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Humanização de direita

É possível ser a favor da Humanização do Nascimento e ser “fascista”?

Acho que não, mas é melhor só usar a palavra “fascista” com respeito adequado ao seu conceito. Talvez melhor seria perguntar se é possível ser a favor da Humanização e ser de direita.

Existem milhões de matizes que exigem avaliação bem minuciosa. Não se trata de uma postura do “Bem contra o Mal”. A realidade é bem mais complicada do que qualquer limite estabelecido pelas simplificações maniqueístas.

Por exemplo, nos Estados Unidos a situação dos humanistas no espectro político é bem interessante no que diz respeito às suas origens no início dos anos 70, onde seu aparecimento esteve ligado aos movimentos “new age” e “espiritualista”.

Por esta origem atraiu muitas parteiras “espirituais”, ou “spiritual midwives”. Isso lembra alguma coisa? Pois é…

Além disso, essa fonte atraiu parteiras cristãs, que se opõem ao aborto de forma muito intensa. Algumas criaram o mais importante jornal de humanização do nascimento nos EUA. Outra curiosidade: muitas parteiras espirituais, oriundas dos movimentos “beatnik” e “hippie” são brancas, e foram recentemente atacadas pelas parteiras e doulas negras, que se sentem agredidas pelo seu “racismo estrutural”.

Com isso houve uma cisão entre os movimentos de humanização liderados pela MANA e os fortes grupos identitários de parteria negra. Como é bem sabido, os movimentos contrários ao identitarismo nos Estados Unidos se situam à direita do espectro político.

Conheço mulheres que são favoráveis à humanização do nascimento exatamente porque desejam garantir seu direito de parir em casa, um direito individual mais afeito aos propósitos da direita, já dentro do espectro liberal. O mesmo com o desejo de “homeschooling” ou contra a “obrigatoriedade de vacinas”. Nos meus grupos da Internet existe muito desse discurso que se poderia chamar “libertário”. O mais chamativo dessas comunidades é “Separation of Birth and State”.

Sim, humanização e de direita, contra a ação do Estado nos nascimentos.

Assim, é razoável imaginar que pessoas que enxergam o mundo pela perspectiva da liberdade, da autonomia e da livre determinação estejam à direita, contra o reforço do controle estatal e à favor da desregulamentação.

Humanização conservadora. Por quê não??

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Boxe

Boxe

Um fato interessante aconteceu no mundo das lutas, em especial no Boxe, mas que pode produzir uma reflexão interessante sobre parto, e em especial a segurança relacionada à sua condução. A Federação de Boxe deliberou que a partir da próxima Olimpíada não mais serão usados os capacetes especiais acolchoados dos lutadores. A razão? Boxeadores com capacetes tinham o DOBRO (ou mais, me corrijam) de lesões cerebrais quando comparados àqueles que lutavam sem capacete.

Como? Não entendi…

Exato. O uso do capacete estava relacionado com muito mais lesões pois o capacete oferece uma falsa sensação de segurança. Desta forma os lutadores usavam menos técnicas de autoproteção. Isto é: eles levam mais socos e trombadas pois se preocupam menos em proteger a cabeça. Os pequenos traumatismos constantes acabavam por produzir lesões em maior quantidade do que quando o capacete não era usado.

Retirar algo que aparentemente protege gera mais segurança e proteção!!!

Pense agora nos hospitais e o abuso de cesarianas. O hospital parece proteger, mas quando se “retira” o hospital da assistência não aumentam drasticamente os problemas, na medida em que as pessoas passam a não se comportar de forma temerária (ocitocina exógena, confinamento ao leito, analgesia, amniotomias, monitorização eletrônica, etc.). Isso ficou muito claro no “Place of Birth” (Inglaterra, 2012) e suas repercussões no NICE (National Institute of Care Excellence) e no último estudo da MANA (Midwives Alliance of North America).

O resultado é que sem o “capacete institucional” altera-se o comportamento dos atendentes. Mudam os valores, muda a “psicosfera” e modificam-se as condutas. E os resultados são igualmente bons, mas com maior satisfação por parte das mulheres.

Faz sentido para vocês?

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União e Luta

Zeza Parteira
Protegendo e respeitando o momento sagrado do nascimento

Hoje fomos assistir “Iron and Wine”, no Teatro Paramount, na esquina da sexta com Congress Avenue, em Austin. A apresentação principal foi de um compositor e cantor local bastante conhecido chamado Sam Beam. Eu adorei a apresentação. O estilo é “folk music”, mas de uma forma que se afasta um pouco da música “western” e se aproxima da “world music”. Lembra, é claro, James Taylor, e talvez por isso o meu coração brega e romântico não pôde deixar de gostar.

Mas não foi essa a questão que me fez relatar o acontecido. Esse show acontece todos os anos em Austin no verão, e serve como uma fonte de arrecadação para a MANA – Midwives Alliance of North America (Aliança das Parteiras Norte Americanas). Os ingressos vendidos vão para os cofres desta instituição que conta com milhares de parteiras espalhadas por México, Canadá e Estados Unidos. Fiquei muito feliz de ver Deja, a filha de Robin Lim (parteira em Bali – Indonésia, que recentemente ganhou o prêmio da CNN “Heroína do Ano” entre as mulheres), apresentar o show de Sam, acompanhada de – nada menos que – Robbie Davis-Floyd. Robbie estava nervosa e excitada com o convite, mas saiu-se muito bem. Foi direta, concisa, simpática e trouxe novas estatísticas sobre os 40 mil partos catalogados por MANA nos últimos anos. Apesar da taxa de cesarianas ter aumentado quase 1% (passou de 4 para 5%) a taxa de transferências diminuiu de 12 para 10%. Os valores mostram de uma forma inequívoca que as CPMs – Certified Professional Midwives (Parteiras de entrada direta, tal como as obstetrizes brasileiras) apresentam um trabalho exemplar e digno de aplausos. No fim de sua breve exposição, Robbie pediu que todas as parteiras na plateia se levantassem e fossem aplaudidas (entre elas uma tímida Zeza) para receberem a justa homenagem de todos os presentes ao show. Estava verdadeiramente muito emocionante. Foi uma bela homenagem às parteiras americanas. Uma pena que ainda não chegamos a este momento. O que mais me emocionou no depoimento de Deja, filha de Robin Lim, é a ideia de que as parteiras são as guardiãs de um segredo, de um momento sagrado, que a tecnocracia (e NÃO a tecnologia) está afastando das mulheres, empobrecendo nossa experiência humana. O trabalho das parteiras é a de proteger as mulheres e seus partos, enaltecendo suas virtudes, garantindo-lhes segurança e honrando seus corpos.

A esposa de Sam Beam teve seus filhos em casa e, por esta razão, eles se tornaram grandes apoiadores da causa. Esta é uma história que nós, humanistas do nascimento, conhecemos muito bem: Depois de nascimentos transformadores os novos pais percebem que precisam dar a sua contribuição para que outros possam ter a mesma experiência positiva que tiveram. Mary Barnett, parteira local, atendeu estes partos, e muitos outros entre as famílias que deixaram o Paramount lotado nesta noite de sábado, e por esta razão recebeu uma ovação emocionada de Sam e de muitos na plateia. Fiquei feliz de ter encontrado nesta viagem duas amigas que são símbolos da atuação da parteria livre nos Estados Unidos: Mary Barnett e Marymikel.

Mas o que me deixa preocupado é o fato que ainda não conseguimos reproduzir no Brasil instituições como a MANA. A ABENFO é a instituição mais parecida com a MANA que temos, mas com muito menos poder e influência. Por outro lado, Max me dizia, há mais de duas décadas, que “as ideias devem ser mais importantes que os ideólogos”. Portanto, mais do que fortalecer egos e pessoas, precisamos incentivar o fortalecimento das instituições que lutam pela humanização do nascimento no Brasil. Passamos por uma fase de grandes lutas e dificuldades na consolidação de um ideário de projetos e lutas pela implantação de nossas propostas, e só agora começamos – muito lentamente – a colher os primeiros frutos. A ReHuNa continua sendo o grande carro chefe em nível político e estratégico, mas ainda somos muito desunidos e “feudais”. Nossos grupos, tal como as organizações feudais japonesas lideradas pelos Daimyos, conquistam valor e importância local, mas ainda carecemos de grandes lideranças nacionais, alicerçadas em estruturas e instituições sólidas, que sobrevivam e se sobreponham as personalidades que, momentaneamente, as liderem. A desunião nas propostas atrasa a execução de nossos projetos.

Precisamos de uma organização nacional de doulas, como uma rede, que possa ter uma representação em nível governamental, além de oferecer suporte científico e organizacional, a exemplo do que ocorre com a DONA aqui nos Estados Unidos. Precisamos uma instituição de “parteiras profissionais” (nome que Robbie usa para diferenciá-las das parteiras tradicionais, que já tem seus instrumentos específicos de representação), forte, atuante, arrojada e corajosa, para fortalecer a expressão cultural e científica da parteria urbana. Estas instituições precisam ser criadas e/ou fortalecidas, para que nossos sonhos se tornem realidade.

Precisamos nos unir pois ainda somos poucos e esparsos, e o poder dos que preferem que as coisas fiquem como estão ainda é mais forte do que a nossa vontade de mudar.

Mas não para sempre.

Aqui fica, como presente, um pouco da música de Iron & Wine:

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