Humanizar é…

 

Parteira Tradicional

 

Existe, inequivocamente, um crescente desconforto dos médicos quando se trata da palavra (ou do tema) humanização. Há alguns dias vi um médico fazer uma defesa apaixonada da medicina, quase às lágrimas, reclamando do uso da palavra humanização. Dizia ele que salvar pessoas, fazer cirurgias, aplicar o tratamento adequado, dar o remédio correto, dedicar-se ao estudo e atender seus pacientes com respeito e carinho era a VERDADEIRA humanização. Infelizmente esta é ainda a reação de muitas pessoas, mas este desconforto se baseia na incapacidade dos profissionais que trabalham com o parto de compreender a essência da humanização do nascimento. Essa dificuldade é notória em especial nos médicos, e muito menos presente nos profissionais das outras áreas (antropólogos, sociólogos, psicólogos, psicanalistas, etc.). O “black spot” da humanização se refere à incapacidade de reconhecer o paciente como SUJEITO, mantendo-se atrelado a uma postura que o considera como um objeto da nossa ação.

A postura que alguns médicos assumem diante dos pacientes muitas vezes me parece com aquela dos escravagistas, e com o mesmo tipo de surpresa honesta diante das queixas. “Como assim desumanos? Nós tiramos estes negros da África, onde estavam passando fome, e lhes demos roupas, comida, casa, um nome, um país e segurança. Como podem estar reclamando? O que mais podem querer?” Outro comportamento que me lembra esta situação é a queixa do marido dos anos 40 quando sua mulher lhe dizia que pretendia deixá-lo: “Mas porquê? Eu trago tudo para dentro de casa, não bato em você e não bebo! O que mais pode querer?“. Jamais passaria pela cabeça dessas pessoas (escravagistas conscientes e maridos) que eles – escravos e mulheres – pudessem desejar algo a mais do que aquilo que lhes era oferecido. Tal fato pode ser entendido porque a relação com tais personagens era objetual. Nunca se perguntava a um negro o quê desejava, o que almejava para sua vida e quais os seus valores. Para uma mulher os critérios eram sempre os masculinos, enquanto ela pudesse servi-lo, mas sem questionar suas aspirações e desejos.

Os pacientes são igualmente jogados neste lugar: patologias que precisam ser curadas, tumores a serem extirpados, bebês conduzidos à vida pela melhor via e remédios para todos males, mas através de uma visão que não leva em consideração o sujeito doente ou, no caso do parto, a mulher que está em sua travessia para o universo da maternidade.

Qualquer preocupação a respeito dos limites da autonomia de uma mulher é respeitável e compreensível. Entretanto, a tendência mundial é sempre permitir que as pessoas possam fazer escolhas baseadas em seus valores, sua visão de mundo e seus desejos. Essas histórias de “mulher que não quis deixar o médico fazer X ou Y“, questionando a autoridade médica, existem por aí, mas normalmente são um pouco diferentes do que se propaga. De qualquer maneira a existência de “radicais” nos deveria fazer pensar no tipo de atendimento que oferecemos em que uma mulher prefere parir SEM assistência do que com aquela que nós oferecemos. Um exemplo típico eu testemunhei em uma recente visita à Bulgária, quando conheci seu sistema de atenção ao parto. O movimento de humanização de lá precisa lidar com um número preocupante de mulheres que preferem parir escondidas com o auxílio de amigas do que enfrentar o sistema público (o único existente) de atenção ao parto, que obedece o modelo autoritário, punitivo e violento da medicina comunista. Mais do que criticá-las (e podemos fazer isso, sem problema) é preciso saber porque elas fogem da assistência oferecida. Assim sendo, nunca é demais repetir: se nós tivéssemos Casas de Parto e hospitais que respeitassem a autonomia e a autodeterminação das mulheres o número de gestantes optando por parto domiciliar cairia imediatamente, talvez para menos da metade, pois que boa parte delas quer um parto digno e sem violência, o que é difícil de encontrar na atualidade.

O caso Adelir traduz esta inabilidade nas suas últimas consequências. As doutoras que a atenderam até hoje acreditam piamente que fizeram o que era melhor, mas jamais pensaram na possibilidade de garantir à mulher o poder de decidir sobre como seu filho viria a nascer. Mesmo com todos os papéis e documentos assinados à gestante jamais foi oferecido o direito de decidir sobre seu parto.

Humanizar o nascimento é restituir o protagonismo à mulher. Sem isso teremos apenas tutela, a mesma que oferecemos às crianças e aos incapazes“.

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Arquivado em Ativismo, Parto

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