União e Luta

Zeza Parteira

Protegendo e respeitando o momento sagrado do nascimento

 

Hoje fomos assistir “Iron and Wine”, no Teatro Paramount, na esquina da sexta com Congress Avenue, em Austin. A apresentação principal foi de um compositor e cantor local bastante conhecido chamado Sam Beam. Eu adorei a apresentação. O estilo é “folk music”, mas de uma forma que se afasta um pouco da música “western” e se aproxima da “world music”. Lembra, é claro, James Taylor, e talvez por isso o meu coração brega e romântico não pôde deixar de gostar.

Mas não foi essa a questão que me fez relatar o acontecido. Esse show acontece todos os anos em Austin no verão, e serve como uma fonte de arrecadação para a MANA – Midwives Alliance of North America (Aliança das Parteiras Norte Americanas). Os ingressos vendidos vão para os cofres desta instituição que conta com milhares de parteiras espalhadas por México, Canadá e Estados Unidos. Fiquei muito feliz de ver Deja, a filha de Robin Lim (parteira em Bali – Indonésia, que recentemente ganhou o prêmio da CNN “Heroína do Ano” entre as mulheres), apresentar o show de Sam, acompanhada de – nada menos que – Robbie Davis-Floyd. Robbie estava nervosa e excitada com o convite, mas saiu-se muito bem. Foi direta, concisa, simpática e trouxe novas estatísticas sobre os 40 mil partos catalogados por MANA nos últimos anos. Apesar da taxa de cesarianas ter aumentado quase 1% (passou de 4 para 5%) a taxa de transferências diminuiu de 12 para 10%. Os valores mostram de uma forma inequívoca que as CPMs – Certified Professional Midwives (Parteiras de entrada direta, tal como as obstetrizes brasileiras) apresentam um trabalho exemplar e digno de aplausos. No fim de sua breve exposição, Robbie pediu que todas as parteiras na plateia se levantassem e fossem aplaudidas (entre elas uma tímida Zeza) para receberem a justa homenagem de todos os presentes ao show. Estava verdadeiramente muito emocionante. Foi uma bela homenagem às parteiras americanas. Uma pena que ainda não chegamos a este momento. O que mais me emocionou no depoimento de Deja, filha de Robin Lim, é a ideia de que as parteiras são as guardiãs de um segredo, de um momento sagrado, que a tecnocracia (e NÃO a tecnologia) está afastando das mulheres, empobrecendo nossa experiência humana. O trabalho das parteiras é a de proteger as mulheres e seus partos, enaltecendo suas virtudes, garantindo-lhes segurança e honrando seus corpos.

A esposa de Sam Beam teve seus filhos em casa e, por esta razão, eles se tornaram grandes apoiadores da causa. Esta é uma história que nós, humanistas do nascimento, conhecemos muito bem: Depois de nascimentos transformadores os novos pais percebem que precisam dar a sua contribuição para que outros possam ter a mesma experiência positiva que tiveram. Mary Barnett, parteira local, atendeu estes partos, e muitos outros entre as famílias que deixaram o Paramount lotado nesta noite de sábado, e por esta razão recebeu uma ovação emocionada de Sam e de muitos na plateia. Fiquei feliz de ter encontrado nesta viagem duas amigas que são símbolos da atuação da parteria livre nos Estados Unidos: Mary Barnett e Marymikel.

Mas o que me deixa preocupado é o fato que ainda não conseguimos reproduzir no Brasil instituições como a MANA. A ABENFO é a instituição mais parecida com a MANA que temos, mas com muito menos poder e influência. Por outro lado, Maximilian me dizia, há mais de duas décadas, que “as ideias devem ser mais importantes que os ideólogos”. Portanto, mais do que fortalecer egos e pessoas, precisamos incentivar o fortalecimento das INSTITUIÇÕES que lutam pela humanização do nascimento no Brasil. Passamos por uma fase de grandes lutas e dificuldades na consolidação de um ideário de projetos e lutas pela implantação de nossas propostas, e só agora começamos – muito lentamente – a colher os primeiros frutos. A ReHuNa continua sendo o grande carro chefe em nível político e estratégico, mas ainda somos muito desunidos e “feudais”. Nossos grupos, tal como as organizações feudais japonesas lideradas pelos Daimyos, conquistam valor e importância local, mas ainda carecemos de grandes lideranças nacionais, alicerçadas em estruturas e instituições sólidas, que sobrevivam e se sobreponham as personalidades que, momentaneamente, as liderem. A desunião nas propostas atrasa a execução de nossos projetos.

Precisamos de uma organização nacional de doulas, como uma rede, que possa ter uma representação em nível governamental, além de oferecer suporte científico e organizacional, a exemplo do que ocorre com a DONA aqui nos Estados Unidos. Precisamos uma instituição de “parteiras profissionais” (nome que Robbie usa para diferenciá-las das parteiras tradicionais, que já tem seus instrumentos específicos de representação), forte, atuante, arrojada e corajosa, para fortalecer a expressão cultural e científica da parteria urbana. Estas instituições precisam ser criadas e/ou fortalecidas, para que nossos sonhos se tornem realidade.

Precisamos nos unir pois ainda somos poucos e esparsos, e o poder dos que preferem que as coisas fiquem como estão ainda é mais forte do que a nossa vontade de mudar.

Mas não para sempre.

Aqui fica, como presente, um pouco da música de Iron & Wine:

http://www.youtube.com/watch?v=_VHj1_-Hg0I

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