Medicina e Medo

Medicina e Medo

Fiquei sabendo que a Faculdade de Medicina da UFRGS, assim como a de Pelotas, foram reprovadas na avaliação do governo. Acredito que esta reprovação nada tem a ver com insuficiência de notas, mas com o boicote realizado pelos alunos contra a realização da prova. Isso me faz lembrar um incidente acontecido no hospital onde fiz a minha residência, há muitos anos.

Naquela época, em uma universidade de Porto Alegre, foi estipulada uma prova para avaliação dos residentes da GO. Após uma reunião com os residentes de 1º, 2º e 3º anos, a referida prova foi solenemente boicotada pelos mesmos, ainda que houvesse a promessa de que nenhuma nota viria a ser publicada.

Eu entreguei minha prova – neguei-me a boicotar – e fui falar com o professor responsável. Disse a ele que poderia publicar a nota com meu nome em letras garrafais na porta do departamento. Se minha insuficiência existia queria reparti-la com todos os responsáveis: eu mesmo e quem deveria estar me treinando. Nada disso ocorreu, e o assunto morreu por aí. Não houve avaliação da residência médica, pelo menos naquele ano.

Entretanto, sempre fiquei com dúvida sobre as razões pelas quais meus colegas celebraram a ideia de boicotar uma avaliação. A desculpa “oficial” era de que a residência médica, por ser tão “falha” no treinamento que nos oferecia, nao tinha condições morais para nos avaliar. Discordei imediatamente desta ideia. Talvez fosse justo dizer que o sistema não poderia nos “CULPAR”, mas tinha a obrigação de nos avaliar, até para ter elementos para aquilatar as suas próprias falhas no processo de ensino. Nossa atitude, entretanto, refletia mais do que indignação com a falha pedagógica e a escassez de treino. Mesmo sendo justo o descontentamento com a ausência total de professores para nos ensinar a atenção ao parto, coisa que era realizada por residentes mais antigos e contratados desinteressados, nossa ação continha elementos inconscientes e não revelados.

Sim, havia muito mais do que o meramente manifesto nas palavras e atos superficiais. Existia, em verdade, um sentimento de profundo medo com a avaliação que pudesse ser feita sobre o nosso desempenho. Havia o pânico de que nossa verdadeira capacidade fosse desvelada, escancarando os meninos e meninas que se escondiam por debaixo de jalecos brancos, estetoscópios no pescoço, receitas decoradas, protocolos rígidos e infinitas fórmulas dialéticas de dissimular a nossa mortal insegurança. Havia um temor de que a construção arrogante e falsa de nosso saber fosse exteriorizada, mostrando nossos pés de barro.

A negativa dos alunos mais festejados – medalhas de Ouro no quesito “universidade” – em realizar uma prova que demonstraria objetivamente a sua qualidade ou competência segue a mesma linha. Muito mais do que um protesto contra o ensino – que até pode ser verdadeiro, como era a negligência do corpo docente em minha época com relação ao ensino da atenção ao parto – existem elementos mais profundos que podem dar conta da negativa peremptória em realizar a a avaliação.

Medo explica. Só o medo pode nos garantir o elemento essencial para entender. Oferecer aos outros a imagem da nossa incapacidade é sempre um ato heróico. Expor com bravura nossas fragilidades e temores é algo que dificilmente encontramos em meninos recém saídos das fraldas da universidade.

No famoso artigo “Obstetric training as a rite of passage” de Robbie Davis-Floyd existe um parágrafo que explica muito sobre o medo, a tensão constante, a angústia e a “visão em túnel” que o residente desenvolve sobre este tema.

“A maioria de nós entrou para a faculdade de medicina com ideais muito humanitários. Eu sei que cheguei dessa forma. Mas todo o processo de educação médica faz você desumano. Eu vi colegas totalmente devastados quando não sabiam uma resposta A coisa toda pode torná-lo bastante deformado. Eu acho que é aqui que os sentimentos começam, quando você sente que alguém lhe deve alguma coisa, porque você realmente, você sabe, você bloqueou uma boa parte de sua vida. Pessoas perderam namorados e namoradas, noivas e casamentos. Houve algumas tentativas de suicídio. Assim você esquece o resto da sua vida. E então, no momento em que você começa a residência, você termina por não se preocupar com nada além das mais recentes técnicas que você pode dominar e quais os sofisticados testes que você pode executar.”

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