Sobre as críticas

Consulta médica

Há mais de 15 anos debatendo diariamente a questão do parto inserido no universo da tecnocracia eu percebi que discutir casos particulares de partos ou indicações de cesarianas (a minha cesariana, a cesariana da minha mulher, a cesariana de uma conhecida ou da vizinha) é INÚTIL e desnecessário. Não se trata de acusar uma específica pessoa que foi vítima de uma assistência inadequada, mas fazer uma crítica forte ao modelo, o sistema e o paradigma de atendimento às gestantes. É nisso que precisamos focar. Criticar cesarianas, ou mesmo partos, sem estar na pele de quem teve que tomar as decisões é INJUSTO e CRUEL. Esqueçam os médicos cesaristas; eles são prisioneiros deste sistema e frágeis demais para lutar contra ele. Precisamos focar nas mulheres e no seu empoderamento, para que ELAS mudem o parto na sociedade em que estamos inseridos. Com uma sociedade transformada os profissionais que atendem parto mudarão naturalmente.

Por certo que esta é uma questão dialética. Não seria justo desonerar os médicos de qualquer responsabilidade na mudança do modelo. O contato com a experiência única e transformadora do parto deveria moldar a visão destes profissionais a respeito da natureza especial deste evento. Entretanto, o parto medicamente absorvido, transforma-se em uma mera cirurgia de extirpação fetal. Desta forma, despido de simbolismos, o nascimento se esvazia dos seus conteúdos mais significativos. Eu percebi que a principal função do médico é a pedagogia. Cabe a ele mostrar os caminhos da saúde, ensinar o auto cuidado e fazer com que a paciente descubra dentro de si mesma o sentido subjetivo de gestar e parir. Quando o pré-natal se reduz às medições antropométricas e burocracias ele perdeu sua grandiosidade. Diante de um momento épico e sem precedentes este encontro tão singular entre profissional e cliente nada mais faz do que resumir à mulher a um contêiner fetal, desprovida de transcendência que um nascimento impõe. Pois este empobrecimento típico da cultura tecnocrática ocidental contemporânea é responsabilidade dos profissionais, pois todas as gestantes que conheci perceberam claramente a importância do pré natal como período valioso de aprendizado e crescimento.

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Arquivado em Ativismo, Histórias Pessoais

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