta o fato de que a medicina não se move por descobertas que vão imprimir qualidade e segurança aos pacientes, mas pelas mesmas regras que movem o capitalismo e o mercado. Muitas luzes e propaganda, quase nada de efeito real.

O que realmente tem valor no pré-natal é o contato, a vigilância sobre os possiveis desvios, o vínculo, poucos exames e medicamentos e uma atitude de confiança e positividade sobre o parto. Todavia, estas não são coisas que podem ser facilmente embrulhadas, colocadas em uma prateleira e vendidas aos clientes.

Veja aqui https://midwiferytoday.com/mt-articles/prenatal-ultrasound-does-not-improve-perinatal-outcomes/ os resultados das pesquisas sobre o uso de ecografias na gestação. 

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Modismos

Nelson Carneiro

Eu era adolescente quando Nelson Carneiro, deputado pelo Rio de Janeiro, fez passar a lei do divórcio.  O ano era 1977, e a partir dessa data muitas mulheres encheram-se de coragem e, enfrentando todo tipo de preconceitos e julgamentos, exigiram de seus maridos o desenlace jurídico definitivo. É verdade que muitos maridos também o solicitaram, mas reconheço que os pedidos partiam majoritariamente das esposas.

Quando a avalanche de divórcios se tornou evidente muitos disseram se tratar de um “modismo”, algo inconsequente; irresponsável até.  Entretanto, eu conheci e conversei com muitas dessas mulheres que, abrindo mão de tudo que tinham, – estabilidade,  conforto, dinheiro, segurança, reconhecimento social – separaram-se de seus companheiros para se tornarem estigmatizadas como “divorciadas”. Quando eu lhes perguntava porque se aventuravam neste salto no escuro de uma separação elas respondiam: “Claro que é difícil, angustiante e penoso, e é evidente que me sinto insegura, mas manter-me casada seria muito pior”.

Ao encontrar críticas ao “modismo” dos partos extra-hospitalares eu me pergunto se, na visão destas gestantes e seus maridos, a opção de um parto no hospital não lhes parece uma alternativa muito mais violenta e indigna do que a escolha radical que fizeram, a ponto de buscarem opções que para muitos podem parecer insensatas.

A verdade é que TODA a escolha pelo local de parto é POLÍTICA, sem exceção. A não ser que seja imposta, e aí já não é mais escolha. Parir de forma normal, no mundo contemporâneo, é ligar o liquidificador no condomínio às 3h da madrugada: não há como não se tornar algo público. Nossas escolhas influenciam os que nos circundam, e eles por sua parte interferem em nosso cotidiano. Portanto, as escolhas políticas se fazem em função de demandas daqueles com quem convivemos. Os partos na atualidade refletem a inconformidade crescente com o modo como as sociedades contemporâneas lidam com a liberdade e a autonomia das mulheres.

Se há abusos e, por vezes, escassez de bom senso, há também – e de forma exponencialmente maior – no modelo anacrônico e autoritário de partos que temos hoje. Para que a atenção seja melhor é fundamental que nos debrucemos sobre uma crítica madura e pertinente sobre os limites da tecnocracia e o preço da alienação. Com isso vamos diminuir a chance de escolhas insensatas ao oferecer um atendimento hospitalar centrado na mulher e suas necessidades, respeitando seu protagonismo e sua autonomia para tomar as decisões que lhe cabem.

Infelizmente, ao invés de fazermos uma autocrítica dura, corajosa e madura ao modelo anacrônico de atenção obstétrica,  perdemos tempo e recursos preciosos atacando a CONSEQUÊNCIA disso: a escolha livre e consciente por um parto que tenta se afastar das amarras do autoritarismo.

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