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Silêncio

Não, Petra, você está enganada. Não há paralisia neste silêncio que paira no ar. Não confunda com apatia a mudez da tempestade que antecede o trovão. Em verdade esse vazio nada mais é que a reverência da vida ao estrondo das mudanças inevitáveis.

Karl Batterman, “The Neverending War”, ed. Capri, pág. 135

Karl Batterman é um escritor inglês nascido em Leicester em 1869. Filho de pai operário e de uma família de 10 irmãos (entre eles o líder do “Labour Party” Jeffrey Batterman, morto na revolta dos trabalhadores de Manchester em 1902) escreveu várias novelas que eram publicadas em jornais de Londres. Contemporâneo de Sir Arthur Conan Doyle, rivalizava com ele na preferência popular. Escreveu “A Study in White” como uma sátira à obra de seu compatriota, falando da história do Inspetor Legendre, um policial beberrão e desastrado que, com muita sorte e ações do acaso, conseguia desvendar casos em que a polícia inteira fracassava. Sua obra “The Neverending War” escrita em 1905 foi tomada por muitos críticos contemporâneos como uma previsão sarcástica dos fatos que redundaram na eclosão de duas grandes guerras mundiais. De uma certa forma, seus personagens agiam diante da inevitabilidade de uma catástrofe iminente, o que, de fato, acabou tragicamente ocorrendo. Morreu em Suffolk em 1915.

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A Grande Tempestade

“A noite escura era pontuada por esparsas centelhas cujas luzes driblavam a cortina de nuvens. A tormenta que se aproximava deixava o ar denso, entrecortado pelos silêncios que se faziam após cada relâmpago riscar o céu. Abrigados da chuva, mas ainda receosos do que estava por vir, Russel e Samya escoravam as costas na parede de cor salmão do porão do Centro Comunitário de Naples. O vento soprava pelas frestas da porta enquanto a rádio local anunciava para todos a distância que o furacão se encontrava. Mulheres agarradas aos seus filhos pequenos se amontoavam entre a larga escadaria e a pilha de água mineral trazida pelo Bispo Jameson.

– Vai nos atingir de madrugada, disse Russel, sem desviar o olhar da caixa de madeira repleta de biscoitos à sua frente.

– Melhor assim, estaremos dormindo. Quando a manhã chegar subiremos para ver o estrago. Procure dormir, você está cansado. Trouxe todas as crianças da escola, deve estar exausto.

Samya abraçou seu marido e repousou o queixo sobre seu ombro. Russel manteve o olhar fixo à frente mas deixou que sua voz escapasse pela fresta dos lábios.

– Nesses momentos eu penso se algum dia haverá justiça. Se todos morrerem acaba também a possibilidade de que a verdade venha à tona. Mais do que as vidas que se vão é a verdade a morte mais temida.

– Não pense nisso agora, sussurrou Samya. Procure dormir.

– Todos esperam que a posteridade por fim os absolva. Um ano, dez anos, cem. Mil anos talvez. Quem sabe uma perfuração arqueológica alienígena que desvende um mistério de nossa civilização. E lá está você, milhares de anos depois de ter virado cinza, recebendo por fim seu reconhecimento e seu perdão. Um jovem pesquisador de antenas na testa traduz os hieróglifos de sua vida e, por fim, lhe concede o perdão póstumo, aquele que sua alma ansiava por receber.

– Você deveria deixar de …

– Mas se tudo acabar, seguiu Russel, quem poderá conceder o descanso para esse espírito? Quem oferecerá o veredito final, que fará a justiça por fim triunfar?

– Nada vai acabar, Russel. Não seja negativo. Eu estarei aqui com você para toda acabar eternidade. E o meu coração sabe a verdade.

Samya abraça o marido enquanto a silhueta de seu rosto contrasta com a luz da lâmpada balançando no teto.

Antes das luzes se apagarem, seguindo-se ao estrondo colossal que fez as paredes do porão acanhado sacudirem, Russel segurou firme na mão da esposa e ainda pôde dizer:

– Talvez não seja possível que o perdão e a justiça cheguem; melhor então aceitar que nem todos terão a chance de alcançá-los.”

Manny Peyton Hodgson, “The Great Tempest”, Ed. Flamboyant, pág 135

Manny Hodgson é um escritor americano nascido na Geórgia. Dedicou-se aos contos e ensaios. É professor na University of Georgia, em Athens. Escreveu vários livros de contos, entre eles “Na Casa de Madeleine” e “Vampiros de Luz”. Em seus contos e crônicas aborda em especial a vida no campo, a simplicidade, as coisas comuns da vida e os ambientes bucólicos e simples da “countryside” americano. É casado com Debbie Harris e tem um filho, Albert.

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